Imprimir esta pg
0
0
0
s2sdefault

Costa do Nordeste e do Norte tem promessas de novos recursos de óleo e gás, afirma geólogo

Publicado em 10/01/2022 Lido 1142 vezes

Luciano Chagas: "O Brasil de hoje se comporta como herdeiro que esbanja a fortuna que o pai acumulou"

O litoral do Sudeste brasileiro concentra os nossos principais ativos de exploração e produção de óleo e gás, mas a generosidade da natureza com o país também reservou muitas riquezas em outros pontos da nossa costa. É o que avalia o geólogo Luciano Seixas, nosso convidado de hoje (10) na série especial Perspectivas 2022. Ele vê como "promessas atraentes" as áreas de óleo e gás no Nordeste e na Margem Equatorial do país. Para ele, essas são regiões sedutoras e ainda pouco conhecidas. Mesmo assim, estudos sísmicos já apontam para o potencial dessas regiões. Seixas comemora também o retorno de investimentos da Petrobrás para delimitar completamente os recursos e descobertas de seu portfólio. "A descoberta de Aram, por exemplo, segundo o que lembro da sísmica quando estudei a área, acrescentará volumes significativos, assim vaticino", disse. Vejamos então quais são as suas opiniões e perspectivas para este ano:

Como foi o ano de 2021 para o senhor e o setor de óleo e gás do país?
No setor de óleo e gás do Brasil, alguns dos desinvestimentos da Petrobrás são absolutamente irresponsáveis e outros necessários. Na área de refino e dutos, o CADE incentiva as vendas para criar concorrência – via quebra de monopólio estatal -, com a consequente diminuição de preços, conforme preconiza o receituário ultraliberal. Em outros setores onde isso foi feito, por exemplo, na Bahia, a distribuidora de energia Coelba é tão monopolista quanto a Embasa, estatal da água. Desafio quem aponte que água é cara e a energia elétrica barata. Ambas são caras, evidenciando que o discurso é falacioso. Foi criado agora o monopólio privado de refino, com a venda da Refinaria Landulpho Alves (RLAM), na Bahia, em 2021.

Em um futuro próximo, a Petrobrás estará completamente ausente no Nordeste, Norte e SulOs desinvestimentos juntos com o PPI (preço de paridade de importação) tornam as refinarias brasileiras ociosas. Isso porque os preços de paridade de importação são mais caros que os preços internacionais, já que neste se adicionam os custos de cabotagem e internação, tornando igual o preço do petróleo brasileiro ao do Oriente Médio, da China, dos EUA, etc.

Poucos sabem que no Brasil há mais de 400 importadores de petróleo. Mas, segundo o governo, o aumento de preços é culpa exclusiva da Petrobrás, tornando a empresa em vilã exclusiva para a população, alimentando o ódio previamente e planejadamente criado contra a Petrobrás, que só beneficiou os brasileiros. Privatizar é a meta! No mundo real e brasileiro, sobrou para nós pagarmos energia e combustíveis caros, propagados para toda a economia sem que medidas mitigadoras, além das emergenciais, sejam minimamente compreendidas por nós, meros cidadãos.

Na área petrolífera os sinais são confusos. É certo que todo o pré-sal restrito a Campos, Santos e Espírito Santo é um ativo de primeira classe, onde devem ser focados e alocados os maiores investimentos. Também é mui salutar que a Petrobrás, como anunciou recentemente e positivamente, retorne a fazer maiores investimentos capazes de delimitar completamente os recursos e descobertas, transformando-as em reservas. A descoberta de Aram, por exemplo, segundo o que lembro da sísmica quando estudei a área, acrescentará volumes significativos, assim vaticino. Outras províncias além do polígono do pré-sal parecem promissoras também.

