
Como a Selic a 15% Inviabiliza o Investimento Produtivo no Brasil
Projetos de infraestrutura, que exigem capital paciente e oferecem retornos ao longo de décadas, não conseguem competir com a renda fixa.
O Pátria Investimentos, uma das maiores gestoras de ativos reais do país, enfrenta uma crise que expõe algo maior: a impossibilidade de qualquer solução de mercado para investimentos de longo prazo em uma economia com taxa básica de juros a 15%.
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O Fim de um Ciclo
A trajetória do Pátria ilustra a transformação brutal no ambiente de negócios. Originalmente focada em private equity — o investimento direto em empresas com horizonte de consolidação, valorização e posterior venda —, a gestora prosperou em um mundo que deixou de existir.
Esse mundo era sustentado por juros baixos, crédito abundante, valuations (valor de mercado) inflados e um mercado ativo de IPOs (oferta pública inicial de ações). A engrenagem funcionava: capital paciente entrava, empresas se consolidavam, múltiplos se expandiam, e a saída via abertura de capital coroava o ciclo com lucros expressivos.
Mas esse ciclo acabou.
A Nova Realidade
Com a Selic a 15%, os múltiplos de private equity encolheram drasticamente. Desinvestimentos ficaram mais difíceis e menos lucrativos. Os IPOs praticamente desapareceram do radar. Ativos comprados no auge do ciclo anterior agora exigem reprecificação para baixo, reduzindo a atratividade de toda a classe.
O horizonte de saída, antes previsível, foi empurrado indefinidamente para frente. Capital que deveria girar ficou preso. O modelo de negócio precisava ser reinventado.
A Ilusão do Crédito Estruturado
A resposta veio na forma de uma migração para fundos de crédito privado. Operações estruturadas, lastreadas em recebíveis, protegidas por garantias contratuais — teoricamente mais seguras, mais líquidas, mais adequadas ao novo ambiente.
Esses fundos cresceram aproveitando o vácuo deixado pelos bancos tradicionais, que retraíram suas carteiras de crédito. Empresas buscando financiamento alternativo encontraram gestoras dispostas a assumir o risco.
Mas a combinação de juros elevados com desaceleração econômica revelou a fragilidade dessa estratégia.
A Progressão da Deterioração
O roteiro é previsível. Empresas tomadoras enfrentam queda no fluxo de caixa. A inadimplência sobe. Garantias que pareciam sólidas revelam fragilidades invisíveis durante a estruturação.
Então começa a longa caminhada da negação contábil.
Primeiro, a renegociação das condições. Depois, a extensão do prazo de pagamento. Em seguida, a reclassificação nos balanços. Só muito depois — quando não há mais escapatória — o reconhecimento efetivo da perda.
Essa sequência cria uma ilusão de estabilidade. No caso do Pátria, essa ilusão relaxa a tensão no presente, mas carrega o risco para o futuro.
O Risco Sistêmico
A migração de capital para crédito estruturado é fenômeno global, mas no Brasil enfrenta um agravante: juros estruturalmente elevados, não apenas ciclicamente altos.
Quando o crédito estruturado cresce demais, o gestor de recursos se transforma em banco sem banco central. Assume risco de crédito sistêmico sem rede de proteção. Opera em um mercado onde a regulação corre permanentemente atrás do fato consumado.
A Impossibilidade Fundamental
A crise do Pátria não é apenas gerencial ou setorial. Ela demonstra uma impossibilidade fundamental: com a taxa básica de juros a 15%, não existe solução de mercado viável para investimentos produtivos de longo prazo.
Projetos de infraestrutura, que exigem capital paciente e oferecem retornos distribuídos ao longo de décadas, simplesmente não conseguem competir com a renda fixa. Por que assumir risco operacional, regulatório e de execução para buscar retornos de 12% a 15% ao ano quando títulos públicos entregam 13% sem risco?
A resposta racional do capital é clara: migrar para aplicações líquidas e seguras. O investimento produtivo fica restrito a nichos ou depende de subsídios governamentais disfarçados.
O Impasse
O Brasil se encontra preso em um impasse. Precisa de investimentos em infraestrutura para crescer. Mas mantém uma estrutura de juros que torna esses investimentos economicamente irracionais para o setor privado.
Gestoras como o Pátria tentaram contornar essa contradição com engenharia financeira cada vez mais sofisticada. Mas engenharia financeira não resolve problemas macroeconômicos estruturais. Apenas adia e, frequentemente, amplifica suas consequências.
A crise atual não é acidente de percurso. É o resultado inevitável de tentar sustentar investimentos de longo prazo em uma economia de juros de curtíssimo prazo.
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