Marcio Pochmann
Marcio Pochmann

Reconectar o trabalho, renovar a política

A esquerda perde quando trata insatisfação como ingratidão ou desinformação; reconhecer aspirações legítimas de autonomia e mobilidade, sem abrir mão de direitos e proteção, é condição para disputar o novo sujeito social contra o autoritarismo

Publicado em 14/10/2026
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A classe trabalhadora não desapareceu. Mudou de lugar, de ocupação e de linguagem. Está nas fábricas, mas também nos serviços, no comércio, na logística, no trabalho de cuidados, nas plataformas digitais e no empreendedorismo por necessidade. O desafio da política democrática é compreender essa transformação e reconstruir formas de organização capazes de converter experiências dispersas em um projeto coletivo de futuro.

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A passagem da sociedade industrial para uma sociedade de serviços hiperconectada, financeirizada e digitalizada alterou as relações de trabalho, as identidades coletivas e as possibilidades de mobilização. O trabalhador industrial deixou de ocupar sozinho o centro da experiência social, enquanto sindicatos, partidos e associações enfrentam dificuldades para representar uma população cada vez mais heterogênea.

O novo sujeito social que emerge não nasce pronto, nem resulta automaticamente de uma posição comum na economia (Pochmann, 2026). Ele se constitui historicamente, a partir de experiências, conflitos, valores e formas de organização. Como demonstrou Edward P. Thompson, uma classe não é apenas uma categoria econômica, também uma construção social e política. Ricardo Antunes (2018), por sua vez, mostra que a expansão do trabalho digital não elimina a exploração, mas reorganiza suas formas, combinando discursos de autonomia com insegurança e subordinação. Da mesma forma, a inserção na globalização transformou a divisão internacional do trabalho e as oportunidades de emprego.

A questão contemporânea é que a sociedade está cada vez mais conectada, mas não necessariamente organizada. Pessoas submetidas a inseguranças semelhantes podem compartilhar indignações nas redes, participar de mobilizações e expressar desconfiança das instituições sem construir um projeto coletivo duradouro. O ressentimento pode aproximar indivíduos isolados, mas também pode ser explorado por lideranças autoritárias que identificam inimigos e prometem restaurar uma ordem idealizada.

O que está em disputa não é apenas a representação de uma classe que mudou, mas a formação de um sujeito coletivo capaz de transformar insatisfações individuais em solidariedade, organização e poder democrático.

A autonomia desejada e a insegurança vivida

Uma parte da esquerda ainda interpreta as novas formas de trabalho apenas como desvios de um modelo de emprego formal que deveria voltar a predominar. Ao ridicularizar quem se apresenta como empreendedor, trabalhador por conta própria ou “CEO de MEI”, corre o risco de desprezar aspirações legítimas de autonomia, reconhecimento e mobilidade social.

O desejo de melhorar de vida não significa, por si só, adesão ao neoliberalismo. A pesquisa qualitativa da Fundação Perseu Abramo (2017) sobre as periferias de São Paulo identificou a convivência entre a valorização do esforço individual, a expectativa de ascensão pelo empreendedorismo e a importância atribuída à estabilidade, aos direitos e à proteção pública.

Essa discussão reaparece na análise da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado sobre os sonhos do novo trabalhador, apresentada por Tavares (2026). A aspiração de empreender pode expressar o desejo de escapar de empregos mal remunerados, de chefias autoritárias e de trajetórias profissionais bloqueadas. Mas a autonomia prometida pode conviver com jornadas extensas, renda instável, endividamento e ausência de proteção.

O desafio não é escolher entre liberdade e segurança. É garantir que a autonomia não seja sinônimo de abandono. Isso exige ampliar direitos sociais independentemente da forma de contratação, fortalecer a proteção previdenciária, assegurar condições dignas de trabalho e abrir oportunidades reais de mobilidade. A política democrática precisa reconhecer as aspirações individuais sem aceitar que a responsabilidade por todos os riscos recaia exclusivamente sobre cada trabalhador.

A transformação do mundo do trabalho também desafia as formas tradicionais de representação. O trabalhador de aplicativo, a cuidadora, o técnico terceirizado, o funcionário do comércio e o pequeno empreendedor podem não se reconhecer numa mesma identidade política. Ainda assim, compartilham preocupações com renda, moradia, transporte, dívidas, serviços públicos e perspectivas para os filhos. O pertencimento coletivo precisa ser construído a partir dessas experiências, e não pressuposto de antemão.

Quando os indicadores não são suficientes para o convencimento

A distância entre os resultados econômicos e a percepção cotidiana constitui outro desafio. Em Paradoxos do lulismo, Carvalho e Klein Martins (2026) analisam a desconexão entre indicadores macroeconômicos e a avaliação que parte da população faz da economia durante o governo Lula. A melhora de determinados indicadores não se converte automaticamente em sensação de bem-estar. O custo de vida, o preço dos alimentos, a moradia, o endividamento e as expectativas frustradas influenciam diretamente a experiência das famílias.

