fernando alcoforado
Fernando Alcoforado
doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, Graduado em Engenharia Elétrica pela UFBA - Universidade Federal da Bahia e Especialista em Engenharia Econômica e Administração Industrial pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor universitário e consultor de organismos públicos e privados nacionais e internacionais nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos.

Fatores de sucesso do Irã na guerra contra os Estados Unidos e Israel e de insucesso desses últimos países

Irã resiste porque estruturou sua defesa não para vencer uma guerra convencional

Publicado em 10/08/2026
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Este artigo tem por objetivo apresentar os fatores de sucesso do Irã na guerra contra os Estados Unidos e Israel e os fatores de insucesso da ação militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã levando em conta fatores estratégicos, geopolíticos e militares, distinguindo capacidades reais, limitações e riscos de escalada. Serão oferecidas respostas quanto às razões pelas quais o Irã consegue resistir à agressão militar dos Estados Unidos e Israel sem aceitar uma rendição incondicional.

Os fatores de sucesso do Irã na guerra contra os Estados Unidos e Israel são os seguintes: 1) O Irã adota uma estratégia militar defensiva; 2) Os obstáculos existentes no Irã para seus inimigos conquistarem seus objetivos estratégicos; 3) A doutrina de guerra assimétrica do Irã; 4) O grande arsenal de mísseis e drones do Irã; 5) A dispersão, redundância e capacidade de regeneração do sistema militar iraniano; 6) O fechamento e controle do Estreito de Ormuz pelo Irã; 7) A capacidade do Irã de ampliar a guerra para diversos pontos do Oriente Médio; 8 ) A rede de aliados e organizações associadas ao Irã no Oriente Médio; 9) O apoio econômico e diplomático externo ao Irã; 10) O desenvolvimento da capacidade tecnológica própria pelo Irã; 11) A coesão institucional e o nacionalismo defensivo do Irã; 12) A  possibilidade do programa nuclear iraniano produzir armas nucleares como dissuasão latente; 13) A guerra de atrito desenvolvida pelo Irã e o fator tempo a seu favor; e, 14) A criação pelo Irã de uma nova crise do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz que tende a levar a economia mundial à depressão econômica.     

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  1. Os fatores de sucesso do Irã na guerra contra os Estados Unidos e Israel

1.1- O Irã adota uma estratégia militar defensiva [3][5][6][7]]9]

O Irã não precisa derrotar militarmente os Estados Unidos nem conquistar Israel. Para obter uma vitória estratégica defensiva, basta: a) preservar a continuidade do Estado; b) impedir a destruição completa de suas forças estratégicas; c) manter alguma capacidade de retaliação; d) evitar a ocupação do país; e) sobreviver até que o custo econômico, militar e político da guerra se torne excessivo para os inimigos.

Essa assimetria de objetivos é decisiva. Estados Unidos e Israel precisariam destruir praticamente todo o sistema militar iraniano, neutralizar sua liderança, controlar um território muito extenso e instalar uma nova ordem política. O Irã precisa apenas sobreviver e continuar resistindo e está conseguindo. A estratégia iraniana é, portanto, próxima de uma estratégia de negação que não busca necessariamente alcançar superioridade militar, mas impedir que os inimigos consigam atingir seus objetivos estratégicos.

1.2- Os obstáculos existentes no Irã para seus inimigos conquistarem seus objetivos estratégicos [3][5][6][7][9]

O Irã possui território de aproximadamente 1,65 milhão de quilômetros quadrados, população numerosa, extensas regiões montanhosas, desertos, cidades densamente povoadas e longas fronteiras terrestres e marítimas. As cadeias montanhosas de Zagros e Elburz favorecem: a) dispersão de tropas; b) ocultação de depósitos e instalações; c) construção de túneis e bases subterrâneas; d) mobilidade de lançadores de mísseis; e) dificuldade de identificação de alvos; e, f) defesa prolongada contra uma eventual invasão terrestre.

