No dia 3 de janeiro, tornou-se pública a informação de que o presidente venezuelano havia sido sequestrado pelo governo dos Estados Unidos. Algum tempo antes desse episódio, o presidente norte-americano havia concedido um indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por tráfico de drogas e que cumpria pena de 45 anos em território estadunidense.
Donald Trump, à época, apoiava o candidato do partido de Hernández, um empresário do setor da construção civil. “Se ele não ganhar, os Estados Unidos não desperdiçarão mais dinheiro, porque um líder errado só pode trazer resultados catastróficos a um país, seja qual for”, escreveu Trump na plataforma Truth Social. Onde está a preocupação com a democracia?
Reproduzindo uma matéria da agência France Presse, o portal G1, em 28 de novembro de 2025, informou que aquele mesmo indulto presidencial foi concedido em meio a uma movimentação militar dos Estados Unidos no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico. Washington alegava, então, que a operação tinha como objetivo o combate ao tráfico de drogas. Desde o sequestro do presidente venezuelano, a palavra petróleo tem sido bem mais falada pelo governo norte-americano do que democracia.
O documento ‘National Security Strategy of the United States of America’, publicado em novembro de 2025, explicita os chamados “novos” desafios da América Latina na relação com os Estados Unidos. O texto aponta para a retomada do controle norte-americano sobre a região, por meio de uma atualização da Doutrina Monroe (1823), defendendo uma ampliação explícita da presença militar dos EUA no hemisfério.
A estratégia apresentada prevê a celebração de acordos profundamente desiguais com os países latino-americanos, bem como a expulsão de empresas estrangeiras que concorram com corporações norte-americanas. Trata-se de um projeto imperial que busca ir além da histórica influência ideológica na região, recorrendo à pressão diplomática direta e, se necessário, ao uso da força militar. Do ponto de vista histórico, infelizmente, não há grande novidade para a América Latina.
O experiente jornalista Jamil Chade, em coluna publicada no ICL Notícias em 5 de janeiro, revelou as exigências feitas por Trump ao governo venezuelano. Em síntese: “encerrar o apoio a Cuba, expulsar iranianos e outros atores considerados indesejáveis, interromper o fornecimento de petróleo a adversários dos EUA e abrir o mercado petrolífero venezuelano às empresas norte-americanas”. Imperialismo sem filtros.
O recado de Washington é cristalino. Não é mais aceitável que a Venezuela atue como um entreposto de potências rivais na região, tampouco que seus recursos naturais escapem ao controle das grandes corporações dos Estados Unidos. A exigência é de submissão total da América Latina, sob a ameaça permanente de sanções ou agressões militares.
Segundo a avaliação do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, as sanções lideradas pelos EUA fizeram a Venezuela perder receitas petrolíferas equivalentes a 213% do seu PIB entre janeiro de 2017 e dezembro de 2024. O petróleo bruto e seus derivados respondem por aproximadamente 90% das receitas de exportação do país, sendo fundamentais para o financiamento das políticas do governo.