Da mesma forma, o papel das redes sociais na criação de desejos de consumo contribui, muitas vezes, para que avancem mais rapidamente do que a renda permite. A comparação permanente com estilos de vida idealizados amplia a sensação de distância entre o que se tem e aquilo que se considera necessário para viver bem. Mesmo quando a economia melhora, a percepção de insuficiência pode persistir.

Isso não significa que a percepção popular seja irracional nem que os resultados econômicos sejam irrelevantes. Significa que a avaliação política não é uma simples tradução dos indicadores nacionais. O crescimento do emprego e da renda pode coexistir com a sensação de que a vida continua difícil, especialmente quando as despesas essenciais absorvem os ganhos ou quando as expectativas de mobilidade não se realizam.

Ribeiro e Israel (2016), ao examinarem classes, mobilidade social e voto no Brasil, ajudam a compreender por que a posição econômica não determina mecanicamente a escolha eleitoral. As experiências de ascensão, o temor de perder conquistas e as expectativas de futuro influenciam a interpretação da política. De modo semelhante, Westheuser e Lux (2024), ao estudar consciência de classe e comportamento eleitoral na Alemanha, mostram a importância de investigar como as pessoas interpretam sua posição social e a transformam – ou não – em identidade política.

A resposta, portanto, não pode se limitar a comunicar melhor os resultados do governo. É preciso que as mudanças sejam percebidas no cotidiano como no transporte acessível, moradia digna, serviços públicos de qualidade, crédito menos oneroso, oportunidades educacionais e segurança material. Uma política que não dialoga com a experiência concreta da população abre espaço para que outros atores interpretem suas frustrações.

A insegurança também tem uma política

A extrema direita não avança apenas pela desinformação ou pelo preconceito, embora ambos sejam relevantes. Também cresce quando transforma inseguranças reais em ressentimento, atribui dificuldades a grupos apresentados como inimigos e promete restaurar uma ordem idealizada pela força de uma liderança.

Katherine Cramer (2016), ao estudar o ressentimento na política rural dos Estados Unidos, mostra como sentimentos de abandono e desvalorização podem alimentar a percepção de que determinados grupos não recebem o reconhecimento que merecem.

Norris e Inglehart (2019) analisam a reação cultural que contribui para o populismo autoritário, enquanto Mudde (2019) examina as características da extrema direita contemporânea. Wodak (2021) investiga como discursos baseados no medo e na exclusão se normalizam no debate público. Embora partam de perspectivas diferentes, essas obras ajudam a entender como insegurança, identidade, ressentimento e autoritarismo podem se combinar.

O fenômeno é internacional. Nas eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2024, Donald Trump obteve mais dos votos entre eleitores sem diploma universitário do que Kamala Harris que venceu entre os eleitores com diploma universitário. Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ), de direita radical, terminou em primeiro lugar nas eleições parlamentares de 2024, com quase 30% dos votos.

Esses resultados não autorizam reduzir o voto a uma única causa nem supor que todos os trabalhadores compartilhem as mesmas preferências políticas. Revelam, contudo, que a disputa pelo sentido das mudanças sociais ultrapassa as fronteiras brasileiras. A extrema direita consegue, em diferentes contextos, articular desconfiança das instituições, conflitos culturais e promessas de pertencimento.

No Brasil, o Panorama Político 2024, do Instituto de Pesquisa DataSenado, registrou uma parcela expressiva da população sem identificação com esquerda, direita ou centro (BRASIL, 2024). Essa distância em relação às classificações tradicionais não deve ser interpretada automaticamente como apatia ou conservadorismo. Pode expressar desconfiança dos partidos, rejeição à polarização ou procura por respostas que as identidades políticas existentes não conseguem oferecer.

A esquerda perde quando interpreta toda insatisfação como ingratidão, desinformação ou incapacidade de reconhecer avanços. Perde também quando transforma em adversário quem expressa aspirações diferentes das suas. É possível valorizar direitos sociais, desejar empreender, defender a família, desconfiar dos partidos e rejeitar a precariedade ao mesmo tempo. A política precisa compreender essas contradições para disputar seus significados.

As plataformas não são neutras

A disputa ocorre num ambiente de comunicação radicalmente transformado. As plataformas digitais não são simples canais por onde circulam opiniões previamente formadas. Seus modelos de negócio, algoritmos, regras de moderação e mecanismos de distribuição influenciam quais mensagens ganham visibilidade e como as pessoas se informam e se mobilizam. Klinger, Kreiss e Mutsvairo (2023) mostram a importância de analisar conjuntamente plataformas, poder e política, considerando os interesses econômicos e os contextos sociais em que essas tecnologias operam.

Manuel Castells (1999) já apontava a centralidade das redes na sociedade contemporânea. Zeynep Tufekci (2017), ao analisar os protestos organizados em ambientes digitais, mostra que a conectividade pode facilitar mobilizações rápidas, mas não garante, por si só, capacidade organizativa duradoura. Reunir pessoas em torno de uma indignação é diferente de construir organizações capazes de negociar, formar lideranças e sustentar transformações institucionais.

