O Maestro Ausente: Por que o Brasil tem a Orquestra, mas ignora a Partitura?
O verdadeiro risco fiscal está em: baixo crescimento, infraestrutura precária, desindustrialização, perda de capacidade produtiva.
Publicado em 26/02/2026
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O Brasil padece de uma miopia de gestão que precisa ser superada, se houver a mínima ambição de se transformar em uma economia avançada. Diante de qualquer crise ou desafio estrutural, a resposta de Brasília é quase pavloviana: cria-se um novo programa, uma nova secretaria ou uma sigla imponente. No entanto, o que a experiência de décadas nos mostra é que o problema brasileiro raramente é a falta de estruturas ou de capital humano. O Brasil dispõe do que há de mais difícil no processo de catch-up (o emparelhamento com nações desenvolvidas): instituições públicas consistentes, organizações civis de alcance nacional e centros de pesquisa de excelência.
O que falta, e o que tem condenado o país ao improviso, é o chamado Estado Orquestrador.
A engenharia do possível
Minha percepção sobre o poder da articulação governamental não nasceu em gabinetes, mas na prática. Em 1974, montei um jornal em Poços de Caldas, mesmo já trabalhando na imprensa paulista. Com o lançamento de máquinas Singer, de tricô, vislumbrei o que poderia ser uma política pública de baixo custo e alto impacto: unir a tradição das bordadeiras locais, o design moderno e o suporte logístico do Senac ou do Banco do Brasil. A ideia, que transformaria artesãs em empreendedoras de moda para o mercado paulista, causou pânico no poder público local. O medo do novo paralisou a oportunidade.
Anos depois, vi esse modelo florescer em Birigui. Em meio à crise do pós-Real e à avassaladora invasão dos produtos chineses, não foi o Estado quem “fez”, mas quem “ajudou a fazer”. Um sindicato empreendedor, em parceria com a prefeitura e o Banco do Brasil, criou um arranjo produtivo que salvou a indústria de calçados infantis da região. Enquanto centros tradicionais como Franca soçobravam, Birigui exportava. Ali, o Estado não foi espectador, nem dono da fábrica; foi o articulador.
O Triângulo das Bermudas de Brasília
Ao longo da minha trajetória jornalística, vi dezenas de propostas de projetos de alta viabilidade sumirem no ar rarefeito da capital federal. O “Exporta Brasil”, que pretendia usar a capilaridade das agências do Banco do Brasil e o banco de dados da Fedex para projetar a exportação de pequenas empresas no mundo, morreu na inércia de ministros que copiavam ideias de terceiros, mas não tiravam do papel.
O mesmo destino teve a proposta de transformar o currículo Lattes em uma ponte tecnológica. Temos o maior cadastro de doutores e pesquisadores do mundo, mas o utilizamos apenas para fins acadêmicos. O projeto de transformar esse “cérebro nacional” em uma consultoria acessível para pequenas empresas via Sebrae perdeu-se nos corredores do Palácio do Planalto.
No começo do governo Dilma, técnicos do Ministério do Planejamento montaram uma versão digital do orçamento participativo, permitindo o acesso popular pela Internet. Por ela, o público poderia opinar sobre parte do orçamento. As propostas mais votadas seriam analisadas pelo Tribunal de Contas da União e pelo próprio Planejamento. Aquelas aprovadas seriam inseridas na proposta orçamentária. Não saiu do papel
Em Brasília, as ideias não morrem por falta de mérito, mas por desestímulo político. E também pelo comportamento estanque das diversas instituições de Estado, sem a presença do Estado Orquestrador.
O conflito permanente entre o público e o privado tornou-se uma caricatura útil para esconder a inação. Planejar virou palavrão; decidir, um risco pessoal que o burocrata prefere não correr.
Orquestrar não é Controlar
O país vive falsos paradoxos:
Estado versus mercado,
público versus privado,
regulação versus crescimento.
O modelo funcional é conhecido:
o Estado define direção e reduz risco sistêmico;
o mercado executa, inova e escala;
a sociedade legitima e fiscaliza.
A alternativa para o desenvolvimento brasileiro está testada e disponível. Não exige leis mirabolantes ou orçamentos bilionários. Exige o que chamo de Engenharia Institucional básica: a capacidade do Estado de articular atores públicos, setor privado e sociedade organizada.
