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Paulo Morceiro

A redistribuição regional da indústria no Brasil

Região Centro-Oeste foi a única a se industrializar desde 1985

Publicado em 21/05/2026
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Muito se discute a chamada “desindustrialização” do Brasil, isto é, a perda de participação industrial na estrutura produtiva do país, desde meados dos anos 1980. O IEDI mesmo já abordou o tema por diversos ângulos, mostrando por exemplo, sermos um caso excepcional no mundo, pelo caráter prematuro deste processo e por sua intensidade, como na Carta n. 940 “Um ponto fora da curva”. Ou então, por ter atingido ramos de maior intensidade tecnológica, como na Carta n. 920 “O perfil setorial do retrocesso da indústria brasileira”.

Na Carta IEDI de hoje, chamamos atenção para outro aspecto que tem motivado menos debate, mas nem por isso deixa de ser importante: a redistribuição da indústria no território nacional. O estudo foi preparado pelo economista Paulo Morceiro para o IEDI.

Verificamos que nos últimos 40 anos há estados que se industrializaram e outros que se mostraram mais capazes de reter capacidade industrial, inclusive em atividades mais intensivas em tecnologia. Hoje, há estados com um grau de industrialização muito próximo da média brasileira dos anos 1980.

Além de uma desconcentração estadual, também constatamos um processo de interiorização da indústria. As capitais perderam suas atividades industriais, que migraram não para as regiões metropolitanas, mas sobretudo para o interior. Isso ocorre no agregado do Brasil, mas sobretudo no estado de São Paulo.

Utilizamos dados tanto de valor adicionado, isto é, de PIB da indústria, como de emprego industrial, comparando o ano 1985 com o dado mais recente disponível (2023 ou 2024), a partir das bases das Contas Nacionais do IBGE e da RAIS do Ministério do Trabalho.

Quais regiões evoluíram na contramão do país, evitando um quadro de forte desindustrialização? Quais parques conseguiram ampliar sua participação na indústria nacional? Duas regiões se destacam, uma por se industrializar outra por mitigar o declínio da indústria no seu PIB.

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Partindo de um atraso muito grande em relação ao grau de industrialização do Brasil, a região Centro-Oeste foi a única a se industrializar desde 1985. Praticamente todos os seus estados, sobretudo Goiás e Mato Grosso do Sul, registraram aumento de participação da indústria de transformação no seu PIB e no seu emprego.

O grau de industrialização destes estados convergiu para a média nacional no período de análise. Em 1985, enquanto a indústria de transformação representava 26,8% do PIB do Brasil, chegava a apenas 11,2% do PIB de Goiás e 6,8% do PIB de Mato Grosso do Sul. Em 2023, o aumento da participação em Goiás para 14,3% e em Mato Grosso do Sul para 14,8% os aproximou da média nacional de 15,2% (em valores correntes).

No emprego, que é outra métrica para avaliar o grau de industrialização de um país ou região, verificamos o mesmo movimento e em 2024, a indústria de transformação chegou a responder por 14,8% do total de vagas com carteira assinada em Goiás e por 14,4% no Mato Grosso do Sul ante uma média nacional de 14,8%.

Mato Grosso também fez parte desta tendência, mas com uma performance bem mais modesta, com seu grau de industrialização passando de 8,0% para 8,5% do PIB e o emprego industrial de 10,5% para 11,2% do total com carteira no mesmo período.

A segunda região de destaque foi o Sul do país. Neste caso, por seu grau de industrialização ter regredido menos. Enquanto o agregado nacional perdeu pouco mais de 40% de seu grau de industrialização medido seja pelo PIB seja pelo emprego, o pior caso no Sul não chegou a 1/3 de perda.

Sendo assim, atualmente, os estados do Sul do país apresentam o maior grau de industrialização do país, se excluirmos o Amazonas (32,6% do PIB), que está condicionado pela Zona Franca de Manaus. A indústria de transformação de Santa Catarina representa 22,8% do PIB estadual, seguida por Rio Grande do Sul e Paraná com 20,6% do PIB.

Quanto ao grau de industrialização medido pela participação do emprego industrial, os estados do Sul (27,5% em SC, 21,5% no RS e 21,1% no PR) têm as maiores participações relativas e estão mais perto da média nacional de 1985 (26,2%) do que da atual (14,8%).

Essas duas regiões foram ainda aquelas que mais ganharam participação do PIB e emprego formal total da indústria no Brasil.

O parque industrial da região Sul ganhou +6,2 pontos percentuais (p.p.) no valor adicionado da indústria de transformação do país, passando de uma participação de 17% em 1985 para 23,2% em 2024. No emprego industrial, ganhou +6,9 p.p., passando de 19,6% para 26,6%.

No Centro-Oeste, ao aumento de participação foi de +5,3 p.p. quanto ao valor adicionado (de 1,7% em 1985 para 6,9% em 2024) e de +5 p.p. no caso do emprego industrial (de 1,4% para 6,4%).

