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Males Psicossociais do Neoliberalismo

10 Abril Escrito por  Pedro Pinho Lido 609 vezes

Pedropinho100Há vários aspectos do poder da banca (sistema financeiro internacional),

o sistema executante do neoliberalismo no mundo contemporâneo, que merecem análise.

As questões econômicas são as mais evidentes pois acabam sentidas no bolso de todos nós. Qualquer estatística séria mostrará que o número de empregos e da renda oriunda dos salários é decrescente em todo mundo. O World Inequality Lab (http://wid.world/world-inequality-lab/) mostra que a classe média tem sofrido, desde 1980, com redução de sua participação na renda em nível global, em decorrência das políticas econômicas neoliberais - reformas trabalhistas, previdenciárias, assistenciais etc.

No Brasil, por causa do teto de gastos, com a PEC 55 (Emenda Constitucional 95/2016), segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a saúde pode perder até R$ 743 bilhões e a Educação pode ter perdas de até R$ 25,5 bilhões por ano, segundo estudo técnico da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados.

Também é relevante a desinformação que a banca produz. Para que pessoas, mesmo as melhor informadas, tenham dúvidas ou fiquem confusas diante de dados conflitantes ou das descaradas mentiras enunciadas, com pompa e seriedade, pelos órgãos de comunicação de massa, em especial pelas redes de televisão.

E já conhecido, com dados e fatos facilmente confirmáveis, que a banca, operadora do neoliberalismo, usa a corrupção para atingir seus propósitos.

Neste artigo, que terá o suporte teórico do filósofo alemão Axel Honneth (Reificação, Editora Unesp, SP, 2018), do psicanalista Christopher Bollas (A Sombra do Objeto, Escuta, SP, 2018), do professor de bioética da Universidade de Lancaster, Stephen Wilkinson (Bodies for Sale, Routledge, Londres, 2003), e do maior sociólogo brasileiro vivo, Jessé Souza, discorrerei sobre alguns dos males das imposições neoliberais no psiquismo individual e no psicossocial coletivo.

Quando tratamos de cidadania é imediata a oposição à escravidão. Está claramente exposta em livros e artigos de brasileiros notáveis como José Bonifácio de Andrada e Silva, Joaquim Nabuco, Benjamin Constant e o poeta Castro Alves.

A escravidão retira o humano de qualquer pessoa, transforma-a em coisa, em objeto. É por esta razão que Andrada e Silva, por exemplo, propugnava o fim da escravidão, pois sob qualquer ponto de vista, do meramente econômico ao da ativa participação política, apenas um homem livre, um cidadão, poderia contribuir, colaborar na formação do País que se libertava.

No capítulo "O Primado do Reconhecimento", Honneth, na obra citada, expõe a tese que "a especificidade do comportamento humano reside na atitude comunicativa que acompanha a adoção da perspectiva do outro" e que "carrega traços de uma preocupação existencial".

Não é por outra razão que, ao decompor as ações para construção da cidadania, objetivando sua operacionalização pelos Estados Nacionais, eu as denomino: existência, consciência e vocalização. "Existência" é a garantia da vida e "Consciência" são os saberes da convivencialidade, o entender-se e ao próximo, que vai além da simples instrução cognitiva, dos letramentos. Há uma convergência entre pensadores tão diferentes quanto Lukács, Heidegger, Dewey, Adorno que, na ontogênese, na cronologia dos fatos da vida humana, o reconhecimento precede o conhecimento. Daí a importância das creches nas instituições da "Consciência", na construção da cidadania.

Voltemos a esta agressão psicossocial da banca ao ser humano.

Ao reduzir todas as relações à troca, o neoliberalismo, mais do que financeirizar a vida, ele aliena o trabalho, instrumentaliza a pessoa e tira o amor, a imaterial satisfação pelo outro ou por um produto - bem ou mal feito -, pela obra mais simples, porém cheia de conteúdo, de um lavrador, um artesão, de um artista. Uma patologia que filósofos, cientistas sociais, psicólogos vão apontar nas análises sobre os déficits de democracia, de justiça, nas doentias agressões "contra tudo isso que está aí".

As pessoas não se colocam de maneira igual diante da "reificação" - serem tomadas como coisa, "coisificação", a nova escravidão - e, assim, assumem as posturas que cientistas do ser humano, individual ou coletivo, buscam identificar, analisar e classificar.

Não vejo, como muitos marxistas, a reificação na luta de classe, porque esta instrumentalização do ser humano invade todas as categorias sociais. Uma pessoa que diria emblemática do neoliberalismo, o Executivo Principal dos trilionários fundos de investimentos apátridas, o CEO do BlackRock, por exemplo, é tão comercializável quanto um operário de salário mínimo. Mesmo sem considerar as proporcionalidades das ofertas e demandas para ambas funções.

Uma questão que coloco é a consciência de quem se tornou "coisa" - em latim res, rei, de onde reificação - no ambiente em que há um valor de troca e, muito pior, quando se percebe a inutilidade ou imprestabilidade do que tem a ser trocado, que pode eliminar todo interesse negocial.

Há ampla literatura, inclusive romances, contos, vocábulos que apresentam o tratamento de pessoas como seres inanimados (sem alma, no latim: anima), sem vestígio de sentimentos interiores e de outros que são incapazes de adotar a perspectiva humana. São coisas e só veem coisas. Uma patologia individual e social.

Honneth, analisando a reificação em Georg Lukács, discorre sobre uma forma de automanipulação emocional: "o jornalismo como uma prostituição das vivências e convicções, vendo nisso o último degrau da reificação social".

Na instrumentalização do outro, o neoliberalismo exige que o comportamento humano atente contra os princípios morais e éticos, contra o julgamento pelas qualidades, nivelando todos - agentes e pacientes - como mortos, insensíveis, coisas.

E ao se propagar, se lançar politicamente em defesa da família, o candidato, que frequenta cultos religiosos e que é neoliberal, gera em seus seguidores e em si próprio uma latente esquizofrenia: como tratar como mercadoria a imagem de Deus? um irmão em Cristo?

Chega um momento em que a pessoa se considera apenas como um recurso e não participa do mundo, não tem projetos, é neutra e assume a atitude de indiferença, de simples constatação do que não pode alterar. Morre o ser humano.

E neste caminho, o neoliberalismo triunfa em seu objetivo de concentração da riqueza.

O mundo povoado por zumbis é um mundo da morte, de pessoas que se sentem desnecessárias, que são exterminadas ou se exterminam. O que dirá então dos Estados Nacionais. É o mundo ideal do neoliberal: poucas pessoas disputando a enorme riqueza.

Uma ficção científica que está sendo vendida a todos com as PEC do Fim do Mundo, com a Reforma da Previdência, com as Desvinculações Orçamentárias e como um irônico "combate à corrupção", como se não fosse a banca o grande corruptor, como não fossem os bancos os verdadeiros assaltantes, legalmente protegidos, das economias públicas e privadas.

Jason Tebbe ("Puritanos Vitorianos no Século 21", in Jacobin Magazine, 31/10/2016, tradução de Vila Mandinga) escreve: "A burguesia do século 19 usou a moralidade para afirmar a própria dominação de classe – precisamente o que as elites fazem até hoje".

A banca, mais uma vez, manipula palavras, conceitos, altera semânticas para levar-nos, a todos, para o precipício onde nos lançará coisificados à morte.

Para não concluir o artigo com esta real e indesejável possibilidade, vamos garantir que há um mundo cooperativo, que os Estados Nacionais podem sobreviver, conquistar sua soberania e organizar a construção da cidadania.

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