A geografia do Irã torna muito mais difícil ocupar, controlar ou desarmar integralmente o país. O relevo montanhoso e os desertos centrais conferem ao Irã profundidade territorial e permitem prolongar o conflito. Uma campanha aérea como a realizada pelos Estados Unidos e Israel pode destruir alvos fixos conhecidos, mas não garante a localização de todos os lançadores móveis, oficinas, depósitos subterrâneos, centros de comando alternativos ou unidades dispersas. O fechamento do Estreito de Ormuz impedindo a passagem de 20% do petróleo mundial e de outros produtos com seu impacto sobre a economia mundial é, sem sombra de dúvidas, um dos principais fatores que impedem os inimigos do Irã de alcançarem seus objetivos estratégicos

1.3- A doutrina de guerra assimétrica do Irã [3][4][5][6][7][9]

O Irã reconhece que não pode competir, avião por avião e navio por navio, com os Estados Unidos. Por isso, desenvolveu uma doutrina baseada em: a) mísseis balísticos; b) mísseis de cruzeiro; c) drones de ataque e reconhecimento; d) minas navais; e) pequenas embarcações rápidas; f) guerra eletrônica; g) ciberoperações; h) sabotagem; i) forças irregulares; e, j) ataques distribuídos contra bases norte-americanas, portos e infraestrutura no Oriente Médio.

Essa doutrina procura neutralizar parcialmente a superioridade tecnológica adversária através da dispersão, saturação, surpresa e baixo custo. Os drones são particularmente importantes porque podem ser fabricados de maneira descentralizada, lançados em grande número e empregados para esgotar defesas aéreas muito mais caras. A simplicidade dos drones iranianos e a existência de instalações redundantes tornam extremamente difícil eliminar completamente essa capacidade.

1.4- O grande arsenal de mísseis e drones do Irã [3][4]]5][6][7][9]

A força de mísseis constitui o principal instrumento de dissuasão iraniano. Mesmo sofrendo perdas consideráveis, o Irã pode preservar estoques, linhas de produção e lançadores móveis suficientes para ameaçar: a) Israel; b) bases norte-americanas no Golfo Pérsico; c) portos e aeroportos; d) instalações petrolíferas; e) redes elétricas; f) centros logísticos; e, g) navios militares e mercantes.

Não é necessário que todos os projéteis atravessem as defesas. Alguns impactos bem-sucedidos contra alvos sensíveis podem provocar interrupções econômicas e repercussões políticas importantes. Além disso, campanhas prolongadas impõem um problema de custo. Um drone relativamente barato pode obrigar o adversário a utilizar interceptadores Patriot, THAAD, Arrow ou outros sistemas que custam muito mais e possuem estoques limitados. Relatórios sobre o conflito registraram taxas elevadas de interceptação, mas também indicaram redução dos estoques de interceptadores de países do Golfo Pérsico e necessidade de reposição com recursos norte-americanos.

1.5- A dispersão, redundância e capacidade de regeneração do sistema militar iraniano [3][4][5][6][7][9]

O sistema militar iraniano não está concentrado em poucas bases. Ao longo de décadas, o país desenvolveu: a) instalações subterrâneas; b) depósitos alternativos; c) centros de comando redundantes; d) fábricas dispersas; e) lançadores móveis; f) unidades descentralizadas; e, g) redes civis e militares de apoio logístico.

Mesmo quando uma grande instalação é destruída, a produção pode ser retomada parcialmente em outros locais. Documentos relacionados à indústria iraniana indicariam a existência de locais de substituição para fábricas de drones, o que demonstra a importância concedida à redundância. Essa estrutura dificulta uma vitória rápida baseada em ataques de “decapitação” das lideranças iranianas ou na destruição de alguns centros industriais.

1.6- O fechamento e controle do Estreito de Ormuz pelo Irã [3][5][6][7][9]

O Estreito de Ormuz é o principal trunfo geoeconômico do Irã. Por essa passagem circula parcela expressiva do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados internacionalmente. O Irã não precisa bloquear permanentemente o Estreito de Ormuz. Basta demonstrar capacidade de: a) atacar navios; b) instalar minas; c) ameaçar terminais; d) elevar os custos de seguro; e) provocar suspensão temporária da navegação; e, f) manter incerteza sobre a segurança marítima.