Fora destas regiões, cabe destacar ainda Minas Gerais, cuja participação do valor adicionado da indústria brasileira aumentou de 7,5% para 10,8% no período e do emprego industrial, de 8,3% para 11,3%, atenuando a queda do grau de industrialização do estado, de modo que atualmente sua indústria apresenta a maior proporção no PIB (19,2%) e a segunda maior no emprego (15,2%) da região Sudeste.

Antes de passarmos para os dados daqueles parques que mais perderam participação e que lideraram a queda do grau de industrialização do Brasil, cabe uma análise do perfil da indústria das regiões que se destacaram positivamente. Para isso, usamos os dados de emprego que são os que nos permitem agregar por intensidade tecnológica.

Na região Sul, os dados sugerem o fortalecimento ou ao menos retenção de atividades industriais de maior intensidade tecnológica. A participação da região no emprego industrial de alta e média-alta tecnologia do país dobrou entre 1985 e 2024, passando de 12,6% para 24%. Nos ramos menos tecnológicos houve relativa manutenção da participação (de 22,5% para 27,7%).

Já no Centro-Oeste, o aumento de participação nos empregos industriais de maior intensidade tecnológica, que foi de 0,6% em 1985 para 5,3% em 2024, mas foi concentrado em Goiás (de 0,2% para 3,3%), muito provavelmente com grande ajuda do polo farmacêutico de Anápolis. Mais importante foi o avanço em indústrias de baixa e média-baixa tecnologia, ligadas ao processamento de matérias-primas agrícolas e ao crescimento urbano.

Por fim, a desconcentração industrial que permitiu a industrialização do Centro-Oeste e a manutenção do Sul como região intensiva em indústria foi acompanhada de perda de participação do eixo Rio-São Paulo, que também liderou a queda do grau de industrialização do país.

São Paulo, que concentrava 47,8% do emprego industrial formal e 51,6% do PIB da indústria de transformação em 1985, foi quem mais cedeu espaço no mapa da indústria nacional. Seu peso no setor caiu para 32% do emprego e 37% do PIB recentemente. Dentro de sua própria estrutura produtiva, o retrocesso também foi dos mais intensos.

A indústria paulista representava 38,3% do PIB de São Paulo em 1985 e apenas 18,3% em 2023. Aferido pelo emprego, o grau de industrialização do estado recuou de 37,2% para 17,1% no período.

Que a indústria tenha migrado para outras localidades para além de São Paulo não é algo ruim; dado que o setor é destacado vetor de desenvolvimento, é bem-vindo que outras regiões tenham seus parques industriais ampliados. Cabe observar que isso se nem sempre se deu pelas razões certas, exemplo disso é a guerra fiscal entre os estados nas últimas décadas.

Ademais, o recuo do grau de industrialização do estado diante do aumento de sua renda per capita também não surpreende, desde que seu parque industrial se modernize e que elos mais intensivos em tecnologia das cadeias industriais se desenvolvam. Não foi exatamente isso que aconteceu, como sabemos.

Por exemplo, a participação de São Paulo no emprego industrial de alta e média alta tecnologia total do país encolheu -22,2 p.p. entre 1982 e 2024 , puxado sobretudo pelos ramos de material elétrico, eletrônicos e de comunicação; veículos e equipamentos de transporte; e máquinas e equipamentos. Já nos ramos de baixa e média-baixa tecnologia, a participação paulista recuou menos (-13,6 p.p.).

De todo modo, o que destacamos nesta Carta IEDI é que em paralelo ao declínio industrial de São Paulo há um processo de interiorização das atividades industriais remanescentes. A participação do interior paulista nos empregos da indústria de transformação do estado aumentou de 29,2% em 1985 para 52,9% em 2024. Isso atingiu tanto os ramos de baixa e média-baixa tecnologia (de 34,2% para 55,3%) como os de alta e média-alta tecnologia (de 21,5% para 49,5%).

Podemos, então, concluir que o deslocamento da indústria para o interior de São Paulo ajudou o estado a se manter como o polo industrial mais importante do país apesar de todas as vicissitudes. Sozinho, São Paulo ainda concentra 32% do emprego industrial formal e 37,1% do PIB da indústria de transformação. Seu grau de industrialização (18,3% medido pelo PIB e 17,1% medido pelo emprego) também segue superior à média nacional (15,2% e 14,8%, respectivamente).

A interiorização industrial de São Paulo também contribuiu para um mesmo comportamento no total Brasil, cujo interior representava 1/3 dos empregos industriais em 1985 e 54,4% em 2024, sendo de 57,6% no grupo de baixa e média baixa tecnologia e 47,3% no grupo de alta e média-alta tecnologia.

Vários fatores explicam esta tendência, notadamente, o fortalecimento de cadeias agroindustriais, como alimentos, biocombustíveis e papel e celulose, e daquelas associadas à extração de recursos minerais, que em ambos os casos tendem a se localizar próximas das fontes de matérias-primas. Há ainda a melhoria da infraestrutura logística no interior, presença de universidades e centros de pesquisa, incentivos fiscais e menores custos operacionais, mitigando, ainda que parcialmente, um ambiente de negócios cada vez mais hostil ao setor produtivo (juros altos, carga tributária elevada e burocracia complexa).

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