
Teria sido o Banco Master concebido com a principal finalidade de lavagem de dinheiro?
Não seria apenas lavagem de dinheiro do crime organizado, mas principalmente lavagem de dinheiro de corrupção nos Três Poderes
A tese de um banco reestruturado para ser o cofre e a lavanderia das cúpulas políticas e do funcionalismo público de alto escalão e de todas as instâncias.
Não foi uma “quebra”. Não foi “insolvência”. Não foi o tipo de colapso clássico que nasce da má gestão e morre pela inadimplência.
A tese que circula nos bastidores — defendida por gente que diz conhecer o subsolo do mercado — é mais perturbadora: o Banco Master - após compra do Banco Máximo , teria sido concebido para não ser um banco normal. Teria sido projetado para ser um equipamento de Estado paralelo, um duto profissional para transformar dinheiro ilícito em dinheiro formal.
Um lugar onde propina vira investimento. Onde dinheiro vivo vira “lucro”. Onde corrupção ganha CPF, CNPJ, imposto recolhido e certidão de nascimento.
A pergunta, então, muda de natureza. Não é “por que o banco quebrou?”. É: por que ele foi liquidado? E a resposta, nessa narrativa, é direta: porque a fraude contábil foi detectada e o circuito foi travado. O banco não teria falido: teria sido asfixiado.
Na leitura oficial, bancos entram em crise porque faltam ativos, aumenta o risco, some a liquidez, o mercado fecha a porta.
Na tese alternativa, o Master teria vivido outra lógica: ele rodava “em dia” enquanto o circuito do dinheiro rodava. Não havia “pânico” por default porque o combustível entrava regularmente. O dinheiro passava pela tesouraria e sustentava o teatro.
O que derruba o sistema, nessa versão, não é a inadimplência típica. É a interrupção do fluxo.
Quando a engrenagem é travada — por intervenção, investigação, bloqueio ou liquidação — o banco não “quebra”: ele perde o oxigênio. Porque sua mercadoria real não era crédito. Era a circulação do ilícito.
A verdadeira clientela: não o investidor, mas o intocável
A tese central é que o Master teria sido estruturado para atender uma clientela específica: políticos, altos funcionários públicos e operadores institucionais — gente que precisa de duas coisas ao mesmo tempo: dinheiro “limpo” e proteção. E por fim acabou atendendo ao Tráfico, que hoje, como vemos nas reportagens policiais, se infiltrou enormemente no aparato estatal.
Não seria apenas lavagem de dinheiro do crime organizado. Seria também — e principalmente — lavagem de dinheiro de corrupção nos Três Poderes: pagamento de propina, compra de sentenças, compra de pareceres, compra de laudos, compra de relatórios técnicos, e também de votos em decisões políticas no legislativo e executivo. O dinheiro do “acerto” não pode aparecer como “acerto”. Precisa surgir como “negócio”.
O circuito não se sustentaria sem porteiros.
Na tese, haveria um “anel” de relação com presidentes de partidos e figuras de comando político — não como detalhe social, mas como infraestrutura de estabilidade: abrir portas, reduzir ruído, garantir blindagem informal, sinalizar proteção, bloquear risco. Não é “amizade”. É governança.
O segredo do teatro: o custo da lavanderia bancando o CDB
Segundo relatos associados à tese, o custo cobrado para lavar (para “esquentar” e/ou “esfriar”) seria alto — na casa de 15% a 25% do montante — e é exatamente esse custo que explicaria a engrenagem funcionar sem “romper” no curto prazo.
A tese diz o seguinte, sem rodeio: os juros altos pagos ao investidor comum não seriam ‘estratégia comercial’ — seriam a antecipação do lucro futuro da lavagem.
O investidor comum entraria como peça necessária para dar liquidez, capilaridade e aparência normal ao sistema. O juro “astronômico” seria pago com o próprio dinheiro do circuito, com a comissão embutida e diluída ao longo de meses dentro de planos de negócio e estruturas que, isoladamente, parecem legítimas.
O investidor não seria “o cliente”. Seria o figurante que dá escala e disfarce para o palco.
O “esquenta” industrial via fundos: certidão de nascimento para dinheiro sujo
O coração do mecanismo, nessa tese, não seria uma operação única. Seria uma cadeia.
Dinheiro ilícito precisa de origem lícita. E a forma mais eficiente de produzir “origem” é criar camadas de operações com carimbo. Fundos múltiplos. Veículos. Registros. Auditorias. Relatórios. Instituições que, ao tocarem o dinheiro, entregam “respeitabilidade formal”.
Empresas de fachada e negócios ‘zumbis’
O dinheiro entraria em fundos e estruturas que aportariam em empreendimentos que, no mundo real, fazem pouco sentido: resorts monumentais erguidos por pequenos empreendedores sem histórico, projetos grandes demais para quem os apresenta, negócios fadados ao insucesso. Fundos que darão prejuízos.
