fernando alcoforado
Fernando Alcoforado
doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, Graduado em Engenharia Elétrica pela UFBA - Universidade Federal da Bahia e Especialista em Engenharia Econômica e Administração Industrial pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor universitário e consultor de organismos públicos e privados nacionais e internacionais nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos.

Riscos e ameaças de depressão econômica global e como proteger a economia brasileira

Há riscos relevantes de ocorrência de uma crise econômica mundial severa que pode evoluir para uma depressão econômica global.

Publicado em 02/09/2026
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Este artigo tem por objetivo apresentar os riscos e ameaças de depressão econômica global e como proteger a economia brasileira de suas consequências. Nas condições atuais, há riscos relevantes de ocorrência de uma crise econômica mundial severa que pode evoluir para uma depressão econômica global. Nenhum dos gigantescos problemas atuais — dívida pública mundial, guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, nova crise do petróleo, escalada da inflação mundial, protecionismo ou fragilidade financeira — necessariamente produziria isoladamente uma depressão econômica mundial. A coincidência de vários deles, porém, é que poderia produzir um processo cumulativo semelhante aos mecanismos observados nas grandes depressões de 1873 e 1929.

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Sobre a depressão econômica mundial iniciada em 1873 [1][7], também chamada Longa Depressão mundial, ocorreu durante a expansão industrial e ferroviária do século XIX. Nos Estados Unidos, a contração econômica associada ao pânico de 1873 estendeu-se até 1879 e foi considerada durante décadas a mais longa depressão do país. As principais causas da depressão econômica mundial foram a expansão ferroviária excessiva, a especulação financiada por crédito com bancos e investidores financiando projetos ferroviários que criaram uma estrutura vulnerável à queda dos preços dos ativos,  o “crash” da Bolsa de Viena na Europa com os investidores europeus passando a vender ativos norte-americanos, especialmente títulos de empresas ferroviárias, dificultando o refinanciamento das empresas e a falência da Jay Cooke & Co., em setembro de 1873, instituição fortemente comprometida com o financiamento da Northern Pacific Railway cuja quebra abalou a confiança, provocou corridas bancárias e paralisou o crédito.

Por sua vez, a Grande Depressão mundial iniciada em 1929 [2][4][7] foi muito mais grave do que a de 1873. Ela começou nos Estados Unidos em agosto de 1929 e a plena recuperação da produção e do emprego somente ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. As causas fundamentais da depressão econômica mundial de 1929 foram as seguintes: 1) Especulação financeira e expansão do crédito durante a década de 1920 quando ocorreu forte valorização dos ativos, acompanhada pela compra especulativa de ações; 2) Crash de Wall Street em outubro de 1929 que destruiu riqueza, reduziu confiança e contribuiu para a retração do consumo e dos investimentos; 3) Crises bancárias a partir do final de 1930 quando houve sucessivas corridas bancárias que provocaram falências e retração monetária e o Federal Reserve não exerceu adequadamente sua função de emprestador de última instância; 4) Deflação com a queda generalizada dos preços que aumentou o valor real das dívidas quando empresas e famílias endividadas passaram a cortar ainda mais seus gastos; 5) Padrão-ouro devido a necessidade de preservar a conversibilidade das moedas em ouro que restringiu a capacidade dos governos e bancos centrais de expandirem a oferta monetária; e, 6) Colapso do comércio internacional cuja crise norte-americana espalhou-se pelo sistema financeiro mundial, enquanto políticas protecionistas agravaram a contração do comércio internacional.