Mesmo interrupções parciais podem aumentar os preços do petróleo, afetar a inflação mundial e pressionar governos importadores de energia. Em julho de 2026, a continuidade das tensões em torno de Ormuz permaneceu um dos principais fatores de pressão sobre mercados e sobre as negociações.  Esse poder de perturbação transforma uma vulnerabilidade iraniana com sua dependência da exportação de petróleo em instrumento de dissuasão porque a tentativa de estrangular totalmente o Irã pode causar perdas econômicas muito maiores a terceiros.

1.7- A capacidade do Irã de ampliar a guerra para diversos pontos do Oriente Médio [3][5][6][7][8][9]

O Irã pode responder a ataques não apenas dentro de seu território, mas em diversos pontos do Oriente Médio. A infraestrutura militar norte-americana está distribuída por Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Iraque, Jordânia, Síria e áreas marítimas do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho. Essa presença oferece aos Estados Unidos poder de projeção, mas também cria grande quantidade de alvos potenciais.

A estratégia iraniana de escalada horizontal procura fazer com que cada nova fase da guerra envolva mais países, instalações e rotas comerciais. Estudos do CSIS descrevem uma estratégia de expansão geográfica do conflito, incluindo o fechamento do Estreito de Ormuz, do Mar Vermelho e do estreito de Bab al-Mandeb. Quanto mais ampla e regionalizada se torna a guerra, maior a possibilidade de que aliados dos Estados Unidos pressionem por uma interrupção das hostilidades.

1.8- A rede de aliados e organizações associadas ao Irã no Oriente Médio [3][5][6][7][8][9]

Durante décadas, o Irã construiu relações com organizações armadas e movimentos políticos no Líbano, Iraque, Síria, Iêmen e territórios palestinos. Essa rede é frequentemente denominada “Eixo da Resistência”. Seus integrantes não são simples extensões mecânicas de Teerã e possuem agendas próprias, mas podem ampliar a pressão sobre adversários do Irã. Entre suas funções estratégicas estão: a) abrir frentes secundárias; b) ameaçar bases norte-americanas; c) atacar rotas marítimas; d) obrigar Israel a dividir forças; e) ampliar os custos de defesa aérea; e, f) criar incerteza sobre a duração e a extensão da guerra. A inteligência norte-americana reconhece que o Irã incentivou e capacitou parceiros regionais a atacar interesses israelenses e norte-americanos. Mesmo debilitada, essa rede impede que o conflito seja reduzido a uma campanha bilateral simples contra o território iraniano.

1.9- O apoio econômico e diplomático externo ao Irã [2][3][9]

China e Rússia não precisam entrar diretamente na guerra para ajudar a impedir o isolamento completo do Irã. Podem contribuir por meio de: a) compra de petróleo; b) comércio indireto; c) sistemas alternativos de pagamento; d) cooperação tecnológica; e) intercâmbio de inteligência; f) fornecimento de componentes de uso dual; e, g) apoio diplomático em organizações internacionais. Entretanto, é importante não exagerar esse apoio. Pequim e Moscou procuram evitar confronto militar direto com os Estados Unidos e podem limitar a assistência para proteger seus próprios interesses.

Há informações contraditórias sobre fornecimentos militares em 2026. Autoridades norte-americanas afirmaram ter recebido garantias de que China e Rússia não entregariam armamentos, enquanto reportagens recentes indicaram possíveis aquisições iranianas de sistemas portáteis chineses de defesa aérea. Essas informações precisam ser tratadas com cautela, pois parte delas se baseia em fontes anônimas e foi contestada por Pequim. O fator decisivo não é uma aliança militar formal, mas a impossibilidade de reproduzir contra o Irã um bloqueio internacional inteiramente coeso.

