
100 anos de Milton Santos, 100 anos de Octávio Ianni
A trajetória cruzada de dois mestres que converteram a derrota política sob o regime militar em uma potente crítica à globalização neoliberal e à desigualdade estrutural
Milton Santos nasceu em 03 de maio de 1926. No mesmo ano, em 13 de outubro, nasceu Octávio Ianni. Santos era filho de professores, daquilo que poderia ser chamado, com todo abuso da hipérbole, de classe média negra baiana no início do século XX. Octávio Ianni, por sua vez, era filho de imigrantes italianos que partiram para o Brasil, como tantos outros, a fim de recomeçar a vida no interior do Sudeste. Ambos, do ponto de vista geográfico-histórico, são filhos de um Brasil em metamorfose nas primeiras décadas do século XX. Suas trajetórias profissionais, partindo dessa premissa, nos permitiriam qualificá-los como intelectuais que são filhos da modernidade brasileira.
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Milton Santos formou-se em 1948, em Direito, na Universidade Federal da Bahia, período no qual a mesma, em função da modernização do que viria a ser hoje a região metropolitana de Salvador, começava a integrar áreas como Geografia urbana ao seu currículo. Ianni foi diplomado um pouco mais tarde, em Ciências Socias, no ano de 1954, na Universidade de São Paulo, uma instituição nascida das disputas e contradições da Revolução de 1930 no quadro político nacional. Os pesquisadores que se tornaram nas décadas seguintes compartilhavam nesse clima de época uma identidade intelectual arquetípica, sempre orientada por um regime de historicidade voltado para o futuro, para a sociedade que o Brasil ensaiava se tornar.
Por isso, em seus primeiros escritos, o passado é, além de problemático, uma reminiscência de um tempo social que lhes é estranho, de uma ordem espacial na qual um neto de escravos e um filho de imigrantes não tinham lugar. Assim, Milton Santos e Octávio Ianni são intérpretes e defensores do Brasil moderno, o ordenaamento social no qual foram formados, com o qual estavam politicamente comprometidos.
Mesmo atuando em Salvador, no caso de Milton Santos, e em São Paulo, no caso de Ianni, estavam atrelados ao mesmo ordenamento social urbano-industrial que carregava em si a promessa de nacionalizar-se. É nas disputas sobre o sentido desse processo social que sua produção intelectual, desde o início, esteve engajada.
Suas atuações como geógrafo e sociólogo são mais do que produtos de uma demanda profissional, pois carregam em si a natureza contenciosa de lutas políticas que fragmentavam a sociedade brasileira em diferentes projetos de país. Isso afetou suas formas de relação com o tempo social, maneiras de elaborar enunciados políticos, de expressar e reproduzir suas ideologias através da sua analítica social. Suas elaborações teórico-histórica estavam orientadas para a busca do futuro, visando um destino político para a sociedade nacional, algo hoje em dia há muito derrotado, porém não esquecido enquanto possibilidade de desenvolvimento social nas mais aguerridas tradições intelectuais do pensamento brasileiro.
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Nem Octávio Ianni, tampouco Milton Santos, encontraram atrás de si, na sua história familiar, uma longa tradição nacional no mundo das ciências sociais e serviços de vocação de pública como a educação. Se o país era jovem na sua época, mais jovem ainda era a forma de organização política republicana e, portanto, estreitas eram as oportunidades institucionais oferecidas aos filhos de imigrantes e de negros que ingressassem no mundo intelectual.
Inexistiam tradições intelectuais consolidadas em comunidades científicas de identidade nítida tal como é hoje com sociólogos, historiadores, economistas, antropólogos, todos organizados em suas hierarquias de ideias, conceitos e objetos. Apenas, na maioria dos casos, reinavam com pretensão nacional, no sudeste e nordeste brasileiros, modismos intelectuais importados da Europa, que ocupavam um lugar ainda maior do que ocupam atualmente.
Esse cenário refletia-se na configuração frágil da intelectualidade brasileira do primeiro quartel do século XX, em sua grande maioria oligárquica de berço e ainda muito afeita a mimese de outros arquétipos teóricos em suas primeiras desventuras e aventuras científicas, ensaiando assim através da crítica histórico-sociológica, ou textos puramente políticos e caricatos, suas primeiras teses acerca da formação social do país, tal como nos ensinou Nelson Werneck Sodré em Orientações do pensamento brasileiro ou, no ainda mais ferino, Ideologia do colonialismo.
Milton Santos e Octávio Ianni foram crianças no país de Alberto Torres, Azevedo Amaral, Oliveira de Lima, Eduardo Prado, Paulo Prado, Pedro Calmon, Manoel Bonfim, Sílvio Romero, Capistrano de Abreu, entre outros mestres e, mais adiante, proclamados pais das Ciências Sociais em nossas terras, de acordo com seus discípulos acadêmicos.