O modelo funcional é simples na teoria, mas exige coragem na prática: o Estado coordena e reduz o risco; o mercado executa e escala; a sociedade legitima e fiscaliza. Até hoje, só vi uma gestão pública vitoriosa nessa direção: o trabalho de Fernando Haddad à frente do Ministério da Educação.
O Brasil já provou que sabe coordenar — do Plano de Metas de JK à construção do SUS. Desaprendemos a lição por termos nos rendido ao improviso. O Estado não precisa produzir tudo, mas precisa saber alinhar as engrenagens. Sem um maestro, a melhor orquestra do mundo produz apenas ruído.
A seguir, publicaremos uma série de análises sobre o papel transformador do Estado Orquestrador, inclusive com exemplos concretos de como pode se dar essa articulação em vários níveis.
Propostas feitas com auxílio de Inteligência Artificial
Dá para fazer muita coisa — e rápido — quando o governo para de tentar reinventar a roda e passa a alinhar as engrenagens que já existem no Brasil. O país não sofre de falta de instituições; sofre de descoordenação crônica. Eis um mapa do que é possível fazer agora, com o que já está aí:
Desenvolvimento produtivo sem criar novos ministérios (milagre possível)
Quem já existe
BNDES, Finep, Embrapa
SENAI, SENAC, SENAR
Sebrae, Apex
Universidades federais, IFs
Bancos públicos (BB, CEF, BNB, Basa)
O que pode ser feito
Programas nacionais por cadeia produtiva (não por setor genérico): alimentos processados, fármacos, defesa, mobilidade elétrica, agroindústria, economia do cuidado
Crédito + tecnologia + compras públicas num único pacote
Contratos de desempenho com metas claras (exportação, emprego, inovação)
Resumo: o Estado deixa de ser caixa eletrônico e vira orquestrador.
Segurança pública: menos bravata, mais inteligência integrada
Quem já existe
PF, PRF, polícias civis e militares
Coaf, Receita Federal
CNJ, MP, Detrans, guardas municipais
O que pode ser feito
Centros integrados regionais de inteligência financeira + criminal
Força-tarefa permanente contra lavagem de dinheiro local (jogo, milícia, tráfico, grilagem)
Banco único de dados operacionais (com controle judicial)
Resumo: crime organizado odeia integração. Vive de silo.
Saúde: SUS com cérebro digital
Quem já existe
SUS, Fiocruz, Butantan
Datasus, Anvisa
Universidades e hospitais públicos
O que pode ser feito
Prontuário nacional interoperável (já tecnicamente viável)
Produção local de insumos estratégicos com compras públicas garantidas
Rede nacional de vigilância epidemiológica em tempo real
Resumo: o SUS já é gigante — falta coordenação tecnológica, não discurso.
Educação e trabalho: parar de formar desempregados sofisticados
Quem já existe
MEC, IFs, SENAI/SENAC
Sistema S
Universidades públicas
Ministérios do Trabalho e da Indústria
O que pode ser feito
Pactos regionais: formação ligada a projetos produtivos reais
Cursos técnicos conectados a compras públicas e crédito
Resumo: atraso não é falta de dinheiro — é excesso de atrito.
Meio ambiente e economia: parar de tratar como inimigos
Quem já existe
Ibama, ICMBio
Embrapa
Universidades
Cooperativas e povos tradicionais
O que pode ser feito
Bioeconomia amazônica com crédito, assistência técnica e mercado garantido
Rastreabilidade obrigatória (já existe tecnologia)
Valorização econômica de quem preserva
Resumo: floresta em pé precisa modelo de negócios, não só discurso moral.
Democracia e instituições: coordenação é proteção
Quem já existe
STF, TSE, CNJ
CGU, TCU
MP, Defensorias
Universidades e imprensa
O que pode ser feito
Protocolos institucionais contra desinformação e ataques coordenados
Transparência ativa e dados abertos integrados
Educação midiática e institucional permanente
Resumo: democracia não se defende sozinha — precisa engenharia.
A virada de chave
O Brasil não precisa de mais estruturas. Precisa de:
coordenação,
metas claras,
integração institucional,
liderança política com visão de sistema.
Ou, em termos menos diplomáticos:
menos improviso, menos vaidade, menos silo.
É só alguém juntar as peças — como num Lego institucional gigante.