1.10- O desenvolvimento da capacidade tecnológica própria pelo Irã [1][3][9]

Décadas de sanções econômicas obrigaram o Irã a desenvolver: a) indústria própria de mísseis e drones; b) redes clandestinas de aquisição; c) engenharia reversa; d) mecanismos informais de comércio; e) sistemas de evasão financeira; e, f) capacidade de operar com acesso limitado a armamentos ocidentais.

As restrições às importações contribuíram para que o Irã dependesse mais de produção nacional e de sistemas relativamente simples, sobretudo mísseis e veículos aéreos não tripulados. Essa autonomia não elimina as dificuldades econômicas e tecnológicas, mas aumenta a capacidade de sobrevivência durante uma guerra prolongada.

1.11- A coesão institucional e o nacionalismo defensivo do Irã [3][9]

Ataques externos podem produzir o efeito oposto ao desejado pelos agressores. Ao invés de derrubar o governo, podem fortalecer temporariamente o nacionalismo, reduzir divisões internas e legitimar medidas de emergência. Parte da população iraniana critica profundamente o regime, as restrições políticas e a situação econômica. Porém, oposição ao governo não significa necessariamente apoio a bombardeios estrangeiros ou à fragmentação do país.

Quando uma guerra é percebida como ameaça à existência nacional, segmentos oposicionistas podem apoiar a defesa do território sem apoiar o sistema político vigente. Esse fenômeno dificulta estratégias de mudança de regime iraniano baseadas na expectativa de que ataques militares provoquem automaticamente uma revolta popular.

1.12- A possibilidade do programa nuclear iraniano produzir armas nucleares como dissuasão latente [3][8][9]

O programa nuclear iraniano funciona como fonte de incerteza estratégica para seus inimigos norte-americanos e israelenses. Mesmo sem comprovação pública de que o país tenha decidido construir uma arma nuclear, sua capacidade tecnológica e seu estoque de material nuclear conferem valor de dissuasão potencial.

A Agência Internacional de Energia Atômica registrou, em 2026, dificuldades de acesso e de verificação em instalações afetadas, além de questões pendentes. Quanto mais o programa é disperso, ocultado ou reconstruído, mais difícil se torna eliminá-lo definitivamente por bombardeios. Uma campanha militar pode atrasá-lo, mas também pode incentivar o Irã a concluir que apenas uma arma nuclear garantiria a sobrevivência do Estado.

1.13- A guerra de atrito desenvolvida pelo Irã e o fator tempo a seu favor [3][5][8][9]

O Irã procura transformar a guerra em uma disputa de resistência. O tempo pode produzir: a) esgotamento de interceptadores de mísseis e drones; b) aumento do preço do petróleo no mercado mundial; c) pressão de aliados contra os Estados Unidos; d) divisões na coalizão adversária; e) oposição popular à guerra; f) reconstrução parcial das forças iranianas; e, f) abertura de negociações diplomáticas.  Essa lógica explica por que o Irã pode aceitar grandes perdas materiais sem capitular. Enquanto conservar capacidade de causar danos e impedir a estabilização do poder norte-americano no Oriente Médio, continuará possuindo poder de barganha.

1.14- A criação pelo Irã de uma nova crise do petróleo com o fechamento do Estreito de Ormuz que tende a levar a economia mundial à depressão econômica [12][13]

Com o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, os efeitos sobre a economia mundial tenderão a ser muito severos. Contudo, a magnitude dependerá principalmente da duração do bloqueio. Não é possível afirmar com certeza que uma depressão econômica mundial ocorrerá, mas esse é um dos cenários de maior risco considerados por muitos analistas. O Estreito de Ormuz é um dos principais gargalos energéticos do mundo. Aproximadamente um quinto do petróleo consumido globalmente e uma parcela importante do gás natural liquefeito (GNL) transitam por essa rota. Uma interrupção prolongada reduziria a oferta mundial de energia e elevaria fortemente os preços do petróleo e do gás natural.

