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Coutinho: "Petrobrás integrada é fundamental para a defesa do interesse nacional" Featured

22 Fevereiro Lido 1352 vezes

“Petróleo não é brincadeira de criança... Hoje a existência da Petrobrás, da forma que conhecemos, está em jogo.”


Na entrevista que concedeu ao blogueiro e advogado internacionalista Romulus Maya, editor do programa Duplo Expresso, ainda antes da interrupção da greve dos petroleiros, o presidente da AEPET, Felipe Coutinho, destacou a importância do movimento, que estaria acima do interesse dos trabalhadores envolvidos, e voltou a denunciar o plano de privatização fatiada da Petrobrás, em curso desde 2015, ainda na gestão de Aldemir Bendine, quando começou a se consolidar que define como “mito da Petrobrás quebrada”.

Para Coutinho, o desafio de preservar a empresa e revelar a verdade sobre ela é cada vez mais urgente. Caso não seja superado tal desafio, as consequências recairão sobre o povo brasileiro e o desenvolvimento do país, como já estamos observando.

“O petróleo deve estar a serviço dos interesses nacionais e para tanto é fundamental que a Petrobrás exista como empresa estatal, atuando de forma integrada, nacionalmente e verticalmente. É isso que está em jogo desde 2015, com o primeiro plano de privatização, alicerçado no mito da Petrobrás quebrada, que é o mito fundador dessa fase entreguista que estamos vivendo”, resumiu o presidente da AEPET.

Clique aqui para assistir a entrevista ou leia a seguir a transcrição da matéria.


Romulus Maya - O que é e como atua a Aepet?

Felipe Coutinho – A AEPET é a Associação de Engenheiros da Petrobrás, tem quase 60 anos e possui mais de 6 mil associados. Não é um sindicato. Seu principal papel é a defesa da empresa e de seu corpo técnico. Defender a empresa dos interesses antinacionais, imperialistas e privados que a cercam desde sempre, para poderem se apoderar de nossas riquezas, soberania e independência. A existência de uma Petrobrás estatal, trabalhando em favor do desenvolvimento do Brasil, é o interesse da maioria dos brasileiros. A AEPET defende a apropriação e distribuição da renda do petróleo em favor dos brasileiros e de seu desenvolvimento humano.

Você afirma que a Aepet é uma “fábrica de ideias” em oposição a organismos que estão a serviço dos interesses antinacionais. Como é travada essa luta? Qual o papel da Associação na greve dos petroleiros?

A batalha das ideias é fundamental para que tenhamos perspectiva de soberania e desenvolvimento. É preciso mostrar a verdade, mesmo numa batalha assimétrica, e esta é nossa tarefa. A Petrobrás é historicamente a maior vítima de falácias e mentiras da história do braisl. Existe uma construção da ignorância sobre a Petrobrás.

Com relação à greve, nosso papel não é de liderança, mas de reflexão, sobre seus propósitos, a serviço de que ela deve estar. Sem de forma nenhuma tentar interferir na atuação dos sindicatos, que têm suas próprias responsabilidades.

A sobrevivência da empresa aparentemente não está na perspectiva dos sindicatos, que apresentam uma pauta meramente laboral. Esses sindicatos, por sua vez, são ameaçados com a cobrança de indenizações milionárias, como fizeram com os caminhoneiros. Qual o poder real dos juízes para fazerem tais ameaças? Dada a frustração por episódios anteriores, acredita que a greve irá conseguir ao menos desacelerar o processo de desmonte do sistema Petrobrás?

Ainda não temos elementos para definir. Para onde a greve vai dependerá de condições objetivas e subjetivas. O que está em jogo é a existência da Petrobrás como estatal a serviço do desenvolvimento brasileiro. A administração atual visa à privatização. Mas como isso é impossível de forma integral, estão vendendo os ativos aos poucos, de forma fatiada. A empresa, que é integrada verticalmente, atuando desde a exploração e produção do petróleo até o refino, passando pelo transporte e de depois a distribuição. É integrada também nacionalmente, pois atua em todo o território. A diretoria atual deseja que a empresa deixe de ser integrada, se concentrando na exploração e produção. Querem vender metade da capacidade de refino, oito de treze refinarias. Também deixará de ser integrada nacionalmente, concentrando a atuação no Sudeste. Este é o primeiro passo para a privatização. Geri-la como empresa privada já seria um absurdo, mas querem realizar o sonho de quem deseja privatizá-la .

