Ascensão da China baixou tom de Europa e EUA na defesa do livre comércio, diz Chang

Autor do best-seller ‘Chutando a Escada’, o economista Ha-joon Chang afirma que Ocidente reagiu com protecionismo a avanço chinês em setores como o de IA

Publicado em 28/05/2026
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Navio de carga no canal da Baía de Jiaozhou, China. Foto: Costfoto/Nurphoto/Getty Images

A ascensão da China como potência industrial e tecnológica está levando os EUA e a Europa a abandonarem, na prática, décadas de defesa do livre comércio. Esta é a avaliação do economista sul-coreano e professor da Universidade de Londres, Ha-joon Chang.

O autor do best-seller “Chutando a Escada” afirma que a reação dos EUA e das nações europeias ao avanço chinês em setores como o de inteligência artificial (IA) comprova a tese de seu livro: os países desenvolvidos recorrem historicamente ao protecionismo, a subsídios e à forte intervenção estatal para se beneficiarem. Depois de “subirem a escada” do desenvolvimento, porém, passam a defender o livre mercado para dificultar que nações emergentes adotem as mesmas estratégias.

Chang defende que o desenvolvimento econômico hoje depende menos da ideia neoliberal de “abrir mercados” e mais da capacidade dos países de criarem e fortalecerem as suas indústrias, por meio da pesquisa, transferência tecnológica e qualificação da força de trabalho. Ele esteve no Brasil para o painel “Países pobres podem crescer?”, realizado pela Editora Unesp em São Paulo.

Chang explicou que a ideia do protecionismo como instrumento de desenvolvimento econômico já era defendida no século 18 por Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro dos EUA, nomeado por George Washington, e um dos principais arquitetos do capitalismo americano.

Na palestra, Chang ironizou o presidente Donald Trump ao afirmar que a imposição de tarifas, por si só, não são suficientes para reconstruir o potencial da indústria dos EUA e fazerem os “EUA Grandes Novamente”, uma vez que o problema exige soluções mais complexas e de longo prazo.

Em conversa com o Valor, Chang comentou sobre alguns dos principais assuntos da geopolítica que abalam o mundo atualmente, como a rivalidade entre os EUA e a China e os impactos do fechamento do Estreito de Ormuz - provocado pela guerra entre EUA e Israel contra o Irã. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista.

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Valor: No best-seller “Chutando a Escada”, o senhor argumenta que países ricos historicamente tentaram impedir outros de usar as mesmas políticas protecionistas que eles próprios adotaram para se industrializar. A ascensão da China - ao mesmo tempo um país emergente, uma superpotência e o principal rival dos Estados Unidos - tornou-se o maior desafio a essa lógica?

Chang: Sim. A ascensão da China foi muito mais rápida do que eu imaginava. Quero dizer, hoje a China lidera muitos setores: painéis solares, turbinas eólicas, inteligência artificial está praticamente lado a lado com os EUA. Também lidera em construção naval e aço. E isso é bastante assustador. Como resultado, os EUA e os países europeus começaram a adotar políticas protecionistas, porque perceberam que, se não fizerem nada, serão completamente engolidos pela China.

Então, agora eles [EUA e países europeus] estão mais abertos ao protecionismo e à política industrial, o que, na verdade, comprova o principal argumento do meu livro: a defesa do livre comércio por esses países era baseada em interesse próprio. Eles não defendiam isso porque era algum princípio absoluto ou a palavra divina. Eles defendiam o livre comércio porque isso lhes era conveniente.

Quando precisaram de proteção no passado, usaram proteção. Depois, quando enriqueceram, passaram a dizer: ‘Ah, todos deveriam adotar o livre comércio’. Agora que precisam disso novamente, dizem: ‘Tudo bem, podemos usar essas ferramentas’. Isso mostra como essas ideias econômicas supostamente científicas também são, em parte, produto da política.

