Infelizes os países que não têm projeto. Em 3 de setembro, enquanto os jornais mexericavam sobre a crise do STF, evitando colocar em foco a relação estrutural ente o poder econômico e as instituições, o Senado aprovou ao Projeto de Lei 2780/2024,que cria a chamada Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O presidente Lula tem prazo até 25/9 para sancioná-la. Durante os dois anos em que tramitou, nem a imprensa, nem o governo, nem os partidos políticos fizeram qualquer movimento relevante para debatê-la.

O silêncio afronta a enorme importância que a provável lei tem para o futuro do país. O Brasil concentra a segura maior reserva mundial de terras raras e minerais críticos – elementos cruciais para as tecnologias de ponta do século XXI. Os Estados Unidos desenvolveram – especialmente sob Trump – esforço explícito para apoderar-se delas. A ultradireita brasileira promete de modo explícito, nas declarações de Flávio Bolsonaro, curvar-se à Casa Branca.

Pós-doutoranda pela Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a pesquisadora Edna Aparecida da Silva, produziu, em dez dias, uma análise tão rara quanto profunda. Há muito, Edna está debruçada sobre o tema. Já no início deste ano, quando o tema apenas se insinuava em círculos restritos, ela produziu um estudo alentado, que descrevia o potencial da riqueza brasileira e chamava atenção para os esforços de captura dos Estados Unidos, em especial sob Trump. Pouco depois, entre abril e maio, Outras Palavras publicou, em três partes (1 2 3), um ensaio que ela aventava o risco de o país repetir, em relação a materiais novos e estratégicos, a velha “vocação colonial”.

A última parte do texto fazia referência a uma proposta que tem repercutido de forma crescente entre quem debate alternativas a este destino. Edna defendia a criação da Terrabrás, Esta empresa pública, sustentava ela, não deveria ser vista como um mito, Precisaria ser constituída tanto para evitar a privatização de um bem comum dos brasileiros, ou sua exportação em estado bruto, quanto para estimular seu processamento e a capacitação tecnológica para fazê-lo, além de formular políticas para a riqueza expressa nas jazidas reverta em favor de um novo projeto de desenvolvimento.

No artigo que acaba de finalizar, e que publicamos a seguir, a pesquisadora concentra o foco no projeto recém-aprovado. Ele traz inovações conceituais relevantes. Estabelece a intenção de industrializar as terras raras e os minerais críticos. Fala em capacitação. Cria um Programa Federal de Beneficiamento e Transformação de Minerais Críticos e Estratégicos (PFMCE). Ainda mais importante: institui um Conselho Nacional para a Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), com poderes relevantes. Ele poderá, entre outras medidas, interferir sobre mudanças no controle acionário das empresas responsáveis pela lavra dos minérios e, em especial, bloquear transferências a proprietários estrangeiros.

É algo, mostra Edna. Tanto que a quase-lei tem sofrido críticas de federações empresariais como a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração (ABPM), o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) e a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fieng). Para estas, os dispositivos que regulam a propriedade das jazidas são “estatistas”, bloqueiam a “livre iniciativa” e “atrasam” a exploração dos minérios. As críticas reverberam a velha concepção das elites predatórias, interessadas em oferecer a estrangeiros o que, em outras condições, estimularia o bem-estar coletivo e poderia reverter a reprimarização do país.

Mas Edna também alerta para os limites do projeto recém-aprovado. Dois deles chamam atenção. Primeiro: como tirar do papel os princípios elegantes adotados? Haverá recursos para o “beneficiamento e transformação” dos minerais críticos e para o desenvolvimento de tecnologias necessárias para tanto? De que forma estes objetivos nobres poderão suplantar a barreira do “ajuste fiscal”, que amputa a capacidade de investimento do Estado brasileiro?

O texto mostra: o risco de as boas ideias não saírem do papel é tão grande que, em meio à própria tramitação do projeto, o Brasil perdeu duas importantes reservas de minerais críticos. Única jazida de terras raras em exploração comercial fora da Ásia, a mina de Serra Verde, em Minuaçu, norte de Goiás, foi abocanhada pela USA Rare Earth. O Departamento da Guerra de Washington teve papel central na operação. Também em Goiás, a norte-americana Aclara estabeleceu o Projeto Carina, que extrairá carbonato misto de terras raras e o enviará a um futuro centro de processamento no estado norte-americano de Louisiana.

A segunda brecha do projeto aprovado no Senado deve-se ao modelo de governança do lulismo, que prefere nunca pressionar a institucionalidade conservadora. A lei estabelece o conselho responsável pela execução da política de terras raras – mas quem constituirá este órgão? O texto é vago, mencionando apenas representantes da União, Estados, Municípios, empresas e universidades. Parece algo típico dos arranjos com o Centrão. Caso perdure o arranjo atual entre um governo petista e um Congresso conservador, tende a ser um órgão híbrido. Caso o país venha a ser governado por uma ultradireita trumpista, poderá se converter num instrumento para a entrega da riqueza mineral brasileira.

O texto de Edna é um alento. Em meio a um ambiente político em que temas cruciais são esquecidos, é estimulante saber que a crítica e a formulação de alternativas resistem, em alguns espaços. É a partir destas ilhas de inteligência e defesa de uma soberania popular que poderá se reconstituir um projeto de país.