
Além da jornada: o fim da escala 6×1
Mais do que trabalhar menos, a oportunidade está em construir uma economia capaz de produzir melhor, com relações de trabalho mais equilibradas e empregos de qualidade.
Apresentada no Congresso no fim de 2019, há quase sete anos, a proposta de redução da jornada de trabalho representa um avanço importante nas relações trabalhistas brasileiras. A PEC aprovada prevê a redução gradual de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial.
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Os benefícios sociais são relevantes, especialmente para trabalhadores de menor renda, que enfrentam jornadas mais longas. Mais tempo para a família, descanso e qualificação profissional significa maior qualidade de vida, com potenciais ganhos de produtividade.
Como a redução da jornada de trabalho afeta cada setor da economia?
Mantido o salário, a redução de 44 para 40 horas eleva em 10% o custo por hora trabalhada. Isso não significa, porém, que os custos totais das empresas aumentarão na mesma proporção. O impacto dependerá do peso da mão de obra, da necessidade de contratações e da capacidade de reorganizar processos.
E aqui está um ponto fundamental: os efeitos serão diferentes entre os setores.
No transporte aéreo, onde cerca de 53% dos trabalhadores atuam na escala 6×1, a operação contínua pode exigir novas equipes e pressionar preços. Em restaurantes e pequenos comércios, a dependência de mão de obra e as margens estreitas elevam os riscos de informalidade. Já nas indústrias mais automatizadas, o menor peso dos salários nos custos e os ganhos de eficiência podem facilitar a adaptação.
A produtividade será decisiva para o sucesso dessa transição
Portugal reduziu a jornada de 44 para 40 horas em 1996. Estudo de pesquisadores da Paris School of Economics — onde fiz meu mestrado em análise de políticas públicas — identificou aumento de 4,4% na produtividade por hora nas empresas afetadas, mas queda de cerca de 4% nas vendas e de 2% no emprego.
O resultado mostra que ganhos de eficiência nem sempre compensam integralmente a redução das horas trabalhadas. Entretanto, empresas que haviam negociado previamente a diminuição da jornada apresentaram resultados mais favoráveis, evidenciando a importância do planejamento.
Outra experiência interessante é a do Chile, que estabeleceu cinco anos para reduzir a jornada de 45 para 40 horas, com conclusão prevista para 2028. A transição gradual e os mecanismos de adaptação oferecem aprendizados relevantes ao Brasil, cujo prazo previsto é significativamente menor.
Esses desafios não diminuem a importância da medida. Pelo contrário, mostram como podemos torná-la mais efetiva.
A redução da jornada pode representar não apenas uma conquista social, mas também uma oportunidade para modernizar processos, estimular investimentos em tecnologia e melhorar a organização do trabalho.
Para isso, será fundamental considerar as diferenças entre setores, oferecer condições de adaptação às pequenas empresas e incentivar ganhos de produtividade, reduzindo os riscos de informalidade e perda de competitividade.
O avanço na qualidade de vida dos trabalhadores é desejável e merece ser valorizado. O desafio agora é garantir que ele seja acompanhado de uma transição economicamente sustentável.
Mais do que trabalhar menos, a oportunidade está em construir uma economia capaz de produzir melhor, com relações de trabalho mais equilibradas e empregos de qualidade.
Mauricio Nakahodo – fundador da MNakahodo Economia e Finanças e mestre em análise de políticas públicas
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