Especialistas dissecam ação dos EUA na Venezuela
Em sua Doutrina de Segurança Nacional, Trump reforçou indiferença à soberania dos países, tratados como uma extensão de seu território
A operação militar dos Estados Unidos que resultou na prisão do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no sábado, 3 de janeiro, abriu um perigoso precedente na América do Sul. Para especialistas ouvidos pelo Jornal da Unicamp, os Estados Unidos estão em busca de “disciplinar governos” na região, e a Venezuela foi a primeira pedra do dominó de uma partida geopolítica calcada na renovação de objetivos imperialistas.
“A Doutrina de Segurança Nacional, divulgada em novembro passado pelo governo de Donald Trump, já atualizava em teoria suas preocupações com o avanço dos imperialismos na região, mas, a partir de agora, os temores certamente chegam a um novo patamar”, afirma Josianne Cerasoli, professora do departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.
Vale destacar, segundo ela, que a Doutrina de Segurança se refere, em tom de ameaça, ao destino imaginado para o que denomina Hemisfério Ocidental. “A escolha que todos os países devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos, com países soberanos e economias livres, ou em um mundo paralelo, no qual são influenciados por países do outro lado do mundo,” diz trecho do documento.
“O documento faz uma escolha muito significativa para nomear o continente americano, que ocupa grande parte de suas mais de 30 páginas: Hemisfério Ocidental, atualizando com termos geográficos uma ideia que reforça certa indiferença à soberania e às especificidades da região, como se esta fosse uma extensão dos Estados Unidos, um quintal”, completa Cerasoli.
O historiador José Alves, professor do IFCH especializado em América Latina, lembra que, “de fato, há uma agressão a um Estado soberano no momento em que você não tem uma declaração de guerra nem qualquer outro dispositivo legal que a justifique”, diz. “Trump age como um ditador clássico, ignorando a imprensa, a lei e os limites institucionais. Se fosse um presidente latino-americano agindo dessa forma, certamente seria chamado de ditador. É o reverso da imagem tradicional que se construiu dos Estados Unidos.”
“Vejo esse cenário com enorme preocupação, porque temos três grandes forças – EUA, China e Rússia – com pretensões de domínio territorial e de controle sobre riquezas naturais. Não voltaremos ao mesmo cenário do século 20 no sentido positivo: há uma mudança para pior em relação à expectativa de um mundo multilateral, no qual diferentes países podiam ter voz”, completa Alves.
Pedro Paulo Zahlut Bastos, professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, ressalta que o objetivo dos EUA não é necessariamente invadir países, já que enfrentaria forte resistência interna. “É exercer pressão máxima por meio de sanções, bloqueios e intimidação, tornando a governabilidade e a inserção internacional desses países extremamente difíceis. No caso da Venezuela, trata-se de disciplinar o governo, não de promover uma troca clássica de regime. Uma ocupação militar seria custosa e politicamente desastrosa.”
Nesse contexto, a América Latina ganha importância estratégica, não apenas pelo petróleo, mas pelos minerais críticos, como as terras raras, fundamentais para a indústria de defesa, automobilística e de tecnologia. “E a Venezuela aparece como peça-chave nesse processo”, completa.
André Kaysel, professor do departamento de Ciência Política do IFCH, destaca que, apesar da prisão de Maduro, o regime permanece intacto. “A vice-presidente, Delcy Rodríguez, uma chavista histórica, assumiu o governo com respaldo da Suprema Corte e dos militares. Não há, até o momento, qualquer sinal de reviravolta interna”, ressalta.
Para Kaysel, qualquer acesso ao petróleo exigirá negociação. “Os Estados Unidos querem praticamente tudo: acesso privilegiado ao petróleo e o afastamento da Venezuela de China, Rússia e Cuba, países que têm investimentos significativos no país. Impor isso sem presença militar direta é um enorme desafio. Há negociações em curso, isso está claro, tanto pelo discurso do Trump quanto pelo da nova presidente. A questão é o que está sendo negociado”, completa.
O professor chama a atenção para o descarte explícito, por parte de Trump, de María Corina Machado, prêmio Nobel da Paz 2025, promovida pela imprensa internacional como grande liderança da oposição venezuelana. “Ela foi simplesmente descartada quando deixou de ser útil. Isso reforça que ser aliado da extrema-direita norte-americana é um mau negócio no médio prazo.”
