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Causas da revolta popular na França

14 Dezembro Escrito por  Fernando Alcoforado Lido 1102 vezes

face-homem Movimento dos “coletes amarelos” está movido por um forte sentimento de injustiça social

O jornal Le Monde de 8 de dezembro próximo passado apresenta a manchete seguinte: França se entrincheira diante de mais um dia de protestos com centenas de presos. Paris fecha lojas, museus e monumentos por medo de novos atos de vandalismo. O texto do jornal informa que Paris, a Cidade Luz, a capital dos museus, dos teatros, a urbe das grandes avenidas e bulevares, se tornou neste sábado uma cidade fantasma, fortificada por sacos de areia e segurança máxima e coberta de gás lacrimogêneo em meio a um novo dia de violência durante outra manifestação dos “coletes amarelos”. Sobre os coletes amarelos. É importante observar que, na França, é obrigatório o uso desses coletes pelos motoristas por razões de segurança.

Este foi o quarto ato de protesto popular que se dirigiu rumo à capital francesa, símbolo do poder central. Durante toda a sexta-feira passada, as lojas de algumas avenidas na “região de maior risco” — praticamente todo o centro, desde o Arco do Triunfo até a praça da República, ponto de chegada tradicional das manifestações— cobriram suas vitrines com pranchas de madeira ou até de metal. Não só se protegeram lojas de luxo e bancos, alvo preferido dos distúrbios do sábado passado, mas também supermercados e cafés. O transporte público foi praticamente interrompido. A maioria dos museus e monumentos, da torre Eiffel à catedral de Notre Dame até o Panteão, também permaneceram fechados de forma preventiva e muitos teatros cancelaram também seus espetáculos. Os funcionários municipais também trabalharam muito. Por ordem da prefeita Anne Hidalgo, até a manhã de sábado foi preciso retirar mais de 2.000 itens de mobiliário urbano suscetíveis de serem usados como “armas” pelos revoltosos.

Apesar dos pedidos de calma por parte do Governo, de deputados, de autoridades locais e até de sindicatos, a tensão é enorme e as forças de segurança receberam ordem de apresentar-se em massa. Em torno de 8.000 policiais e guardas em Paris, 89.000 em toda a França, foram mobilizados para evitar que o “Ato IV”, como foi chamado pelos manifestantes o último sábado de protestos, volte a gerar cenas de caos, de carros em chamas e barricadas incendiárias, monumentos vandalizados como o Arco do Triunfo no sábado anterior. Cerca de doze veículos blindados da guarda municipal foram deslocados desde a madrugada em Paris, um gesto inédito que demonstra a seriedade com que a situação é vista pelo governo Macron atacado pela revolta da população, que não foi aplacada nem pelo anúncio da suspensão até o final de 2019 da taxa sobre o combustível que foi o que detonou o movimento. Mais de 1.000 manifestantes foram detidos, sendo 651 em Paris. Mais de 50 pessoas ficaram feridas no ato.

Segundo Brice Teinturier, vice-presidente do Instituto de Pesquisas da Ipsos, o movimento dos “coletes amarelos” está movido por um forte sentimento de injustiça social (Ver o website https://www.lemonde.fr/politique/article/2018/12/08/les-giletsjaunes-se-sont-sentis-ignores_5394523_823448.html#xtor=AL-32280270).

Brice Teinturier afirma que o movimento dos "coletes amarelos" faz parte de outra lógica que não é totalmente redutível a nenhuma categoria política ou social. Pelo contrário, muitas categorias, várias e até a priori contraditórias, podem ser identificadas com os "coletes amarelos". Esta é a sua força, seu poder de apoio na opinião e sua novidade. A isto se acrescenta uma segunda singularidade: se eles são obviamente unificadores e concretos, o protesto contra o aumento do preço do diesel ou reivindicações sobre o poder de compra são apenas a parte superficial da atual revolta. Isso põe em movimento um componente mais imaterial, um mito mobilizador imaginário e muito mais profundo. É por isso que o único cancelamento das taxas de combustível não será suficiente para acalmar este movimento, se não houver resposta à parte submersa do iceberg.

Outra observação de Brice Teinturier é a de que os "coletes amarelos" recusam um mundo que consideram profundamente injusto. Teinturier afirma que este sentimento colossal de injustiça e desprezo é a rejeição a um mundo moldado por desigualdades sociais, salariais ou estatutárias, numa sociedade cada vez mais dividida entre "protegido" e "exposto" - em risco em geral, desemprego, precariedade ou para a globalização. Mas eles também rejeitam uma visão de mundo friamente racional e desincorporada, onde tudo é baseado na eficiência, eficácia, produtividade, como se um país ou uma vida pudesse ser resumida em uma planilha do Excel. Eles cultivam a expectativa de fraternidade, de convivência e uma exigência: o humano primeiro. E não importa a racionalidade considerada tecnocrática.

Brice Teinturier afirma que os "coletes amarelos" recusam a bipolarização do mercado de trabalho entre empregos de muito alto valor agregado e outros cada vez mais precários e mal remunerados. Eles não precisavam ler o último livro de Patrick Artus, E se os funcionários se revoltassem? (Fayard, 176 páginas), para entender que o modelo de destruição criadora de emprego teorizado pelo economista Joseph Schumpeter não funciona mais, por falta de ganhos poderosos de produtividade em uma economia de serviços para a pessoa, onde empregos intermediários tornam-se escassos. Eles, os “coletes amarelos”, são, assim, prisioneiros dessa bipolarização, sem esperança de poder, eles mesmos ou seus filhos, escapar desse desmantelamento social. Não é um sentimento, mas uma realidade profunda que eles experimentam diariamente.

Teinturier apresenta as causas determinantes do desencadeamento da revolta dos "coletes amarelos". Ele afirma que a revolta aconteceu porque os “coletes amarelos” não apenas se sentiam ignorados em uma sociedade injusta, mas cercados. Teinturier lembra um provérbio chinês citado por Mao: "Você nunca deve cercar completamente o tigre, senão você o irrita, e ele o ataca". Na crise atual, isso causou o ponto de ruptura: o aumento dos impostos sobre o diesel que afetou a maioria da população, tanto em termos de poder de compra quanto de mobilidade. Isso os fez passar do desengajamento, repulsa ou retraimento à revolta. Apesar da tentativa fracassada de apaziguamento por parte do governo Macron, este objetivo não foi alcançado porque a liderança do movimento é difusa. O principal problema continua sendo a morfologia de um movimento que carece de líderes claros e incontestes e que não respondem a nenhuma das características tradicionais dos protestos sociais. Macron, o principal alvo da ira da população, guarda um silêncio que não foi quebrado desde sua volta da Argentina na reunião do G20.

A injustiça sentida e a bipolarização do mercado de trabalho fazem com que o presidente Macron seja colocado no centro da crise. Políticas neoliberais por ele adotadas ativaram a injustiça percebida tais como a reforma do código de trabalho, o aumento dos impostos, etc. Mas também por um método de tomada de decisão julgado muito tecnocrático, racional, frio e resultante de um diagnóstico que é objetivo e que não é objeto de debate. Finalmente, por uma forma de intelectualismo, nos conceitos e palavras utilizados, que acentuaram a distância e alimentaram o processo de arrogância.

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