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Luis Nassif

O Maestro Ausente: Por que o Brasil tem a Orquestra, mas ignora a Partitura?

O verdadeiro risco fiscal está em: baixo crescimento, infraestrutura precária, desindustrialização, perda de capacidade produtiva.

Publicado em 26/02/2026
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O Brasil padece de uma miopia de gestão que precisa ser superada, se houver a mínima ambição de se transformar em uma economia avançada. Diante de qualquer crise ou desafio estrutural, a resposta de Brasília é quase pavloviana: cria-se um novo programa, uma nova secretaria ou uma sigla imponente. No entanto, o que a experiência de décadas nos mostra é que o problema brasileiro raramente é a falta de estruturas ou de capital humano. O Brasil dispõe do que há de mais difícil no processo de catch-up (o emparelhamento com nações desenvolvidas): instituições públicas consistentes, organizações civis de alcance nacional e centros de pesquisa de excelência.

O que falta, e o que tem condenado o país ao improviso, é o chamado Estado Orquestrador.

A engenharia do possível

Minha percepção sobre o poder da articulação governamental não nasceu em gabinetes, mas na prática. Em 1974, montei um jornal em Poços de Caldas, mesmo já trabalhando na imprensa paulista. Com o lançamento de máquinas Singer, de tricô, vislumbrei o que poderia ser uma política pública de baixo custo e alto impacto: unir a tradição das bordadeiras locais, o design moderno e o suporte logístico do Senac ou do Banco do Brasil. A ideia, que transformaria artesãs em empreendedoras de moda para o mercado paulista, causou pânico no poder público local. O medo do novo paralisou a oportunidade.

Anos depois, vi esse modelo florescer em Birigui. Em meio à crise do pós-Real e à avassaladora invasão dos produtos chineses, não foi o Estado quem “fez”, mas quem “ajudou a fazer”. Um sindicato empreendedor, em parceria com a prefeitura e o Banco do Brasil, criou um arranjo produtivo que salvou a indústria de calçados infantis da região. Enquanto centros tradicionais como Franca soçobravam, Birigui exportava. Ali, o Estado não foi espectador, nem dono da fábrica; foi o articulador.

O Triângulo das Bermudas de Brasília

Ao longo da minha trajetória jornalística, vi dezenas de propostas de projetos de alta viabilidade sumirem no ar rarefeito da capital federal. O “Exporta Brasil”, que pretendia usar a capilaridade das agências do Banco do Brasil e o banco de dados da Fedex para projetar a exportação de pequenas empresas no mundo, morreu na inércia de ministros que copiavam ideias de terceiros, mas não tiravam do papel.

O mesmo destino teve a proposta de transformar o currículo Lattes em uma ponte tecnológica. Temos o maior cadastro de doutores e pesquisadores do mundo, mas o utilizamos apenas para fins acadêmicos. O projeto de transformar esse “cérebro nacional” em uma consultoria acessível para pequenas empresas via Sebrae perdeu-se nos corredores do Palácio do Planalto.

No começo do governo Dilma, técnicos do Ministério do Planejamento montaram uma versão digital do orçamento participativo, permitindo o acesso popular pela Internet. Por ela, o público poderia opinar sobre parte do orçamento. As propostas mais votadas seriam analisadas pelo Tribunal de Contas da União e pelo próprio Planejamento. Aquelas aprovadas seriam inseridas na proposta orçamentária. Não saiu do papel

Em Brasília, as ideias não morrem por falta de mérito, mas por desestímulo político. E também pelo comportamento estanque das diversas instituições de Estado, sem a presença do Estado Orquestrador.

O conflito permanente entre o público e o privado tornou-se uma caricatura útil para esconder a inação. Planejar virou palavrão; decidir, um risco pessoal que o burocrata prefere não correr.

Orquestrar não é Controlar

O país vive falsos paradoxos:

  • Estado versus mercado,
  • público versus privado,
  • regulação versus crescimento.

O modelo funcional é conhecido:

  • o Estado define direção e reduz risco sistêmico;
  • o mercado executa, inova e escala;
  • a sociedade legitima e fiscaliza.

A alternativa para o desenvolvimento brasileiro está testada e disponível. Não exige leis mirabolantes ou orçamentos bilionários. Exige o que chamo de Engenharia Institucional básica: a capacidade do Estado de articular atores públicos, setor privado e sociedade organizada.