Perfeito. Segue um capítulo editorial, com linguagem de análise estratégica, pé no chão institucional e aquela ironia discreta que a realidade brasileira autoriza.
Capítulo — O Brasil já existe (falta combiná-lo)
O Brasil não é um país inviável. É um país desalinhado.
Ao contrário do mito recorrente — muito útil para vendedores de soluções mágicas — o problema central do Estado brasileiro não é a ausência de instituições, nem a escassez de técnicos, nem a falta de recursos. O Brasil tem tudo isso. O que lhe falta é coordenação política com visão de sistema.
Temos ministérios que não conversam, autarquias que competem, políticas públicas que se anulam e órgãos de controle que fiscalizam o vazio porque ninguém planejou o cheio. O resultado é um Estado grande no organograma e pequeno no impacto.
Não é caos. É fragmentação administrada.
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1. O fetiche da criação e a aversão à articulação
Diante de qualquer problema estrutural, a reação automática é criar:
um novo programa,
uma nova secretaria,
um novo comitê,
uma nova sigla.
É o urbanismo de Brasília aplicado à política pública: mais prédios, menos circulação.
Enquanto isso, estruturas robustas já existentes — BNDES, SUS, Sistema S, universidades federais, bancos públicos, agências reguladoras, estatais estratégicas — operam como ilhas de excelência cercadas por um oceano de descoordenação.
Criar algo novo rende manchete. Articular o que já existe rende resultado — e menos crédito político imediato. Eis o drama.
2. O Estado como orquestrador (não como caixa eletrônico)
Durante décadas, o Estado brasileiro oscilou entre dois extremos igualmente ineficientes:
o Estado que tenta fazer tudo sozinho;
o Estado que terceiriza tudo e se limita a assinar cheques.
Ambos fracassam pelo mesmo motivo: ausência de projeto.
A alternativa está dada, testada no mundo e possível no Brasil: o Estado como orquestrador de capacidades.
Não produz tudo, não controla tudo, mas coordena, define prioridades e alinha incentivos.
Isso significa:
crédito condicionado a metas produtivas;
compras públicas conectadas à inovação;
formação profissional ligada a projetos reais;
fiscalização integrada a dados e inteligência.
Nada disso exige novas leis mirabolantes. Exige vontade política de alinhar engrenagens.
3. Segurança, saúde e educação: o problema não é falta de força, é falta de cérebro coletivo
Na segurança pública, o país convive com dezenas de órgãos armados, mas raríssimos centros permanentes de inteligência integrada. O crime organizado, ao contrário, opera em rede, com fluxo financeiro, logística e informação.
Na saúde, o SUS é um dos maiores sistemas públicos do mundo, mas ainda funciona com ilhas de informação, prontuários fragmentados e compras descoordenadas. O cérebro existe; falta o sistema nervoso.
Na educação, formam-se profissionais sem conexão com projetos produtivos, enquanto setores inteiros reclamam de falta de mão de obra qualificada. É o paradoxo do diploma desempregado.
O padrão se repete: capacidade existe, coordenação não.
4. Infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento: o falso dilema
Outro mito persistente sustenta que desenvolvimento e meio ambiente são forças opostas. Na prática brasileira, o conflito não é entre preservar ou crescer — é entre planejar ou improvisar.
Sem planejamento integrado:
licenciamento vira gargalo político,
obra vira novela,
investimento foge.
Com coordenação:
projetos ganham previsibilidade,
preservação vira ativo econômico,
infraestrutura deixa de ser aposta e vira política.
O Brasil já tem os órgãos, os dados, a tecnologia e o capital humano para isso. Falta apenas o gesto mais simples e mais raro: sentar as instituições na mesma mesa com metas comuns.
5. Democracia: instituições fortes não funcionam no vácuo
Instituições não se defendem sozinhas. Democracia não é só Constituição; é engenharia institucional em funcionamento contínuo.
Sem articulação:
a desinformação corre solta,
conflitos viram espetáculo,
a confiança pública se dissolve.
Com coordenação:
dados circulam,
responsabilidades ficam claras,
abusos são contidos antes de virar crise.
A defesa democrática não é retórica. É processo.
6. A escolha política que nunca é técnica
Nada disso é segredo. Nada disso é utopia. Nada disso depende de “reforma estrutural profunda” para começar.
Depende de uma escolha política simples — e difícil:
trocar o protagonismo individual pelo resultado sistêmico.