Valor: Nesse caso, a China poderia, no futuro, passar a “chutar a escada” para outros países emergentes?

Chang: Bem, de certa forma isso já está começando a acontecer. A China, por exemplo, já foi criticada por construir infraestrutura na África sem nem sequer usar mão de obra local, sem nem mesmo ensinar técnicas básicas de construção aos trabalhadores locais.

Agora, para ser justo, isso ainda não é algo generalizado. E a China recentemente decidiu conceder acesso livre de tarifas ao seu mercado para a maioria dos países africanos. Então, até agora, de modo geral, ela tem se comportado de forma razoável, embora existam algumas áreas de preocupação.

Mas, quem sabe? Quando a China se tornar ainda mais dominante, talvez comece a fazer a mesma coisa [“chutar a escada” para que outras nações não a subam, como os países ricos fizeram]. Isso me preocupa, mas espero que ela [China] aprenda as lições da própria história e não faça isso.

Valor: Para o senhor, as chamadas tarifas do “Dia da Libertação” de Trump mostram que os EUA abandonaram de vez o discurso do livre comércio?

Chang: Sim, completamente, porque o argumento de Trump é que os EUA foram construídos com base em tarifas - e isso é verdade. Entre 1830 e 1930, os EUA foram a economia mais protecionista do mundo. Não foi apenas por causa do protecionismo, claro, mas a proteção [das indústrias americanas] teve um papel muito importante, especialmente no século 19, ao defender os produtores americanos da concorrência britânica, já que o Reino Unido era a principal potência industrial da época, e também da concorrência de outros países europeus.

Nesse sentido, Trump está sendo mais honesto do que aqueles que defendiam liberalismo e livre comércio, porque a verdade é que os EUA se beneficiaram enormemente dessa experiência protecionista. O problema é que o que ele está tentando fazer agora não vai funcionar, uma vez que ele não está fazendo o suficiente para garantir que as indústrias beneficiadas pelo protecionismo invistam e aumentem sua produtividade.

No curto prazo, o protecionismo é algo ruim, porque encarece os produtos para os consumidores. Ele só funciona se, durante o período de proteção, os produtores domésticos investirem e elevarem sua produtividade. Se isso não acontece, o país apenas prejudica a si mesmo. E, infelizmente, não há nada no pacote de políticas de Trump que obrigue de forma consistente as empresas americanas beneficiadas pelas tarifas a investir e aumentar produtividade. Algumas empresas podem fazer isso, mas não existe garantia nem punição para quem não fizer.

Se elas apenas receberem a proteção e se acomodarem, sem investir nem elevar produtividade, então essas políticas serão desperdiçadas. As políticas protecionistas só funcionaram no passado quando houve pressão sistemática do governo, ou quando o governo criou condições para investimento e expansão produtiva. Elas só deram certo quando as empresas investiram e aumentaram a produtividade. E eu não vejo isso como parte do pacote de políticas de Trump. Então, meu palpite é que isso não vai funcionar.

Valor: Na rivalidade entre China e EUA, a corrida pela IA recolocou minerais críticos e terras raras no centro da geopolítica. É correto dizer que o poder global voltou a depender mais fortemente de recursos naturais?

Chang: Sim e não, porque o controle de recursos naturais está se tornando cada vez mais importante. A questão é que não se trata apenas de possuir os recursos em si, mas sim da capacidade de processá-los. No caso das terras raras, por exemplo, a China possui muitas delas, mas responde por apenas cerca de 50% da reserva mundial. O mais importante é que ela processa e refina esses minerais. Em muitos casos, dependendo do mineral, 80% ou até 90% dos países do mundo podem ter acesso a esses recursos, mas poucos têm capacidade industrial para processá-los em larga escala. Portanto, não basta ter os recursos no solo. É preciso ter capacidade industrial para processá-los.