E aqui está a inversão perversa: o fracasso não seria defeito — seria função.
Porque o objetivo não é retorno econômico real. É circulação documentada. O dinheiro gira, paga fornecedores, paga “consultorias”, paga intermediários — muitas vezes os próprios operadores do circuito — e volta ao “investidor” com aparência de “resultado”, com imposto recolhido e narrativa pronta: “foi investimento”.
Repatriação e impostos
Ao recolher impostos e gerar trilha, o operador compra o que dinheiro vivo nunca compra: paz jurídica e normalidade. Dinheiro que nasceu clandestino termina pronto para consumo ostensivo.
Integração por participações societárias: quando a propina vira ‘capital’
A integração não precisa terminar em obra ou resort. Pode terminar em sociedade. Na tese, parte do dinheiro “lavado” seria integrado por meio de participações societárias e investimentos em empresas ligadas, direta ou indiretamente, a corruptos, operadores e beneficiários.
É o golpe perfeito de narrativa:
• não é pagamento, é “aporte”;
• não é propina, é “investimento”;
• não é saque, é “distribuição de lucro”;
• não é enriquecimento ilícito, é “resultado empresarial”.
Quando a propina vira participação, ela vira história.
Sentenças, pareceres e ‘honorários’: a indústria do papel
A tese aponta que o duto final do dinheiro “formalizado” passaria por rubricas que dão verniz de legalidade:
• pagamentos vultosos a escritórios advocatícios,
• contratos de consultoria,
• pareceres técnicos, jurídicos e econômicos “sob encomenda”,
• relatórios e manifestações com preço de ouro,
• Patrocínios vultuosos a eventos jurídicos, políticos ou corportativos.
O ponto não é negar que exista papel assinado. O ponto é que, nesse modelo, o papel é o produto. A realidade vira detalhe.
Relatos de bastidor afirmam que, em um ano, o Master teria pago cerca de R$ 500 milhões em honorários advocatícios — não como “custo jurídico normal”, mas como mecanismo de drenagem e distribuição.
O banco como cofre logístico: aviões, mansões, bilhões fora
No topo da cadeia, a tese descreve o destino final: o dinheiro já “legalizado” vira ativo real.
• aviões de dezenas de milhões,
• casas de praia de centenas de milhões,
• bilhões mantidos no exterior,
• patrimônio protegido antes do colapso.
O banco, nessa lógica, não é para durar eternamente. Ele é para processar.
E, quando o processamento termina (ou é travado), a instituição pode ser descartável — porque o produto já saiu.
Festas, luxo e kompromat: captação de clientes e blindagem por vulnerabilidade
A parte mais incômoda — e a mais típica de governança clandestina — é luxúria como moeda não somente para capitação de clientes.
Na tese, as grandes festas não seriam “excesso”. Seriam ferramenta.
• Para confraternizar corruptos e corruptores,
• para aproximar facções e fornecedores,
• para permitir que negociem fora dos ambientes vigiados,
• para combinar tarifas, prazos, comissões e rotas,
• e para produzir o elemento mais valioso de todos: vulnerabilidade registrada.
A lógica do “kompromat” não é moral. É operacional: quem tem poder estatal e entra no ambiente comprometedor vira refém e escudo ao mesmo tempo. Ajuda a mitigar risco legal, trava investigações, influencia decisões, garante silêncio.
E os eventos “patrocinados”, nessa leitura, não seriam publicidade: seriam sala de reunião disfarçada, onde negócios se acertam entre vinho caro, comida de chef, música, luxo e — por que não — prostitutas “dignas de capa internacional”.
A liquidação como quebra do circuito
Na tese, o Master não foi liquidado por insolvência clássica. Foi liquidado por fraude contábil.
E, com isso, o circuito que sustentava a liquidez foi quebrado.
O banco parecia “em dia” porque o fluxo entrava.
O fluxo entrava porque a engrenagem lavava.
A engrenagem lavava porque precisava girar.
Quando girar ficou impossível, o teatro desabou.
E é por isso que, nessa narrativa, a urgência em “reabrir”, “proteger”, “salvar”, “reativar” não teria relação com o mercado — mas com o desespero de quem precisa que bilhões ainda em trânsito terminem de ser legalizados e cheguem aos seus donos finais.
O mapa da mina: não é um nome, é o cruzamento
Se essa tese tiver qualquer aderência, a rota para o núcleo não está em uma confissão. Está no cruzamento:
• quem são os investidores “que nunca reclamam”,
• quem são os prestadores recorrentes e seus sócios reais,
• quem aparece nos aportes de projetos deficitários,
• quem lucra em contratos e patrocínios,
• quem recebe por “consultoria” e “serviço” em sequência,
• quem compra participações e depois “realiza lucro”.
Porque, no fim, a pergunta decisiva não é “qual foi a fraude?”. É: quem precisava que a máquina continuasse girando.
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