O modelo funcional é simples na teoria, mas exige coragem na prática: o Estado coordena e reduz o risco; o mercado executa e escala; a sociedade legitima e fiscaliza. Até hoje, só vi uma gestão pública vitoriosa nessa direção: o trabalho de Fernando Haddad à frente do Ministério da Educação.

O Brasil já provou que sabe coordenar — do Plano de Metas de JK à construção do SUS. Desaprendemos a lição por termos nos rendido ao improviso. O Estado não precisa produzir tudo, mas precisa saber alinhar as engrenagens. Sem um maestro, a melhor orquestra do mundo produz apenas ruído.

A seguir, publicaremos uma série de análises sobre o papel transformador do Estado Orquestrador, inclusive com exemplos concretos de como pode se dar essa articulação em vários níveis.

Dá para fazer muita coisa — e rápido — quando o governo para de tentar reinventar a roda e passa a alinhar as engrenagens que já existem no Brasil. O país não sofre de falta de instituições; sofre de descoordenação crônica. Eis um mapa do que é possível fazer agora, com o que já está aí:

1️⃣ Desenvolvimento produtivo sem criar novos ministérios (milagre possível)

Quem já existe

  • BNDES, Finep, Embrapa
  • SENAI, SENAC, SENAR
  • Sebrae, Apex
  • Universidades federais, IFs
  • Bancos públicos (BB, CEF, BNB, Basa)

O que pode ser feito

  • Programas nacionais por cadeia produtiva (não por setor genérico):👉 alimentos processados, fármacos, defesa, mobilidade elétrica, agroindústria, economia do cuidado
  • Crédito + tecnologia + compras públicas num único pacote
  • Contratos de desempenho com metas claras (exportação, emprego, inovação)

💡 Resumo: o Estado deixa de ser caixa eletrônico e vira orquestrador.

 

2️⃣ Segurança pública: menos bravata, mais inteligência integrada

Quem já existe

  • PF, PRF, polícias civis e militares
  • Coaf, Receita Federal
  • CNJ, MP, Detrans, guardas municipais

O que pode ser feito

  • Centros integrados regionais de inteligência financeira + criminal
  • Força-tarefa permanente contra lavagem de dinheiro local (jogo, milícia, tráfico, grilagem)
  • Banco único de dados operacionais (com controle judicial)

💡 Resumo: crime organizado odeia integração. Vive de silo.

 

3️⃣ Saúde: SUS com cérebro digital

Quem já existe

  • SUS, Fiocruz, Butantan
  • Datasus, Anvisa
  • Universidades e hospitais públicos

O que pode ser feito

  • Prontuário nacional interoperável (já tecnicamente viável)
  • Produção local de insumos estratégicos com compras públicas garantidas
  • Rede nacional de vigilância epidemiológica em tempo real

💡 Resumo: o SUS já é gigante — falta coordenação tecnológica, não discurso.

4️⃣ Educação e trabalho: parar de formar desempregados sofisticados

Quem já existe

  • MEC, IFs, SENAI/SENAC
  • Sistema S
  • Universidades públicas
  • Ministérios do Trabalho e da Indústria

O que pode ser feito

  • Pactos regionais: formação ligada a projetos produtivos reais
  • Cursos técnicos conectados a compras públicas e crédito
  • Reconversão profissional contínua (IA, energia, logística, saúde)

💡 Resumo: diploma sem demanda é só papel bonito.

 

5️⃣ Infraestrutura: usar o Estado para destravar, não substituir

Quem já existe

  • DNIT, EPL, Infra S.A.
  • TCU, BNDES
  • Estatais e concessionárias

O que pode ser feito

  • Projetos padronizados e replicáveis (menos obra “artesanal”)
  • Coordenação entre União, estados e municípios para licenciamento
  • Planejamento logístico integrado (ferrovias, portos, energia)

💡 Resumo: atraso não é falta de dinheiro — é excesso de atrito.