Governar articulando forças existentes não rende heróis solitários, nem slogans fáceis. Rende algo mais perigoso para o populismo: política pública que funciona.
Conclusão — O país está montado. Falta apertar os parafusos.
O Brasil não precisa ser reinventado. Precisa ser operado com método.
As instituições estão aí.
As pessoas estão aí.
Os recursos estão aí.
O que falta não é Estado.
É coordenação com visão histórica.
Ou, para dizer sem rodeios:
o problema do Brasil não é falta de peças — é o manual de montagem ignorado em nome do improviso.
Excelente gancho histórico. Aqui dá para mostrar, com fatos, que coordenação institucional não é invenção moderna — é o que separa governos “memoráveis” de governos “barulhentos”.
Segue um capítulo editorial comparativo, JK × New Deal, focado na articulação entre Estado, sociedade e instituições já existentes.
Quando o Estado resolveu coordenar: JK e o New Deal
Há momentos raros em que governos param de discutir se o Estado deve agir e passam a decidir como ele vai agir. O Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e o New Deal de Franklin D. Roosevelt nasceram exatamente desses momentos de lucidez histórica.
Não foram milagres. Foram engenharias institucionais deliberadas.
O Plano de Metas de JK: desenvolvimento por coordenação, não por decreto
O Plano de Metas (1956–1961) não foi apenas uma lista de objetivos. Foi um método de articulação entre órgãos públicos, empresas privadas, bancos, técnicos e atores internacionais.
Estruturas já existentes mobilizadas
BNDE (criado em 1952, ainda jovem, mas central)
Banco do Brasil
SUMOC (embrião do Banco Central)
Ministérios setoriais
Empresas estatais (Petrobras, Eletrobras em gestação)
Empresas privadas nacionais e estrangeiras
Corpo técnico do ISEB e da Cepal
Nada disso foi criado por JK do zero. O mérito foi conectar.
Como funcionava a articulação na prática
a) Metas claras e finitas
31 metas agrupadas em energia, transporte, alimentação, indústria de base, educação
Um objetivo político explícito: “50 anos em 5”Sem metáfora: prazo manda.
b) Crédito direcionado
O BNDE não financiava “boas intenções”
Financiava projetos aderentes às metas
Energia financiava indústria; indústria alimentava infraestrutura
c) Aliança Estado–empresa
O Estado entrava com:
crédito,
proteção cambial,
infraestrutura.
O setor privado entrava com:
capital,
tecnologia,
execução.
Multinacionais vieram porque havia plano, não porque havia discurso liberal.
d) Coordenação política no centro
A Casa Civil funcionava como núcleo estratégico
Conflitos entre ministérios eram resolvidos politicamente, não empurrados para a gaveta
Resumo JK: o Estado não era dono de tudo — era o maestro. E ninguém toca sinfonia olhando só para a própria partitura.
O New Deal: o nascimento do Estado coordenador moderno
O New Deal (1933–1939) nasceu do colapso total: desemprego em massa, bancos quebrados, confiança zerada. Roosevelt não inventou um novo Estado — reprogramou o existente.
Instituições mobilizadas
Tesouro dos EUA
Federal Reserve
Governos estaduais e municipais
Sindicatos
Associações empresariais
Universidades
Judiciário (sim, mesmo sob tensão)
O New Deal foi menos sobre criar agências — e mais sobre fazer o sistema operar em rede.
Sindicatos como atores institucionais, não inimigos
b) Obras públicas como eixo de integração
WPA, TVA, PWA
Infraestrutura gerava:
emprego,
renda,
demanda,
coesão social.
Nada de “esperar o mercado reagir”.
c) Regulação financeira coordenada
Separação bancária (Glass-Steagall)
Seguro de depósitos
Controle sistêmico do crédito
O sistema financeiro deixou de comandar o Estado — passou a servi-lo.
d) Comunicação política permanente
Fireside chats: Roosevelt falava direto com a sociedade
Criava legitimidade para decisões difíceis
Resumo New Deal: o Estado virou plataforma de reconstrução, não árbitro distante.
O ponto comum entre JK e Roosevelt
Apesar de contextos distintos, há uma coincidência estrutural:
Elemento
Plano de Metas
New Deal
Instituições pré-existentes
Planejamento explícito
Coordenação política central
Aliança com setor produtivo
Legitimidade social
Conflitos resolvidos politicamente
Nenhum dos dois governou por improviso.
