jorge picanço
Jorge Picanço Figueiredo
Geólogo pela UFPA em 1986, PhD em Geologia pela University of Liverpool, UK, 2009, 30 anos na indústria de óleo e gás, dos quais 22 na Petrobrás. 9 anos na academia como professor na graduação e Pós-graduação.

A geologia por trás da descoberta de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas

Está correto dizer que foi descoberto (até o momento, apenas sucesso exploratório) petróleo na Margem Equatorial Brasileira (MEQ), afinal, a Bacia da Foz do Amazonas, onde houve a descoberta, faz parte da MEQ. Porém, há de se tomar cuidado com o noticiário midiático, que tem dado a impressão de que toda a MEQ contém petróleo.

Publicado em 31/08/2026
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Antes de qualquer coisa, é importante ressaltar que os comentários a seguir se baseiam em interpretações de dados públicos (sísmicos 2D e de poços) disponíveis no BDEP/ANP e outros dados públicos disponíveis na web.

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Está correto dizer que foi descoberto (até o momento, apenas sucesso exploratório) petróleo na Margem Equatorial Brasileira (MEQ), afinal, a Bacia da Foz do Amazonas, onde houve a descoberta, faz parte da MEQ. Porém, há de se tomar cuidado com o noticiário midiático, que tem dado a impressão de que toda a MEQ contém petróleo. A MEQ contém 5 bacias sedimentares que apresentam diferenças geológicas consideráveis entre si e, internamente, em cada uma delas. A Bacia da Foz do Amazonas, por exemplo, é dividida (somente a porção de águas profundas) em 3 segmentos diferentes: noroeste, onde ocorreu a descoberta; central (Cone do Amazonas); e sudeste”.

O primeiro esforço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas deu-se a partir do final dos anos 60 do século passado. O primeiro poço foi perfurado em 1971. Antes do poço Morpho, que fez a descoberta anunciada, mais de 70 poços já haviam sido perfurados na bacia. Por que, então, depois de dezenas de poços perfurados sem sucesso e de quase 20 anos sem perfuração, um poço “no meio do nada” descobre petróleo? Para entendermos isso, é necessário compreender a geologia da bacia.

No início da exploração da bacia, o objetivo era a busca por reservatórios carbonáticos de águas rasas do período Paleógeno e de parte do Neógeno (65 Ma e 10 Ma), situados na área chamada “plataforma continental” da bacia, aquela com muito baixa inclinação, localizada entre a linha de costa e a lâmina d’água de cerca de 120 m. A largura da plataforma continental na Bacia da Foz do Amazonas varia entre 100 e 200 km. No tempo presente, como estamos vivendo um momento de nível de mar alto, todos os continentes apresentam plataformas continentais as quais variam de poucas dezenas a mais de uma centena de quilômetros. É nas plataformas continentais que se encontra a maior biodiversidade marinha; portanto, são áreas sensíveis do ponto de vista ambiental, mas já faz vários anos que não se perfuram poços na plataforma continental brasileira. Nos anos 60, 70 e parte dos 80 do século XX, com o início da exploração de petróleo no mar, perfurava-se apenas em plataformas devido às limitações tecnológicas. Muitos campos de petróleo no mundo e no Brasil foram encontrados neste ambiente, porém nenhum na Bacia da Foz do Amazonas, apesar de várias dezenas de poços perfurados.

Nessa mesma época, mais para o final dos anos 70 e início dos anos 80, o foco da exploração da Foz do Amazonas deixou de ser os carbonatos da plataforma continental e passou a ser a busca por reservatórios siliciclásticos (arenitos) no chamado “Cone do Amazonas”, uma feição deposicional que se projeta para além da plataforma e decorre da deposição de sedimentos provenientes do Rio Amazonas. O Cone do Amazonas é uma feição geológica bem recente (entre 10 Ma e o Presente). Algumas dezenas de poços também foram perfurados neste ambiente, alguns em lâmina d’água de cerca de 400 m, no limite entre águas rasas e águas profundas (critério estabelecido pela engenharia), já na porção do talude superior do Cone do Amazonas.

