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Luiz Gonzaga Belluzzo
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Elias Jabbour

A China prestes a 'quebrar'?

Passava-se a primeira metade da década de 1990 e o "mundo de Alice" oferecido pelos equilibristas de plantão estava longe de ser entregue. A de

Publicado em 17/08/2022
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Passava-se a primeira metade da década de 1990 e o "mundo de Alice" oferecido pelos equilibristas de plantão estava longe de ser entregue. A desregulamentação dos mercados financeiros, a abertura das contas de capitais, privatizações e cortes de direitos sociais não foram substituídos por economias mais dinâmicas nem no centro, muito menos na periferia. Mas os donos da narrativa (e do dinheiro) mantinham-se firmes. Foi uma época em que a crise financeira asiática de 1997 serviu de suporte para que os profetas do "neoinstitucionalismo" e aos explicadores das razões dos "fracassos das nações" fossem à ofensiva contra as experiências desenvolvimentistas, a começar da Coreia do Sul. Poucos deram bola ao papel da China na estabilização da situação econômica regional. Mas já era pauta na bolsa de apostas de Londres não se a China iria quebrar. E sim, quando.

Desde então vem se multiplicando as capas de revistas e longas entrevistas de "especialistas" explicando por "a" mais "b" o iminente colapso chinês. Essa espécie de narrativa vem se fortalecendo nos últimos anos quando, por escolha própria, os chineses optaram por taxas menores de crescimento. Essa opção tem explicações. A escolha por crescer "verde", por investimentos maciços em ciência, tecnologia e inovação e o foco na geração de 13 milhões de empregos urbanos por anos, "doa a quem doer", foi limpando o terreno de alguns desequilíbrios que o crescimento de dois dígitos carrega em sua natureza. Inclusive, aquele que o presidente Xi Jinping chama de "crescimento descontrolado do capital".

Um dos grandes problemas dos "especialistas" em China é que parte deles partem do princípio de que a China é uma economia capitalista tradicional formada com um núcleo produtivo e financeiro à mercê das mesmas "leis" que governam as economias capitalistas do Atlântico Norte.

Arquitetura institucional chinesa envolve a definição de estratégias de longo prazo executadas por empresas e bancos públicos empenhados na criação de espaços para o "empreendedorismo" privado. Isto significa que o "social" abrigado no Estado estabelece os marcos regulatórios destinados a – assegurar as taxas de investimento e de acumulação de capital programadas e permitir um processo ordenado de "graduação" tecnológica.

Assim são gerados ganhos de produtividade expressivos e, consequentemente, a manutenção da competitividade das empresas locais, diante dos rivais e concorrentes no mercado internacional. Ao mesmo tempo, esse sistema de coordenação "orgânico" promove a, de forma planejada, a renovação das indústrias "envelhecidas" e dos setores em crise ou de menor dinamismo, de modo a evitar que a incerteza contamine as decisões empresariais. Esta função de "planejamento", crucial nas relações entre o Estado e o setor privado, tem assegurado a disposição dos empresários privados em continuar investindo aceleradamente e a inclinação dos bancos em sustentar o o endividamento das empresas.

Com mais de três trilhões de dólares de reservas cambiais, o Estado controlando o núcleo da economia chinesa composto por eficientes 96 conglomerados empresariais estatais e um sistema financeiro público composto por cerca de 30 bancos de desenvolvimento do mesmo princípio ativo do BNDES e que leva as empresas nacionais a se endividarem em moeda nacional, como sustentar a hipótese de que a China está fragilizada ou "quebrando"?

É fácil. Vamos vislumbrar o todo por uma das partes. A pressão governamental sobre o setor imobiliário inicia-se em 2015 quando o presidente chinês declarou que "apartamentos são feitos para morar, não especular". Uma poderosa declaração dessa em uma economia capitalista convencional seria mais um sinal àqueles que acham que o Estado só atrapalha. Na China, já eram conhecidos os esquemas Ponzi pelas quais se mantinham em pé esquemas empresariais como o da Evergrande. Uma imensa reserva de mercado fora aberta com a intensificação do processo de urbanização do país, elevando o papel de grandes conglomerados privados que tomaram a si o papel de construir mais de 100 milhões de apartamentos nos últimos dez anos.