Uma depressão econômica é caracterizada, portanto, por um estado agravado de recessão sempre acarretando em consequências negativas para a economia mundial [3][8][9][10][11]. Há diferenças entre recessão e depressão econômica. Recessão ocorre quando há declínio do Produto Interno Bruto (PIB) por dois ou mais trimestres consecutivos. Depressão econômica, por sua vez, consiste em um longo período caracterizado por vertiginosa queda do PIB, numerosas falências de empresas, crescimento elevado do desemprego, escassez de crédito, baixos níveis de produção e investimento, redução das transações comerciais, alta volatilidade do câmbio, com deflação (queda nos preços) ou hiperinflação (alta de preços) e crise de confiança. As maiores depressões econômicas da história foram as de 1873 e 1929. Entre elas, a mais grave foi, sem dúvidas, a de 1929.

Em geral, a depressão econômica mundial descreve uma situação muito mais grave do que uma recessão porque resulta de uma queda profunda e prolongada da produção, de forte aumento do desemprego, da contração do crédito e do investimento, de falências generalizadas de empresas e deterioração persistente do comércio mundial. A Grande Depressão ocorrida em 1929 tornou-se particularmente destrutiva porque um choque financeiro se transformou sucessivamente em crise bancária, colapso do crédito, queda da demanda, desemprego em massa, deflação e protecionismo internacional.

As possíveis causas da futura depressão econômica mundial que afetará a economia global com suas intensidades atuais e potencial de provocar depressão estão descritas a seguir [5][13]:

Causas Intensidade atual Potencial de provocar depressão
Guerra e choque energético alta muito alto se houver escalada
Dívida pública mundial muito alta Alto
Endividamento privado e fragilidade financeira alta Alto
Juros e custo de refinanciamento alto Alto
Protecionismo e fragmentação comercial alta Alto
Bolha ou forte correção de ativos ligados à Inteligência Artificial média/alta médio-alto
Crise bancária internacional atualmente limitada muito alto se surgir
Desemprego tecnológico estrutural crescente médio no curto prazo, alto no longo
Mudanças climáticas e choques alimentares crescente alto quando combinados com outros choques

A depressão econômica mundial mais provável não surgiria, portanto, de uma única causa. Surgiria de uma tempestade perfeita com várias causas como as descritas acima. Nas condições atuais, tudo leva a crer que a depressão econômica mundial ocorrerá com a sequência descrita a seguir:

1) Escalada militar no Oriente Médio e na Ucrânia; 2) novo choque do petróleo em consequência da guerra no Oriente Médio; 3) aumento da inflação mundial; 4) bancos centrais impossibilitados de reduzir rapidamente os juros; 5) crise da dívida pública e privada em todos os países; 6) queda das bolsas de valores e dos ativos ligados à Inteligência Artificial; 7) crise de fundos de investimento e crise bancária; 8 ) contração do crédito; 9) queda do investimento e do consumo; 10) desemprego em massa; 11) protecionismo; 12) colapso do comércio mundial; e, 13) depressão econômica global. Esta sequência é um cenário de risco sistêmico.

1. As ameaças de depressão econômica mundial existentes em 2026 [5][13]

1.1- A primeira grande ameaça: guerra, petróleo, inflação e suas consequências

A conjuntura de 2026 acrescentou um fator particularmente perigoso: a guerra no Oriente Médio e seus efeitos sobre os setores de energia e de transporte internacional. A continuidade da guerra no Oriente Médio poderia aumentar novamente a volatilidade no preço das commodities, apertar as condições financeiras e comprometer economias nacionais que já possuem pouco espaço fiscal. O Banco Mundial estimou um cenário especialmente preocupante: se as perturbações energéticas forem mais intensas e forem acompanhadas por estresse financeiro significativo, o crescimento mundial poderia cair para apenas 1,3% em 2026. Ainda não seria necessariamente uma depressão mundial, mas aproximaria a economia mundial de uma zona extremamente perigosa porque resultaria no processo descrito a seguir:

Guerra → petróleo e gás mais caros → aumento da inflação → taxas de juros elevadas → consumo e investimento menores → inadimplência das empresas e das famílias → crise financeira → recessão

Se ao mesmo tempo ocorrer deterioração do comércio mundial, poderia surgir uma recessão muito mais profunda.