Contexto econômico
Segundo Bastos, é importante lembrar que a ordem internacional baseada em tratados foi estimulada e liderada pelo próprio Estados Unidos após a Guerra Fria. “A primeira guerra do Iraque, por exemplo, foi aprovada pela ONU e contou com amplo apoio internacional. Nos anos 1990, esse movimento se expandiu sob a retórica das chamadas intervenções humanitárias, como nos Bálcãs e em partes da África, já com certo alargamento do mandato da ONU”, afirma.
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O professor de Economia destaca que a segunda guerra do Iraque rompeu totalmente com o sistema de tratados, afirmando a ideia de que os Estados Unidos deveriam agir como um império, acima de qualquer limitação jurídica internacional. “A partir daí, consolidou-se também a noção de que o combate ao terrorismo autorizaria ações militares sem a necessidade de aprovação do Congresso.”
Para Bastos, esse movimento não é apenas político, mas também econômico. “Não se trata somente da relação entre Estados Unidos e Venezuela por causa do petróleo, mas de uma questão estrutural mais ampla: a posição da América Latina no confronto estratégico entre Estados Unidos e China. A globalização liderada pelos Estados Unidos se baseou em tratados econômicos que favoreciam corporações ocidentais, especialmente norte-americanas, criando cadeias produtivas globais nas quais nenhum país poderia desenvolver um modelo autônomo. A expectativa dos EUA era que essa integração econômica levasse a mudanças políticas internas, especialmente na China, o que não aconteceu.”
A partir da crise de 2008, ficou evidente para a China que as redes financeiras, informacionais e logísticas da globalização podiam ser usadas como instrumentos geopolíticos, ressalta Bastos. “Sanções contra países como Irã, Coreia do Norte e Rússia mostraram que o controle dessas redes permitia retaliações econômicas severas. A emergência da China foi decisiva para que países como Rússia e Brasil reduzissem sua dependência estrutural dos Estados Unidos.”
No caso brasileiro, as exportações para a China cresceram de forma exponencial nas últimas décadas, tornando o país o principal parceiro comercial do Brasil. “Isso deu ao Estado brasileiro maior autonomia relativa, algo que não existia no final dos anos 1980 e início dos anos 1990.”
“É inegável que os Estados Unidos estão em processo de decadência relativa. A China já se tornou o principal parceiro comercial da maioria dos países do mundo e domina a maior parte dos setores tecnológicos avançados. O poder norte-americano hoje se apoia crescentemente no poder militar, enquanto a China prioriza o desenvolvimento econômico e tecnológico, sem um projeto imperial clássico, mas com objetivos claros de longo prazo”, completa.
Escalada contra a Venezuela
A escalada contra a Venezuela começou em agosto passado, quando Trump publicou uma legislação designando cartéis de drogas como organizações terroristas. O governo ainda aumentou a recompensa pela captura de Maduro de US$25 milhões para US$50 milhões, retomando uma ordem de captura que já existia no primeiro mandato de Trump.
O aumento da presença da Marinha e dos fuzileiros navais próximos às costas venezuelanas foi um exemplo claro das intenções dos EUA. “Nesse contexto, começam ataques a embarcações supostamente carregando drogas, embora nenhuma prova tenha sido apresentada. Do ponto de vista do direito internacional, trata-se de uma sequência de execuções extrajudiciais”, afirma Kaysel.
Em dezembro, o bloqueio naval a petroleiros que saíam da Venezuela rumo a Cuba, China e outros destinos, com embarcações de diversas bandeiras detidas em águas internacionais, intensificou a escalada. “Durante todo esse processo, houve contatos entre a administração Trump e o governo Maduro, inclusive com notícias de conversações diretas, embora não esteja claro quem participou delas, nem seu conteúdo. É sintomático que, dois dias antes da virada do ano, Maduro tenha declarado publicamente estar disposto a negociar com os Estados Unidos sobre petróleo e cooperação no combate ao narcotráfico”, destaca o professor.
É importante registrar que a Venezuela nunca foi uma das principais rotas de drogas para os Estados Unidos. “A rota central passa pela Colômbia, América Central e México, pelo Oceano Pacífico. Existe algum tráfico passando pela Venezuela, mas não é uma rota relevante. Por isso, essas alegações sempre foram frágeis. Na coletiva de imprensa do Trump no sábado, isso ficou claro: ele sequer mencionou o problema das drogas e se concentrou no que realmente lhe interessa, o petróleo e o domínio americano sobre o hemisfério ocidental. Essas sempre foram as duas questões centrais.”