Quando Octávio Ianni e Milton Santos finalmente entraram na faculdade, Francisco José de Oliveira Viana, Capistrano de Abreu e Silvio Romero já eram clássicos reconhecidos nacionalmente, ou nos lugares que se impunham como verticalidades da nossa tão problemática geografia do conhecimento científico brasileiro. E quando se formaram, Sérgio Buarque de Holanda; Caio da Silva Prado Júnior e Gilberto de Mello Freyre, e outros nomes presentes na Coleção Brasiliana ou Documentos Brasileiros já eram as novas leituras obrigatórias aos intelectuais dedicados ao estudo do Brasil, sobretudo daquilo que vinha sendo a modernização econômica, geográfica e política do país.
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É nesse contexto histórico, que os teóricos da realidade política estavam quase sempre concentrados na busca por signos culturais do novo, pelo sentido político da formação social, noutras palavras, por tudo aquilo que a modernidade brasileira fazia dissolver no ar ou solidificava sob a terra com nova fundação.
É este o bloco histórico do Brasil que Milton Santos e Octávio Ianni estão integrados, pois são, por excelência, intelectuais do século XX, mesmo que suas ideias tenham maior longevidade. Membros de uma geração cujo pensamento histórico-social era predominantemente dedicado às questões morfológicas como a organização do poder, da economia, da demografia, do espaço em todas as suas variações. Intelectuais de uma época onde os pensadores do Brasil ainda se voltavam com entusiasmo e fascínio para as particularidades de sua gente.
Por essa razão, o debate sobre a formação e modernização do Brasil contemporâneo teve uma influência fundamental e constante em todas as elaborações teóricas da carreira de Milton Santos e Octávio Ianni. Tal debate, realizado sob forte hegemonia do discurso nacional-desenvolvimentista, imprimiu marcas políticas no pensamento de ambos que não se tornaram evidentes apenas com suas teses sobre a modernização formuladas nas décadas de 1960 e 1970, porém sim estavam discerníveis em suas premissas, objetos, problemas e argumentos gerais, em todos os períodos das suas carreiras acadêmicas.
Os irmãos de Milton Santos e Octávio Ianni, Nailton Santos e Constantino Ianni, eram economistas. Os mentores no mundo acadêmico, Jean Tricart e Florestan Fernandes, eram intelectuais que foram formados ou convergiram para o marxismo a fim de investigar a partir dele a modernização em diferentes espaços. Os seus colegas próximos, como Celso Furtado ou Fernando Henrique Cardoso, também se engajaram em compreender as contradições do capitalismo na periferia.
A influência vinha de todas as direções, pois ser intelectual era dedicar-se a uma interpretação crítica do Brasil, a um projeto de país. Não havia geografia pela geografia, sociologia pela sociologia, história pela história. O paradigma intelectual era a dedicação aos serviços de vocação pública e não ao mercado editorial. Os intelectuais, aparentemente, em sua maioria, ou apenas os mais célebres, defendiam a República, imagine só.
Milton Santos, por essa e outras razões, buscou enfrentar o atraso, na busca por formas de superação do subdesenvolvimento no plano da organização espacial da economia política nacional. Por outro lado, Octávio Ianni, cônscio de que a transformação social não viria sem o enfrentamento das questões de raça e classe, dedicou-se para além da análise socioeconômica ao estudo histórico das configurações políticas na sociedade brasileira. Ambos, veriam os projetos de país com os quais se identificavam serem derrotados na vitória da Ditadura militar.
Regime que consagrou o desenvolvimento econômico politicamente subordinado a estrutura de poder coorporativo organizada a partir dos interesses do capital estrangeiro e a burguesia local resignada covardemente ao papel de associada. Um período na história política nacional que significou uma derrota para todos os intelectuais brasileiros organizados sob ideias políticas críticas, elaboradas em prol da autonomia, igualdade e justiça social. Todos aqueles que, mesmo de matizes ideológicos variados, estavam compromissados com a defesa da República.
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Sob essa derrota histórica, tanto Octávio Ianni como Milton Santos se tornam convictos de que a superação das contradições estruturais subjacentes ao processo de modernização apenas se daria com o enfrentamento do bloco de poder que produzia a subordinação em relação as demandas das economias capitalistas centrais. É a partir dessa consciência que reorganizam as suas trajetórias intelectuais e se dedicam a buscar e defender alternativas de transformação social do país.
A existência da ditadura militar é o elemento estruturante de toda sua produção intelectual a partir de meados dos anos 1960. Caso ela inexistisse, suas contribuições teóricas para a interpretação social do Brasil seriam completamente diferentes. Afinal, sob a ditadura, Milton Santos e Octávio Ianni foram presos, forçados a deixar os seus cargos no ensino superior e a internacionalizar, por alguns anos, as suas carreiras acadêmicas. Trajetórias profissionais que só foram reintegradas ao circuito nacional de maneira mais direta, quando a botina militar deixou de pressionar parte da garganta da República durante a redemocratização.