Nesta fase, foi descoberto o campo de gás de Pirapena; porém, quando os poços de extensão foram perfurados, observou-se uma acentuada variação lateral de litofácies, o que demonstrava que aquilo que era uma rocha com razoáveis condições de permeabilidade e porosidade havia se transformado em uma rocha com baixíssimas condições de permeabilidade e porosidade. Desde então, o grande desafio no Cone do Amazonas passou a ser a busca por reservatórios siliciclásticos (arenitos) com boas características pemoporosas.

As atividades exploratórias no Cone do Amazonas cessaram em meados dos anos 80 e só retornaram no início dos anos 2000, já no contexto da quebra do monopólio da Petrobras. Na chamada rodada zero da ANP a Petrobras reteve áreas gigantescas no Cone do Amazonas e chamou empresas para formar parcerias. Dois consórcios foram formados e a Petrobras não foi operadora em nenhum deles. Um consórcio perfurou 3 poços em águas profundas (mais de 1000 m) no Cone do Amazonas e, apesar da detecção de indícios de gás, não houve descoberta efetiva. O outro consórcio perfurou apenas um poço em águas intermediárias, pouco acima de 400 m, e também resultou em poço seco.

Após este novo insucesso, a exploração na bacia cessou novamente. Porém, no início dos anos 2010, ocorreu a primeira descoberta em águas profundas no litoral da Guiana Francesa: o campo “Zaedius”. A análise dos dados sísmicos da época, os quais estão todos públicos do BDEP-ANP sugeria que o contexto geológico do litoral do Amapá era bem semelhante ao do litoral da Guiana Francesa (de acordo com dados mostrados pelas empresas que lá operavam); daí porque, no leilão de blocos da Margem Equatorial de 2013 houve uma grande disputa por blocos naquela área da bacia da Foz do Amazonas. Esta área passou a ser chamada de área noroeste (NW) da bacia e representava uma nova situação geológica até então não testada na bacia. Relembremos: inicialmente, buscaram-se reservatórios carbonáticos na plataforma continental do Paleógeno e em parte do Neógeno (65 a 10 Ma). Depois, buscaram-se reservatórios siliciclásticos do Mio-Plioceno (10 a 3 Ma). Agora, o objetivo passou a ser uma área ainda não explorada da bacia, localizada em águas profundas e ultraprofundas, em um contexto geológico em que os alvos passaram a ser reservatórios turbidíticos (arenitos) do Período Neocretáceo (100 a 65 Ma).

A pergunta que se faz é: o que é diferente nesta área da bacia que levou ao sucesso exploratório? Eu responderia em duas palavras: geradores e reservatórios. Há mais de 100 anos, na região do Lago Maracaibo, na Venezuela, foi descoberta uma rocha geradora de petróleo batizada de “La Luna”. Eram rochas carbonáticas finas e ricas em matéria orgânica (que, de fato, gera petróleo). Com a expansão da exploração de petróleo para leste na Venezuela, observou-se que o “La Luna” não se restringia ao Lago Maracaibo e se estendia muito além, para leste, exibindo uma variação lateral de litofácies que transitava de lamas carbonáticas, ou seja, calcilutitos, para lamas siliciclásticas, ou seja, folhelhos, mas, nos dois casos, sempre rica em matéria orgânica. As recentes descobertas de petróleo nos mares da Guiana, Suriname e Guiana Francesa, estão relacionadas a formações com rochas geradoras cronocorrelatas à Formação La Luna”.

Muda o nome das formações, mas não o contexto geológico. Estas formações têm pelo menos dois intervalos com excelente potencial para geração de petróleo, que se depositaram entre o final dos Andares Albiano (c. 100 Ma) e Turoniano (c. 90 Ma). Muito possivelmente, dado o contexto tectônico da época, os geradores de petróleo equivalentes ao La Luna devem ter sido depositados na porção noroeste do que hoje é a Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. Lembremos que o limite NW da Bacia da Foz do Amazonas é geopolítico, não geológico. Então, podemos dizer que esta porção da Bacia da Foz do Amazonas tem mais afinidades geológicas com as bacias a oeste do que com as a leste, ou seja, com o restante da MEQ. Do ponto de vista da geologia (tectônica) o contexto geológico da margem continental que ia da Venezuela ao litoral norte do Amapá era muito semelhante entre 100 e 90 Ma. Essa foi uma época em que a América do Sul e a África já se haviam separado, mas ainda estavam muito próximas. Havia uma passagem de mar estreita, não um oceano aberto como o de hoje. Daí por que eu coloco todas as minhas fichas para apostar que os geradores do petróleo descoberto no Amapá são rochas cronocorrelatas ao gerador La Luna.