Os principais mecanismos econômicos seriam o choque de oferta de petróleo, com aumento expressivo dos preços internacionais, inflação global, devido ao encarecimento dos combustíveis, transportes, fertilizantes e da produção industrial, redução do crescimento econômico, porque empresas e consumidores enfrentariam custos mais elevados, queda dos mercados financeiros com o aumento da aversão ao risco e migração de capitais para ativos considerados seguros e pressão sobre países importadores de energia, especialmente economias asiáticas e europeias fortemente dependentes do petróleo do Golfo Pérsico.

Uma depressão econômica mundial, semelhante ou mais grave do que a crise de 1929, seria mais provável apenas se vários fatores ocorressem simultaneamente como o bloqueio prolongado por meses do Estreito de Ormuz, a incapacidade dos produtores de petróleo compensarem a oferta perdida por rotas alternativas, a escalada militar envolvendo outras grandes potências e forte retração do comércio internacional e do crédito. Em síntese, o fechamento do Estreito de Ormuz constitui um dos maiores riscos geoeconômicos do sistema internacional. Ele pode desencadear uma grave crise energética e uma recessão mundial. Uma depressão econômica global é um cenário plausível em caso de interrupção prolongada e escalada do conflito, mas não é um desfecho inevitável.

  1. Os fatores de insucesso da ação militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã

Os fatores de insucesso da ação militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã são os 14 fatores de sucesso do Irã na guerra contra os Estados Unidos e Israel acima descritos e mais os seguintes: 1) As limitações de uma campanha exclusivamente aérea pelos Estados Unidos e Israel; 2) O custo proibitivo de uma invasão terrestre do Irã pelos Estados Unidos; 3) A vulnerabilidade das economias dos países do Golfo Pérsico aliados dos Estados Unidos a ataques iranianos; 4) A ausência de alternativa política capaz de substituir o regime iraniano atual; 5) As limitações políticas, econômicas, financeiras e militares dos Estados Unidos; 6) As limitações estratégicas de Israel; e, 7) A impossibilidade prática dos Estados Unidos e Israel imporem  “rendição incondicional” ao Irã.

2.1- As limitações de uma campanha exclusivamente aérea pelos Estados Unidos e Israel [8][10]

Bombardeios contra alvos militares e a população civil podem degradar severamente as capacidades iranianas, mas possuem limitações políticas e militares. Uma força aérea pode destruir instalações conhecidas, atacar pistas de aviões, radares e depósitos de munições, eliminar lideranças políticas e militares e reduzir a produção de armamentos pelo Irã. Entretanto, não consegue, ocupar cidades, controlar fronteiras, desarmar toda a população, identificar todos os depósitos subterrâneos de armas e munições, derrubar o governo e garantir a criação de um governo sucessor estável, extinguir uma ideologia política existente e impedir indefinidamente a reconstrução militar. A distância entre “destruir alvos” e “obter rendição política” é enorme. A experiência histórica mostra que campanhas aéreas produzem efeitos operacionais significativos, mas raramente asseguram sozinhas a submissão completa de um Estado grande e populoso como o Irã.

2.2- O custo proibitivo de uma invasão terrestre do Irã pelos Estados Unidos [8]

Para impor rendição incondicional ao Irã, os Estados Unidos teriam de considerar uma operação terrestre de grandes proporções. Isso exigiria centenas de milhares de militares, extensas linhas de suprimento, uso de bases em países vizinhos, controle de áreas urbanas e montanhosas do Irã, ocupação prolongada do Irã, difícil administração de uma população numerosa como a do Irã e combate a forças regulares, Guardas Revolucionários e milícias iranianas. Uma invasão norte-americana desse tipo seria muito maior e mais complexa do que as campanhas do Iraque e do Afeganistão.

Além disso, vários governos vizinhos relutariam em transformar seus territórios em plataformas para uma guerra de ocupação, temendo retaliações iranianas, desestabilização interna e ataques contra sua infraestrutura. Assim, existe uma grande diferença entre a capacidade norte-americana de bombardear o Irã e sua disposição política para invadir e ocupar o país.

