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Miguel do Rosário

O monstro e o estadista

Nunca na história das Nações Unidas o mundo assistiu a um contraste mais profundo do que entre o discurso de Lula e o de Trump

Publicado em 23/09/2026
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Ali se confrontaram duas visões de mundo antagônicas. O republicano representava a violência, a arrogância, o imperialismo, o desprezo às regras internacionais, o ódio à autonomia dos povos, a ignorância e a vaidade. O brasileiro trazia a cordialidade, a paz, o multilateralismo, a reverência às leis, o amor à soberania global, a cultura, o respeito e a humildade.

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Foram quase cenas bíblicas que certamente marcaram profundamente a audiência. O jornalista Guga Chacra pontuou que esses pronunciamentos não repercutem muito na opinião pública americana e que o New York Times não lhes dá muita atenção. Discordo frontalmente e acho isso uma avaliação tola como se a geopolítica se resumisse ao que é publicado no NY Times. A realidade é outra. Lideranças do planeta inteiro acompanharam as duas falas. A diplomacia global assistiu atentamente.

O que se viu na plenária da ONU foi a materialização de duas propostas excludentes para o futuro da humanidade.

De um lado, o ex-presidente norte-americano subiu à tribuna não para dialogar, mas para ameaçar. Como bem observou o analista político Daniel Davis, do canal Deep Dive, é difícil superestimar o tamanho do dano que Donald Trump causou à estabilidade do sistema internacional. Ao questionar abertamente no púlpito se deveria “aniquilar a República Islâmica” e mandar os iranianos “para o inferno, sem nenhuma chance de sobrevivência”, ele escancarou a mentalidade bélica de Washington. Além disso, ao classificar facções criminosas latino-americanas como o ISIS do hemisfério ocidental e se autoproclamar o único pacificador da Terra, ele reforçou a imagem de um império decadente que só consegue se comunicar através da força e da intimidação.

Trump personificou o “monstro” que o Sul Global tenta conter. Encarnou o nacionalismo predatório que enxerga as negociações como uma ferramenta de submissão. Para o magnata, tratados de paz só têm validade se forem redigidos e ditados por sua própria administração.

Do outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a mesma tribuna para resgatar a própria essência formadora das Nações Unidas. Enquanto o rival político do norte ameaçava aniquilar nações inteiras, o petista reescreveu a clássica máxima do estrategista prussiano Carl von Clausewitz. O militar europeu definiu célebremente que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Lula modernizou o conceito e encontrou uma forma muito mais inteligente e contundente de se expressar ao cravar que a guerra é, na verdade, a “falência total da política”.

Essa visão humanista também joga por terra aquela expressão latina idiota, exaustivamente repetida por entusiastas bélicos: “Si vis pacem, para bellum”, ou seja, “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. A lógica apresentada por Lula inverte esse absurdo histórico. Se queres a paz, faça a paz. Não existe o menor cabimento em promover a guerra sob o pretexto de construir a paz.

O líder brasileiro fez o que as velhas potências evitam fazer e apontou o dedo para a hipocrisia do formato atual. Denunciou de forma corajosa o “pecado original” da ONU, referindo-se ao poder de veto no Conselho de Segurança, mecanismo que confere o privilégio da intransigência a um pequeno clube e permite a continuidade de tragédias humanitárias como o massacre em Gaza promovido pelo governo de Benjamin Netanyahu.

Lula não se curvou. Ao afirmar de maneira emblemática que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, ele não discursava apenas pela sua própria nação. Dava voz a toda uma região e a continentes inteiros que recusam a posição de subordinação. O mandatário focou na necessidade de retirar países do mapa da fome, clamou por ações emergenciais contra as mudanças climáticas e defendeu a regulação urgente das plataformas de tecnologia, temas vitais para o século 21 que a extrema-direita faz questão de ignorar.

A miopia de achar que apenas o público interno dos Estados Unidos tem peso nos dias atuais significa desconhecer as transformações tectônicas em curso. A plateia que importa agora é composta pelos BRICS, pela Liga Árabe, pela União Africana e pela Celac. Estes atores vitais ouviram as duas mensagens com lupa.

Eles viram um homem disposto a incendiar o planeta para satisfazer seu ego inflamado e testemunharam um líder operário, eleito presidente pela terceira vez, oferecendo uma via real de cooperação e sobrevivência coletiva. O abismo ético registrado na 81ª Assembleia Geral deixou uma lição inegável: a civilização já não tolera os monstros e exige, desesperadamente, o retorno dos estadistas.

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