Todavia, como o contexto geológico (tectônico) do intervalo que vai desde o litoral no Pará até o do Rio Grande do Norte era outro, a probabilidade de o La Luna (genericamente falando) se estender mais para leste é menor. Todavia, isso não impede que outros geradores, de outras idades e em outros contextos geológicos, sejam depositados. Neste caso, vale a máxima do método científico “ausência de evidência não é evidência de ausência”.

Outro item que considero fundamental para o sucesso exploratório no setor NW da bacia da Foz do Amazonas, no litoral norte do Amapá, é a presença de rocha-reservatório de boa qualidade, ou seja, com boas características permoporosas. Como se sabe, a partir dos poços já perfurados, o Cone do Amazonas apresenta bastante arenito depositado, mas todos são de grãos muito finos, o que prejudica a porosidade e, principalmente, a permeabilidade. Em suma, NÃO são bons reservatórios para óleo, talvez sirvam para gás.

No segmento noroeste da Bacia da Foz do Amazonas, a paleogeografia do litoral no período Neoretáceo (c. 100 a c. 65 Ma) era completamente diferente da atual. Primeiro, o Rio Amazonas, enquanto rio transcontinental que traz sedimentos lamosos para a bacia, ainda não existia; então, a deposição de sedimentos lamosos, que prejudica muito as condições de porosidade e permeabilidade dos possíveis reservatórios, era muito reduzida quando comparada à do presente.

Segundo, os dados sísmicos públicos (somente 2D) sugerem que o embasamento cristalino, no Neocretáceo na área em discussão, era bem mais soerguido do que no presente. Não existia uma planície litorânea. Os dados mostram que os horizontes sísmicos, que são “proxies” para a interpretação da geometria dos estratos deposicionais, terminam em “onlap” (uma terminação abrupta contra uma superfície pré-existente mais alta) contra o embasamento. Isso sugere que a fonte de sedimentos, qual seja, o embasamento cristalino, descarregava sedimentos por meio de fluxos gravitacionais diretamente na bacia. O resultado foi a deposição de arenitos (rocha-reservatório) sob a forma de turbiditos (rochas depositadas a partir de uma corrente de turbidez, que, por sua vez, é um fluxo gravitacional).

Estes dois elementos do sistema petrolífero eram, até o momento, o calcanhar de Aquiles na Bacia da Foz do Amazonas. Outros elementos, como trapa, condição de soterramento para a geração de uma possível rocha geradora, ou até mesmo exsudação de petróleo no mar por meio de falhas geológicas que vêm à superfície do fundo oceânico, já haviam aparecido em outras áreas da bacia, mas um gerador confiável e um ótimo reservatório ainda não. Agora isso apareceu e então se deu a descoberta no setor NW da bacia, uma área de fronteira perfurada por um poço pioneiro.

Repito o que disse no início deste texto: “está correto dizer que foi descoberto (até o momento, apenas sucesso exploratório) petróleo na Margem Equatorial Brasileira (MEQ), afinal, a Bacia da Foz do Amazonas, onde houve a descoberta, faz parte da MEQ. Porém, há de se tomar cuidado com o noticiário midiático, que tem dado a impressão de que toda a MEQ contém petróleo. A MEQ contém 5 bacias sedimentares que apresentam diferenças geológicas consideráveis entre si e, internamente, em cada uma delas. A Bacia da Foz do Amazonas, por exemplo, é dividida (somente a porção de águas profundas) em 3 segmentos diferentes: noroeste, onde ocorreu a descoberta; central (Cone do Amazonas); e sudeste”.

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Publicado em 24/08/2026

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