Nenhum dos dois acreditava em “mão invisível salvadora”.
Ambos entenderam algo simples — e esquecido:
mercados funcionam melhor quando o Estado coordena expectativas.
A lição esquecida
O Brasil de hoje se parece mais com o pré-JK do que com o JK.
E o mundo atual se parece mais com 1933 do que muitos admitem.
A diferença é que:
as instituições já existem,
a tecnologia facilita a coordenação,
o capital humano é maior.
O que falta não é capacidade.
É coragem política para coordenar.
Ou, em versão menos acadêmica:
governos fracassam não porque fazem demais, mas porque fazem cada um por conta própria.
Questão vai ao núcleo invisível do problema. O bloqueio ao planejamento no Brasil não vem da falta de ideias, mas do choque entre dogmas opostos que, curiosamente, produzem o mesmo efeito: paralisia.
Segue o mapa dos dogmas ideológicos antagônicos que, na prática, se alimentam mutuamente e sabotam qualquer tentativa séria de coordenação.
Os dogmas ideológicos que sabotam o planejamento
O dogma do “Estado mínimo redentor”
(o mercado resolve tudo — se deixarem)
A crença
Planejamento = intervencionismo
Política industrial = atraso
Coordenação = aparelhamento
Estado bom é Estado ausente
Como isso impede o planejamento
Demoniza qualquer tentativa de definir prioridades nacionais
Transforma planejamento em suspeita moral
Faz do improviso uma virtude (“o mercado ajusta”)
O paradoxo
Os países que mais planejam (EUA, Alemanha, Coreia do Sul, China) são tratados como exceções — ou convenientemente ignorados.
Resultado: o Estado vira árbitro mudo num jogo jogado por quem já tem vantagem.
O dogma do “Estado salvador onipotente”
(o Estado faz tudo — se quiser)
A crença
Vontade política basta
Planejamento substitui execução
Decreto resolve gargalo estrutural
Instituições se alinham por comando
Como isso impede o planejamento
Confunde plano com lista de desejos
Subestima capacidade operacional
Ignora limites federativos e institucionais
Gera metas sem meios
O paradoxo
Quando o plano falha, a culpa recai “na sabotagem”, nunca no desenho.
Resultado: frustração crônica e descrédito do próprio planejamento.
O dogma tecnocrático despolitizado
(basta seguir os números)
A crença
Política atrapalha
Técnicos são neutros
Planejamento é exercício matemático
Conflitos se resolvem por evidência
Como isso impede o planejamento
Ignora que toda decisão envolve poder
Foge do conflito em vez de resolvê-lo
Substitui coordenação por planilha
O paradoxo
Sem decisão política, os melhores dados não saem do Excel.
Sem decisão, o conflito continua — só que sem solução.
Resultado: governança de café frio.
O dogma do “Brasil é inviável”
(nada dá certo aqui)
A crença
Instituições não funcionam
Planejamento sempre fracassa
Melhor não tentar
Como isso impede o planejamento
Naturaliza o improviso
Desresponsabiliza gestores
Mata ambição pública
O paradoxo
A profecia se cumpre por desistência antecipada.
Resultado: mediocridade como política de Estado.
O ponto cego comum a todos os dogmas
Apesar de opostos, todos compartilham um erro central:
tratam planejamento como ideologia, não como método.
Planejamento não é:
estatização,
voluntarismo,
tecnocracia,
populismo,
nem austeridade cega.
Planejamento é coordenação política baseada em evidência, com decisão, risco calculado e responsabilidade.
Conclusão — Planejar é escolher, e escolher incomoda
O planejamento incomoda porque:
define prioridades,
cria perdedores no curto prazo,
expõe decisões,
exige liderança.
Dogmas, de direita ou de esquerda, oferecem conforto:
explicam o fracasso,
evitam escolhas,
terceirizam a culpa.
Governar, não.
Planejamento não é ideologia. É método.
Resposta editorial aos dogmas que paralisam o Brasil
Toda vez que o Brasil tenta planejar, o debate descamba para uma guerra de rótulos. Planejamento vira “estatismo” para uns, “insuficiência política” para outros, “risco fiscal” para terceiros. O resultado é previsível: o método desaparece, o dogma vence.