A maneira como abordam a globalização tem nessa experiência da ditadura militar um elemento estruturante da sua percepção sobre a segunda metade do século XX. Para eles, esse é o período de vitória do imperialismo americano, esgotamento e transformação dos experimentos socialistas que vão sendo reintegrados ao sistema capitalista, avanço do capital sobre gigantescos territórios da economia global onde sua hegemonia não estava assegurada.
A globalização, então, lhes aparece como a metamorfose de um capitalismo revigorado, onde a reorganização das cadeias de produção e consumo é possibilitada pelo avanço sincrônico das finanças e do setor quaternário, consolidado como uma esfera da economia relativamente autônoma por conta da revolução na informática. Suas críticas a globalização nascem como exercícios de leitura das ideologias que vernizam as novas formas do capitalismo no espaço social nacional.
Milton Santos e Octávio Ianni são teóricos sociais da derrota ao mesmo tempo que são filósofos da esperança, sintetizam assim o fardo e a glória de todo intelectual periférico que não caiu na desgraça do cinismo, da vaidade e do ressentimento contra o seu próprio povo.
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As agendas de pesquisa que vão organizar a partir disso são congruentes, porque é o seu objetivo comum refutar o caráter de absoluto progresso do capitalismo neoliberal, pois reconhecem nele uma razão política neocolonial. Assim, porquanto esse último ciclo de internacionalização do capital no século XX, ia tomando forma, ambos se dedicaram a sistematizar modelos de análise do novo bloco histórico que ia se formando. Tanto Ianni e quanto Milton Santos notaram que o espaço social e a forma política eram os elementos centrais para a elaboração das suas respectivas teses.
Contudo, cada um, por conta das suas especializações enquanto sociólogo e geógrafo, enfatizou o peso histórico-político de um elemento específico dentro dessa problemática. Milton Santos centralizou seu esforço de conceituação no espaço, na tipificação das suas variações: horizontalidades, verticalidades, rugosidades e afins. Já Ianni, chamou desde o início a atenção para a forma política da sociedade: sociedade global, sociedade civil mundial, sociedade civil nacional ou província do capitalismo.
Suas reflexões finais, em seus respectivos ensaios de síntese histórico-social, são exercícios de leitura sobre o sentido dessas novas espacialidades. São textos que carregam certa marca de tautologia, não apenas por conta de veemência e ênfase dadas aos argumentos centrais, mais também por conta da poética inescapável que faz o leitor atento notar que no final das suas carreiras Milton Santos e Octávio Ianni retornaram a um mundo que carregava desafios similares ao da sua juventude, um país que via novamente o retorno de velhas questões, como a nacional, que, talvez, nunca tenha de fato se perdido no horizonte político da sociedade, mesmo que os intelectuais progressistas tenham adquirido um temor quase que patológico da síntese de qualquer coisa, de tão fetichizados, enamorados, que se tornaram de variados tipos de nominalismo, que vendem muitíssimo bem no mercado de bens simbólicos.
No sentido contrário desse movimento geracional, Milton Santos e Octávio Ianni voltavam, em sua melhor idade, portanto, para o questionamento e a interpretação sobre o sentido da formação social brasileira, as implicações da sua metamorfose espacial e política para a cidadania, para a agência política dos excluídos, para a superação das contradições que ditavam as brutais formas de desigualdade através das quais o país tratava suas gentes e as posicionava, vulneráveis ´pois violentadas, no mundo.
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A única distinção desse momento, para os seus respectivos pontos de partida lá na primeira metade do Século XX, é que Milton Santos e Octávio Ianni, no início do séc. XXI, já eram idosos. Adoecidos pelo câncer, se tornaram personagens passivos no elenco da História respectivamente em 24 de junho 2001 e 4 de abril de 2004. No funeral de Milton Santos, segundo orientando dele próximo, é dito que Octávio Ianni esteve presente, chegando até mesmo a participar do ato de carregar, por um breve momento, o caixão do geógrafo.
Gesto simples que denunciava um companheirismo e respeito mútuo que existia para além da comunidade teórica, ideológica e política. Um tipo de compromisso que guiou Octávio Ianni, fazendo com que, mesmo já idoso, nunca tenha deixado de estar na Universidade, nunca tenha deixado de prestar seu serviço de vocação pública as gentes que são, em teoria, responsáveis por orientar os rumos da República através da educação, ciência e extensão.
Os últimos livros dele, e de Milton Santos, publicados postumamente possuem títulos que se complementam, pois estão entrelaçados aos dilemas de um mesmo país e ao legado de intelectuais que persistiram nos serviços de vocação pública, enxergando um horizonte de esperança, onde o futuro brilhava como as estrelas numa noite, linda e qualquer, do sertão brasileiro, seja no nordeste ou no sudeste, onde ambos cresceram. Os títulos desses livros são O país distorcido, Pensamento brasileiro e O negro e o socialismo. Fontes de pesquisa, para qualquer interpretação sobre a sociedade brasileira e do destino histórico de seu povo, contraditórios órfãos no paraíso.
Juan Michel Montezuma é doutorando em sociologia na USP.
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