2.3- A vulnerabilidade das economias dos países do Golfo Pérsico aliados dos Estados Unidos a ataques iranianos [3][8][11]

As monarquias do Golfo Pérsico possuem infraestrutura altamente concentrada em termos de refinarias, terminais petrolíferos, usinas de dessalinização, aeroportos, redes elétricas, portos, instalações petroquímicas e centros financeiros. Ataques relativamente limitados do Irã contra esses alvos podem produzir efeitos econômicos gigantescos. Isso cria um dilema para países que abrigam forças militares norte-americanas. Quanto maior sua participação ao lado dos norte-americanos, maior o risco de sofrerem represálias iranianas. Consequentemente, muitos desses países procuram preservar canais de comunicação com o Irã e evitar uma guerra total. O Irã explora essa vulnerabilidade ao comunicar que bases utilizadas em ataques contra seu território poderão ser consideradas alvos legítimos.

2.4- A ausência de alternativa política capaz de substituir o regime iraniano atual [8]

Mesmo que os Estados Unidos e Israel consigam enfraquecer ou eliminar a atual liderança do Irã, permanece a pergunta: quem governaria o Irã? Não existe consenso evidente entre reformistas, monarquistas, republicanos seculares, grupos étnicos, movimentos regionais, setores militares e organizações no exílio. O risco de fragmentação, guerra civil, proliferação de armamentos e descontrole das instalações nucleares torna a mudança de regime muito mais perigosa do que parece. Essa incerteza reduz a possibilidade de derrubada do Estado iraniano. Além disso, o fato do Irã estar sendo agredido militarmente pelos Estados Unidos Unidos e Israel faz com que muitas forças de oposição ao regime se posicionem em defesa do país contra o inimigo comum.

2.5- As limitações políticas, econômicas, financeiras e militares dos Estados Unidos [8][11]

Os Estados Unidos possuem enorme capacidade militar, mas enfrentam restrições como a rejeição social interna contra novas guerras prolongadas, os custos orçamentários elevados com as guerras, a necessidade de preservar munições para outros teatros de guerra no mundo, a competição estratégica dos Estados Unidos com China e Rússia, o risco de baixas militares como já estão ocorrendo nesta guerra contra o Irã, as divergências no Congresso americano com relação às guerras, as pressões eleitorais que ameaçam o governo Trump e a oposição de parceiros internacionais à guerra contra o Irã como, por exemplo, dos países da União Europeia. Uma guerra de atrito favorece o Irã porque transforma a superioridade militar norte-americana em crescente desgaste financeiro e político. As operações realizadas em 2026 consumiram grande quantidade de mísseis de ataque e de interceptadores, levantando preocupações sobre sustentabilidade e reposição de estoques desses armamentos.

2.6- As limitações estratégicas de Israel [8][11]

Israel pode executar ataques precisos e penetrar as defesas iranianas, mas enfrenta obstáculos como a distância geográfica, a necessidade de reabastecimento, a dependência parcial do apoio norte-americano, os estoques limitados de interceptadores contra drones e mísseis iranianos, a vulnerabilidade de cidades e infraestrutura israelenses, as múltiplas frentes simultâneas de guerra no Irã, no Líbano  e em outras regiões do Oriente Médio, a dificuldade de destruir instalações subterrâneas iranianas e a incapacidade de ocupar o Irã. Operações israelenses demonstraram grande capacidade de inteligência, infiltração e eliminação de lideranças políticas e militares iranianas, mas esses êxitos táticos não contribuem para a rendição do Estado iraniano.

