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Quem produz semicondutores no Brasil? A retomada do Ceitec e a questão da soberania

"Imagine se sofremos um embargo de algum país produtor de chips"

Publicado em 25/11/2023
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No início do mês o governo federal finalmente autorizou a reversão do processo de dissolução do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), estatal de semicondutores e única fábrica desse tipo de item em toda a América Latina. Para analistas, a retomada das operações sinaliza que o governo voltou sua atenção à indústria de base.

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O fechamento da estatal havia sido decretado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e sua equipe econômica, liderada por Paulo Guedes, em agosto de 2019. Alguns meses depois, Guedes anunciou a intenção do governo de criar isenções fiscais para que fábricas de semicondutores estrangeiras se instalassem no Brasil.

De acordo com especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, o retorno das atividades do Ceitec não é somente uma oportunidade de investimento em um mercado crescente ao redor do mundo, mas também uma questão de soberania nacional.

"Hoje o Ceitec é uma representação de que estamos fazendo uma busca por uma soberania tecnológica. É essencial no século XXI", afirma Claudio Miceli de Farias, professor do Núcleo de Computação Eletrônica (NCE) e do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação (PESC), ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

"Ter uma indústria nacional de semicondutores, poder produzir seus próprios equipamentos eletroeletrônicos é uma questão de soberania, de não ficar na dependência de outros países em casos de eventos extremos."

"Imagine se sofremos um embargo de algum país produtor de chips, ou de algum país produtor de alguma tecnologia específica que não temos como produzir", descreve Farias.

Qual o motivo da falta de semicondutores?

A situação infelizmente já aconteceu no Brasil. Em 2022, dentro do contexto da paralisação das cadeias de produção da COVID-19, diversas fábricas de automóveis fecharam ou diminuíram suas produções no Brasil, citando, entre várias lacunas, a ausência de semicondutores para concluírem a montagem dos veículos.

Outro exemplo, dado por Farias, também se relaciona ao evento extremo da COVID-19, a falta de respiradores para os pacientes de UTI durante a pandemia. "Não tínhamos de quem importar e não tínhamos como produzir", disse.

"Equipamentos eletroeletrônicos são a base da nossa sociedade. O Ceitec é um anúncio de que nós queremos investir na tecnologia, em nossa soberania tecnológica."

Quem fabrica o chip?

Depois de um hiato que provocou um colapso na cadeia de produção brasileira, a retomada do Ceitec pode provocar uma aceleração do crescimento industrial brasileiro.

"O Ceitec é uma empresa pública especializada na produção de chips. O que isso significa? A produção de chips envolve processos industriais extremamente complexos de micro e nanofabricação não apenas de dispositivos eletrônicos, mas de diversos tipos de materiais", explicou Euclides Lourenço Chuma, membro sênior do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) e pesquisador no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer.

Os semicondutores estão presentes hoje em diversos produtos, desde lavadoras e carros até celulares e maquinário industrial.

A existência de uma fábrica nacional de microchips vai ter efeitos de encadeamento em toda a indústria nacional, afirma Chuma.

"Sem contar que esse mercado impulsiona outros mercados, principalmente o de serviços como telecomunicações, que possuem cifras bilionárias, além de diversos outros dispositivos eletrônicos como computadores. Todos eles precisam de semicondutores para ter esse crescimento."

É importante destacar que existem diversos tipos de semicondutores, diferenciados principalmente pelo seu tamanho. Empresas dos Estados Unidos estão na vanguarda da tecnologia, produzindo chips na escala de 2 nanômetros, mas a China, apesar de todas as sanções norte-americanas, está logo atrás.

Isso não quer dizer, no entanto, que é preciso chegar a esses tamanhos menores para utilizar os chips em produtos e aplicações industriais. "Existem muitos microchips para aplicações fechadas, onde a programação vai diretamente dentro do chip", explica Chuma. "Esse tipo é largamente utilizado na indústria, inclusive como forma de proteger a propriedade intelectual".

"Quando se fala na produção de chips, existe uma série de outros produtos, como sensores, que utilizam tecnologias que o Ceitec é capaz de produzir, então é realmente relevante a retomada da empresa na fabricação de produtos eletrônicos no cenário nacional."

Ceitec, uma pesquisa brasileira

O mercado de semicondutores só tende a crescer, afirmam os especialistas, uma vez que esses pequenos produtos estão presentes em quase todas as aplicações utilizadas diariamente, desde nossos celulares até veículos e torres de comunicação. Apesar disso, ambos os analistas ressaltam que o valor do Ceitec não está em seus possíveis lucros, mas na sua posição estratégica enquanto uma indústria de base nacional.

A dissolução da empresa iniciada por Bolsonaro provocou uma série de demissões de funcionários, cujo quadro em seu auge contou com 230 pessoas.

O seu recomeço, no entanto, marca um aceno brasileiro à valorização da mão de obra qualificada, um indício de que o governo quer dar fim à fuga de cérebros do país.

Neste primeiro momento está prevista a contratação de 50 novos funcionários, e, conforme as coisas forem andando, o Ceitec pode ser capaz de absorver uma parte da mão de obra qualificada que se forma no país.

"Tudo isso é muito positivo porque esses profissionais que trabalham na indústria de semicondutores são altamente qualificados e inclusive geram empregos qualificados em toda a cadeia produtiva, então é de fundamental importância o Ceitec nesse contexto", disse Chuma.

Outro ponto fundamental, destacaram os analistas, é que a existência do Ceitec reabre caminhos para cooperações e trocas de conhecimento e de tecnologia com outros países. Em abril, por exemplo, Brasil e China assinaram um acordo de cooperação em 15 áreas tecnológicas diferentes, entre elas a de semicondutores.

"Dentro do BRICS essa troca de tecnologia, de conhecimento, […] [esse] intercâmbio de pesquisadores, […] de tecnologias é extremamente importante", afirmou Farias.

Chuma destaca que uma possível transferência de tecnologia por parte da China seria benéfica não só para o Brasil, como também para a nação asiática. "Durante o processo de pesquisa é gerado um conhecimento que é utilizado muitas vezes por ambas as partes", ressalta.

Nesse ponto, resume Farias, o Ceitec "permite pesquisa, permite desenvolvimento, permite subsistência e é o primeiro passo na criação de um cenário favorável para a ciência e a tecnologia aqui no Brasil".

Fonte(s) / Referência(s):

Jornalismo AEPET
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