Este editorial responde a esses dogmas — não para conciliá-los artificialmente, mas para desarmá-los.
Ao dogma do Estado mínimo: planejamento não substitui mercado, organiza expectativas
Planejamento não elimina concorrência, não define preços, não escolhe vencedores no detalhe. Ele faz algo mais básico: reduz incerteza sistêmica.
Os mercados que funcionam melhor no mundo são justamente os que operam dentro de:
infraestrutura planejada,
crédito coordenado,
regras previsíveis,
objetivos nacionais explícitos.
Chamar isso de intervencionismo é confundir direção com controle.
Mercado sem coordenação não é livre — é assimétrico.
Ao dogma do Estado salvador: planejamento não dispensa limites, exige execução
Planejamento não é lista de desejos nem substituto da realidade institucional. Ele só funciona quando:
reconhece capacidades existentes,
respeita limites federativos,
integra o setor privado,
aceita correções de rota.
Planos que ignoram meios viram retórica.
Retórica não transforma estrutura produtiva.
Planejar é escolher o que não será feito — e isso exige mais maturidade política do que proclamar intenções.
Ao dogma tecnocrático: dados não decidem sozinhos
Evidência é condição necessária, não suficiente.
Planejamento envolve conflito distributivo, prioridades políticas e escolhas que nenhum algoritmo resolve. Fingir neutralidade técnica é uma forma elegante de não decidir.
Sem autoridade política:
dados viram relatório,
relatório vira gaveta,
gaveta vira desculpa.
Planejamento exige técnica e decisão. Separar uma da outra é sabotagem sofisticada.
Ao dogma fiscalista absoluto: investir não é irresponsabilidade, é escolha temporal
Responsabilidade fiscal não é sinônimo de imobilismo.
O verdadeiro risco fiscal está em:
baixo crescimento,
infraestrutura precária,
desindustrialização,
perda de capacidade produtiva.
Planejamento sério diferencia:
gasto corrente de investimento,
despesa ineficiente de indução estrutural.
Austeridade sem estratégia preserva números no curto prazo e destrói o futuro silenciosamente.
Ao dogma do controle paralisante: governar envolve risco calculado
Estado que não assume risco não governa — administra o vazio.
Controle público é essencial, mas quando atua apenas como veto:
premia quem não decide,
pune quem tenta,
institucionaliza a inação.
Planejamento bem feito reduz risco justamente porque antecipa problemas.
Controlar o improviso depois é sempre tarde demais.
Ao dogma do consenso impossível: planejar é escolher, não agradar
Nenhum processo de planejamento sério nasce de unanimidade.
Ele nasce de prioridade clara e conflito administrado.
Esperar consenso total é:
adiar decisões,
diluir metas,
terceirizar responsabilidade.
Democracia não é ausência de conflito.
É capacidade de decidi-lo institucionalmente.
Ao dogma do “Brasil não dá certo”: a história prova o contrário
O Brasil já coordenou:
industrialização,
infraestrutura,
ciência,
políticas sociais complexas.
Fracassos não provam inviabilidade.
Provam descontinuidade e descoordenação.
Naturalizar o fracasso é o dogma mais confortável — e o mais destrutivo.
O ponto comum que os dogmas escondem
Todos esses dogmas, embora opostos, produzem o mesmo efeito:
impedem o Estado de funcionar como sistema.
Uns demonizam a coordenação.
Outros a caricaturam.
Quase todos preferem o conforto da crítica ao risco da execução.
Planejamento não é bandeira ideológica.
É instrumento de governo.
Conclusão — Planejar é assumir responsabilidade histórica
Planejar significa:
dizer para onde o país vai,
admitir limites,
assumir conflitos,
responder por resultados.
Dogmas oferecem álibis.
Planejamento exige compromisso.
O Brasil não precisa escolher entre Estado e mercado, controle e execução, técnica e política. Precisa integrar.
Enquanto o debate ficar preso a dogmas, o país continuará refém do improviso — que é a ideologia mais cara de todas.
Planejar não é ideologia. É governar.
Resposta aos dogmas que paralisam o Brasil
O Brasil não está travado por falta de ideias, recursos ou instituições. Está travado por um impasse menos visível e mais persistente: a captura do debate público por dogmas ideológicos opostos que produzem o mesmo resultado — a impossibilidade de planejar.
