IEDI: "Falta competitividade sistêmica ao Brasil"
A indústria é o grande fator distintivo
Cadeias Globais de Valor: características da inserção brasileira
- Sumário
A Carta IEDI de hoje analisa a evolução mundial e a posição do Brasil no comércio internacional por valor adicionado, bem como as características de sua integração nas cadeias globais de valor (CGV). Para isso, utiliza-se a versão mais recente da base Trade in Value Added (TiVA) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – a mais abrangente estatística de comércio por valor adicionado disponível, cobrindo 80 países e cerca de 40 setores produtivos.
Com o advento das CGV, a OCDE desenvolveu métodos matemáticos sofisticados aplicados às matrizes de insumo-produto integradas aos fluxos de comércio bilateral, com o objetivo de rastrear o valor efetivamente gerado nas etapas produtivas dentro das fronteiras de cada país, fornecendo um retrato mais preciso da posição e do papel de cada economia nas CGV.
Adotamos nesta Carta, que tem como base o estudo preparado pelo economista Paulo Morceiro para o Instituto, uma perspectiva de mais longo prazo, analisando os dados de meados da década de 1990 até 2022, que é a informação disponível mais atualizada. A ênfase recai evidentemente sobre a posição do Brasil, que costuma ser visto como pouco integrado nas CGV.
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Nossa análise mostra que isso é verdade apenas em parte. Empregamos os indicadores mais frequentes no debate sobre CGV e realizamos comparações com países de grande mercado interno, tal como o Brasil. A conclusão é que somos integrados, mas com características distintas da média mundial. É uma integração que poderia progredir qualitativamente, o que asseguraria uma contribuição maior para o desenvolvimento do país.
A indústria é o grande fator distintivo. No mundo, é a partir da indústria que as CGV se constituíram e aprofundaram a integração produtiva. No Brasil, a falta de competitividade sistêmica, de um lado, e a existência de um mercado interno de relevante magnitude, de outro, retiraram potência da indústria para cumprir este papel integrador com no restante do mundo. Isso mesmo diante do esgotamento do modelo de substituição de importação e progressiva abertura comercial.
O valor adicionado doméstico (VAD) incorporado nas exportações totais do Brasil se expandiu de US$ 47 bilhões para US$ 325 bilhões entre 1995 e 2022, ou seja, avançou 6,9 vezes, superando o ritmo da economia mundial, que registrou aumento de 4,4 vezes no mesmo período.
Como proporção do PIB, nosso valor adicionado incorporado nas exportações progrediu de 6,7% para 18,5%, mas ainda assim ficou aquém da média mundial, para quem o indicador atingiu 21,5% em 2022. Sinal de que não agregamos valor tanto como como deveríamos a nossas vendas externas. Este processo guarda relação com a reprimarização da pauta exportadora do país. Tal característica acaba gerando dificuldade para uma integração produtiva mais profunda e diversificada com o restante do mundo.
O VAD da indústria de transformação no total exportado pelo país, por sua vez, recuou de 58% para 35% entre o fim dos anos 1990 e 2022, enquanto o setor de serviços encolheu de 35% para 26%. Avanço mesmo somente nos produtos primários (agropecuária e indústria extrativa): de 10% para 39%, chegando a superar a manufatura.
Utilizamos nesta Carta IEDI dois indicadores tradicionais de acompanhamento da integração em CGV:
1.Indicador “para trás”, isto é, o valor adicionado estrangeiro (VAE) incorporado nas exportações de um país. Em outros termos, se o país importa para exportar. A intuição é que um produto com elevado conteúdo importado ganha competitividade de largada, pois esses insumos foram adquiridos no estado da arte em termos de preço e qualidade global.
2.Indicador “para frente”, isto é, o valor adicionado doméstico (VAD) de um país A que termina sendo incorporado em bens e serviços destinados à demanda final de outros países como porcentagem da produção total do país A. Assim, o indicador captura o quanto do valor gerado internamente termina sendo consumido por famílias, governos ou em investimentos em outros países, após percorrer toda a extensão das cadeias globais.
A leitura não é direta e está sujeita a nuances e discussão caso a caso, como veremos a seguir, mas associados ajudam a traçar um certo perfil de integração.
Considerando o indicador “para trás”, no mundo, entre 1995 e 2022, a parcela do valor adicionado estrangeiro (VAE) incorporado nas exportações mundiais aumentou de 16% para 23,6%. Na origem disso esteve a indústria de transformação, para quem tal indicador avançou de 21,2% para 30,8%.
No Brasil, o avanço foi intenso neste indicador, embora tenhamos partido de um patamar muito baixo e tenhamos nos afastado ainda mais da média mundial. O VAE nas nossas exportações totais aumentou de 7,9% em 1995 (-8,1 p.p. ante a média mundial) para 13,6% em 2022 (-10 p.p. ante a média mundial). O patamar deste indicador bem mais baixo no Brasil reflete alguns fatores.