 

6️⃣ Meio ambiente e economia: parar de tratar como inimigos

Quem já existe

  • Ibama, ICMBio
  • Embrapa
  • Universidades
  • Cooperativas e povos tradicionais

O que pode ser feito

  • Bioeconomia amazônica com crédito, assistência técnica e mercado garantido
  • Rastreabilidade obrigatória (já existe tecnologia)
  • Valorização econômica de quem preserva

💡 Resumo: floresta em pé precisa modelo de negócios, não só discurso moral.

 

7️⃣ Democracia e instituições: coordenação é proteção

Quem já existe

  • STF, TSE, CNJ
  • CGU, TCU
  • MP, Defensorias
  • Universidades e imprensa

O que pode ser feito

  • Protocolos institucionais contra desinformação e ataques coordenados
  • Transparência ativa e dados abertos integrados
  • Educação midiática e institucional permanente

💡 Resumo: democracia não se defende sozinha — precisa engenharia.

 

🎯 A virada de chave

O Brasil não precisa de mais estruturas. Precisa de:

  • coordenação,
  • metas claras,
  • integração institucional,
  • liderança política com visão de sistema.

Ou, em termos menos diplomáticos:

👉 menos improviso, menos vaidade, menos silo.

É só alguém juntar as peças — como num Lego institucional gigante. 🧩

Capítulo — O Brasil já existe (falta combiná-lo)

O Brasil não é um país inviável. É um país desalinhado.

Ao contrário do mito recorrente — muito útil para vendedores de soluções mágicas — o problema central do Estado brasileiro não é a ausência de instituições, nem a escassez de técnicos, nem a falta de recursos. O Brasil tem tudo isso. O que lhe falta é coordenação política com visão de sistema.

Temos ministérios que não conversam, autarquias que competem, políticas públicas que se anulam e órgãos de controle que fiscalizam o vazio porque ninguém planejou o cheio. O resultado é um Estado grande no organograma e pequeno no impacto.

Não é caos. É fragmentação administrada.

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1. O fetiche da criação e a aversão à articulação

Diante de qualquer problema estrutural, a reação automática é criar:

  • um novo programa,
  • uma nova secretaria,
  • um novo comitê,
  • uma nova sigla.

É o urbanismo de Brasília aplicado à política pública: mais prédios, menos circulação.

Enquanto isso, estruturas robustas já existentes — BNDES, SUS, Sistema S, universidades federais, bancos públicos, agências reguladoras, estatais estratégicas — operam como ilhas de excelência cercadas por um oceano de descoordenação.

Criar algo novo rende manchete. Articular o que já existe rende resultado — e menos crédito político imediato. Eis o drama.

2. O Estado como orquestrador (não como caixa eletrônico)

Durante décadas, o Estado brasileiro oscilou entre dois extremos igualmente ineficientes:

  • o Estado que tenta fazer tudo sozinho;
  • o Estado que terceiriza tudo e se limita a assinar cheques.

Ambos fracassam pelo mesmo motivo: ausência de projeto.

A alternativa está dada, testada no mundo e possível no Brasil: o Estado como orquestrador de capacidades.

Não produz tudo, não controla tudo, mas coordena, define prioridades e alinha incentivos.

Isso significa:

  • crédito condicionado a metas produtivas;
  • compras públicas conectadas à inovação;
  • formação profissional ligada a projetos reais;
  • fiscalização integrada a dados e inteligência.

Nada disso exige novas leis mirabolantes. Exige vontade política de alinhar engrenagens.

3. Segurança, saúde e educação: o problema não é falta de força, é falta de cérebro coletivo

Na segurança pública, o país convive com dezenas de órgãos armados, mas raríssimos centros permanentes de inteligência integrada. O crime organizado, ao contrário, opera em rede, com fluxo financeiro, logística e informação.

Na saúde, o SUS é um dos maiores sistemas públicos do mundo, mas ainda funciona com ilhas de informação, prontuários fragmentados e compras descoordenadas. O cérebro existe; falta o sistema nervoso.

Na educação, formam-se profissionais sem conexão com projetos produtivos, enquanto setores inteiros reclamam de falta de mão de obra qualificada. É o paradoxo do diploma desempregado.

4. Infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento: o falso dilema

Outro mito persistente sustenta que desenvolvimento e meio ambiente são forças opostas. Na prática brasileira, o conflito não é entre preservar ou crescer — é entre planejar ou improvisar.

