paulo gala
Paulo Gala
Economista e professor da FGV

Quem vendeu a Vale no fundo do poço?

Os 4 números que fazem de 1997 o pior negócio da história moderna do Brasil

Publicado em 08/10/2026
Compartilhe:

A Vale foi privatizada quando o minério valia pouco. O ciclo virou e o preço disparou. Trocamos uma fonte perene de renda por um alívio fiscal de um ano. Pior negócio na história brasileira moderna.

Em 1997 o Brasil vendeu a Companhia Vale do Rio Doce por algo em torno de 3,3 bilhões de dólares, com o dólar valendo um real.

Hoje a Vale vale por volta de 200 bilhões de dólares.

Eu passei a maior parte da minha vida profissional gerindo carteira, e existe um erro que em mesa de investimento não tem perdão: vender ativo de ciclo no fundo do ciclo. Não é erro de opinião sobre o futuro, é erro de leitura do presente. Todo mundo que trabalha com commodity sabe que preço de minério anda em onda longa, e que o pior momento possível para se desfazer da mina é quando a onda está no vale.

Foi exatamente o que a gente fez.

Receba os destaques do dia por e-mail

Cadastre-se no AEPET Direto para receber os principais conteúdos publicados em nosso site.
Ao clicar em “Cadastrar” você aceita receber nossos e-mails e concorda com a nossa política de privacidade.

Antes de destrinchar, o placar que dá o tamanho do que está em jogo.

Em 1980, a renda per capita do Brasil era de cerca de 11 mil dólares em paridade de poder de compra. A da China era de cerca de mil dólares. A gente era dez vezes mais rico que eles.

Hoje o Brasil está em torno de 20 mil dólares. Quase dobrou em 45 anos.

A China está em 23 mil, 24 mil dólares. Multiplicou por mais de vinte.

Eles passaram a gente por volta de 2020.

E enquanto isso acontecia, a China montava uma estrutura estatal inteira para administrar ativos do Estado, a SASAC, que hoje é a acionista principal de empresas como a COMAC, a fabricante de aviões deles. A gente ia no caminho oposto, liquidando o estoque.

Então hoje eu vou mostrar quatro números. Os quatro juntos explicam por que a venda da Vale não foi só barata: ela foi feita na hora errada, pelo motivo errado, e trocou uma coisa por outra que não se troca.

Número 1: 3,3 bilhões de dólares, com o dólar a um real

Esse é o preço.

A Vale do Rio Doce foi criada em 1942, no governo Getúlio Vargas, junto com a Companhia Siderúrgica Nacional, dentro de uma visão muito clara: o Brasil precisa de empresa nacional para explorar as próprias riquezas, porque é isso que assenta a base da industrialização.

Cinquenta e cinco anos de mina mapeada, ferrovia, porto, engenharia de logística e contrato de exportação foram ao leilão por um valor que hoje não compra uma empresa de tecnologia de porte médio.

E aqui não vale o argumento de que ninguém sabia. O Chile, do outro lado da cordilheira, nunca vendeu a estatal dele. A CODELCO segue sendo a maior exportadora de minérios do país. Em 2017, as exportações minerais responderam por quase 60% de tudo que o Chile exportou. De 2017 para 2018, o preço internacional do cobre subiu, e só isso foi suficiente para o país mais que dobrar a taxa de crescimento, de 1,7% para 3,5% em um ano.

É isso que quer dizer fonte perene de renda: quando o ciclo vira, o país inteiro sente.

Número 2: 200 bilhões de dólares, que é o mesmo ativo hoje

Esse é o outro lado do relógio.

Nos anos 1990 o minério de ferro estava no fundo do poço. Havia um boom de empresas de tecnologia puxando capital para o outro lado, o crescimento mundial era fraco e commodity estava desvalorizada em bloco: minério, petróleo, o pacote inteiro.

Ou seja, o ativo foi precificado no pior ponto da série histórica.

Poucos anos depois o ciclo virou, a China entrou comprando minério em escala e o preço disparou. A empresa que a gente vendeu por 3,3 bilhões passou a valer dezenas e depois centenas de bilhões.

Repare que isso não é sorte do comprador. É o comportamento normal de um ativo de ciclo, e é justamente por isso que país nenhum com projeto de desenvolvimento vende mina em ano ruim.

A Noruega resolveu o mesmo problema por outro caminho. Ela perdeu alguma complexidade produtiva com o petróleo, mas um imposto elevado sobre a exportação neutralizou razoavelmente a doença holandesa e manteve a renda do recurso dentro do país. Vender ou taxar, o princípio é o mesmo: a renda do subsolo é do dono do subsolo.

Número 3: 105 bilhões de dólares por 125 empresas, sob desespero de caixa

Esse é o contexto, e é o número que quase ninguém coloca ao lado dos outros dois.

Entre 1994 e 1998, o Brasil privatizou cerca de 70 empresas federais e 55 estaduais, arrecadando algo em torno de 105 bilhões de dólares. Parece muito dinheiro até você olhar o que estava acontecendo em volta: juro altíssimo, com a Selic chegando a patamares de 45% ao ano, câmbio preso e necessidade urgente de atrair dólar para segurar a paridade.