1.2- A segunda grande ameaça: a gigantesca dívida mundial e suas consequências

A dívida global atingiu um recorde histórico de aproximadamente US$ 348 trilhões no final de 2025. Esta é a fragilidade estrutural mais importante. Segundo o Fiscal Monitor do FMI, a dívida pública bruta mundial chegou a aproximadamente 94% do PIB global em 2025 podendo alcançar 100% do PIB em 2029. O problema não é simplesmente o volume da dívida. Quando as taxas de juros permanecem relativamente elevadas, governos nacionais precisam refinanciar enormes estoques de títulos da dívida pública a custos maiores. Os pagamentos globais de juros passaram aproximadamente de 2% para quase 3% do PIB mundial em apenas quatro anos, segundo o FMI. Pode surgir então outro círculo vicioso descrito a seguir:

Taxas de juros elevados → aumento dos encargos da dívida pública → aumento dos déficits fiscais dos governos → emissão de títulos da dívida pública → desconfiança dos agentes econômicos → taxas de juros ainda maiores → maior austeridade nos gastos do governo → queda da demanda → recessão

Uma crise da dívida soberana simultânea em vários países grandes poderia tornar-se um dos gatilhos de uma depressão.

1.3- A terceira grande ameaça: fragilidade do sistema financeiro e suas consequências

O crescimento das vulnerabilidades financeiras e a interação entre mercados financeiros e endividamento soberano poderão limitar a capacidade dos bancos centrais de cada país de administrar uma futura crise. A regulamentação dos grandes bancos melhorou depois da crise financeira global de 2008, mas uma parcela muito maior da intermediação financeira passou para fundos, gestores de ativos, private equity, hedge funds e outras instituições não bancárias. Uma corrida por liquidez nesses mercados poderia obrigar vendas simultâneas de ativos, provocando:

Queda dos preços das ações → chamadas de margem para cobrir perdas em operações de alto risco → vendas forçadas de ações → novas quedas dos preços das ações → insolvências de empresas

1.4- A quarte grande ameaça: uma possível correção do boom da inteligência artificial e suas consequências

O investimento relacionado à inteligência artificial está atualmente funcionando como motor positivo da economia mundial, especialmente nos Estados Unidos e em algumas economias asiáticas. Mas ele também criou concentração extraordinária dos investimentos e das expectativas em algumas empresas e setores. Os principais riscos internacionais dizem respeito à correção financeira decorrente de uma reavaliação da rentabilidade futura dos investimentos em Inteligência Artificial. Esta nova tecnologia pode transformar genuinamente a produtividade e, simultaneamente, produzir uma bolha financeira durante sua implantação.

1.5- A quinta grande ameaça: protecionismo e fragmentação da economia mundial e suas consequências

Esse é um dos paralelos mais preocupantes com a crise da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Tarifaço do governo Trump dos Estados Unidos, subsídios industriais, guerras tecnológicas, controles de exportação e políticas de segurança econômica estão reorganizando o comércio internacional. A OCDE registra que a incerteza do comércio internacional continua sendo um obstáculo relevante à economia mundial. A escalada protecionista tende a gerar as consequências seguintes:

Tarifaço → comércio internacional menor → exportações menores → produção menor → aumento do desemprego → novas medidas protecionistas

Foi precisamente esse tipo de mecanismo que contribuiu para aprofundar a Grande Depressão depois de 1929.

2. Como evitar uma nova depressão mundial nas condições atuais [6][12][13][14]

A economia mundial possui hoje mecanismos de defesa que não existiam em 1873 e 1929. Bancos centrais podem fornecer enormes volumes de liquidez. Existem seguros de depósitos. Governos dispõem de estabilizadores automáticos, seguro-desemprego e políticas fiscais anticíclicas. FMI (Fundo Monetário Internacional), Banco Mundial, BIS (Bank for International Settlements), bancos multilaterais e acordos entre bancos centrais oferecem instrumentos adicionais de intervenção. A experiência da grande recessão de 2008–2009 e da pandemia de 2020 demonstrou que intervenções monetárias e fiscais muito rápidas conseguem interromper mecanismos de colapso. Por isso, uma crise semelhante à de 1929 pode ser evitada desde que os governos não repitam os erros dos anos 1930.