Sem planejamento integrado:

  • licenciamento vira gargalo político,
  • obra vira novela,
  • investimento foge.

Com coordenação:

  • projetos ganham previsibilidade,
  • preservação vira ativo econômico,
  • infraestrutura deixa de ser aposta e vira política.

O Brasil já tem os órgãos, os dados, a tecnologia e o capital humano para isso. Falta apenas o gesto mais simples e mais raro: sentar as instituições na mesma mesa com metas comuns.

5. Democracia: instituições fortes não funcionam no vácuo

Instituições não se defendem sozinhas. Democracia não é só Constituição; é engenharia institucional em funcionamento contínuo.

Sem articulação:

  • a desinformação corre solta,
  • conflitos viram espetáculo,
  • a confiança pública se dissolve.

Com coordenação:

  • dados circulam,
  • responsabilidades ficam claras,
  • abusos são contidos antes de virar crise.

A defesa democrática não é retórica. É processo.

6. A escolha política que nunca é técnica

Nada disso é segredo. Nada disso é utopia. Nada disso depende de “reforma estrutural profunda” para começar.

Depende de uma escolha política simples — e difícil:

👉 trocar o protagonismo individual pelo resultado sistêmico.

Governar articulando forças existentes não rende heróis solitários, nem slogans fáceis. Rende algo mais perigoso para o populismo: política pública que funciona.

 

Conclusão — O país está montado. Falta apertar os parafusos.

O Brasil não precisa ser reinventado. Precisa ser operado com método.

As instituições estão aí.

As pessoas estão aí.

Os recursos estão aí.

O que falta não é Estado.

É coordenação com visão histórica.

Ou, para dizer sem rodeios:

o problema do Brasil não é falta de peças — é o manual de montagem ignorado em nome do improviso.

Excelente gancho histórico. Aqui dá para mostrar, com fatos, que coordenação institucional não é invenção moderna — é o que separa governos “memoráveis” de governos “barulhentos”.

Segue um capítulo editorial comparativo, JK × New Deal, focado na articulação entre Estado, sociedade e instituições já existentes.


Quando o Estado resolveu coordenar: JK e o New Deal

Há momentos raros em que governos param de discutir se o Estado deve agir e passam a decidir como ele vai agir. O Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e o New Deal de Franklin D. Roosevelt nasceram exatamente desses momentos de lucidez histórica.

Não foram milagres. Foram engenharias institucionais deliberadas.

1️⃣ O Plano de Metas de JK: desenvolvimento por coordenação, não por decreto

O Plano de Metas (1956–1961) não foi apenas uma lista de objetivos. Foi um método de articulação entre órgãos públicos, empresas privadas, bancos, técnicos e atores internacionais.

🔹 Estruturas já existentes mobilizadas

  • BNDE (criado em 1952, ainda jovem, mas central)
  • Banco do Brasil
  • SUMOC (embrião do Banco Central)
  • Ministérios setoriais
  • Empresas estatais (Petrobras, Eletrobras em gestação)
  • Empresas privadas nacionais e estrangeiras
  • Corpo técnico do ISEB e da Cepal

Nada disso foi criado por JK do zero. O mérito foi conectar.

🔹 Como funcionava a articulação na prática

a) Metas claras e finitas

  • 31 metas agrupadas em energia, transporte, alimentação, indústria de base, educação
  • Um objetivo político explícito: “50 anos em 5”Sem metáfora: prazo manda.

b) Crédito direcionado

  • O BNDE não financiava “boas intenções”
  • Financiava projetos aderentes às metas
  • Energia financiava indústria; indústria alimentava infraestrutura

c) Aliança Estado–empresa

  • O Estado entrava com:
    • crédito,
    • proteção cambial,
    • infraestrutura.
  • O setor privado entrava com:
    • capital,
    • tecnologia,
    • execução.

Multinacionais vieram porque havia plano, não porque havia discurso liberal.

d) Coordenação política no centro

  • A Casa Civil funcionava como núcleo estratégico
  • Conflitos entre ministérios eram resolvidos politicamente, não empurrados para a gaveta

💡 Resumo JK: o Estado não era dono de tudo — era o maestro. E ninguém toca sinfonia olhando só para a própria partitura.