Valor: Uma crise como a que vemos hoje no Estreito de Ormuz enfraquece discursos de desglobalização, como os associados a Trump e ao Brexit, ao mostrar o quanto a economia global ainda é profundamente interconectada?

Chang: Sim, absolutamente. Nós tivemos a crise do petróleo nos anos 1970, quando o preço do petróleo quadruplicou e muitos países enfrentaram grandes dificuldades. O Brasil, por exemplo, precisou aumentar sua produção de etanol para substituir o petróleo, porque na época a Petrobras ainda não sabia perfurar em águas profundas.

Mas hoje o mundo se tornou muito mais interconectado, e diferentes regiões passaram a depender umas das outras de maneiras muito mais complexas. Desta vez, não se trata apenas de petróleo. Os países do Oriente Médio produzem muitos fertilizantes e, quando esse fornecimento é interrompido, vários países africanos, e até agricultores americanos, enfrentam problemas porque dependem desses insumos.

Os países do Golfo também produzem gás hélio, que é essencial para o processamento de semicondutores. Então, por melhores que sejam os coreanos e taiwaneses na fabricação de chips, sem hélio não há semicondutores. Hoje somos profundamente interdependentes.

Não é apenas o petróleo em si, mas todos os subprodutos e cadeias associadas a ele. Os americanos diziam no início da guerra: ‘Não seremos afetados, porque somos autossuficientes em petróleo e exportadores líquidos’. Mas o preço da gasolina nos EUA subiu. Por quê? Porque, embora os EUA tenham petróleo suficiente para seus consumidores, compradores na Ásia e na Europa estão dispostos a pagar mais pelo petróleo americano, já que perderam acesso ao petróleo do Golfo. Então as petroleiras americanas vendem para asiáticos e europeus - e o preço interno sobe.

Vivemos hoje em um mundo tão interdependente que não podemos mais agir como se estivéssemos nos anos 40 ou 50, quando muitos países eram relativamente isolados.

Valor: Na visão do senhor, a intensa polarização política observada hoje em vários países afeta o desenvolvimento econômico?

Chang: Afeta, sim, porque cria instabilidade e incerteza, algo muito ruim para investimentos de longo prazo. Esse é o impacto mais imediato. Mas há também outro problema: esse tipo de polarização política extrema cria uma tendência de desacreditar informações objetivas e argumentos racionais.

Hoje tudo vira uma questão de paixão política: ‘Eu amo Trump, então tudo o que ele faz é ótimo’ ou ‘Eu odeio Trump, então tudo o que ele faz é ruim’. Precisamos de análise objetiva e de debate racional.

Valor: Alguns anos atrás, o senhor criticou a desindustrialização do Brasil. Hoje, o senhor acredita que o país continua seguindo nessa direção?

Chang: Sim, infelizmente. Em meados dos anos 1980, cerca de 30% do PIB do Brasil vinha da manufatura. Hoje, esse número está em torno de 12%, e a tendência continua sendo de queda. Não estou dizendo que o país precise voltar aos 30%, mas o setor manufatureiro é o centro da inovação e do crescimento da produtividade. É ali que acontece a maior parte da pesquisa e desenvolvimento. É também ali que se criam os insumos que aumentam a produtividade de outros setores. Por que a agricultura brasileira é tão produtiva? Porque utiliza químicos, sensores, drones e outras tecnologias criadas pela indústria manufatureira. Sem um setor manufatureiro forte, nem os outros setores conseguem se desenvolver adequadamente. E, francamente, o declínio da manufatura no Brasil foi um dos maiores da história humana. Talvez apenas o que aconteceu sob Margaret Thatcher no Reino Unido seja comparável. Isso precisa ser revertido. O Brasil ainda não está em um estágio de desenvolvimento em que possa depender principalmente de serviços.

O país ainda tem um longo caminho até amadurecer industrialmente e, só então, conseguir avançar para outras etapas.

Fonte(s) / Referência(s):

Laura Lopes
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