2.7- A impossibilidade prática dos Estados Unidos e Israel imporem “rendição incondicional” ao Irã [8][11]

A rendição incondicional do Irã exigiria as seguintes condições: a) destruição total das forças armadas iranianas; b) ocupação da capital iraniana e dos principais centros políticos do país; c) colapso institucional do Estado iraniano; d) derrubada da liderança política do Irã sem que haja sucessão organizada; e, e) convencimento da elite dirigente iraniana de que a continuação da guerra implicaria em sua destruição inevitável. Nenhuma dessas condições é fácil de produzir no Irã apenas mediante ataques aéreos pelos Estados Unidos. Por isso, o resultado mais plausível não é uma rendição incondicional do Irã, mas de negociação entre o Irã e os Estados Unidos

Conclusão

Pelo exposto, constata-se o insucesso dos Estados Unidos e Israel em promover a mudança do regime iraniano e em obter a rendição incondicional do governo do Irã graças ao sucesso do governo iraniano na adoção de eficazes estratégias defensivas. O Irã resiste porque estruturou sua defesa não para vencer uma guerra convencional, mas para sobreviver ao primeiro ataque, dispersar suas forças, retaliar de forma assimétrica, regionalizar o conflito e elevar progressivamente os custos do adversário. Essa estratégia não garante uma vitória iraniana, mas assegura sua sobrevivência como nação independente. O país enfrenta perdas militares, humanas e econômicas extremamente graves, defesas aéreas vulneráveis, deterioração econômica e crescente dependência de sistemas assimétricos. Todavia, ela torna sua rendição incondicional militarmente difícil, economicamente dispendiosa e politicamente arriscada para seus inimigos.

A resistência iraniana não significa que o país esteja vencendo militarmente os Estados Unidos e Israel. Ambos possuem enorme superioridade aérea, tecnológica, de inteligência e de poder de fogo. O que ocorre é que o Irã demonstra ter capacidade suficiente para impedir que a superioridade militar adversária seja capaz de levá-lo à rendição incondicional com a capitulação política, mudança de regime e ocupação do território iraniano. O fator central é a diferença entre superioridade militar e capacidade de impor resultados políticos. Em outras palavras, Estados Unidos e Israel podem conquistar superioridade aérea, destruir grande parte da infraestrutura militar iraniana e provocar danos econômicos enormes. Contudo, para obrigar o Irã à rendição incondicional, precisariam eliminar simultaneamente sua liderança política e militar, sua capacidade de retaliação, sua coesão institucional, sua rede regional de apoiadores e sua possibilidade de reconstrução mediante uma invasão e ocupação de escala gigantesca do Irã pelos Estados Unidos e Israel.

Estados Unidos e Israel podem destruir instalações, eliminar comandantes e reduzir capacidades militares, mas isso não garante que consigam impor uma rendição incondicional ao Irã. Mesmo após campanhas de bombardeio e pesadas perdas, o Estado iraniano permanece funcional, preservou parte de sua capacidade de retaliação e continua exercendo domínio sobre o Estreito de Ormuz cujo fechamento pelos iranianos provocará uma crise energética de grandes proporções cujos efeitos sobre a economia mundial tenderão a ser muito severos, inclusive com a possibilidade de depressão da economia mundial cuja magnitude dependerá principalmente da duração do bloqueio sobre o Estreito de Ormuz. Em síntese, o fechamento do Estreito de Ormuz constitui um dos maiores riscos geoeconômicos do sistema internacional. Ele pode desencadear uma grave crise energética e uma recessão mundial. Uma depressão econômica global é um cenário plausível em caso de interrupção prolongada e escalada do conflito, mas não é um desfecho inevitável.

A última grande ameaça do governo Trump é a de destruir a infraestrutura de energia, pontes, entre outras, do Irã para obter a rendição deste país e que resulte em sua incapacidade de exercer o controle do Estreito de Ormuz. O governo iraniano, por sua vez, ameaçou, em retaliação, destruir as bases militares americanas e a infraestrutura de produção de petróleo, de dessalinização da água, entre outras instalações de empresas norte-americanas existentes nos países do Oriente Médio que levaria à inviabilização de muitos desses países que seriam privados da produção de petróleo e do abastecimento de água para suas populações. Foi esta ameaça de retaliação iraniana que fez o governo Trump suspender os novos bombardeios contra o Irã a pedido dos governos de países do Oriente Médio vassalos dos Estados Unidos. Diante da desmoralização do governo Trump em não ter propiciado proteção militar aos países aliados do Oriente Médio contra os ataques iranianos por drones e mísseis e da possibilidade de perder o controle político e militar que exerce sobre os países vassalos do Oriente Médio pelo fato de não conseguir fazer com que o Irã se dobre à sua vontade, o governo Trump poderia, em última instância, fazer uso de uma bomba atômica sobre o Irã para obter a rendição incondicional deste país como fez com o Japão durante  a Segunda Guerra Mundial.

