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Luiz Gonzaga Belluzzo

O "valor" do acionista

O Financial Times informa que o Citigroup e o Morgan ­Stanley se valeram de um aumento nas transações de fusões e aquisições para garant

Publicado em 12/11/2021
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O Financial Times informa que o Citigroup e o Morgan ­Stanley se valeram de um aumento nas transações de fusões e aquisições para garantir as receitas no terceiro trimestre, o que ajudou a compensar a pressão contínua das taxas de juro mais baixas e da fraca demanda por empréstimos. Nos resultados do terceiro trimestre apresentados na quinta-feira 28, o Morgan Stanley registrou receitas de 2,85 bilhões de dólares, aumento de 67% em relação ao 1,7 bilhão do ano anterior e bem acima das previsões dos analistas para 1,9 bilhão, de acordo com dados compilados pela Bloomberg. O desempenho superior às estimativas dos analistas veio de resultados muito melhores do que o esperado mediante o trabalho consultivo em fusões e aquisições.

Esse desempenho das duas instituições financeiras exibe de forma expressiva a predominância da extração de valor da riqueza existente em oposição à aventura da criação de valor envolvida no investimento em novos projetos. Em seu livro Predatory Value Extraction, o economista William Lazonick explica como, nos Estados Unidos, a "ideologia" da alocação de recursos corporativos, conhecida como "maximização do valor dos acionistas, passou a dominar o pensamento estratégico nas escolas de negócios e diretorias corporativas, minando os fundamentos sociais da prosperidade sustentável, resultando em instabilidade no emprego, desigualdade de renda e crescimento lento da produtividade".

O que aconteceu nos Estados Unidos, continua Lazonick, desatou um crescente desequilíbrio entre a criação de valor e a extração de valor na economia. No centro desse desequilíbrio estão as práticas de governança corporativa nas principais corporações empresariais do país. O desequilíbrio mostrou-se tão extremo nos Estados Unidos que a extração predatória de valor se tornou uma atividade econômica central. A economia dos EUA como um todo pode ser devidamente descrita como uma economia de extração de valor.

Essa inversão na forma de funcionamento da economia dominada pela extração de valor detonou um terremoto nos mercados de trabalho. No artigo "A Financeirização da Grande Empresa Americana", o mesmo Lazonik investiga as transformações ocorridas nesses mercados nos Estados Unidos. Desde o começo dos anos 1980, diz Lazonik, as relações de emprego nos Estados Unidos sofreram três grandes transformações estruturais, que vou sinteticamente designar como "racionalização", "mercantilização" e "globalização". A racionalização implicou o fechamento de fábricas e eliminação permanente de operários sindicalizados. Nos anos 1990, a mercantilização foi marcada pelo encerramento das carreiras nas empresas, colocando em risco a segurança no emprego dos trabalhadores mais veteranos de classe média. No início do terceiro milênio, a globalização promoveu a exportação de empregos, deixando todos os trabalhadores vulneráveis, mesmo os dotados de maiores credenciais de educação.

Essas mudanças estruturais no emprego foram promovidas pela perseguição de estratégias que visavam simplesmente os ganhos financeiros. Muitas empresas fechavam as fábricas, eliminavam trabalhadores mais caros e mais experientes, deslocavam a produção para outros países às expensas da competitividade de longo prazo. A expressão "valor do acionista" sintetiza o conjunto de práticas de gestão empresarial que buscam maximizar a extração de valor de um ativo já existente, em detrimento da criação de valor mediante o investimento em um novo ativo reprodutivo.

O professor da Universidade de Cingapura Jang-Sup Shin investigou o predomínio crescente, agora avassalador, do assim chamado "valor do acionista" na definição das estratégias empresariais. Ele observa que, ao longo das últimas três décadas, as mudanças regulatórias promovidas pela administração de Bill Clinton ensejaram a desabusada incidência de práticas predatórias de extração de valor na economia norte-americana. "As grandes corporações pagaram com regularidade aos acionistas a integralidade dos lucros acumulados. Frequentemente, desembolsaram ainda mais, sob a forma de recompra das próprias ações e distribuição de dividendos, enquanto reduzem o investimento e promovem reestruturações redutoras de custos."

No período 1976-1985, as transferências de valor para os acionistas chegaram a 290 bilhões de dólares (0,4% do PIB). Entre 1986 e 1995 alcançaram a casa dos trilhões, 1,54 trilhão, para avançar entre 1996-2005 para 4,46 trilhões (2,6% do PIB) no período 2006-2015. Inverteu-se a relação entre os recursos destinados ao investimento e aqueles utilizados para propiciar a elevação "solidária" dos ganhos dos acionistas e a remuneração dos administradores ­(stock options).

Fonte: Carta Capital

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