2️⃣ O New Deal: o nascimento do Estado coordenador moderno

O New Deal (1933–1939) nasceu do colapso total: desemprego em massa, bancos quebrados, confiança zerada. Roosevelt não inventou um novo Estado — reprogramou o existente.

🔹 Instituições mobilizadas

  • Tesouro dos EUA
  • Federal Reserve
  • Governos estaduais e municipais
  • Sindicatos
  • Associações empresariais
  • Universidades
  • Judiciário (sim, mesmo sob tensão)

O New Deal foi menos sobre criar agências — e mais sobre fazer o sistema operar em rede.

🔹 Os mecanismos centrais de articulação

a) Planejamento com legitimidade social

  • Conselhos tripartites (Estado, empresas, trabalhadores)
  • Pactos setoriais de salários, preços e produção
  • Sindicatos como atores institucionais, não inimigos

b) Obras públicas como eixo de integração

  • WPA, TVA, PWA
  • Infraestrutura gerava:
    • emprego,
    • renda,
    • demanda,
    • coesão social.

Nada de “esperar o mercado reagir”.

c) Regulação financeira coordenada

  • Separação bancária (Glass-Steagall)
  • Seguro de depósitos
  • Controle sistêmico do crédito

O sistema financeiro deixou de comandar o Estado — passou a servi-lo.

d) Comunicação política permanente

  • Fireside chats: Roosevelt falava direto com a sociedade
  • Criava legitimidade para decisões difíceis

💡 Resumo New Deal: o Estado virou plataforma de reconstrução, não árbitro distante.

3️⃣ O ponto comum entre JK e Roosevelt

Apesar de contextos distintos, há uma coincidência estrutural:

Elemento Plano de Metas New Deal
Instituições pré-existentes ✔ ✔
Planejamento explícito ✔ ✔
Coordenação política central ✔ ✔
Aliança com setor produtivo ✔ ✔
Legitimidade social ✔ ✔
Conflitos resolvidos politicamente ✔ ✔

Nenhum dos dois governou por improviso.

Nenhum dos dois acreditava em “mão invisível salvadora”.

Ambos entenderam algo simples — e esquecido:

👉 mercados funcionam melhor quando o Estado coordena expectativas.

4️⃣ A lição esquecida

O Brasil de hoje se parece mais com o pré-JK do que com o JK.

E o mundo atual se parece mais com 1933 do que muitos admitem.

A diferença é que:

  • as instituições já existem,
  • a tecnologia facilita a coordenação,
  • o capital humano é maior.

O que falta não é capacidade.

É coragem política para coordenar.

Ou, em versão menos acadêmica:

governos fracassam não porque fazem demais, mas porque fazem cada um por conta própria.

Questão vai ao núcleo invisível do problema. O bloqueio ao planejamento no Brasil não vem da falta de ideias, mas do choque entre dogmas opostos que, curiosamente, produzem o mesmo efeito: paralisia.

Segue o mapa dos dogmas ideológicos antagônicos que, na prática, se alimentam mutuamente e sabotam qualquer tentativa séria de coordenação.


Os dogmas ideológicos que sabotam o planejamento

 

1️⃣ O dogma do “Estado mínimo redentor”

(o mercado resolve tudo — se deixarem)

A crença

  • Planejamento = intervencionismo
  • Política industrial = atraso
  • Coordenação = aparelhamento
  • Estado bom é Estado ausente

Como isso impede o planejamento

  • Demoniza qualquer tentativa de definir prioridades nacionais
  • Transforma planejamento em suspeita moral
  • Faz do improviso uma virtude (“o mercado ajusta”)

O paradoxo

Os países que mais planejam (EUA, Alemanha, Coreia do Sul, China) são tratados como exceções — ou convenientemente ignorados.

💡 Resultado: o Estado vira árbitro mudo num jogo jogado por quem já tem vantagem.

 

2️⃣ O dogma do “Estado salvador onipotente”

(o Estado faz tudo — se quiser)

A crença

  • Vontade política basta
  • Planejamento substitui execução
  • Decreto resolve gargalo estrutural
  • Instituições se alinham por comando

Como isso impede o planejamento

  • Confunde plano com lista de desejos
  • Subestima capacidade operacional
  • Ignora limites federativos e institucionais
  • Gera metas sem meios

O paradoxo

Quando o plano falha, a culpa recai “na sabotagem”, nunca no desenho.