As pessoas em geral enxergam a greve como enfrentamento ao processo de destruição da empresa ou apenas uma questão dos trabalhadores?

A pauta está melhor construída, mais rica e mais alinhada com a perspectiva da empresa do que em paralisações anteriores. Afinal, as demissões são consequência da venda de ativos ou da simples interrupção de atividades. As demissões estão na pauta e é importante que estejam. Mas também a política de preços está sendo colocada. É essencial. É preciso demonstrar para a sociedade que a política de preços é antinacional, antidesenvolvimento. Atende aos interesses estrangeiros, refinarias e produtores de etanol americanos estão exportando cada vez mais para o Brasil, inclusive a Shell que atua no país. A Petrobrás, por sinal, não se beneficia da política de preços. Ao contrário, perde até 30% do mercado, fica com as refinarias ociosas.

Há também outros aspectos, como a retomada dos investimentos, a política de conteúdo local. Mas é preciso buscar apoio da sociedade. Os petroleiros sozinhos não têm perspectiva de vitória. É necessário apresentarmos nossa solidariedade à maioria das pessoas. A Petrobrás deve estar a serviço do Brasil, do desenvolvimento e da maioria das pessoas.

Já pensou em se candidatar a algum cargo político?
Não. Minha motivação para me aproximar da AEPET foi conseguir trabalhar e me desenvolver como engenheiro na Petrobrás. Vale lembrar que outra missão da AEPET é defender o corpo técnico, defender que haja condições para o desenvolvimento profissional da melhor forma possível, visando ao crescimento da empresa e o desenvolvimento nacional. Enfrentamos muitos interesses privados.

Muitas vezes o corpo técnico forte da empresa é um entrave a esses interesses privados. Atuo na AEPET há alguns anos e agora estou nessa tarefa, de ser presidente. A defesa da Petrobrás se tornou urgente desde 2015, já que o maior plano de privatização da empresa foi apresentado no segundo governo Dilma, sob a presidência de Aldemir Bendine, tendo Ivan Monteiro como diretor financeiro. Naquele momento começou o desafio de preservar a empresa e revelar a verdade sobre ela. Sob o mito da Petrobrás quebrada foi se desenvolvendo toda uma narrativa entreguista.

A privatização das malhas de gasoduto, especialmente a NTS, mas também da TAG, a venda desses ativos se deu de forma altamente questionável...

É preciso que haja uma auditoria. São ativos rentáveis, estratégicos e acima de tudo não envolvem nenhum risco. A Petrobrás tinha receita líquida e certa com essas subsidiárias, independente do preço do petróleo ou da taxa de câmbio. A construção de uma malha de gasodutos é equivalente ao desenvolvimento de um mercado associado ao desenvolvimento dos consumidores. É preciso desenvolver consumidores, substituir o óleo combustível pelo gás natural, investir nos consumidores para que sejam aptos a consumir esse gás natural, a partir da infraestrutura que foi desenvolvida. São ativos de valor altíssimo, de muitos anos, valor que está associado à existência de um mercado. Se não se consegue escoar o gás natural, se há dificuldade contratual ou disputa com outros produtores, que também vão tentar transportar o seu gás nessa mesma infraestrutura, coloca-se em risco a produção do próprio gás e também o petróleo. Um risco enorme para a Companhia.

A chamada “queima zero” do gás, que exige sua reinjeção, teve mesmo o objetivo de atrasar desenvolvimento do pré-sal?

Reinjetar muito gás pode não ser bom do ponto de vista dos reservatórios, pode prejudicar a recuperação e a produtividade. Existe uma reinjeção ótima, feita de forma responsável, que favorece o desenvolvimento do país sem prejudicar a recuperação e a produtividade. Mas a recuperação é muito custosa. Buscar o máximo retorno no curto prazo cria problema para o gás, que exige investimento muito alto. A análise do investimento deve considerar uma visão de mais longo prazo e aproveitamento melhor possível de nossas reservas, não para exportação do petróleo cru.

O ex-senador Cristóvão Buarque, por exemplo, avalia que o petróleo irá perder valor e deve ser exportado rapidamente. O que acha desse raciocínio?

