Por isso, os Estados Unidos têm apostado em mudanças eleitorais em 2026 para que seu grupo cresça. O novo presidente da Colômbia, Abelardo da Espriella, fez da adesão ao Escudo das Américas prioridade imediata assim que tomou posse. No mesmo passo, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro já sinalizou que, caso vença as eleições em outubro, o Brasil também se tornará membro.
As alianças globais de Trump
Como já sabemos, Donald Trump gosta de lançar iniciativas, grupos, eventos e convenções, conferindo nomes próprios a cada um deles. Trump criou o “Conselho da Paz” (Board of Peace em inglês) por despeito à Organização das Nações Unidas, a ONU, cuja definição de paz difere das intervenções militantes dos Estados Unidos em regiões como a Palestina e o Irã.
De fato, o objetivo central do conselho seria a reconstrução de Gaza, já que o negacionismo do governo estadunidense declarou que não há mais guerra “em ou à Gaza”. Mas a estrutura que Trump montou e os convites específicos que fez para assentos ao Conselho da Paz indicam um propósito a longo prazo de reorganização de alianças.
Trump pretende ser presidente vitalício do conselho e exigiu o montante de $1 bilhão em pagamentos à instituição no primeiro ano, caso um país queira permanecer membro por três anos ou mais.
Entre os países e governantes que aceitaram ser membros iniciais do Conselho estão: Javier Milei (Argentina), Alyaksandr Lukashenka (Belarrúsia), Abdel Fattah el-Sisi (Egito), Nayib Bukele (El Salvador), Benjamin Netanyahu (Israel), Tamim bin Hamad Al Thani (Catar), Tô Lâm (Vietnã) e Santiago Peña (Paraguai).
Neste ano, o governo Trump também anunciou o consórcio “Pax Silica”, em que alguns países trabalharão junto aos Estados Unidos para assegurar controle de recursos e tecnologias necessárias para abastecer a cadeia global de suprimentos para a Inteligência Artificial e infraestrutura digital.
Além dos aliados de “carteirinha” de Trump, também participam da iniciativa o Reino Unido, a União Europeia, Singapura, a República da Coreia, Japão e Austrália.
Ambas as iniciativas citadas possuem forte cunho ideológico. Se de um lado há o fortalecimento de projetos autoritários e de extrema direita, por outro há o interesse capitalista em assegurar recursos estratégicos para o crescimento econômico de cada estado e os principais setores de suas elites.
Contudo, é o Escudo das Américas que aparece ainda mais claramente como uma aliança de extrema direita. Ao focar unicamente no continente americano – a que o governo Trump gosta de se referir como “hemisfério ocidental” – vemos como a participação ou não em cada iniciativa está muito claramente vinculada ao governante da vez.
Mark Carney, atual primeiro-ministro do Canadá, pertence ao Partido Liberal, cujas políticas econômicas, especialmente no que tange a interesses imperialistas na América Latina, têm semelhanças com objetivos estadunidenses. Todavia, as provocações de Trump ao Canadá, que vão desde tarifas a piadas de que o país ao norte seria o “51º estado dos Estados Unidos” afastaram os dois países.
A rejeição dos canadenses foi tanta que a própria vitória de Carney nas eleições de 2025 se deve, em parte, ao apelo à soberania canadense diante de Trump. Portanto, mesmo que Carney esteja tentando uma reaproximação tática entre EUA e Canadá, para setores econômicos específicos, não surpreende que o governo Carney tenha se ausentado do processo do Escudo das Américas.
O que é o Escudo das Américas?
Considerando o tema e o mandato da organização, é impensável que a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum ou que o presidente Lula participassem da cúpula. Tratada como uma espécie de “Coalizão Anticartéis das Américas”, o Escudo funciona como um espaço privilegiado de liderança e influência dos EUA sobre a política de drogas, de segurança e militar em toda a região.
Estavam presentes em sua fundação o secretário de Estado, Marco Rubio, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, também conhecido como “secretário de guerra”, devido à ordem executiva de Trump que oficializou o início de uma postura ainda mais belicosa dos EUA.
Em seu discurso, Trump criticou Sheinbaum diretamente por não fazer tudo que ele considerava necessário para combater os cartéis na região. Ele nomeou Kristi Noem como enviada especial ao Escudo, após sua saída do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, onde teve atuação autoritária e controversa.
Foi sob a gestão de Noem que os agentes armados do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira, o ICE, passaram a agir ainda mais violentamente e livremente, atingindo crianças imigrantes e até assassinando cidadãos estadunidenses.
Durante a cúpula, Rubio e Noem asseguraram que ela estaria, a partir de então, trabalhando cotidianamente com cada presidente e liderança ali presentes, em nível pessoal, para cumprir os objetivos conjuntos da coalizão.
Noem destacou que o objetivo do Escudo das Américas era “defender nossa própria soberania, nossa própria segurança e prosperidade econômica, mas também continuarmos a fortalecer essas relações para garantir que possamos fazer isso de maneira eficaz, derrotando os inimigos que temos em nosso meio — as organizações de cartel —, as quais nosso país classificou como Organizações Terroristas Estrangeiras”.
Esse enquadramento de “soberania” como securitização e militarização a favor de objetivos econômicos capitalistas favoráveis aos Estados Unidos foi abraçado pelos demais governos presentes.
Noem chegou a ressaltar a importância da parceria dos EUA com Bukele em El Salvador, elogiando sua visão de “paz”, assim como o trabalho contínuo ao lado de Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador.