Para evitar uma nova depressão da economia mundial nas condições atuais, as políticas econômicas dos países deveriam funcionar em três níveis simultâneos descritos a seguir:

  • Impedir os choques iniciais. Isso significa os governantes dos países buscarem soluções diplomáticas para evitar guerras com impacto sistêmico, proteger as rotas internacionais de energia e alimentos, constituir reservas estratégicas e evitar guerras comerciais entre as grandes potências.
  • Impedir que uma recessão se transforme em depressão. Bancos centrais dos países precisam estar preparados para fornecer liquidez extraordinária ao sistema financeiro, governos nacionais devem permitir atuação dos estabilizadores automáticos e bancos precisam ser recapitalizados rapidamente se surgir uma crise sistêmica.
  • Corrigir antecipadamente as vulnerabilidades estruturais. Os governos dos países precisam reconstruir o espaço fiscal, estabilizar gradualmente a dívida pública, supervisionar instituições financeiras não bancárias, reduzir alavancagem excessiva e controlar riscos associados a mercados especulativos.

Lamentavelmente, nenhuma destas políticas econômicas acima descritas estão sendo adotadas para evitar a depressão econômica mundial. Não está havendo soluções diplomáticas para solucionar os conflitos internacionais, proteger as rotas internacionais de energia e alimentos, constituir reservas estratégicas e evitar guerras comerciais entre as grandes potências. Não existe uma ação dos Bancos Centrais de todos os países do mundo para desenvolverem estratégias coordenadas para impedir que uma recessão se transforme em depressão e corrigir vulnerabilidades estruturais de cada país.

  1. Como proteger o Brasil de uma depressão mundial [14]

Pelo exposto, a depressão econômica mundial deverá ocorrer trazendo impactos negativos sobre o comércio exterior do Brasil, promovendo queda dos preços das commodities, deteriorando a situação financeira e cambial do país e promovendo a redução do investimento privado. O comércio exterior do Brasil será bastante afetado com a depressão da economia mundial. Uma forte contração na economia dos Estados Unidos, China, União Europeia e demais países reduziria a demanda internacional por minério de ferro, petróleo, soja, carnes, celulose e produtos industriais brasileiros. A China, por exemplo, respondeu entre agosto e outubro de 2025 por aproximadamente 29% das exportações brasileiras. A futura depressão econômica mundial levará ao colapso da demanda global fazendo com que petróleo, minérios e diversas commodities agrícolas tendam a sofrer forte desvalorização. Isso reduziria simultaneamente as receitas das empresas exportadoras, a arrecadação tributária, os investimentos e as receitas de estados e municípios produtores de commodities. O efeito depressão econômica mundial sobre o petróleo merece especial atenção porque o próprio Tesouro Nacional considera a variação de seus preços relevante para as receitas públicas brasileiras.

A futura depressão econômica mundial afetaria, também, o setor financeiro e cambial do Brasil porque provocaria inicialmente fuga de capitais do Brasil para ativos considerados seguros em outros países, valorização do dólar e depreciação do real. O Brasil poderia enfrentar queda nos índices da Bolsa de Valores, aumento dos prêmios de risco e maior custo de financiamento externo. As reservas internacionais do Brasil seriam importantes linhas de defesa que são elementos fundamentais da resiliência brasileira. A futura depressão econômica mundial pode levar à redução do investimento privado. Diante da queda da demanda e da incerteza, empresas brasileiras e multinacionais adiariam projetos. Investimentos diretos estrangeiros também poderiam diminuir, especialmente se a depressão for acompanhada de fragmentação geoeconômica. O FMI já identifica tensões comerciais globais como o aumento do risco para investimento e comércio brasileiros. Finalmente, tudo isto faria com que ocorressem os eventos seguintes: 1) queda da produção interna do Brasil; 2) demissões em massa de trabalhadores; 3) redução da massa salarial; 4) queda do consumo interno do país; e, 5) depressão da economia brasileira. Caso esse mecanismo não seja interrompido com a adoção de políticas públicas, poderá surgir uma dinâmica recessiva cumulativa semelhante ao mecanismo descrito por Keynes para grandes depressões.

