Trump e a Venezuela: nunca foi pela democracia

A eleição de Maduro e Rodriguez nunca foi aceita pelos EUA, mas até hoje não há proposta para novas eleições. Parece que a presidente interina cumpre o papel desejado por Trump.

Publicado em 31/08/2026
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No xadrez geopolítico da energia global, a distância entre a soberania nacional e a submissão de um Estado aos interesses de uma superpotência pode ser medida em barris de petróleo. Meses após uma operação militar que alterou drasticamente o rumo da América do Sul, a Venezuela vê-se hoje na iminência de ser convertida em um mero poço de reabastecimento para as necessidades domésticas dos Estados Unidos.

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A engrenagem que viabilizou esse cenário começou a girar na madrugada de 3 de janeiro de 2026, quando o exército estadunidense realizou uma incursão sem precedentes em solo venezuelano, capturando o então presidente Nicolás Maduro. Sob a acusação de liderar o suposto cartel "De Los Soles" — uma acusação que especialistas em tráfico internacional questionaram devido à falta de provas apresentadas, Maduro foi enviado para uma prisão federal no Brooklyn, em Nova York. A ação militar foi duramente criticada pelo Brasil e classificada por setores da imprensa internacional como ilegal e imprudente. Com a deposição de Maduro, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina do país, inaugurando uma rápida reaproximação com Washington que culminou no restabelecimento formal de laços diplomáticos em março de 2026.

A eleição de Maduro e Rodriguez nunca foi aceita pelos EUA, mas até hoje não há proposta para novas eleições. Parece que a presidente interina cumpre o papel desejado por Trump.

O Controle Majoritário e a Concessão de 100 Anos

O resultado prático dessa tutela diplomática materializou-se no final de agosto de 2026. O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou com entusiasmo o fechamento daquele que chamou de "o maior acordo petrolífero de todos os tempos". Sob os termos negociados pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, os Estados Unidos garantiram o controle majoritário de 55% de uma associação empresarial (joint venture) com operadores privados experientes na Venezuela.

O acordo concede direitos de exploração sobre 17 campos petrolíferos estratégicos que somam 65 bilhões de barris de reservas comprovadas. O detalhe mais alarmante para a soberania do país sul-americano reside no prazo: a presidente interina Delcy Rodríguez outorgou uma concessão de 100 anos para as operações dos EUA nesses campos.

Embora Rodríguez tente revestir o pacto com uma narrativa de "renascimento econômico" e "preservação da soberania nacional", alegando que a Venezuela manterá a propriedade dos recursos e receberá mais de US$ 209 bilhões de dólares em receitas fiscais, o desenho do acordo revela uma transferência profunda de controle estrutural. Empresas como a Chevron já estão integrando suas operações ao novo regime energético do país. Mais do que isso, Washington já está em negociações avançadas para obter a propriedade direta de campos de petróleo de alta produtividade que somam outras reservas de 90 bilhões de barris.

O petróleo venezuelano como "presente" para os EUA

Enquanto o governo interino em Caracas argumenta que os US$ 19 garantidos ao Estado por barril vendido financiarão a reconstrução nacional, o discurso vindo da Casa Branca é explícito sobre a real finalidade do acordo. Pressionado internamente pela inflação e pelos altos preços dos combustíveis causados por uma guerra de seis meses no Irã, Donald Trump anunciou publicamente que o petróleo venezuelano será utilizado diretamente para reabastecer a Reserva Estratégica de Petróleo dos EUA (SPR).

A SPR norte-americana foi drenada para cerca de 290 milhões de barris, o nível operacional mais baixo em quase 44 anos. Diante desse cenário de vulnerabilidade energética de Washington, Trump referiu-se abertamente ao petróleo da Venezuela como um "presente de Caracas para o povo dos Estados Unidos". O presidente americano prevê que as reservas dos EUA "mais que dobrarão" sem qualquer custo para o contribuinte americano, permitindo uma redução substancial e de longo prazo no preço da gasolina em território estadunidense.

Dessa forma, as imensas reservas venezuelanas — estimadas em 303 bilhões de barris pelo próprio cartel da OPEP passam a servir prioritariamente para estabilizar a economia interna e amortecer os choques de mercado enfrentados pelos consumidores dos EUA.

O desmonte da OPEP e a resistência nas ruas

O alinhamento estratégico com Washington é tão profundo que a Venezuela, uma das cinco nações fundadoras da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em 1960, está agora considerando abandonar oficialmente o cartel. A saída do país, que ocorre em meio a discussões diretas com oficiais estadunidense, representaria um duro golpe para a organização multilateral. A Washington interessa que a produção venezuelana ocorra livre de cotas internacionais, facilitando a extração massiva e o fluxo ininterrupto de óleo cru pesado para as refinarias no Golfo do México.

No entanto, a consolidação desse novo arranjo geopolítico de subordinação não ocorre sem atritos. No centro de Caracas, dezenas de grupos populares e pró-governo realizaram protestos contra a forte presença e interferência dos EUA na economia e na política do país. Para esses setores, o "acordo histórico" anunciado por Delcy Rodríguez nada mais é do que a institucionalização de um modelo extrativista colonial, onde a Venezuela entrega o controle de suas maiores riquezas por um século em troca de uma sobrevivência fiscal imediata.

Sob a sombra da prisão de seu ex-presidente e sob a tutela de uma junta empresarial e diplomática estadunidense, a Venezuela de Delcy Rodríguez ensaia dar os primeiros passos de um futuro em que deixará de ser uma potência energética autônoma para se consolidar, definitivamente, como a reserva estratégica particular dos Estados Unidos.

Com informações de Oilprice. com. Reuters, Bloomberg, Folha de S. Paulo e Globo

Alex Prado
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