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Marcos de Queiroz Grillo

O trono do dólar na mira do BRICS

Grande maioria dos dólares em circulação no mundo não tem lastro algum

Publicado em 27/06/2024
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No século XIX, a divisão internacional do trabalho, a acentuada mais valia na produção laboral e a elevada concentração de renda permitiram que alguns países experimentassem uma revolução industrial financiada por crédito interbancário internacional.

Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), resultado de disputas expansionistas das economias dominantes, houve uma grande instabilidade mundial, com inflação, desemprego e iliquidez. No período de 1919-1938, os mercados colapsaram, eclodiram crises políticas, surgiram regimes totalitários e intervencionistas e os acordos bilaterais ganharam espaço. No Tratado de Versalhes (1919), foram impostas à Alemanha pesadas compensações aos países aliados que acabaram resultando na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Em 1944, teve lugar a reunião de Bretton Woods, cujo objetivo era evitar uma outra Grande Depressão. Na década de 30, os países se especializaram em exportar desemprego, manipulando sua taxa de câmbio, o que causava uma guerra comercial, redundando em depressão e desemprego em massa. Para diminuir esse problema, todos os países se comprometeram a atrelar suas moedas ao preço do ouro. Isto significou que todas as moedas passaram a ter uma taxa de câmbio fixa em relação a cada uma das outras moedas. Não era a volta do velho padrão-ouro, abandonado na década de 30, no qual os estoques de ouro de um país lastreavam suas moedas. O critério passou a ser a taxa de câmbio e não mais a quantidade de ouro. Outra medida importante proposta em Bretton Woods foi o pacto de equilíbrio comercial, através do qual os países com déficit comercial receberiam empréstimos e aqueles com superávit comercial teriam que importar mais bens das economias deficitárias, evitando-se assim uma outra depressão mundial. Os EUA não aceitaram essa proposta e obtiveram expressivos superávits até que o comércio mundial se restabelecesse no pós-guerra.

A reconstrução do mundo no pós-guerra necessitava de um novo paradigma. Foram criadas instituições supranacionais como o FMI, o BIRD (Banco Mundial), dentre outras, todas vinculadas à ONU. O Banco Mundial ficou encarregado do financiamento da reconstrução e do desenvolvimento, a partir de projetos com impactos macroeconômicos. Ao FMI coube a missão de promover a expansão da liquidez, fazendo empréstimos aos países em dificuldades em seus balanços de pagamentos, em troca de seguirem a cartilha liberal.

O Acordo de Bretton Woods e suas adaptações posteriores duraram um quarto de século, de 1945 a 1970, período em que o mundo alcançou as maiores taxas de crescimento e o mais baixo nível de desemprego em todo o século 20. A era de Bretton Woods terminou de fato quando, em 1971, os EUA decretaram unilateralmente a inconversibilidade do dólar americano em ouro. A taxa de câmbio do dólar contra o ouro passou a flutuar, tendo sido instituída a era das taxas de câmbio flutuantes.

Presentemente, a grande maioria dos dólares em circulação no mundo não tem lastro algum. Em 2023, segundo dados do Tesouro americano, as reservas de ouro depositadas no Fort Knox equivaliam a US$ 270 bilhões, enquanto os dólares em circulação, somados aos depósitos bancários em contas correntes e contas de poupança (M2) atingiram a cifra de US$ 21 trilhões, ou seja, os dólares em circulação superavam em 776% o lastro de ouro existente. É a “moeda fiduciária”. O dólar virou a divisa de referência, de aceitação universal inconteste.

O problema estrutural desse novo mecanismo é o de permitir que o dólar norte-americano seja utilizado como instrumento de pagamento multilateral sem a necessária contrapartida cambial dos EUA. Trilhões de dólares foram injetados na economia mundial sem a existência de uma contrapartida real de bens e serviços capaz de equilibrar adequadamente o Balanço de Pagamentos dos EUA. Passou, então, a existir um significativo volume de moeda norte-americana nos portfólios estrangeiros – como reserva de valor e/ou em posições especulativas longas, que representou uma acumulação, indesejada e não reciclável, de direitos represados de saque contra o Tesouro norte-americano. Com a inexorável especulação em cima do dólar, os Bancos Centrais instituíram novos mecanismos estabelecidos no Acordo de Basiléia (Suíça, 1962) e, em paralelo, foi criado o mercado libor (London interbank oferred rates), que formava taxas de juros para os depósitos em dólares fora dos EUA, arbitrando-as com a taxa de juros preferencial americana – a US prime rate –, o que permitiu a reciclagem dos portfólios mundiais no exterior.

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Os EUA, convencidos de sua hegemonia mundial, continuaram deflagrando sua agenda belicista pós-Vietnã, com ataques ao Afeganistão, Iraque, Síria, dentre outros, implementando seu plano estratégico de assegurar o controle militar de vastas regiões dotadas de recursos fósseis e suas rotas de transporte, reforçando suas Forças Armadas, em linha com os poderosos lobbies de sua indústria armamentista. No entanto, seu plano sofreu severos revezes, o que mostra que sua supremacia militar não é imbatível, tanto a convencional como a nuclear.