O Chile, que estava em transição do governo progressista de Gabriel Boric para o governo conservador de José Antonio Kast, também foi usado como exemplo, pelo aprofundamento das operações de cibersegurança entre os dois países.
‘Inteligência de Guerra Fria’
O Escudo das Américas se soma à estratégia fundamental de Trump no “America First” (EUA primeiro! Em livre tradução) que busca reorganizar recursos e inteligência estadunidenses de maneira tão canalizada quanto na Guerra Fria. Isso impacta diretamente a política trumpista na América Latina.
Não basta remover obstáculos e ajudar a eleger governantes de sua confiança em países como Chile ou Honduras – como vimos aqui na coluna em janeiro – é preciso usá-los estrategicamente.
A proclamação presidencial de Trump, “Compromisso com o combate à atividade criminosa dos cartéis“, deixa claro que os Estados Unidos pretendem treinar e mobilizar as forças militantes dos países membros “para constituir a força de combate mais eficaz necessária para desmantelar os cartéis e sua capacidade de exportar violência”.
O novo governo colombiano parece estar entre os mais entusiasmados para tirar vantagem dessa parceria. Seria uma oportunidade de tornar pública e oficial uma parceria que já existiu ao longo dos anos entre as forças de inteligência dos EUA e da Colômbia, como no treinamento de polícia e de grupos paramilitares colombianos em 1962 pela CIA.
Buscando a continuidade de uma política externa de agressão que se justifica como “guerra às drogas” – especialmente desde a Diretriz de Decisão de Segurança Nacional 221, de abril de 1986 –, parece que Trump, Rubio e Noem encontrarão em Abelardo da Espriella um de seus maiores aliados.
O governo Trump anunciou o novo presidente como parte de uma “nova era em relações EUA-Colômbia”, marcada por um pacote de assistência em segurança de 1 bilhão de dólares ao país sul-americano. Seus objetivos comuns são vários, incluindo:
- O fortalecimento das forças de segurança da Colômbia contra Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) e Organizações Criminosas Transnacionais (TCOs), inclusive por meio de tecnologia de ponta estadunidense.
- Contenção dos fluxos de imigração ilegal.
- Contribuição para fundos internacionais de assistência e futuros pacotes de ajuda humanitária na recuperação de eventuais desastres naturais associados ao fenômeno El Niño.
- Avanço na cooperação bilateral em energia nuclear.
O ponto sobre os desastres naturais merece destaque porque revela como governos de direita, adeptos ao negacionismo das mudanças climáticas, têm abraçado o debate do El Niño de maneira oportunista. Despindo o El Niño de seu contexto climático amplo, Trump e Espriella encontrarão caminhos para agir sobre desastres uma vez que ocorram, sem precisar ceder ao consenso científico sobre o aquecimento global e a necessidade de uma transição ecológica radical.
Esse alinhamento geral é um grande presente para Espriella, que já assumiu o posto nomeando a cidade colombiana de Medellín como “quartel-general” do Escudo das Américas.
Além disso, Espriella pretende revitalizar o antigo Plan Patriota do ex-presidente de direita Alvaro Uribe, através do Plan Patriota 2.0, celebrado por figuras militares como um bom momento para a direita latino-americana e seus “aliados de bem”.
O Brasil no pêndulo à direita
Se um dia falamos de “maré rosa” na América Latina, hoje lamentamos o isolamento crescente dos governos progressistas que restam. Além de ser um alerta às esquerdas que buscam restabelecer hegemonia, porém com dificuldades de abordar seriamente suas próprias crises, temos um alerta à frágil democracia liberal na região.
A intervenção estadunidense nos governos ora chega através de invasão e sequestro, ora chega através de pressão eleitoral. Flávio Bolsonaro segue contando com isso para o pleito de outubro, na expectativa de que, por amor ou medo a Trump, o povo brasileiro escolha como presidente um fiel escudeiro do imperialismo.
Rubio e Trump seguem atentos e ativos. Nosso problema não está apenas no tarifaço ou nas ameaças ao Pix. A decisão dos EUA de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas em junho deste ano não é uma ação isolada. Ela já fortalece decisões estadunidenses que permitem a venda de centenas de milhões de dólares de armamento ao Brasil, em nome do combate ao crime organizado.
E o pior: ela cimenta o caminho para intervenções no Brasil através do Escudo das Américas. Caso Flávio ganhe, há pretexto para políticas coordenadas. Caso Lula ganhe, há justificativa para agressões com apoio de diversos outros governos da região.
Não por acaso, em declaração ao comitê de relações exteriores do Congresso dos EUA, Rubio fez questão de destacar que o Escudo das Américas já é um sucesso e pode ser ainda mais, pois esperam que o número de países membros aumente em 2026 devido às eleições em vários países. Isso inclui o Brasil.
O cenário de vitória bolsonarista no Brasil impactaria nossa economia, nossa natureza e nossas vidas. Trump está interessado em descredibilizar o processo eleitoral brasileiro e promover Flávio Bolsonaro por várias razões.
De certa forma, é muito menos sobre qualquer mérito de Flávio ou de Eduardo Bolsonaro como porta-vozes do bolsonarismo nos EUA. À medida que o Escudo das Américas abre mais portas para controle econômico e militar, Trump sabe que qualquer um que torne o Brasil um escudeiro é o que falta para tomar a região inteira de assalto de uma vez.