Sempre que o tema surge, a discussão descamba para caricaturas. Planejamento vira sinônimo de estatismo para uns, de voluntarismo para outros, de irresponsabilidade fiscal para terceiros. No meio do tiroteio, o método desaparece. E o país segue governado por improvisos.
Este editorial parte de uma tese simples:
planejamento não é doutrina. É técnica de governo em democracias complexas.
O mito do Estado mínimo que resolve tudo
O primeiro bloqueio vem do dogma segundo o qual qualquer tentativa de coordenação estatal seria uma ameaça à liberdade econômica. Planejar, nessa visão, é “escolher vencedores”, “interferir no mercado” ou “repetir erros do passado”.
O problema é factual: os países capitalistas mais dinâmicos planejam intensamente. Planejam infraestrutura, energia, inovação, defesa, cadeias produtivas estratégicas. Não para substituir o mercado, mas para organizar expectativas e reduzir incerteza.
Mercados funcionam melhor quando sabem para onde o país vai.
Sem direção, não há concorrência plena — há assimetria.
O mito do Estado salvador que resolve tudo
No polo oposto, outro dogma igualmente paralisante: a crença de que basta vontade política para que o Estado imponha uma transformação estrutural por decreto.
Aqui, planejamento vira lista de desejos. Metas se multiplicam sem meios. Conflitos institucionais são ignorados. Limites federativos desaparecem do papel — mas não da realidade.
Quando o plano falha, a culpa recai sempre em fatores externos: sabotagem, elite, conjuntura. Nunca no desenho.
Planejar não é prometer tudo.
É escolher pouco, com base no que pode ser executado.
O conforto da tecnocracia sem decisão
Há ainda o dogma aparentemente neutro: o de que bastaria “seguir os dados”. Planejamento vira exercício estatístico, e a política é tratada como ruído.
É uma ilusão elegante. Dados não resolvem conflitos distributivos. Indicadores não escolhem prioridades. Evidência não substitui autoridade política.
Sem decisão, relatórios viram gavetas.
E gavetas não governam países.
A austeridade sem horizonte
Outro bloqueio recorrente é o fiscalismo absoluto, que transforma qualquer investimento público em suspeita moral. Tudo vira risco. O futuro pode esperar.
Mas o verdadeiro risco fiscal não é investir — é não crescer. É conviver com infraestrutura precária, baixa produtividade, desindustrialização e dependência cíclica de commodities.
Planejamento sério distingue gasto de investimento.
Austeridade sem estratégia preserva números no curto prazo e corrói a base econômica no longo.
O controle que paralisa
Some-se a isso o dogma do controle punitivo, no qual governar passa a ser sinônimo de não errar. Decidir vira risco pessoal. Inovar vira exposição.
O resultado é um Estado que não falha porque não age.
Controle público é indispensável. Mas quando atua apenas como veto, ele institucionaliza a inação. Planejamento bem feito reduz risco justamente porque antecipa problemas — algo impossível no improviso permanente.
O consenso impossível
Há, por fim, o dogma do consenso absoluto: a ideia de que planejar exige agradar a todos. Como isso é impossível, decide-se não decidir.
Prioridades são diluídas, metas perdem força, e a política vira uma sequência de anúncios desconectados.
Democracia não é ausência de conflito.
É capacidade de administrá-lo institucionalmente.
O erro comum a todos os dogmas
Esses dogmas discordam em tudo — menos no efeito final. Todos impedem o Estado de funcionar como sistema.
Uns demonizam a coordenação.
Outros a caricaturam.
Quase todos preferem o conforto da crítica ao risco da execução.
Planejamento, no entanto, não é bandeira ideológica.
É instrumento básico de governo em sociedades complexas.
Planejar é assumir responsabilidade
Planejar significa:
definir prioridades nacionais,
integrar políticas públicas,
alinhar instituições,
assumir conflitos,
responder por resultados.
Dogmas oferecem álibis.
Planejamento exige compromisso.
O Brasil já fez isso antes. Em momentos decisivos, coordenou investimento, crédito, infraestrutura e política social. Não foi perfeito. Mas funcionou melhor do que o improviso que se tornou regra.
O país não precisa escolher entre Estado e mercado, técnica e política, controle e execução. Precisa integrar.
Enquanto o debate permanecer prisioneiro de dogmas, o Brasil continuará governado pela ideologia mais cara de todas: a do improviso permanente.