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Luis Nassif

Por que a economia brasileira tem voo de galinha?

O custo do dinheiro e o Brasil que poderia ter sido

Publicado em 12/05/2026
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O ponto de partida: a diferença de spread

O spread médio brasileiro em crédito livre para pessoas físicas e empresas ficou, nos últimos anos, frequentemente entre 25 e 35 pontos percentuais. Na França, o spread típico ficou perto de 2 a 4 pontos. A diferença estrutural é de aproximadamente 27 pontos percentuais — não é um pedágio, é um tributo imperial sobre toda atividade econômica.

O que vamos fazer é imaginar o que o Brasil poderia ter sido se o sistema bancário brasileiro tivesse um spread francês.

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Peça 1 — Sistema bancário

Os cinco maiores bancos brasileiros somaram cerca de R$ 150 bilhões de lucro líquido em 2023–2024. Seus ROEs ficam entre 16% e 25%, bem acima dos europeus, que operam entre 6% e 12%. Em relação ao PIB, o lucro do sistema bancário brasileiro representa 1,3% a 1,7% — contra 0,3% a 0,6% na França.

Se operassem com spread francês e mesmo volume de crédito, o lucro cairia para R$ 35–60 bilhões — redução de 60% a 75%. O que os bancos recusam considerar é o ganho de escala: com spread menor, o volume de crédito cresceria substancialmente, moderando a queda para um intervalo de R$ 80–110 bilhões.

Peça 2 — Indústria

O estoque de crédito para a indústria oscilou entre R$ 600 bilhões e R$ 1,5 trilhão na última década. O spread industrial brasileiro ficou entre 8% e 15%; o francês, entre 1% e 3%. A diferença estrutural média é de 8 a 10 pontos percentuais.

O excesso de spread drenou da indústria aproximadamente R$ 90 bilhões por ano. Em dez anos, R$ 900 bilhões a R$ 1,2 trilhão. Para efeito de comparação: o investimento industrial total no período foi de aproximadamente R$ 1,7 trilhão. Ou seja, para cada R$ 10 investidos pela indústria, entre R$ 5 e R$ 7 foram drenados em custo financeiro extraordinário.

Se esse excedente tivesse virado investimento produtivo:

Item                                                                 Valor em 10 anos
Investimento industrial efetivo                       ~R$ 1,7 trilhão
Excesso de spread capturado pelos bancos   ~R$ 0,9 a R$ 1,2 trilhão
Investimento industrial hipotético                  ~R$ 2,6 a R$ 2,9 trilhões

O investimento industrial teria sido 50% a 70% maior. A indústria de transformação, que chegou a 27% do PIB nos anos 1980 e hoje gira em torno de 10%, poderia estar 20% a 30% maior do que está.

Peça 3 — Mercado de capitais

A capitalização via mercado de ações depende diretamente do custo do dinheiro. Quando a Selic despencou no período Dilma, os fundos de pensão montaram mesas específicas para renda variável. Com o retorno às taxas estratosféricas após 2016, o capital estrangeiro voltou a se concentrar em títulos públicos — que praticamente dobraram de US$ 105,7 bilhões para US$ 234,9 bilhões entre 2015 e 2024 — enquanto a posição em ações estagnou entre US$ 62 e US$ 88 bilhões. A razão ações/títulos caiu de 55% para 27% em dez anos: o capital especulativo prefere a renda garantida da Selic ao risco produtivo.

Peça 4 — Comércio e consumo

Com spread francês no crédito ao consumidor, o alívio anual de juros seria de R$ 250 a R$ 450 bilhões. Aplicando a propensão a consumir de 65% a 80%, a injeção anual no varejo seria de R$ 160 a R$ 360 bilhões — o equivalente a um aumento de vendas de 6% a 8% ao ano sobre uma base de R$ 3,5 a R$ 4,5 trilhões de receita do varejo ampliado.

Em dez anos, o varejo poderia ter sido 50% a 80% maior no cenário central.

Peça 5 — O impacto no PIB

Conta estática — somando os ganhos setoriais com ajuste por importações, poupança e vazamentos (eficiência líquida de 50% a 80%):

Canal                                                      Ganho anual estimado
Menos juros ao consumidor                   R$ 250 bi a R$ 450 bi
Menos custo financeiro da indústria       R$ 90 bi a R$ 120 bi
PIB adicional anual (líquido)                    R$ 170 bi a R$ 450 bi

Cenário    PIB adicional acumulado em 10 anos        Efeito no nível do PIB
Conservador       R$ 1,7 trilhão                                   +8% a +10%
Central             R$ 3,0 a R$ 3,5 trilhões                        +15% a +20%
Alto                     R$ 4,5 trilhões                                   +25% ou mais

Conta dinâmica — o dinheiro não entra uma vez; ele gira. Consumidor paga menos juros → sobra renda → comércio vende mais → indústria produz e investe mais → emprego e salários sobem → arrecadação cresce sem elevação de alíquota. Cinco rodadas de multiplicação:

Cenário                                 PIB adicional em 10 anos
Conservador                                       +15%
Central                                           +25% a +35%
Forte                                              +40% ou mais

Em valores atuais, com PIB de R$ 12 trilhões, o cenário central representa R$ 3 a R$ 4,2 trilhões a mais de produto anual ao fim do período.

Síntese

O spread alto é uma trava dupla: reduz a demanda hoje e impede o investimento que aumentaria a oferta amanhã. Os dois movimentos — bancos entre os mais rentáveis do mundo e indústria com participação no PIB pela metade em quarenta anos — não são coincidência estatística. São dois lados da mesma transferência estrutural de renda.

Com spread francês, o Brasil não teria apenas consumido mais. Teria reconstruído parte de sua base produtiva.

Nos próximos dias, vamos mostrar as razões que levaram a Selic a se amarrar ao câmbio e os spreads bancários baterem todos os recordes mundiais. E qual o caminho para romper com essa amarra.

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