Em um cenário de recessão global moderadamente severo, o Brasil provavelmente enfrentaria a queda da atividade econômica, o aumento do desemprego e a desvalorização cambial. Em uma verdadeira futura depressão econômica mundial prolongada, porém, os efeitos sobre a economia brasileira poderiam ser devastadores com retração acumulada do PIB, falências empresariais, deterioração das contas públicas, aumento expressivo da relação dívida pública/PIB, queda da arrecadação pública, crescimento da inadimplência das empresas e das famílias, redução dos investimentos privados, aumento da pobreza e forte pressão sobre os sistemas de assistência social. Uma futura depressão econômica mundial associada simultaneamente a guerras, bloqueios comerciais ou rupturas energéticas como a atual poderia gerar uma combinação de muito mais difícil superação ao apresentar baixo crescimento econômico para o Brasil com inflação de alimentos, de combustíveis, de fertilizantes e de insumos importados.

Para evitar este cenário negativo para a economia brasileira, o governo Lula, que espero seja reeleito, deveria adotar as estratégias descritas a seguir: 1) Criar espaço fiscal anticíclico; 2) Elaborar Programa Nacional de Investimentos Anticíclicos; 3) Reconstruir a capacidade industrial brasileira; 4) Investir em ciência, tecnologia e inovação; 5) Ampliar a diversificação das exportações e dos parceiros comerciais do Brasil; 6) Preservar as reservas internacionais do Brasil; 7) Proteger o sistema financeiro nacional; e, 8 ) Construir estabilizadores sociais robustos.

A primeira estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil deveria ser implementada antes da futura depressão econômica mundial com a construção da capacidade fiscal, produtiva, tecnológica e financeira do Brasil e, durante a crise, acionar mecanismos anticíclicos. A primeira prioridade é criar espaço fiscal anticíclico com a estabilização da dívida pública em períodos normais, redução dos gastos tributários pouco eficientes, melhoria da composição do gasto público e preservação do investimento público. Isso permitiria que, diante de uma futura depressão econômica mundial, o governo do Brasil aumentasse temporariamente investimentos e transferências sem provocar crise de confiança na dívida pública.

A segunda estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em estabelecer um verdadeiro Programa Nacional de Investimentos Anticíclicos, com projetos previamente preparados nas áreas de transportes ferroviários, saneamento básico, habitação, energia, telecomunicações, adaptação climática e infraestrutura digital. Se a demanda privada despencasse, esses projetos poderiam ser acelerados imediatamente. O investimento público funcionaria como estabilizador da renda e simultaneamente aumentaria a produtividade futura do Brasil.

A terceira estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em reconstruir a capacidade industrial brasileira. Isso significa não apenas tentar produzir internamente tudo aquilo que atualmente é importado. Significa, também, identificar cadeias estratégicas nas quais uma interrupção externa poderia ameaçar o funcionamento do país como, por exemplo, o suprimento de medicamentos e insumos farmacêuticos, de semicondutores, de máquinas e equipamentos, de fertilizantes, de tecnologias digitais, de equipamentos elétricos, de defesa cibernética e de componentes das cadeias de energia renovável. Uma política industrial seletiva a ser adotada deve ser condicionada ao aumento da produtividade, da inovação, das exportações e das metas tecnológicas, evitando proteção permanente de empresas ineficientes.

