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Rodrigo Medeiros

A Venezuela e o subdesenvolvimento

Para Bolívar, a Doutrina Monroe não era o instrumento de proteção das jovens repúblicas latino-americanas, mas o mecanismo de tutela e futura dominação, que poderia substituir o colonialismo europeu por um novo tipo de dependência.

Publicado em 23/01/2026
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No dia 3 de janeiro, tornou-se pública a informação de que o presidente venezuelano havia sido sequestrado pelo governo dos Estados Unidos. Algum tempo antes desse episódio, o presidente norte-americano havia concedido um indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por tráfico de drogas e que cumpria pena de 45 anos em território estadunidense.

Donald Trump, à época, apoiava o candidato do partido de Hernández, um empresário do setor da construção civil. “Se ele não ganhar, os Estados Unidos não desperdiçarão mais dinheiro, porque um líder errado só pode trazer resultados catastróficos a um país, seja qual for”, escreveu Trump na plataforma Truth Social. Onde está a preocupação com a democracia?

Reproduzindo uma matéria da agência France Presse, o portal G1, em 28 de novembro de 2025, informou que aquele mesmo indulto presidencial foi concedido em meio a uma movimentação militar dos Estados Unidos no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico. Washington alegava, então, que a operação tinha como objetivo o combate ao tráfico de drogas. Desde o sequestro do presidente venezuelano, a palavra petróleo tem sido bem mais falada pelo governo norte-americano do que democracia.

O documento ‘National Security Strategy of the United States of America’, publicado em novembro de 2025, explicita os chamados “novos” desafios da América Latina na relação com os Estados Unidos. O texto aponta para a retomada do controle norte-americano sobre a região, por meio de uma atualização da Doutrina Monroe (1823), defendendo uma ampliação explícita da presença militar dos EUA no hemisfério.

A estratégia apresentada prevê a celebração de acordos profundamente desiguais com os países latino-americanos, bem como a expulsão de empresas estrangeiras que concorram com corporações norte-americanas. Trata-se de um projeto imperial que busca ir além da histórica influência ideológica na região, recorrendo à pressão diplomática direta e, se necessário, ao uso da força militar. Do ponto de vista histórico, infelizmente, não há grande novidade para a América Latina.

O experiente jornalista Jamil Chade, em coluna publicada no ICL Notícias em 5 de janeiro, revelou as exigências feitas por Trump ao governo venezuelano. Em síntese: “encerrar o apoio a Cuba, expulsar iranianos e outros atores considerados indesejáveis, interromper o fornecimento de petróleo a adversários dos EUA e abrir o mercado petrolífero venezuelano às empresas norte-americanas”. Imperialismo sem filtros.

O recado de Washington é cristalino. Não é mais aceitável que a Venezuela atue como um entreposto de potências rivais na região, tampouco que seus recursos naturais escapem ao controle das grandes corporações dos Estados Unidos. A exigência é de submissão total da América Latina, sob a ameaça permanente de sanções ou agressões militares.

Segundo a avaliação do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, as sanções lideradas pelos EUA fizeram a Venezuela perder receitas petrolíferas equivalentes a 213% do seu PIB entre janeiro de 2017 e dezembro de 2024. O petróleo bruto e seus derivados respondem por aproximadamente 90% das receitas de exportação do país, sendo fundamentais para o financiamento das políticas do governo.

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A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Por que, então, o desenvolvimento não se concretizou? As pesadas sanções econômicas explicam parte do problema, porém elas são insuficientes para a compreensão do quadro geral. Há razões históricas e estruturais que continuam sendo decisivas.

No livro ‘Ensaios sobre a Venezuela’ (2008), publicado pela Contraponto com base nos Arquivos Celso Furtado, há um texto fundamental: ‘Notas sobre a economia venezuelana e suas perspectivas atuais’ (1974). Há cinquenta anos, Furtado alertava que “seria um erro supor que a superação do subdesenvolvimento virá automaticamente com a melhora abrupta dos preços de exportação do petróleo”.

O economista ressaltava que, quanto maior a concentração de renda, mais intensa tende a ser a utilização de insumos importados pela indústria, reduzindo o multiplicador interno de emprego e renda. Furtado também apontava os desequilíbrios regionais, a excessiva concentração populacional na região metropolitana de Caracas e a profunda dependência tecnológica da economia venezuelana. Nenhum país se desenvolveu apenas exportando commodities. O desenvolvimento é um processo de sofisticação produtiva.

A Venezuela apresenta níveis historicamente elevados de desigualdades. Para Furtado, o Estado venezuelano necessitava de um “especialista em problemas de transição do subdesenvolvimento para o desenvolvimento e da administração de recursos financeiros abundantes num sistema com grande rigidez estrutural”. Trata-se de um desafio histórico e estrutural que, meio século depois, segue sem o enfrentamento efetivo.

Em 1829, o venezuelano Simón Bolívar profeticamente advertia que “os Estados Unidos parecem destinados, pela Providência, a infestar a América de misérias em nome da liberdade”. Essa conhecida citação histórica está diretamente ligada à Doutrina Monroe (1823), cujo lema implícito era “a América para os americanos”.

“El Libertador” observava então com grande preocupação a contradição entre o discurso norte-americano de liberdade e sua política externa. Para Bolívar, a Doutrina Monroe não era o instrumento de proteção das jovens repúblicas latino-americanas, mas o mecanismo de tutela e futura dominação, que poderia substituir o colonialismo europeu por um novo tipo de dependência.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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