Enquanto parte do mundo avança progressivamente em direção a sociedades baseadas em conhecimento e inovação, o Brasil insiste em desperdiçar o seu recurso mais precioso: as pessoas. Afinal, crescer no Brasil significa enfrentar obstáculos que, em outros países, foram superados há décadas, como são os casos de violência endêmica e a baixa qualidade da educação básica.
Nesse sentido, o artigo de Naercio Menezes Filho, publicado no jornal Valor Econômico, em 20 de março, trouxe informações relevantes sobre os novos problemas para as novas gerações no Brasil. Sabemos que as crianças com problemas de formação se tornam adultos com baixa produtividade, algo que reduz o crescimento econômico no longo prazo.
Segundo informou o acadêmico, “as pesquisas estão mostrando que, antes mesmo de nascerem, as crianças sofrem impactos externos aleatórios que poderão afetar a sua trajetória de vida”. Conforme foi apresentado no artigo do professor, o crescimento dos problemas de saúde mental das mães e as mudanças climáticas já afetam o desenvolvimento das novas gerações.
Quando conseguem chegar à vida adulta, os jovens brasileiros encontram um mercado de trabalho estruturalmente precário, que mais exclui do que integra. A informalidade laboral medida pelo IBGE permaneceu elevada após a reforma trabalhista (2017), assim como permaneceu alta a subutilização da força de trabalho.
As novas gerações enfrentam desafios inéditos, como revelam os casos de ansiedade e depressão em níveis recordes. A insegurança econômica permanente é o ambiente de negócios do moinho de gastar gente brasileiro. São escassas, ademais, as políticas públicas de saúde mental acessíveis e contínuas.
O Brasil foi construído historicamente a partir de uma lógica de exclusão que se reproduz no tempo. As suas reformas regressivas são feitas de acordo com a “fórmula de Lampedusa”, revelando como as elites políticas e econômicas operam em sociedades marcadas por desigualdade estrutural.
Segundo o Relatório da Desigualdade Mundial 2026, a renda concentrada no topo cresceu no Brasil, que costuma aparecer entre os países mais desiguais do mundo nos principais levantamentos internacionais sobre distribuição de renda. Os 10% mais ricos detêm aproximadamente 59% dos rendimentos nacionais, enquanto os 50% mais pobres recebem somente 9%.
As pessoas não são o problema. O Brasil precisa decidir se continuará sendo um país que gasta gente ou se, em algum momento, se tornará um país democrático que investe em gente. O problema é mantermos a lógica histórica que insiste em tratar as pessoas como descartáveis, como se a vida humana continuasse sendo um custo de produção barato e substituível.