Outro fato novo e positivo é o retorno aos investimentos no pós-sal, a exemplo dos existentes em Sergipe e na distante Suriname, este último em pleno desenvolvimento. No Brasil, os investimentos em Sergipe foram adiados pela nefasta política do MME e da Petrobrás adotada pelos últimos dirigentes, de viés absolutamente financista e especulativa, que priorizaram diminuir a alavancagem da dívida da Petrobrás, paga com a produção oriunda de investimentos feitos há muito, no passado, e sem quaisquer aportes governamentais. O anúncio do retorno a maiores investimentos em todas as bacias de pré e pós-sal, que se propaga com boas perspectivas desde a bacia de Santos, Campos e Espírito Santo, é mui promissor.

Promessas atraentes mesmo residem na costa leste, no mar, desde a bacia de Jequitinhonha, seguindo para Camamu-Almada e Jacuípe, na Bahia, e também propagando além de Sergipe (já descobertos e infelizmente não delimitados, como em Suriname) indo para a costa nordeste e adiante, até a foz do Rio Amazonas. É uma província absolutamente sedutora e pouco conhecida, mas muito bem delineada por sísmica com bons estudos dos seus potenciais já realizados com enorme maestria pelos técnicos da Petrobrás. Esses estudos contaram muito pouco com as petroleiras congêneres da Petrobrás aqui presentes, que preferem investir na fase após, já com os riscos exploratórios mitigados. Curiosamente, isso ocorre apenas no nosso Brasil varonil. Nas Guianas, é inconteste o que afirmo e parece que gostamos de investir para outrem usufruir. E todas as áreas brasileiras já foram ofertadas em leilões.

Enfim, o declínio nos investimentos para se diminuir a alavancagem e depois para pagar dividendos, mesmo sem lucro, é consonante com as práxis do mercado de capital especulativo, o dono de todas as petroleiras não estatais, que curiosamente deram lucros menores que as estatais russas e chinesas. É só olhar os números, mesmo excluindo os valores positivos e substantivos da Aramco. Também a Petrobrás quebrada e incompetente nunca usou um centavo do governo para reduzir a dívida. Basta olhar os números. Os desinvestimentos pouco contribuíram, em percentual, para a redução da dívida, numa lógica estranha de recuperação econômica sem aporte de capital, mas em perfeita sintonia com o discurso dos desinvestimentos e da privatização. É só enxergar quem está comprando as empresas. Enquanto isso, as encomendas dos equipamentos em empresas estrangeiras e a redução nos investimentos tornaram pior a situação econômica do Brasil, o que é angustiante e desempregador aqui no nosso país.

Como positivo, destaco as vendas de campos maduros, onde os últimos dirigentes da Petrobrás deixaram intempestivamente e criminalmente de investir nos últimos 5 anos. Esses desinvestimentos foram muito positivos para os Estados e Municípios, apesar da política de venda pouco transparente adotada, e com valores de produção de cada campo diminuído por não investimento. Enfim, apesar dos critérios adotados para as vendas serem confusos, a realização desses processos tornou o mercado concentrado, com poucas empresas detendo os volumes mais substantivos. Nem ao menos separaram os campos maiores dos menores, para incluir novos atores de diferentes portes. Entretanto, os benefícios parecem evidentes.

Assim enxerguei o 2021 e findo com uma frase sinótica: "O Brasil de hoje se comporta como herdeiro que esbanja a fortuna que o pai acumulou sem ele pregar um único prego para edificar o acúmulo. Pai rico, filho nobre e neto pobre, repetindo o ditado popular". É só uma questão de ponto de vista respeitando os divergentes. Os fatos estão postos.

O que sugere para o governo/Petrobrás melhorar a nossa economia e dar mais força aos setores de petróleo, gás, energia e logística?
O Brasil tem se caracterizado pela polarização, onde dominam os heróis e bandidos do momento, com pouco ganho para a população brasileira. Para mim, é bastante clara a política ineficaz da Fazenda, que desconhece completamente o Brasil real, e que inibe substantivamente a ação de outros ministérios dirigidos por pessoas menos desqualificadas. A tônica do governo é a cisão para a reeleição, mesmo às custas do bem-estar da população e do seu futuro.