A quarta estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em elevar sistematicamente o investimento em ciência, tecnologia e inovação, integrando universidades, institutos públicos de pesquisa e empresas. Uma depressão econômica global acompanhada de fragmentação geopolítica evidenciaria particularmente o custo da dependência de tecnologias estrangeiras.

A quinta estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em ampliar a diversificação das exportações e dos parceiros comerciais do Brasil. O Brasil deveria intensificar sua presença na América do Sul, na União Europeia, na África, na Índia, no Sudeste Asiático, no Oriente Médio e demais mercados, simultaneamente aumentando a parcela de produtos industriais e serviços intensivos em conhecimento nas exportações. A experiência de 2025 mostrou que exportadores brasileiros conseguiram redirecionar parte das vendas afetadas pelas tarifas norte-americanas para outros mercados, demonstrando a utilidade da diversificação.

A sexta estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em preservar as reservas internacionais do Brasil que não devem ser vistas como recursos normais de financiamento do orçamento público porque constituem seguro estratégico contra fuga de capitais e crises cambiais. Os aproximadamente US$ 358 bilhões registrados ao final de 2025 de reservas internacionais representam um dos principais amortecedores brasileiros contra fuga de capitais e crises cambiais.

A sétima estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em proteger o sistema financeiro nacional. Durante uma depressão econômica mundial, Banco Central, Banco do Brasil, Caixa, BNDES e demais instituições financeiras poderiam oferecer liquidez e linhas extraordinárias de crédito para empresas economicamente viáveis, evitando que uma crise temporária de caixa se transforme em onda generalizada de falências de empresas.

A oitava estratégia a ser adotada pelo governo do Brasil consistiria em construir estabilizadores sociais robustos. Seguro-desemprego, transferências de renda focalizadas, alimentação escolar e programas temporários de manutenção do emprego impediriam que uma queda inicial da produção interna do país provoque queda ainda maior do consumo.

Em síntese, a resposta brasileira deveria ser a elaboração pelo governo do Brasil de um “Plano de Defesa Econômica contra a Depressão Econômica Mundial” baseado em seis pilares: 1) estabilidade fiscal e financeira; 2) reservas internacionais; 3) proteção social anticíclica; 4) investimento público; 5) reindustrialização tecnológica; e, 6) diversificação das relações econômicas externas.

Antes da depressão econômica mundial, o objetivo a ser perseguido pelo governo brasileiro consistiria em diminuir a vulnerabilidade econômica do Brasil com a estabilização fiscal, a manutenção das reservas internacionais, a realização de investimentos em infraestrutura, a redução da dependência tecnológica, a diversificação comercial, o fortalecimento industrial e a elaboração de uma carteira de investimentos públicos pronta para execução.

No início da crise de depressão econômica mundial, a prioridade do governo brasileiro mudaria para impedir uma espiral recessiva com o aumento da liquidez bancária, a expansão temporária do crédito público, a proteção da renda dos desempregados, a aceleração de investimentos já preparados, o uso seletivo e temporário da política fiscal e a atuação cambial apenas para evitar disfuncionalidades de mercado.

Durante a depressão prolongada, seria necessário o governo do Brasil elaborar um programa nacional de reconstrução econômica com grandes investimentos produtivos, política industrial e tecnológica, formação profissional, financiamento de longo prazo pelo BNDES e demais bancos de desenvolvimento e aprofundamento das relações econômicas com múltiplos blocos internacionais.

