O rentismo está sangrando o Brasil
Especialista da Auditoria Cidadã da Dívida relaciona crescimento do endividamento à transferência de recursos para os bancos e alerta para os impactos sobre os serviços e investimentos públicos.
Dívida pública é a “corrupção no atacado”, afirma Paulo Lindesay
A corrupção que ocupa diariamente o noticiário brasileiro movimenta cifras expressivas, mas estaria longe de representar o principal mecanismo de transferência de recursos públicos para interesses privados no país. Para Paulo Lindesay, integrante da Auditoria Cidadã da Dívida no Rio de Janeiro e técnico do IBGE, é preciso olhar para outro lugar: o sistema da dívida pública.
Em entrevista ao programa Trabalhadores do Brasil, que foi ao ar em 20/08, apresentado por André Lobão e pelo professor João Amado no Canal A Voz Trabalhadora, Lindesay sustentou que o debate sobre corrupção normalmente se concentra naquilo que classifica como “corrupção no varejo”, enquanto o mecanismo de transferência de recursos associado à dívida pública opera em escala muito maior.
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“Estamos sendo enganados até mesmo na corrupção, porque a corrupção que nós estamos vendo na televisão, na mídia, é a corrupção do varejo”, afirmou. Para Lindesay, casos envolvendo instituições financeiras e emendas parlamentares podem representar graves problemas, mas não alcançam a dimensão dos recursos mobilizados pelo serviço da dívida.
A comparação feita pelo entrevistado é provocadora: enquanto a sociedade acompanha escândalos envolvendo milhões ou bilhões de reais, como o caso do Banco Master, que provocou um rombo de mais de R$ 57 bilhões o pagamento relacionado à dívida movimenta valores dessa magnitude de forma permanente. Na entrevista, Lindesay estimou em cerca de R$ 5,1 bilhões por dia o montante correspondente aos valores que citou para o serviço da dívida no ano anterior.
Segundo o técnico do IBGE, o Brasil em 2025 desembolsou cerca de R$1,007 trilhão, somente no pagamento de juros, e nos seis primeiros meses de 2026 esses pagamentos totalizaram R$ 669 bilhões.
“As emendas parlamentares representam a corrupção no varejo. São migalhas para o grande capital, servindo para adoçar a boca de seus serviçais”, afirma. Para o ano de 2026, conforme a Lei Orçamentária, as emendas parlamentares somam um montante de R$61 bilhões. Até a metade do ano de 2026, o governo federal já havia pago cerca de R$33,89 bilhões em emendas para cumprir o cronograma exigido pela legislação eleitoral.
É a partir dessa diferença de escala que emerge a ideia que atravessou a conversa: se os escândalos normalmente conhecidos pela população representam a corrupção no varejo, a dívida pública funcionaria, na avaliação de Lindesay, como uma espécie de “corrupção no atacado”.
É possível uma dívida pública “sadia”?
O argumento de Lindesay não é de que toda dívida pública seja necessariamente prejudicial. Pelo contrário. Ele considera legítimo que o Estado se endivide quando os recursos são utilizados para ampliar a infraestrutura econômica e social do país.
“Se você tiver uma dívida onde você vai criar a estrutura do país, criar escola, criar saneamento básico, criar toda a estrutura de Estado e de serviço público, isso é uma dívida sadia”, explicou.
Segundo ele, o problema está na finalidade assumida pelo endividamento brasileiro. Em sua avaliação, uma ferramenta que deveria financiar o desenvolvimento teria sido transformada em mecanismo de remuneração do sistema financeiro e das grandes corporações.
Essa transformação teria consequências diretas sobre as prioridades nacionais. Lindesay citou dados utilizados pela Auditoria Cidadã da Dívida segundo os quais uma parcela expressiva do orçamento federal está relacionada ao serviço da dívida, enquanto diversas funções públicas disputam uma fração muito menor dos recursos disponíveis.
A disputa pelo orçamento é, portanto, o ponto fundamental de sua crítica.
Na avaliação do entrevistado, a necessidade de assegurar recursos para a dívida condiciona as demais decisões do Estado: quanto maior a prioridade concedida ao sistema financeiro, maior a pressão para reduzir despesas com servidores, saúde, educação, pesquisa, saneamento e outras políticas públicas.
Essa relação também estaria, segundo Lindesay, por trás das sucessivas reformas administrativas e fiscais. Para ele, o objetivo central dessas mudanças não seria simplesmente tornar o Estado mais eficiente, mas reduzir despesas obrigatórias.
“Se eles gastam menos com serviços públicos, com servidores públicos, acontece que vai sobrar mais dinheiro para dívida”, afirmou. Lindesay relacionou essa lógica tanto às mudanças administrativas quanto às regras fiscais que estabelecem limites para o crescimento das despesas públicas.
Um Estado tomado pelo neoliberalismo que corta custos nas políticas públicas
Na interpretação apresentada durante o programa, saúde, educação, pesquisa científica, produção de estatísticas, saneamento e outras funções essenciais passam a ser submetidas permanentemente à necessidade de ajuste fiscal, enquanto os compromissos financeiros recebem tratamento diferenciado.
Esse processo ajuda a compreender, segundo Lindesay, por que a discussão sobre dívida pública não pode ficar restrita a indicadores econômicos. Ela chega ao cotidiano da população por meio da redução da capacidade estatal de prestar serviços.
A própria apresentação do programa chamou atenção para essa relação ao mencionar os efeitos das restrições orçamentárias sobre instituições como universidades públicas, Fiocruz e IBGE.