O país não estava executando uma estratégia de desenvolvimento produtivo. O país estava com um problema de caixa e vendeu o que tinha para fechar o mês.

Gustavo Franco, que foi o rosto intelectual do câmbio daquele período, defendia a lógica com convicção, e é justo dizer que ele nunca escondeu o que estava fazendo. O problema não é a franqueza dele, é a régua: quem vende sob emergência cambial não escolhe preço, aceita o que aparece.

A Coreia do Sul viveu o inverso disso e ficou com a empresa. Em 1968, o Banco Mundial recusou o pedido de empréstimo da POSCO alegando que o país não tinha vantagem comparativa para produzir aço. Nos anos 1960 o mesmo Banco Mundial tinha sugerido que a Coreia se especializasse em arroz. O general Park Chung Hee não ouviu, passou sete anos atrás de financiamento e ergueu a siderúrgica com reparações de guerra e tecnologia japonesas. “Aço é poder nacional”, ele disse no décimo aniversário da POSCO.

Aço é poder nacional. Minério também era.

Número 4: quase 200 bilhões de reais por ano, que é a estatal que ficou

Esse é o número que fecha o argumento, e ele é brasileiro.

A Petrobras não foi vendida. Fernando Henrique tentou, chegou a discutir troca de nome porque “Petrobras” soava nacional demais para o mercado, e não teve capital político para concluir no segundo mandato.

Resultado: em anos recentes, a Petrobras entregou lucro na casa dos 200 bilhões de reais por ano e distribuiu dividendo em volume gigantesco. A mesma decisão de Getúlio, de criar empresa nacional para explorar riqueza nacional, continua pagando dividendo setenta anos depois, e foi ela que permitiu a decisão de furar o pré-sal.

Duas estatais nascidas da mesma cabeça, no mesmo projeto. Uma foi vendida no fundo do ciclo. A outra ficou e virou a maior pagadora de dividendo do país.

Isso é o teste controlado que a história raramente oferece.

O crédito que o outro lado merece

Nem tudo que foi privatizado deveria ter ficado com o Estado, e eu não estou aqui defendendo reestatizar o que já foi vendido.

Estatal ineficiente existe, e existia. A discussão honesta nunca foi privatizar ou não privatizar: é o que, quando e como. A Embraer é o exemplo do outro lado do balcão, uma empresa que estava à beira da falência em 1994, foi vendida, se reestruturou e virou a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo. Ali a privatização funcionou.

O que separa os dois casos é uma coisa só: a Embraer foi vendida quebrada, a Vale foi vendida barata e saudável, no pior ponto do preço do produto dela.

O jargão que ainda sustenta o erro

O adversário aqui não é uma pessoa, é uma frase de mesa de debate: “o Estado não é bom acionista”.

Ela é meia verdade vendida como verdade inteira. Estado é péssimo operador de padaria e é ótimo dono de recurso natural, porque recurso natural não precisa de inovação para render, precisa de dono paciente. É por isso que o Chile ficou com a CODELCO, a Noruega taxou o petróleo e nem o país mais liberal do mundo entrega mina de graça em ano ruim.

A gente aplicou a frase justamente no ativo em que ela não valia.

A resposta

Quem vendeu a Vale no fundo do poço?

Um país que estava sem dólar em caixa, com juro de 45% ao ano, precisando fechar uma conta cambial de curto prazo, e que por isso tratou uma fonte perene de renda como se fosse estoque parado no almoxarifado.

Não foi ideologia. Foi caixa.

E é isso que faz do negócio o pior da nossa história moderna: a gente não perdeu uma discussão sobre o papel do Estado. A gente perdeu a mina, no ano em que ela valia menos, para pagar uma conta de doze meses.

P.S.: “Mas Paulo, o Estado ia tocar a Vale tão bem quanto a iniciativa privada tocou?”

Não ia, e essa nem é a pergunta. Dono de mina não precisa tocar a mina, precisa ficar com a renda dela. Chile e Noruega resolveram isso de dois jeitos diferentes e chegaram ao mesmo lugar. Se você quer aprender a separar o ativo que o país tem que operar do ativo que o país só tem que possuir, criei um curso gratuito de 10 dias, A Lente da Complexidade:

http://leiaobrasilcerto.com

Abraços,

Paulo Gala - Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10.000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3.000.000.000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.

Fonte(s) / Referência(s):

guest
0 Comentários
Mais votado
Mais recente Mais antigo
Feedbacks Inline
Ver todos os comentários

Gostou do conteúdo?

Clique aqui para receber matérias e artigos da AEPET em primeira mão pelo Telegram.

Mais artigos de Paulo Gala

Receba os destaques do dia por e-mail

Cadastre-se no AEPET Direto para receber os principais conteúdos publicados em nosso site.

Ao clicar em “Cadastrar” você aceita receber nossos e-mails e concorda com a nossa política de privacidade.

0
Gostaríamos de saber a sua opinião... Comente!x