No início do século XX, corporações estadunidenses como a United Fruit Company exerciam controle quase absoluto sobre as nações da América Central. Sob a égide da Doutrina Monroe, ditadores locais entregavam terras férteis, isenções fiscais de cem anos e infraestruturas nacionais em troca de sustentação política. O destino econômico e social dessas populações era decidido nos Estados Unidos.
Cem anos depois, o roteiro desenhado em Caracas, Houston e Washington segue a mesma cartilha extrativista, sendo que agora como uma contraofensiva cirúrgica à expansão da China na América Latina.
Pequim consolidou-se como credora e parceira comercial de diversos países sul-americanos, utilizando investimentos maciços em infraestrutura para ocupar espaços crescentes no antigo “quintal” dos EUA.
A investida agressiva de Trump funciona, portanto, como uma barreira geopolítica: ao abocanhar as maiores reservas de óleo cru do mundo por meio de concessões diretas e controle acionário atrelado ao Pentágono, Washington expulsa a influência asiática de sua zona de segurança hemisférica. Bom para quem?
Essa submissão escancara o trágico ciclo latino-americano de dependência do modelo de exportação de commodities, no qual a região atua como um peão na disputa entre as superpotências. A partir do início das sanções estadunidenses de 2006, a Venezuela se endividou com os chineses, pagando os empréstimos diretamente com barris de petróleo.
Sob o pretexto de estabilizar o país e se livrar da órbita de Pequim e Moscou, o governo interino de Rodríguez repete o erro, apenas mudando o credor. A outorga de concessões diretas a petrolíferas estrangeiras bem relacionadas, sem concorrência transparente ou devido processo licitatório, assemelha-se ao período da antiga ditadura de Juan Vicente Gómez, que satisfazia interesses externos em detrimento do desenvolvimento de uma cadeia produtiva interna.
Reduzir a Venezuela a um protetorado energético estadunidense pode até gerar um alívio econômico artificial de curto prazo devido à injeção de investimentos externos em infraestruturas sucateadas.
Entretanto, a experiência centro-americana nos ensina que a riqueza gerada por esse tipo de enclave colonial nunca irriga a economia real. Ela enriquece oligarquias locais e alimenta os lucros das matrizes estrangeiras. O acordo de Trump não soluciona a crise estrutural venezuelana.