Em primeiro lugar, nossas exportações foram alavancadas por atividades que naturalmente possuem baixo VAE: produtos agropecuários, produtos extrativos. Em segundo lugar, por sermos grandes produtores destes insumos primários, o valor adicionado doméstico incorporado em bens industriais também tende a ser superior: exportamos muitos bens industriais intensivos em recursos naturais que nós mesmos produzimos. Em terceiro lugar, as distorções do ambiente econômico interno corroem eventual competitividade obtida com a importação de insumos, que acabam não alavancando nossas exportações, sobretudo industriais, como poderiam.
Para a indústria de transformação brasileira, a participação do VAE em suas exportações subiu acima da média mundial (+10,3 p.p. ante +9,6 p.p. respectivamente), de 9,2% em 1995 para 19,5% em 2022, mas se manteve baixo dela no final do período. Entre os setores industriais exportadores que apresentam baixo VAE porque produzimos seus insumos destacam-se: alimentos (VAE de 13,8% ante 24,6% na média mundial), madeira, papel, celulose (18,9% ante 26,2%), metalurgia (15,1% ante 34,1%) e derivados de petróleo (22,2% ante 43,3%), por exemplo.
Apenas três setores com VAE próximo ou abaixo de 10% (agropecuária, extrativa e alimentos) respondem por mais de 50% das exportações brasileiras. Em contraste, metade dos setores manufatureiros nacionais tem atingido um grau de integração produtiva no indicador “para trás” correspondente a 80% ou mais do nível mundial – indicando que o país consome insumos globais modernos. Ou seja, nestes casos não se trata de baixo o conteúdo importado, mas de baixa participação no que exportamos. O que falta, portanto, é garantir a competitividade do ambiente produtivo brasileiro para alavancar suas exportações.
Adicionalmente, comparações com outros países de destaque ajudam a colocar o caso do Brasil em perspectiva. O indicador “para trás” no caso da China, grande produtora de insumos industriais, e no caso dos EUA, que também é um grande produtor de bens primários, está em patamar mais baixo do que o do Brasil, ainda que sejam países reconhecidamente bem integrados a CGV. O valor adicionado estrangeiro nas exportações chinesas foi de 19,1% e nas americanas, de 13,8%, em 2022.
Entretanto, vale reforçar: nossa menor participação de VAE não decorre de domínio tecnológico ou capacidade de produzir internamente componentes críticos como EUA e China possuem, mas da composição setorial das nossas exportações concentradas em produtos primários e manufaturados intensivos em recursos naturais – segmentos em que o conteúdo importado é estruturalmente baixo. Por ter origens distintas, nota-se que a relação entre a parcela do VAE incorporada nas exportações e crescimento das exportações (ou desempenho econômico) não é linear.
Ao analisarmos o indicador “para frente”, referente ao valor adicionado doméstico (VAD) incorporado na demanda final estrangeira, o Brasil desponta acima ou próximo da média mundial em setores fornecedores de matérias-primas e insumos básicos: agropecuária, indústria extrativa, alimentos, madeira, celulose, metalurgia e minerais não-metálicos. Ou seja, o indicador reflete o tipo de inserção externa do país.
No mundo, o indicador progrediu de 15,6% para 21% entre 1995 e 2022, ou seja, aumentou em 1/3 do que era. Já no Brasil, o patamar avançou mais do que 2,5 vezes, passando de 6,7% para 18,4%, na esteira da ampliação de nossas vendas externas de bens primários que serão, posteriormente, processados e consumidos no exterior. Estamos mais próximos da média mundial neste indicador do que no anterior.
Na indústria de transformação, o aumento foi igualmente significativo. O indicador para frente quase dobrou no nosso caso, mas apesar disso, o grau de integração para frente nas CGV ainda se encontra bem abaixo da economia mundial: 25,3% ante 37%, ou seja, 11,7 p.p. abaixo. Mais uma vez, sinal de que o Brasil não assegura condições para sua produção industrial construir competitividade externa.
De todo modo, não apresentamos um indicador muito diferente dos países com grandes mercados internos, evidenciando que o valor adicionado gerado pela indústria doméstica tem relativamente pouca base na demanda estrangeira. A Índia (29,3%) possui um indicador superior ao nosso, mas China (26,5%) e EUA (19%) apresentaram patamares inferiores.
Em síntese, o Brasil não está desconectado das CGV, mas sua inserção é estruturalmente restritiva. O país atua essencialmente como provedor de matérias-primas que passarão por múltiplas rodadas de agregação de valor no exterior, retendo pouca participação nas etapas sofisticadas de maior retorno econômico.
Seu desafio não consiste em elevar o conteúdo importado per se, mas em construir competitividade exportadora nos segmentos de maior agregação de valor – em geral, de maior intensidade tecnológica. Isso requer superar os obstáculos do “Custo Brasil” e os bloqueios aos investimentos modernizantes, em especial as elevadas taxas de juros. Também é relevante estruturar uma política industrial robusta, focada em inovação e fortalecimento de empresas de bens e serviços capazes de liderar nichos de maior sofisticação tecnológica nas CGV.
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