REFERÊNCIAS

  1. GALA, Paulo. 1873: a primeira grande depressão global e o que ela nos ensina sobre bolhas de crédito. Disponível no website <https://www.paulogala.com.br/1873-a-primeira-grande-depressao-global-e-o-que-ela-nos-ensina-sobre-bolhas-de-credito/>.
  2. CASTRO. Lígia Lemos. Crise de 1929: conheça a história da Grande Depressão. Disponível no website <https://www.todamateria.com.br/crise-de-1929/>.
  3. ALCOFORADO, Fernando. O mundo rumo à depressão econômica. Disponível no website <https://www.linkedin.com/pulse/o-mundo-rumo-%C3%A0-depress%C3%A3o-econ%C3%B4mica-fernando-alcoforado/>.
  4. HENRIQUE, Guilherme. Crise de 1929: o que foi, causas, consequências e New Dela. Disponível no website <https://faculdade.grancursosonline.com.br/blog/crise-de-1929/>.

5.      RF1. Economia mundial estará a caminho da terceira crise em vinte anos? Disponível no website <https://www.rfi.fr/pt/programas/convidado/20260710-economia-mundial-estar%C3%A1-a-caminho-da-terceira-crise-em-vinte-anos>.

6.      CARIELLO, Rafael. Salvar a economia na próxima crise pode ser mais difícil, diz autor de livro sobre 1929. Disponível no website <https://www1.folha.uol.com.br/autores/rafael-cariello.shtml>.

7.      KINDLEBERGER, Charles P.; ALIBER, Robert. Manias, Panics, and Crashes: A History of Financial Crises. Palgrave Macmillan.

8.      BERNANKE, Ben S. Essays on the Great Depression. Princeton University Press, 2000.

9.      EICHENGREEN, Barry. Golden Fetters: The Gold Standard and the Great Depression, 1919–1939. Oxford University Press, 1992.

  1. FRIEDMAN, Milton; SCHWARTZ, Anna J. A Monetary History of the United States, 1867–1960. Princeton University Press, 1963.
  2. EICHENGREEN, Barry. Golden Fetters: The Gold Standard and the Great Depression, 1919–1939. Oxford University Press, 1992.
  3. BIS — Bank for International Settlements. Annual Economic Report 2026. Basileia, junho de 2026.
  4. World Economic Outlook Update – July 2026. Washington, 2026.
  5. KEYNES, John Maynard. The General Theory of Employment, Interest and Money. London: Macmillan, 1936.

 

* Fernando Alcoforado, 86, condecorado com a Medalha do Mérito da Engenharia do Sistema CONFEA/CREA, membro da SBPC- Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do IPB- Instituto Politécnico da Bahia, engenheiro pela Escola Politécnica da UFBA e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário (Engenharia, Economia e Administração) e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, foi Assessor do Vice-Presidente de Engenharia e Tecnologia da LIGHT S.A. Electric power distribution company do Rio de Janeiro, Coordenador de Planejamento Estratégico do CEPED- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia, Subsecretário de Energia do Estado da Bahia, Secretário do Planejamento de Salvador, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Encestar Condiciones os Theo Economic ande Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016), A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017),  Esquerda x Direita e a sua convergência (Associação Baiana de Imprensa, Salvador, 2018, em co-autoria), Como inventar o futuro para mudar o mundo (Editora CRV, Curitiba, 2019), A humanidade ameaçada e as estratégias para sua sobrevivência (Editora Dialética, São Paulo, 2021), A escalada da ciência e da tecnologia ao longo da história e sua contribuição ao progresso e à sobrevivência da humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2022), de capítulo do livro Flood Handbook (CRC Press, Boca Raton, Florida, United States, 2022), How to protect human beings from threats to their existence and avoid the extinction of humanity (Generis Publishing, Europe, Republic of Moldova, Chișinău, 2023), A revolução da educação necessária ao Brasil na era contemporânea (Editora CRV, Curitiba, 2023), Como construir um mundo de paz, progresso e felicidade para toda a humanidade (Editora CRV, Curitiba, 2024), How to build a world of peace, progress and happiness for all humanity (Editora CRV, Curitiba, 2024) e Agricultural Revolutions that changed the world in “Research trends in agricultural extension” (AkiNik Publications, 2026).

 

 

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