Já passa da hora de reunirmos, governo e oposição para se construir um projeto de nação. Como a iniciativa privada investe para retorno, como é o seu princípio basilar, cabem aos governos fomentarem e investirem em políticas ordenadas de acordo com as necessidades do Brasil. Na área do MME, sugiro:

Inventariar corretamente todos os recursos petrolíferos nas diferentes classificações destacando as reservas provadas e prováveis;

2- Idem para área de mineração focando nos estratégicos e principalmente os mais usados como geradores e armazenadores de energia e fertilizantes, que faltam num Brasil de forte agricultura e quase sem insumos próprios, apesar da abundância de alguns nos jazimentos energéticos e de volumes de rochas (rochagem) para recuperação dos solos seguindo as diretrizes da EMBRAPA;

3- Passo seguinte criar comitês estratégicos independentes da ideologia, para pensar onde alocar os recursos visando suprir as necessidades estratégicas atuais e futuras do Brasil, com base no conceito real da sustentabilidade, com o seu tripé formulador, que muitos parecem desconhecer. Mesmo que isso resulte em críticas ao governo, elas devem ser absorvidas com naturalidade dentro dos padrões democráticos e assim, certamente, construiremos um Brasil melhor. Estes devem ter eficácia e prazos determinados;

4- Acabar com práticas autocráticas perpetuadas por despreparados que ocuparam ou ocupam cargos públicos. O Estado laico deve prevalecer;

5- Tornar as metas e objetivos comuns e transparentes definindo claramente o papel de cada ministério, muitos dos quais obliterados pela política inconsequente tipo Posto Ipiranga (com o perdão da marca), pois o coletivo sempre constrói melhor que o individual. Lembrar que o sapiens, de menor massa encefálica predominou sobre os neandertais, mais egoístas;

6- Após priorização, fomentar e até subsidiar as atividades básicas.

Quais são as suas perspectivas e de seu setor para 2022?
Pergunta difícil. Tudo depende, como no passado, do recrudescimento ou não das variantes da epidemia tipo ômicron e da agilidade dos laboratórios de produzirem muitas vacinas, numa abrangência mundial de distribuição, para se evitar novas cepas oriundas de locais ora ignorados pelo mundo dito civilizado. Vacinação de pandemia tem que ser distribuída de modo igualmente e absolutamente inclusivo.

Por enquanto, as perspectivas são baseadas em especulações e na economia já é certa que as projeções do PIB e inflação serão menores e maiores, respectivamente, o que não é um bom prenúncio com a nossa economia que parecia iniciar uma recuperação segura.

Tudo dependerá dos componentes variados. O único setor que continuará com crescimento, em 2022, é o de TI com o uso de redes neurais ou inteligência artificial, muito além dos usos nos processos, e muito mais nas interpretações e identificação de cenários mais prováveis, se banco de dados e os inventários forem bem levantados, elaborados, digitados e processados. Se entrar lixo, lixo sairá e fakes news convenientes para alguns. Os problemas e as soluções futuras passarão por isso.

Não me arrisco a prever preço da commodity petróleo para não passar pelo mesmo vexame do erro que eu e muitos cometeram no ano passado recente. É melhor todos alimentarem as redes neurais corretamente e, assim, teoricamente obteremos uma previsão mais acurada, mesmos com as incertezas das inteligências naturais que controlam a geopolítica. Certamente, os fundos tipo Black Rocks, Advanced e similares, com gestão de ativos financeiros maiores que os PIBs da maioria dos países do mundo, terão melhor noção de tendência dos preços. Manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Os outros setores acima comentados poderão repetir os padrões 2021 ou melhorarão. Assim seja.

Fonte: Petronotícias

Avalie este item
(4 votes)
Veja algumas métricas do portal.