A extrema direita aprendeu a explorar o ambiente digital para combinar mensagens simples, inimigos identificáveis, apelos emocionais e comunidades de pertencimento. A resposta democrática não pode se limitar a publicar mais conteúdo ou imitar a linguagem das redes. Precisa compreender como a comunicação digital reorganiza a atenção, a confiança e a própria experiência da vida pública.

É nesse ponto que a reflexão sobre o novo sujeito social ganha importância política. A conexão digital pode aproximar pessoas antes isoladas, mas também pode mantê-las em comunidades de ressentimento, sem um horizonte comum de transformação. A tarefa democrática é criar mediações entre a experiência individual, a mobilização em rede e a organização coletiva.

Transformar insegurança em solidariedade

Uma política democrática renovada precisa começar por uma agenda material reconhecível. A primeira prioridade é ampliar a proteção social para além do emprego formal, com garantias previdenciárias, proteção contra acidentes, segurança de renda e mecanismos de negociação coletiva. A segunda é enfrentar o endividamento e o custo de vida, articulando políticas de crédito, moradia, transporte, alimentação e serviços públicos. A terceira é garantir formação profissional ao longo da vida, para que as transformações tecnológicas não condenem parcelas da população à insegurança permanente.

A quarta prioridade é reconstruir os vínculos coletivos. Isso significa atualizar a representação sindical, fortalecer associações comunitárias, criar espaços de participação para trabalhadores de plataformas e aproximar partidos das experiências reais da população. É necessário construir presença nos bairros, nos locais de trabalho, nas redes digitais e nos espaços cotidianos de convivência. A organização política deve acompanhar as mudanças da sociedade, em vez de exigir que a sociedade se adapte a estruturas concebidas para outra época.

A quinta prioridade é defender as instituições democráticas e, ao mesmo tempo, torná-las capazes de responder às necessidades concretas da população. Levitsky e Ziblatt (2018) mostram como as democracias podem se deteriorar quando lideranças enfraquecem normas, deslegitimam adversários e corroem mecanismos de controle do poder. Mas defender a democracia não pode significar apenas preservar as instituições existentes: requer ampliar a participação, combater desigualdades e demonstrar que a vida democrática oferece caminhos reais de mudança.

Também precisamos de estatísticas oficiais e pesquisas sociais capazes de revelar quem está ficando para trás, como se transformam as condições de trabalho e quais expectativas mobilizam diferentes grupos. Sem conhecimento da realidade, a política corre o risco de confundir impressões com tendências, estereótipos com experiências e discursos de lideranças com as aspirações da população.

A tarefa histórica não é restaurar idealmente o antigo mundo industrial, nem aceitar a fragmentação contemporânea como destino inevitável. É contribuir para que pessoas que trabalham de maneiras diferentes possam reconhecer problemas comuns, construir objetivos compartilhados e organizar uma alternativa democrática. O novo sujeito social não está pronto, esperando ser representado: é uma possibilidade em disputa.

A extrema direita transforma insegurança em hostilidade e pertencimento em exclusão. Uma política democrática renovada precisa fazer o movimento contrário: transformar insatisfação em solidariedade, conexão em organização e autonomia em direito. O desafio não é apenas recuperar a representação dos trabalhadores, mas criar condições para que a sociedade hiperconectada se reconheça como capaz de agir coletivamente e disputar seu próprio futuro.

Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Referências

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CARVALHO, Laura; KLEIN MARTINS, Guilherme. Paradoxos do lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia. São Paulo: MADE-USP, 2026. (Working Paper, 40).

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CRAMER, Katherine J. The politics of resentment: rural consciousness in Wisconsin and the rise of Scott Walker. Chicago: University of Chicago Press, 2016.

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KLINGER, Ulrike; KREISS, Daniel; MUTSVA IRO, Bruce. Platforms, power, and politics: a model for an ever-changing field. Political Communication Report, n. 27, 2023.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

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POCHMANN, Marcio. Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil. Campinas: Ed. Unicamp, 2026.

RIBEIRO, Carlos Antonio Costa; ISRAEL, Vinicius Pinheiro. Voto assimétrico, classes e mobilidade social no Brasil. Tempo Social, São Paulo, v. 28, n. 2, p. 105–130, 2016.

STANDING, Guy. The precariat: the new dangerous class. London: Bloomsbury Academic, 2011.

TAVARES, Vitor. Esquerda que ri de “CEO de MEI” não entende os sonhos do novo trabalhador, diz antropóloga. BBC News Brasil, 2 out. 2026.

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TUF EKCI, Zeynep. Twitter and tear gas: the power and fragility of networked protest. New Haven: Yale University Press, 2017.

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WODAK, Ruth. The politics of fear: the shameless normalization of far-right discourse. London: SAGE, 2021.

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