Com base nas informações públicas disponíveis não há evidências de que o governo Trump tenha decidido ou esteja preparando o emprego de armas nucleares contra o Irã. Ao contrário, quando questionado diretamente sobre essa hipótese em abril de 2026, Donald Trump respondeu que não usaria armas nucleares contra o Irã, afirmando que os objetivos militares poderiam ser alcançados por meios convencionais e que « uma arma nuclear nunca deveria ser usada por ninguém ». Como os objetivos militares dos Estados Unidos não estão sendo alcançados por meios convencionais, a solução consistiria no uso de armas nucleares contra o Irã ? O emprego de armas nucleares apresentaria, entretanto, custos extremamente elevados para os próprios Estados Unidos porque romperia o chamado « tabu nuclear » vigente desde 1945, provocaria forte condenação internacional, inclusive entre aliados, aumentaria significativamente o risco de escalada regional ou global com a possibilidade de eclosão da Terceira Guerra Mundial, poderia estimular outros países a buscar armas nucleares como forma de dissuasão e geraria consequências humanitárias, ambientais e econômicas de grande magnitude. O governo Trump está diante da alternativa inviável de negociar um acordo vantajoso para os Estados Unidos com o Irã ou fazer uso de uma bomba atômica com todas as consequências dela resultantes para obter a rendição incondicional do Irã.

REFERÊNCIAS

  1. STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE — SIPRI. SIPRI Yearbook 2025: Armaments, Disarmament and International Security. Estocolmo: SIPRI, 2025.
  2. The Role of Imported Arms in the Iran War. Estocolmo, 2026.
  3. CONNELL, Michael. Iran’s Military Doctrine. Washington: United States Institute of Peace.
  4. CORDESMAN, Anthony H. Iran’s Military Forces and Warfighting Capabilities. Washington: Center for Strategic and International Studies.
  5. TABATABAI, Ariane M. No Conquest, No Defeat: Iran’s National Security Strategy. Oxford University Press, 2020.
  6. CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES — CSIS. Iran’s War Strategy: Don’t Calibrate—Escalate. Washington, 2026.
  7. Visualizing Iran’s Escalation Strategy. Washington, 2026.
  8. What Are the Unintended Consequences of the U.S.–Iran Conflict? Washington, 2026.
  9. NASR, Vali. Iran´s grand strategy. Princeton University Press. 2025.
  10. Assessing the Air Campaign After Three Weeks: Iran War by the Numbers. Washington, 2026.
  11. ALCOFORADO, Fernando. O grande vitorioso e os grandes perdedores da guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Disponível no website <https://www.linkedin.com/pulse/o-grande-vitorioso-e-os-grandes-perdedores-da-guerra-pelos-5tlrf/>.
  12. ROSAS, Paula. Por que crise desencadeada pela guerra no Irã pode se tornar 'maior choque petrolífero da história'. Disponível no website <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn5g95xg7l1o>.
  13. SHARMA, Manu&  SINGH, Atul. A guerra com o Irã pode colapsar a economia global. Disponível no website <https://aterraeredonda.com.br/a-guerra-com-o-ira-pode-colapsar-a-economia-global/>.

 

Fernando Alcoforado, 86, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Encestar Condiciones os Theo Economic ande Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017),  Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023), A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023), Como construir um mundo de paz, progresso e felicidade para toda a humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2024), How to build a world of peace, progress and happiness for all humanity (Editora CRV, Curitiba, 2024) e Agricultural Revolutions that changed the world in “Research trends in agricultural extension” (AkiNik Publications, 2026).Parte inferior do formulário

 

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