Para os que gostam do acordo, vale lembrar que uma vez assinado, o acordo ainda tem que ser aprovado pelos parlamentos. E aí começa um pouco a complicação. O “acordo” na realidade são três acordos, pois tem o pomposo nome de “Acordo de Associação Mercosul-União Europeia”, e na sua composição envolve três pilares: um acordo de livre-comércio, um acordo de diálogo político e, finalmente, um acordo de cooperação.

O primeiro, o acordo comercial, para ser validado precisa da aprovação do Parlamento Europeu e do parlamento de cada um dos países que compõem o Mercosul – pelo negociado, caso o Parlamento Europeu aprove, o acordo comercial passa a valer individualmente com cada país do Mercosul assim que o seu parlamento nacional aprovar (ou seja, pode começar a valer para um país do Mercosul, independentemente da aprovação nos demais, desde que seu parlamento nacional o aprove).

Para os capítulos de diálogo político e cooperação, a validação é mais complicada porque depende ainda da aprovação de cada parlamento individual dos países que compõem a União Europeia (ou seja, esses capítulos têm que ser aprovados em 27 parlamentos nacionais do lado europeu). Assim, mesmo para a parte comercial, o acordo assinado ainda não está valendo. E ainda tem uma ação a ser avaliada pelo Tribunal Europeu sobre se mesmo o acordo comercial não teria que ser avaliado pelos 27 parlamentos nacionais, o que pode demorar meses.

Mas vale observar que o conteúdo do acordo comercial é o que se chamaria de um acordo “colonial”, ou “neocolonial”: os países do Mercosul se especializam em exportar bens primários ou semimanufaturados (agrícolas, minerais e energéticos), enquanto os países da União Europeia se especializam em fornecer bens manufaturados aos países do Mercosul.

Os acordos de livre-comércio, com seu modelo baseado nas regras da Organização Mundial do Comércio, tendem a cristalizar as chamadas “vantagens comparativas estáticas” dos países no momento em que são assinados. Assim, os países do Mercosul estariam condenados a se especializar em bens primários, enquanto a União Europeia obteria mais mercados para seus bens industriais – tudo o que foi criticado com a criação da CEPAL no fim dos anos 1940, há cerca de oitenta anos, a partir das formulações de Raúl Prebisch, Celso Furtado, e outros pensadores pilares de um pensamento econômico latino-americano.

Além disso, os países do Mercosul dão aos europeus vantagens adicionais nas áreas de exportação de serviços, compras públicas e propriedade intelectual, entre outros aspectos. Em um momento do mundo em que, frente aos “tarifaços” de Trump, todos buscam preservar ao máximo as defesas de seus espaços comerciais nacionais, em especial na área de bens industriais, o Mercosul baixa suas defesas. Na contramão da reindustrialização advogada pelo governo brasileiro atual, a opção concreta é pela chamada política do “Fazendão”, da primarização cada vez maior da economia, agradando aos exportadores, em especial de minérios e energia (petróleo, gás, etanol e outros) e, talvez, ao agronegócio (existe a dúvida porque, na reta final para o fechamento do acordo, os europeus colocaram tantas restrições na defesa de seus produtores agrícolas domésticos, que vamos ter que ver na prática como o acordo funciona para esses setores).