A Política de Inovação – PI no contexto brasileiro deve enfrentar, como principal ponto a nortear todos os outros, a perda de participação na produção manufatureira como objetivo das Políticas de Inovações nas principais economias industrializadas. Necessariamente vão ter implicitamente um viés de reintegração dos processos produtivos, em especial como resultado da crise da globalização oriunda da COVID-19, da guerra da Ucrânia e do segundo mandato de Trump, tornarão as estratégias tipicamente voltadas ao aumento da participação nas cadeias globais de valor cada vez mais obsoletas, isto é, limitadas do ponto de vista da geração de emprego e renda.

Como primeiro ponto, existe uma necessidade de se repensar as estratégias da Política de Inovação para que sejam direcionadas para a reorganização da indústria nacional, em especial a indústria de transformação, ampliando os mecanismos destinados a fomentar a pesquisa e inovação, a ampliar a coordenação entre atores envolvidos e a promover as empresas nacionais. O decréscimo da participação da indústria de transformação no PIB é alarmante como apresentado no Gráfico abaixo.

 

Com a evolução negativa da indústria de transformação, o resultado do desempenho inovador não poderia ser positivo. A última PINTEC (IBGE, 2020) mostra dados bastante desanimadores.  Como analisado em IEDI (2020):

“Entre 2012-2014 e 2015-2017, a taxa de inovação do conjunto de atividades da PINTEC, que mede a proporção de empresas que introduziram novos produtos e processos no período, caiu de 36% para 33,6%. O volume total de recursos aplicados em inovação retrocedeu -17,4%.

Mais grave ainda foi o recuo do indicador de esforço de inovação, que passou de 2,54% para apenas 1,95% das receitas líquidas de venda das empresas neste mesmo período. Ou seja, encolheu cerca de ¼, acompanhando a retração geral do investimento corporativo no período.

A indústria de transformação contribuiu para este declínio, embora seu esforço de inovação tenha caído um pouco menos que o total geral: cerca de -22%, ao passar de 2,16% da sua receita de vendas em 2012-2014 para 1,69% em 2015-2017.”

O segundo ponto é que, em seu conjunto, as Tecnologias de Propósito Geral (GPTs) reforçam as tendências de customização das soluções tecnológicas e relativização das escalas produtivas na produção de alguns manufaturados e no provimento de serviços. Isso significa que, embora continue havendo grandes pacotes tecnológicos fornecidos por grandes empresas, as tecnologias cluster 4.0 também irão se caracterizar por usos e aplicações específicas, no desenvolvimento de soluções tecnológicas para problemas de diversas naturezas. Muitas das aplicações nos processos produtivos serão desenhadas a partir das demandas de cada empresa, criando um espaço também para desenvolvedores locais de soluções tecnológicas mais circunscritas.

Em terceiro lugar, as GPTs são transversais aos setores. Têm caráter altamente genérico e de uso disseminado. Nesse sentido, algo em torno da metade da demanda estimada pelas tecnologias da Indústria 4.0 será proveniente do setor público proporcionada pela mudança tecnológica na prestação e organização dos serviços públicos. As tecnologias habilitadoras promoverão mudanças significativas na mobilidade urbana, tratamento de resíduos, medicina preventiva, controle de tráfego, entre outras áreas com imenso potencial de criar demanda a partir do setor público para tecnologias do novo paradigma.

Esse ponto é de fundamental importância, pois indica uma das vias possíveis para o desenvolvimento de políticas industriais, científicas e tecnológicas tendo como referência a solução de questões estruturantes dos problemas sociais, ambientais e urbanos brasileiros.