O alerta emitido por Xi Jinping foi uma satisfação ao seu próprio sistema financeiro, sobrecarregado com empréstimos vultosos e dificuldades cada vez maiores em entregar os apartamentos. A situação fiscal das províncias do país foram se deteriorando na medida em que boa parte de suas receitas dependiam de alugueis de terra às empreendedoras. Desde 2016, amigos economistas do Conselho de Estado e da Sasac (Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado) já nos diziam dos planos do governo: não somente permitir a quebra deste setor central da economia chinesa, mas, inclusive, estatizá-lo. No final estavam certos. A Evergrande quebrou e atualmente passa por um lento, gradual e seguro processo de estatização.

Decisões deste tipo não ocorrem impunemente. O Estado teria que lidar com cerca de dois milhões de chineses hipotecários de empreendimentos da Evergrande garantidos por bancos estatais. Nas últimas semanas essa gente organizada decidiu parar de pagar as hipotecas e os bancos, em uma atitude infeliz, retiveram suas poupanças. Cabeças estão rolando daqueles que tomaram a decisão de tomar as poupanças e nesse caso a tendência é de normalização da situação.

Mas observemos esse tipo de ocorrência dentro de um escopo de maior alcance. Desde 1978 a dinâmica da economia chinesa tem sido caracterizada por uma capacidade imensa de entregar respostas institucionais rápidas aos dramas do processo de acumulação. Diante de uma série de contradições sociais acumuladas ao longo de décadas a presente e ampla reforma em andamento na China são as já citadas mudanças nos esquemas de propriedade. A resposta da economia a estas mudanças de fundo até que surpreendem, mas indicam o baque sentido pelo setor privado, enquanto o setor público continua a sustentar o processo de crescimento.

Por exemplo, informações trazidas pelo economista Michael Roberts aponta que os lucros no setor capitalista vêm caindo. Os lucros auferidos pelas empresas industriais da China aumentaram apenas 1% no comparativo anual, para 34,41 trilhões de yuanes (US$ 1 = 6,75 RMB) em janeiro-maio de 2022, desacelerando em relação ao aumento de 3,5% no período anterior, à medida que os altos preços das matérias-primas e interrupções na cadeia de suprimentos devido às restrições do COVID-19 continuaram a espremer as margens e interromper a atividade fabril. Os lucros das empresas industriais estatais subiram 9,8%; enquanto os do setor privado caíram 2,2%. Apenas o setor estatal continua a funcionar.

A China está muito longe de "quebrar". Apenas está sofrendo as dores do parto de uma dura transição interna e de constantes lockdowns que paralisam a atividade econômica em grandes centros e elevam a temperatura de certos indicadores. O desemprego urbano entre os jovens até 25 anos alcançou 16,8% recentemente. A resposta tem vindo com pacotes fiscais lançados justamente para infraestruturas urbanas. Somente este ano alcançou a casa de US$ 1 trilhão os estímulos a este tipo de empreendimento. Por último, mas não menos importante. Este ano a "frágil" economia chinesa terá um desempenho impressionante dada a realidade que apresentamos até aqui. A previsão de crescimento este ano, segundo o FMI, é de 4%. Maior que todas as "sadias" economias do G-7. O previsto para os anos entre 2020-2027 é de 4,9% em média. O dobro da previsão aos Estados Unidos. Dez vezes maior que se prevê ao Japão.

Capitalismo de Estado ou Socialismo de Mercado? A essa indagação cabe a resposta de Deng Xiao Ping na aurora dos anos 80: "Não importa a cor do gato se o bicho caça ratos". Recentemente, o presidente Xi Jinping anunciou as políticas de "ampliação do papel do mercado" e de reforço às empresas estatais. O propósito, dizia ele, é alentar o empreendedorismo e a inovação.
No Brasil de hoje, o governo e seus apoiadores estão obcecados com a cor do gato. Se o gato é capaz de caçar ratos, isso não interessa. A figura de Paulo Guedes é emblemática.

Elias Jabbour - Professor dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Econômicas (PPGCE) e em Relações Internacionais (PPGRI) da UERJ. Membro do Comitê Central do PCdoB.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Economista e professor.

Fonte: Vermelho

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