💡 Resultado: frustração crônica e descrédito do próprio planejamento.

3️⃣ O dogma tecnocrático despolitizado

(basta seguir os números)

A crença

  • Política atrapalha
  • Técnicos são neutros
  • Planejamento é exercício matemático
  • Conflitos se resolvem por evidência

Como isso impede o planejamento

  • Ignora que toda decisão envolve poder
  • Foge do conflito em vez de resolvê-lo
  • Substitui coordenação por planilha

O paradoxo

Sem decisão política, os melhores dados não saem do Excel.

💡 Resultado: excelente diagnóstico, nenhuma execução.

4️⃣ O dogma fiscalista absoluto

(equilíbrio primeiro, tudo depois)

A crença

  • Qualquer gasto é risco
  • Investimento público é suspeito
  • Planejamento é gasto disfarçado
  • O futuro espera

Como isso impede o planejamento

  • Curto prazo domina tudo
  • Investimentos estruturantes são adiados indefinidamente
  • Planejamento vira exercício retórico

O paradoxo

Ao evitar risco fiscal, cria-se risco econômico permanente.

💡 Resultado: ajuste sem estratégia, estabilidade sem progresso.

5️⃣ O dogma do controle punitivo

(governar é não errar)

A crença

  • O risco é sempre desvio
  • Inovar é perigoso
  • Decidir é exposição pessoal
  • Melhor não assinar nada

Como isso impede o planejamento

  • Premia a inação
  • Penaliza tentativa
  • Transforma o controle em veto estrutural

O paradoxo

O Estado não erra porque não age.

💡 Resultado: paralisia elegante, fracasso silencioso.

6️⃣ O dogma do “consenso impossível”

(se não agrada a todos, não faça)

A crença

  • Planejamento exige unanimidade
  • Conflito é sinal de fracasso
  • Decisão forte é autoritária

Como isso impede o planejamento

  • Prioridades são diluídas
  • Metas perdem força
  • Coordenação vira reunião infinita

O paradoxo

Sem decisão, o conflito continua — só que sem solução.

💡 Resultado: governança de café frio.

7️⃣ O dogma do “Brasil é inviável”

(nada dá certo aqui)

A crença

  • Instituições não funcionam
  • Planejamento sempre fracassa
  • Melhor não tentar

Como isso impede o planejamento

  • Naturaliza o improviso
  • Desresponsabiliza gestores
  • Mata ambição pública

O paradoxo

A profecia se cumpre por desistência antecipada.

💡 Resultado: mediocridade como política de Estado.

🎯 O ponto cego comum a todos os dogmas

Apesar de opostos, todos compartilham um erro central:

👉 tratam planejamento como ideologia, não como método.

Planejamento não é:

  • estatização,
  • voluntarismo,
  • tecnocracia,
  • populismo,
  • nem austeridade cega.

Planejamento é coordenação política baseada em evidência, com decisão, risco calculado e responsabilidade.

Conclusão — Planejar é escolher, e escolher incomoda

O planejamento incomoda porque:

  • define prioridades,
  • cria perdedores no curto prazo,
  • expõe decisões,
  • exige liderança.

Dogmas, de direita ou de esquerda, oferecem conforto:

  • explicam o fracasso,
  • evitam escolhas,
  • terceirizam a culpa.

Governar, não.

Planejamento não é ideologia. É método.

Resposta editorial aos dogmas que paralisam o Brasil

Toda vez que o Brasil tenta planejar, o debate descamba para uma guerra de rótulos. Planejamento vira “estatismo” para uns, “insuficiência política” para outros, “risco fiscal” para terceiros. O resultado é previsível: o método desaparece, o dogma vence.

Este editorial responde a esses dogmas — não para conciliá-los artificialmente, mas para desarmá-los.


Ao dogma do Estado mínimo: planejamento não substitui mercado, organiza expectativas

Planejamento não elimina concorrência, não define preços, não escolhe vencedores no detalhe. Ele faz algo mais básico: reduz incerteza sistêmica.

Os mercados que funcionam melhor no mundo são justamente os que operam dentro de:

  • infraestrutura planejada,
  • crédito coordenado,
  • regras previsíveis,
  • objetivos nacionais explícitos.