A resultante disso foi e continua sendo o fortalecimento do conceito da multipolaridade na economia global e a constatação da decadência das instituições idealizadas em Bretton Woods.

A desmistificação militar, o mau funcionamento da democracia, a derrocada do dólar e a crítica situação econômico-financeira dos EUA, altamente dependente de emissões de dívida, terão desfecho determinante para o planeta. Sem profundas reformas nas instituições mundiais supranacionais, direcionando-as para o crescimento econômico equilibrado dos países, todo o establishment macroeconômico atual estará ameaçado. O abandono dos acordos monetários de Bretton Woods abriu caminho para a era “pós-industrial”, da financeirização e do capitalismo especulativo e parasitário, que nos conduzem para uma era medíocre, de destruição acelerada do planeta.

Na luta pela manutenção de sua hegemonia, os EUA se opõem a qualquer tentativa de destronar o dólar como moeda de referência e liquidez internacional. Isso porque ele passou a ser utilizado como arma política e de pressão, como instrumento para congelar reservas de outros países, instrumento de retaliação, etc. Assim, a palavra de ordem é barrar qualquer alternativa ao dólar.

O sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) é um desses mecanismos. Trata-se de uma cooperativa bancária internacional, criada na Bélgica em 1973, que permite a padronização de informações financeiras e aumento da confiabilidade e segurança das transferências de recursos entre bancos ao redor do mundo. Reúne onze mil instituições financeiras conectadas em mais de 200 países. Na prática, bancos e empresas trocam informações sobre pagamentos que serão realizados e que já foram recebidos (por volta de 45 milhões de mensagens são processadas todos os dias no SWIFT).

O elevado nível de vassalagem aos EUA por grande número de países e bancos internacionais faz com que não seja nada simples a desdolarização propugnada no âmbito dos BRICS. E, certamente, haverá uma forte pressão dos EUA para os países do BRICS manterem o dólar como moeda de referência, principalmente Arábia Saudita, Índia, África do Sul e Brasil.

Contudo, quando se tratam de economias importantes, as sanções não têm sido tão eficazes. A Rússia, por exemplo, apesar de ter tido reservas congeladas e inúmeros de seus bancos terem sido excluídos do sistema SWIFT pela União Europeia, ainda assim, continuou exportando petróleo e gás para diversos clientes internacionais. O comércio internacional entre a Rússia e a China cresceu a partir de transações realizadas na moeda chinesa e garantidas por commodities.

O sucesso de uma cesta de moedas ou de uma moeda alternativa ao dólar é muito complexo do ponto de vista técnico, diante da falta de coesão entre os países e instituições internacionais. Os EUA gozam de um privilégio excepcional pela prerrogativa de emitirem moeda de liquidez internacional, possibilitando a acumulação de passivos monetários que financiam seus déficits fiscal e externo. Cidadãos e governos absorvem passivos monetários dos EUA. Moeda é poder, poder é moeda. A libra reinou por muito tempo. O dólar norte americano reina desde a Segunda Guerra Mundial.

E a reação por parte do Império contra qualquer tentativa de destronar a hegemonia do dólar no mundo será cada vez mais agressiva e violenta. Sanções contra a redução da utilização de dólares nas transações comerciais já estão acontecendo pela administração Biden (TikTok, Huawei, etc.) e aumentarão substancialmente numa eventual e provável administração Trump.

Sergey Yurievich Glazyev, membro do National Financial Council of the Bank of Russia, tem ideias revolucionárias sobre a desdolarização, cuja alternativa seria uma cesta de moedas baseada em ouro e commodities.

Até hoje não houve avanço do NDB (Novo Banco de Desenvolvimento) dos BRICS em relação às propostas de desdolarização. Mas, certamente, o assunto ganhará prioridade em 2025, já com a nova presidência russa no Banco dos BRICS. Note-se, contudo, que todas as sanções dos EUA e da OTAN contra a Rússia (congelamento de 286 bilhões de euros de reservas, etc.) não a inviabilizaram, graças à demanda da China e de outros países por seus produtos.

Contudo, há uma grande preocupação da China com as sanções e congelamentos de reservas do Irã e da Rússia. E isso porque os quase USD um trilhão de dívida norte-americana em mãos de chineses também poderiam sofrer sanções. Por isso, eles já estão reduzindo gradativamente o financiamento dos Twin déficits dos EUA.

Apesar de ainda não existir uma moeda de referência dos BRICS, têm crescido operações comerciais sem a utilização de dólares como moeda de referência. Transações entre Rússia, China, Índia, Irã, dentre outros, estão em pleno desenvolvimento. Os estatutos do NDB terão de ser profundamente modificados já que tudo neles gira em torno do dólar norte-americano, o que inviabiliza a participação do Banco em investimentos desdolarizados.

Uma coisa, porém, é certa. A guerra dos EUA não é contra a Rússia, mas sim, contra a China. É inimaginável que os EUA se arvorem e cometam a sandice de comprar uma briga com uma potência nuclear, militar e hipersônica.

Marcos de Queiroz Grillo - Economista, mestre em Administração pela Copead/Ufrj, pós-graduado em Cinema pelo Instituto Nacional de Cinema/Rio Branco-SP.

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