Para Alves, a acusação de narcoterrorismo é frágil e construída dentro de um contexto político específico. “O pragmatismo substituiu completamente qualquer discurso ideológico ou democrático. Os Estados Unidos convivem muito bem com ditaduras, como a da Arábia Saudita, desde que haja fornecimento de petróleo”, lembra.
Na tarde desta terça-feira (6), o Departamento de Justiça dos Estados Unidos recuou em acusar Maduro de liderar o suposto Cartel de Los Soles. A nova peça da denúncia contra o venezuelano por narcotráfico, apresentada após o sequestro de Maduro pelos EUA, excluiu a acusação feita na peça anterior, apresentada em 2020. Na primeira denúncia, o termo “Cartel de Los Soles” aparece 33 vezes e Maduro é apontado como líder dessa suposta organização.
Há limites?
Logo após a prisão de Maduro, Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha criticaram em declaração conjunta a “gravidade dos eventos ocorridos na Venezuela” e afirmaram que as ações “criam um precedente extremamente perigoso para a paz, para a segurança regional e colocam a população civil em risco”.
Para Cerasoli, essa declaração faz mais do que alertar sobre a gravidade dos fatos. “Ela sublinha como ações militares executadas unilateralmente pelos EUA contrariam os princípios fundamentais do direito internacional. Apesar de muito cuidadosa na escolha das palavras, como é usual na diplomacia, a preocupação de fundo sem dúvida é o imperialismo”, destaca.
“A omissão não é uma opção”, destaca a professora de História. “Ainda que a diplomacia possa passar a impressão de uma ação apenas protocolar, ela sinaliza limites e define espaços para alianças. O Brasil tem sido atento a isso. E possivelmente nossa diplomacia cultiva a paciência histórica de traçar estratégias que ao mesmo tempo respondem prontamente à urgência da situação e respaldam ações mais duradouras, que fortaleçam o caminho do diálogo e do multilateralismo, contraposto aos imperialismos de toda ordem”, completa.
“Como o Brasil não dispõe de força militar, o caminho é intensificar a pressão diplomática e buscar articulação. A América Latina, infelizmente, está dividida, com governos que apoiam incondicionalmente as ações de Trump. Ainda assim, qualquer governo do mundo deveria estar alarmado com o recado enviado pelos Estados Unidos: na sua zona de influência, vão destituir quem quiserem. Isso é inaceitável para qualquer Estado soberano”, lembra Kaysel.
“No Brasil, não há espaço para uma confrontação militar com os Estados Unidos”, reforça Bastos. “A estratégia correta é a defesa de uma ordem internacional baseada em regras e tratados, pois o Brasil depende desse sistema para preservar sua autonomia. Embora dependa menos dos Estados Unidos do que no passado, ainda depende. Por isso, a política externa brasileira precisa combinar o pragmatismo econômico com a defesa do multilateralismo”, ressalta.
Conflitos e concorrências
Cerasoli destaca que há dois espectros que rondam as narrativas políticas no continente há mais de um século: o anti-imperialismo e o anticomunismo. “São duas ideias mais ou menos plásticas, que vão sendo moldadas nos discursos, ajudando a agregar e mobilizar diferenças. O primeiro vem sendo usado pelas lutas anticolonialistas, sobretudo pelas esquerdas, e teve momentos muito fortes no continente, nos anos 1920, 1960, 1980 pelo menos. O segundo tem sido ativado sempre que direitos sociais avançam no continente, e parece revigorado pelos movimentos conservadores e de extrema-direita mais recentes.”
“A América Latina, apesar de ser extremamente desigual e apesar de seu passado autoritário, não é uma região marcada por conflitos bélicos entre países. De forma geral, é possível dizer que se trata de uma zona de paz”, ressalta Alves. “Esse é um mérito histórico importante. Não somos uma região de corrida armamentista ou de confrontos diretos entre Estados nacionais, embora tenhamos conflitos internos gravíssimos.”
“É preocupante pensar que a América Latina, que desde os anos 1980 vive seu período mais longevo de experiências democráticas, volte a ser tratada como espaço de intervenção direta. Apesar das desigualdades, houve avanços importantes em indicadores sociais e na valorização da democracia. Agora, o discurso da segurança e do superpoder retorna com força”, diz Alves.
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