Chamar isso de intervencionismo é confundir direção com controle.

Mercado sem coordenação não é livre — é assimétrico.

Ao dogma do Estado salvador: planejamento não dispensa limites, exige execução

Planejamento não é lista de desejos nem substituto da realidade institucional. Ele só funciona quando:

  • reconhece capacidades existentes,
  • respeita limites federativos,
  • integra o setor privado,
  • aceita correções de rota.

Planos que ignoram meios viram retórica.

Retórica não transforma estrutura produtiva.

Planejar é escolher o que não será feito — e isso exige mais maturidade política do que proclamar intenções.

Ao dogma tecnocrático: dados não decidem sozinhos

Evidência é condição necessária, não suficiente.

Planejamento envolve conflito distributivo, prioridades políticas e escolhas que nenhum algoritmo resolve. Fingir neutralidade técnica é uma forma elegante de não decidir.

Sem autoridade política:

  • dados viram relatório,
  • relatório vira gaveta,
  • gaveta vira desculpa.

Planejamento exige técnica e decisão. Separar uma da outra é sabotagem sofisticada.


Ao dogma fiscalista absoluto: investir não é irresponsabilidade, é escolha temporal

Responsabilidade fiscal não é sinônimo de imobilismo.

O verdadeiro risco fiscal está em:

  • baixo crescimento,
  • infraestrutura precária,
  • desindustrialização,
  • perda de capacidade produtiva.

Planejamento sério diferencia:

  • gasto corrente de investimento,
  • despesa ineficiente de indução estrutural.

Austeridade sem estratégia preserva números no curto prazo e destrói o futuro silenciosamente.


Ao dogma do controle paralisante: governar envolve risco calculado

Estado que não assume risco não governa — administra o vazio.

Controle público é essencial, mas quando atua apenas como veto:

  • premia quem não decide,
  • pune quem tenta,
  • institucionaliza a inação.

Planejamento bem feito reduz risco justamente porque antecipa problemas.

Controlar o improviso depois é sempre tarde demais.

Ao dogma do consenso impossível: planejar é escolher, não agradar

Nenhum processo de planejamento sério nasce de unanimidade.

Ele nasce de prioridade clara e conflito administrado.

Esperar consenso total é:

  • adiar decisões,
  • diluir metas,
  • terceirizar responsabilidade.

Democracia não é ausência de conflito.

É capacidade de decidi-lo institucionalmente.

Ao dogma do “Brasil não dá certo”: a história prova o contrário

O Brasil já coordenou:

  • industrialização,
  • infraestrutura,
  • ciência,
  • políticas sociais complexas.

Fracassos não provam inviabilidade.

Provam descontinuidade e descoordenação.

Naturalizar o fracasso é o dogma mais confortável — e o mais destrutivo.

O ponto comum que os dogmas escondem

Todos esses dogmas, embora opostos, produzem o mesmo efeito:

👉 impedem o Estado de funcionar como sistema.

Uns demonizam a coordenação.

Outros a caricaturam.

Quase todos preferem o conforto da crítica ao risco da execução.

Planejamento não é bandeira ideológica.

É instrumento de governo.

 

Conclusão — Planejar é assumir responsabilidade histórica

Planejar significa:

  • dizer para onde o país vai,
  • admitir limites,
  • assumir conflitos,
  • responder por resultados.

Dogmas oferecem álibis.

Planejamento exige compromisso.

O Brasil não precisa escolher entre Estado e mercado, controle e execução, técnica e política. Precisa integrar.

Enquanto o debate ficar preso a dogmas, o país continuará refém do improviso — que é a ideologia mais cara de todas.

Planejar não é ideologia. É governar.

Resposta aos dogmas que paralisam o Brasil

O Brasil não está travado por falta de ideias, recursos ou instituições. Está travado por um impasse menos visível e mais persistente: a captura do debate público por dogmas ideológicos opostos que produzem o mesmo resultado — a impossibilidade de planejar.

Sempre que o tema surge, a discussão descamba para caricaturas. Planejamento vira sinônimo de estatismo para uns, de voluntarismo para outros, de irresponsabilidade fiscal para terceiros. No meio do tiroteio, o método desaparece. E o país segue governado por improvisos.