Lindesay vê ainda uma ligação direta entre essa política e a reforma administrativa. Servidor do IBGE há mais de quatro décadas, ele recuperou a experiência do serviço público anterior à Constituição de 1988 para advertir sobre o risco de expansão de vínculos temporários e celetistas em substituição às carreiras públicas estruturadas. Para ele, reduzir despesas permanentes com servidores integra a mesma lógica de liberação de recursos para outras prioridades fiscais.
O poder do rentismo
A crítica de Lindesay vai além do tamanho da dívida. Para ele, o sistema de endividamento tornou-se um instrumento de poder econômico capaz de condicionar governos.
Durante a entrevista, ele descreveu esse processo como uma “captura do orçamento” e ressaltou que sua crítica não se restringe a uma administração específica. Segundo Lindesay, governos de diferentes orientações políticas mantiveram mecanismos que privilegiam a dívida e o capital financeiro.
O entrevistado também questionou mecanismos utilizados pelo Banco Central, como as operações compromissadas. Na interpretação de Lindesay, instrumentos apresentados como mecanismos de política monetária acabam funcionando como formas adicionais de remuneração do capital financeiro. Ele estendeu a crítica aos depósitos voluntários remunerados e a outras operações financeiras.
É nesse ponto que a expressão “corrupção no atacado” ganha seu sentido político.
Lindesay não utiliza o conceito apenas para denunciar eventuais ilegalidades individuais. Sua crítica é dirigida à própria arquitetura institucional que, segundo ele, permite transferências gigantescas de recursos públicos para o setor financeiro dentro de mecanismos previstos pela legislação.
O resultado seria uma espécie de círculo vicioso: o Estado se endivida, parcela crescente de seus recursos é comprometida com a dívida e novas medidas de austeridade são justificadas pela necessidade de garantir sua sustentabilidade.
Estados também entram na engrenagem
A entrevista também abordou os efeitos do endividamento sobre os estados.
Lindesay dedicou especial atenção ao Rio de Janeiro, argumentando que sucessivos processos de refinanciamento e recuperação fiscal produziram um crescimento expressivo das obrigações estaduais, acompanhado de condicionantes envolvendo patrimônio público, gastos e políticas de pessoal.
Ao falar sobre o Regime de Recuperação Fiscal, ele afirmou que valores originalmente muito menores cresceram significativamente ao longo dos anos e relacionou esse processo às restrições enfrentadas pelos serviços públicos estaduais.
Para Lindesay, portanto, o mecanismo se reproduz em diferentes níveis da Federação. União, estados e municípios passam a organizar suas políticas fiscais em torno do pagamento de obrigações financeiras, diminuindo a margem para investimentos e políticas sociais.
“A dívida pública é o centro de tudo”
Já no fim da entrevista, Lindesay foi questionado sobre qual seria, em sua avaliação, o principal problema estrutural brasileiro. A resposta voltou ao ponto central da conversa.
“A dívida pública é exatamente o centro de tudo que está acontecendo”, afirmou.
Segundo ele, a necessidade de assegurar o pagamento aos detentores dos títulos restringe a possibilidade de expansão dos serviços públicos e subordina governos às exigências do sistema financeiro.
Para ilustrar sua tese, Lindesay recorreu à figura do agiota: assim como o credor toma os bens daquele que não consegue honrar uma dívida, o endividamento dos países poderia abrir caminho para a apropriação de patrimônio e riquezas estratégicas. “Eu vou levar seu petróleo, eu vou levar sua terra rara, eu vou levar todas as riquezas que você tem no teu território”, comparou.
A dívida, nesse sentido, não seria apenas um problema contábil. Na interpretação de Lindesay, ela se transforma em mecanismo de disputa pela riqueza nacional e pela própria capacidade do Estado de definir suas prioridades.
Auditoria como ponto de partida
Para enfrentar o problema, Lindesay defende a realização de uma auditoria da dívida pública.
Durante o programa, ele lembrou a previsão existente no artigo 26 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) da Constituição de 1988, que determinou a realização de exame analítico e pericial dos atos e fatos geradores do endividamento externo brasileiro por uma comissão mista do Congresso Nacional.
A proposta defendida pela Auditoria Cidadã é investigar a origem das obrigações, identificar quem são seus beneficiários, verificar a legalidade dos mecanismos utilizados e distinguir aquilo que efetivamente corresponde a financiamento público das parcelas que resultam de juros, refinanciamentos e outros mecanismos financeiros.
Lindesay reconhece, entretanto, que colocar essa discussão no centro da agenda política significa enfrentar interesses poderosos.
“Para você falar de auditoria da dívida, você tem que enfrentar o grande capital”, resumiu.
Essa talvez seja a principal conclusão da entrevista exibida pelo Trabalhadores do Brasil: discutir a dívida pública significa discutir quem se apropria dos recursos arrecadados pelo Estado e quem suporta o custo das escolhas feitas no orçamento.
Para Lindesay, enquanto milhões de brasileiros acompanham diariamente denúncias de corrupção e desvios de dinheiro público, uma transferência de riqueza muito maior permanece distante do debate cotidiano.
É por isso que ele desloca a discussão da corrupção do “varejo” para o “atacado”. Em sua interpretação, o verdadeiro escândalo não estaria apenas nos recursos desviados ilegalmente, mas em um sistema econômico e fiscal que transforma o orçamento público em instrumento de remuneração do capital financeiro — enquanto faltam recursos para financiar plenamente os direitos e os serviços que justificam a própria existência do Estado.
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