De pedido de cadeira a projeto de poder
O bloco nasceu na cúpula de Ecaterimburgo, na Rússia, em junho de 2009, para confrontar o G7 e o G20 e exigir maior incidência e representação das economias emergentes nas instituições financeiras internacionais. O G7 reúne Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Japão, França, Itália e Reino Unido, o núcleo que responde historicamente pelo comando dessas instituições.
A comparação entre a primeira declaração e a de Nova Délhi revela diferenças marcadas e uma perspectiva mais ofensiva. O que era reivindicação de voz nos organismos de crédito virou disputa pela governança política e econômica global, com compromisso declarado de maior alcance na paz, na segurança e na cooperação.
O que os três eixos disputam
Os eixos aprovados cobrem a governança política e de segurança, a econômica e financeira e a cooperação sociocultural entre os povos. Na frente econômica está em jogo a influência sobre as instituições que decidem o crédito internacional e o financiamento do desenvolvimento.
O compromisso com paz, segurança e cooperação entre Estados ganha peso num momento de guerras e sanções. O alcance declarado vai além dos governos e alcança as lutas populares contra o imperialismo e o neofascismo.
O resultado prático toca crédito, energia e desenvolvimento, os campos em que as regras globais definem o que cada país pode financiar e construir.
Cúpula sob cerco
Na avaliação de Alarcón, a República Islâmica do Irã estreou como membro pleno sob agressão militar dos Estados Unidos e respondeu com resistência político-militar. O analista também afirma que o Brasil atravessa o processo eleitoral de outubro sob interferência do presidente americano, Donald Trump.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) reforça no mesmo período a assistência militar à Ucrânia. Os preparativos da viagem de Xi Jinping aos Estados Unidos completam o cenário de pressão que cercou os trabalhos.
Ciclos intensos de reuniões preparatórias reuniram delegados de países parceiros, entre eles Vietnã, Nigéria, Uganda, Bielorrússia e Cuba. A base política da cúpula ficou maior que o grupo formal de dez membros.
O teste passa pela China
A China assume a presidência do bloco com a tarefa de conduzir os debates seguintes sobre energia, proteção da natureza e inteligência artificial. São frentes que tocam a soberania energética, ambiental e tecnológica dos dez países.
A declaração de Nova Délhi é um documento de princípios, sem execução automática. A tradução dos três eixos em regras, créditos e instituições é o que resta pela frente.
A disputa com o G7 deixou de ser pedido de representação para virar projeto declarado de poder. O primeiro teste é a agenda de energia, natureza e inteligência artificial que Nova Délhi entregou a Pequim.