
Quatro vitórias, uma oportunidade histórica: Lula e o desafio de reinventar o Brasil
A quarta vitória de Lula deve ser compreendida, portanto, não como consagração definitiva de uma liderança, mas como uma oportunidade para renovar o projeto nacional
A quarta vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República coloca o Brasil diante de uma oportunidade histórica. Poucos líderes democráticos conseguem conquistar quatro vezes o mandato presidencial pelo voto popular. A trajetória de Lula encontra um paralelo expressivo na experiência de Franklin Delano Roosevelt, eleito quatro vezes presidente dos Estados Unidos entre 1932 e 1944, em circunstâncias que exigiram respostas extraordinárias às transformações econômicas e sociais de seu tempo.
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A comparação não significa equiparar países, épocas ou projetos políticos. O seu valor está em uma questão fundamental: o que permite que uma liderança conquiste reiteradamente a confiança popular e, sobretudo, como essa legitimidade pode ser convertida em mudanças duradouras.
A força eleitoral como ponto de partida
Roosevelt chegou à Presidência durante a Grande Depressão, quando o desemprego, a pobreza e a crise econômica colocavam em xeque a capacidade de funcionamento das instituições norte-americanas. O seu New Deal ampliou a presença do Estado na economia, fortaleceu a proteção social e reorganizou instrumentos de regulação econômica. A experiência demonstrou que uma crise pode abrir espaço para a renovação das instituições, desde que exista capacidade política para responder às necessidades concretas da sociedade.
Lula construiu uma trajetória diferente, em outro contexto histórico. A sua ascensão expressou a entrada de trabalhadores e setores populares no centro da disputa política nacional. As políticas de valorização do salário mínimo, ampliação do emprego, transferência de renda e acesso a serviços públicos contribuíram para modificar as condições de vida de milhões de brasileiros e consolidar uma base social que ultrapassou os limites tradicionais da esquerda.
Suas quatro vitórias presidenciais representam, assim, mais do que a continuidade de uma liderança. Revelam a persistência de uma parcela expressiva da sociedade na busca por inclusão, redução das desigualdades e oportunidades de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, indicam que a confiança eleitoral não é um patrimônio permanente: precisa ser renovada diante de novas aspirações, mudanças culturais e transformações na estrutura econômica.
O desafio de cada época
Roosevelt governou em um período de industrialização, reorganização do capitalismo e expansão das políticas sociais. Lula enfrenta uma realidade marcada pela transformação digital do capitalismo, pela inteligência artificial, pela reorganização internacional da produção e pela concentração de poder econômico e informacional nas grandes plataformas tecnológicas.
A diferença é decisiva. Não basta reproduzir políticas que deram resultados em ciclos anteriores. É preciso compreender as novas formas de desigualdade, a precarização do trabalho, as dificuldades de acesso à moradia, a crise climática e as expectativas de uma juventude que deseja autonomia, segurança e participação.
O Brasil precisa transformar sua capacidade de produzir alimentos, energia, conhecimento e recursos naturais em desenvolvimento que gere empregos de qualidade, eleve a produtividade e distribua os frutos do crescimento. Isso requer recuperar a capacidade industrial, fortalecer a ciência e a tecnologia, ampliar o investimento público e privado e utilizar as compras governamentais como instrumento de inovação.
A transformação digital deve integrar esse projeto. Dados e inteligência artificial não podem ser tratados apenas como mercadorias controladas por grandes empresas. São também recursos estratégicos para o planejamento, a produção e a soberania nacional. Fortalecer as instituições públicas de conhecimento e ampliar a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias próprias constitui uma exigência do desenvolvimento contemporâneo.
Um novo pacto entre Estado e sociedade
Uma das lições da experiência de Roosevelt é que mudanças estruturais exigem mais do que decisões governamentais isoladas. Demandam instituições capazes de sustentar políticas ao longo do tempo, pactos sociais que distribuam responsabilidades e resultados e uma administração pública preparada para enfrentar problemas complexos.
No Brasil, isso significa combinar responsabilidade fiscal com responsabilidade social, ampliar a eficiência do Estado sem enfraquecer sua capacidade de atuação e articular União, estados e municípios em torno de objetivos comuns. Significa também fazer com que os avanços econômicos sejam percebidos no cotidiano: no transporte, na saúde, na educação, na segurança, na habitação e nas oportunidades de trabalho.
A democracia precisa acompanhar essa transformação. A população deve ser convocada para, além de votar, permanecer presente nas decisões fundamentais. A participação social, o diálogo com os movimentos populares e a renovação das organizações políticas são condições para que as políticas públicas correspondam às necessidades de uma sociedade diversa.
A oportunidade de deixar um legado
Quatro vitórias presidenciais constituem um feito político excepcional. Entretanto, o significado histórico de uma trajetória não se mede apenas pela capacidade de conquistar mandatos, mas pelo que permanece depois deles. A oportunidade de Lula consiste em transformar a legitimidade eleitoral em um novo ciclo do novo desenvolvimento, capaz de articular crescimento econômico, redução das desigualdades, sustentabilidade ambiental, soberania tecnológica e aprofundamento democrático.
A experiência estadunidense sob Roosevelt mostrou que a continuidade eleitoral pode abrir espaço para transformações profundas. A experiência brasileira oferece a possibilidade de construir um caminho próprio, adequado às condições de um país continental, desigual e dotado de enormes recursos humanos e naturais.
A quarta vitória de Lula deve ser compreendida, portanto, não como consagração definitiva de uma liderança, mas como uma oportunidade para renovar o projeto nacional. O desafio é fazer com que a confiança depositada nas urnas se transforme em melhores condições de vida, maior capacidade produtiva e mais democracia. A história não oferece modelos prontos. Oferece oportunidades que só se tornam transformadoras quando a política consegue compreender seu tempo e preparar o futuro.
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