Este editorial parte de uma tese simples:

👉 planejamento não é doutrina. É técnica de governo em democracias complexas.


O mito do Estado mínimo que resolve tudo

O primeiro bloqueio vem do dogma segundo o qual qualquer tentativa de coordenação estatal seria uma ameaça à liberdade econômica. Planejar, nessa visão, é “escolher vencedores”, “interferir no mercado” ou “repetir erros do passado”.

O problema é factual: os países capitalistas mais dinâmicos planejam intensamente. Planejam infraestrutura, energia, inovação, defesa, cadeias produtivas estratégicas. Não para substituir o mercado, mas para organizar expectativas e reduzir incerteza.

Mercados funcionam melhor quando sabem para onde o país vai.

Sem direção, não há concorrência plena — há assimetria.

O mito do Estado salvador que resolve tudo

No polo oposto, outro dogma igualmente paralisante: a crença de que basta vontade política para que o Estado imponha uma transformação estrutural por decreto.

Aqui, planejamento vira lista de desejos. Metas se multiplicam sem meios. Conflitos institucionais são ignorados. Limites federativos desaparecem do papel — mas não da realidade.

Quando o plano falha, a culpa recai sempre em fatores externos: sabotagem, elite, conjuntura. Nunca no desenho.

Planejar não é prometer tudo.

É escolher pouco, com base no que pode ser executado.


O conforto da tecnocracia sem decisão

Há ainda o dogma aparentemente neutro: o de que bastaria “seguir os dados”. Planejamento vira exercício estatístico, e a política é tratada como ruído.

É uma ilusão elegante. Dados não resolvem conflitos distributivos. Indicadores não escolhem prioridades. Evidência não substitui autoridade política.

Sem decisão, relatórios viram gavetas.

E gavetas não governam países.

Outro bloqueio recorrente é o fiscalismo absoluto, que transforma qualquer investimento público em suspeita moral. Tudo vira risco. O futuro pode esperar.

Mas o verdadeiro risco fiscal não é investir — é não crescer. É conviver com infraestrutura precária, baixa produtividade, desindustrialização e dependência cíclica de commodities.

Planejamento sério distingue gasto de investimento.

Austeridade sem estratégia preserva números no curto prazo e corrói a base econômica no longo.

O controle que paralisa

Some-se a isso o dogma do controle punitivo, no qual governar passa a ser sinônimo de não errar. Decidir vira risco pessoal. Inovar vira exposição.

O resultado é um Estado que não falha porque não age.

Controle público é indispensável. Mas quando atua apenas como veto, ele institucionaliza a inação. Planejamento bem feito reduz risco justamente porque antecipa problemas — algo impossível no improviso permanente.


O consenso impossível

Há, por fim, o dogma do consenso absoluto: a ideia de que planejar exige agradar a todos. Como isso é impossível, decide-se não decidir.

Prioridades são diluídas, metas perdem força, e a política vira uma sequência de anúncios desconectados.

Democracia não é ausência de conflito.

É capacidade de administrá-lo institucionalmente.


O erro comum a todos os dogmas

Esses dogmas discordam em tudo — menos no efeito final. Todos impedem o Estado de funcionar como sistema.

Uns demonizam a coordenação.

Outros a caricaturam.

Quase todos preferem o conforto da crítica ao risco da execução.

Planejamento, no entanto, não é bandeira ideológica.

É instrumento básico de governo em sociedades complexas.


Planejar é assumir responsabilidade

Planejar significa:

  • definir prioridades nacionais,
  • integrar políticas públicas,
  • alinhar instituições,
  • assumir conflitos,
  • responder por resultados.

Dogmas oferecem álibis.

Planejamento exige compromisso.

O Brasil já fez isso antes. Em momentos decisivos, coordenou investimento, crédito, infraestrutura e política social. Não foi perfeito. Mas funcionou melhor do que o improviso que se tornou regra.

O país não precisa escolher entre Estado e mercado, técnica e política, controle e execução. Precisa integrar.

Enquanto o debate permanecer prisioneiro de dogmas, o Brasil continuará governado pela ideologia mais cara de todas: a do improviso permanente.

Planejar não é autoritarismo.

Não é atraso.

Não é irresponsabilidade.

Planejar é governar.

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