A narrativa entreguista vai mudando ao longo do tempo. Se antes do pré-sal se dizia que ele não existia, hoje afirmam que sua exploração seria inviável. Na medida em que a realidade vai se impondo, e a produção no pré-sal já representa mais de 60% do total, fica difícil negar que ele existe. Aí dizem que o petróleo é um mico, que será superado por novas tecnologias, perderá valor e precisamos produzir o mais rápido possível, inclusive através de multinacionais. Esta é a nova narrativa com o mesmo objetivo: entrega do patrimônio brasileiro. Petróleo deve estar a serviço dos interesses nacionais e para tanto é fundamental que a Petrobras permaneça estatal, atuando de forma integrada, nacional e verticalmente. É isso que está em jogo desde 2015, com o primeiro plano de privatização, alicerçado no mito da Petrobrás quebrada, que é o mito fundador dessa fase entreguista que estamos vivendo.

A greve de 1995 foi reprimida por FHC, que chamou o exército para intervir. Há quem compare o que Margareth Thatcher fez com os mineiros quando era primeira-ministra da Inglaterra. Ela conseguiu desindustrializar o país. Sua prioridade zero era quebrar os sindicatos. FHC lançou a ideia da Petrobrax e de desintegrar a empresa. Seu acordo com o FMI incluía da Petrobras e BB na lista das privatizações. Felizmente não deu tempo. Você acha que há paralelo entre hoje e o movimento de 1995?

No mínimo é tão importante quanto, em termos de questões objetivas, do que está em jogo. Agora, quanto à questão subjetiva, da capacidade de organização, da capacidade das lideranças envolvidas, da consciência das pessoas, fica mais difícil fazer paralelo. Tudo está se desenvolvendo agora. Mas o paralelo é muito interessante, realmente o papel de FHC em comparação com Thatcher é razoável, como também o papel que depois deve Tony Blair, que consolidou todas as medidas de privatização, não recuperou a presença do estado na economia. Na verdade jogou a pá de cal. Há um paralelo com o papel de Lula, que também não recuperou a Vale ou o sistema Telebrás. Hoje é praticamente impossível reaver esse patrimônio público. Lula e o PT escolheram não enfrentar o sistema financeiro internacional, “respeitando os contratos”. Realmente tiveram papel histórico comparável ao de Tony Blair.

O Brasil não poderia aproveitar o chamado “colchão” das reservas internacionais para recomprar ações da Petrobrás vendidas em Nova Iorque para acabar com a ingerência dos EUA e sua jurisdição?

Certamente foi oportunidade perdida (por Lula e o PT). Houve consequências lamentáveis devido à exposição da Petrobras à jurisdição americana. A Petrobrás aceitou pagar multas de bilhões de dólares, submetendo-se a uma série de ingerências administrativas, abrindo informações, o que tornou a empresa altamente vulnerável a países estrangeiros, justamente para firmar tais acordos. O país se viu submetido a leis estrangeiras e às interpretações dessas leis feitas por júri formado por estrangeiros. Uma vulnerabilidade imensa para uma empresa que tem o caráter estratégico da Petrobrás. WikiLeaks mostrou que a empresa foi espionada durante anos. Petróleo não é brincadeira de criança. Descobrir uma reserva como o pré-sal e ficar divulgando que tirou o bilhete premiado acabou chamando os corsários para nos pilharem.

Há esperança de vitória com eessa assimetria de forças? É possível impedir a destruição da Petrobrás?

Numa avaliação racional, não podemos ser otimistas. Há realmente uma grande assimetria. Mas o que fazemos ou deixamos de fazer muitas vezes não está associado a essa análise. Minhas atitudes não poderiam ser diferentes. Não tenho ilusão quanto às limitações, mas não deixarei de dar o melhor da minha capacidade e dedicação para escolher um caminho diferente. Espero estar à altura de meu tempo.

Mensagem final

A defesa da Petrobrás interessa a todos nós brasileiros. Se perdemos a Petrobrás integrada, verticalmente e nacionalmente, perdemos uma oportunidade de desenvolvimento do país. Não existe desenvolvimento humano sem consumo per catpa de energia alto; não existe crescimento econômico sem perspectiva de aumento do consumo de energia. Sem a Petrobrás, perdemos a perspectiva de ter abastecimento com energia mais barata, investimento e desenvolvimento tecnológico, conteúdo local mais alto possível, apropriação e distribuição da renda petroleira. Os combustíveis fósseis continuam representando mais de 80% da matriz energética mundial. Isso não vai mudar nos próximos 40 anos. Então, não caiam nas mentiras, nas falácias que visam à entrega dos patrimônio nacional.

Vamos defender a Petrobras, vamos defender o Brasil!

Clique aqui para assistir a entrevista

Última modificação em Sábado, 22 Fevereiro 2020 19:12
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