O petróleo da Venezuela e o sequestro de Maduro
Detentora da maior reserva de petróleo do mundo (mais de 300 bilhões de barris), a Venezuela é uma pedra no sapato dos EUA, desde que Hugo Chaves assumiu o poder, em 1999, seguido por Nicolas Maduro.
Ao longo da história, os Estados Unidos intervieram militarmente com frequência para garantir e proteger seus interesses petrolíferos. O que torna o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro na manhã de sábado diferente é que, desta vez, o motivo declarado era claro.
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Detentora da maior reserva de petróleo do mundo (mais de 300 bilhões de barris), a Venezuela é uma pedra no sapato dos EUA, desde que Hugo Chaves assumiu o poder, em 1999, seguido por Nicolas Maduro.
Em 1953, após o primeiro-ministro iraniano, Mosaddegh, nacionalizar os interesses petrolíferos anglo iranianos, os EUA e o Reino Unido iniciaram a Operação Ajax para depô-lo do poder e retomar o controle do petróleo. Somente em agosto de 2013 a CIA admitiu oficialmente seu envolvimento no golpe, mas mesmo assim, jamais mencionou o petróleo diretamente.
Em 2003, os EUA justificaram a invasão do Iraque alegando que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, uma alegação que posteriormente se provou falsa. Diversas figuras importantes, desde o presidente do Fed, Alan Greenspan, até o ex-comandante do CENTCOM, General John Abizaid, admitiram mais tarde que o petróleo era um fator estratégico central.
Intervenções posteriores na Síria, Líbia e Kuwait, para citar apenas algumas, seguiram um padrão semelhante, com as reservas de petróleo e a segurança sempre presentes como um aspecto tácito, porém fundamental, da segurança nacional dos EUA.
Desta vez, não há como se esconder atrás de argumentos humanitários ou ideológicos; o presidente Trump deixou suas motivações abundantemente claras. Ao impor um bloqueio ao país, ele exigiu que a Venezuela “devolvesse aos Estados Unidos da América todo o petróleo, terras e outros ativos que nos roubaram anteriormente”. Embora não tenha especificado exatamente qual petróleo, terras e ativos foram roubados, é provável que se trate da expropriação de ativos petrolíferos dos EUA em 2007 pelo então presidente Hugo Chávez.
Desde a captura, é notável que Trump não tenha pressionado pela derrubada do sucessor de Maduro e tenha minimizado especificamente a possibilidade de a líder da oposição, Maria Machado, ascender ao poder.
Em vez disso, o presidente dos EUA ameaçou enviar tropas terrestres caso a presidente interina Delcy Rodríguez não concorde com os planos americanos para o país. Esses planos, segundo Trump, consistem em fazer com que empresas petrolíferas americanas “entrem, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura precária, a infraestrutura petrolífera, e comecem a gerar lucro para o país”.
Até o momento, a resposta de Delcy tem sido clara, afirmando que a Venezuela “nunca mais será colônia de ninguém – nem de antigos impérios, nem de novos impérios, nem de impérios em declínio”. Mas tentando manter diálogo com Trump.
Revitalizar a indústria petrolífera da Venezuela exigirá dezenas de bilhões de dólares e anos de trabalho, sem mencionar os obstáculos legais e políticos associados à ação de sábado. As grandes petrolíferas exigirão garantias de longo prazo antes de se comprometerem com um envolvimento significativo no país, e, em última análise, isso significa estabilidade.
A natureza transacional do presidente Trump torna a situação atual na Venezuela mais clara do que várias tentativas anteriores de administrações americanas de garantir recursos petrolíferos. Para Trump, o sucesso ou fracasso do ataque sem precedentes da manhã de sábado pode ser claramente medido em função de suas exigências.
Para a região, este ataque parece ser o início de um desenvolvimento estratégico mais amplo. Trump já está promovendo o termo "Doutrina Donroe", em alusão à Doutrina Monroe, segundo a qual os EUA consideravam o Hemisfério Ocidental sua "esfera de influência". O presidente já sugeriu que Cuba, México e Colômbia poderiam enfrentar uma ação semelhante.
Quanto à influência deste ataque na ordem internacional em geral, é provável que se manifeste numa escala temporal muito maior e com potencial para consequências muito mais graves.
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