Na sua avaliação, por que a trégua entre Estados Unidos e Irã ruiu tão rápido?
A trégua ruiu tão rápido porque nenhum dos dois países tinha interesse na sua continuação. Para que um cessar-fogo seja duradouro, a condição básica sine qua non é que as duas nações queiram a paz, o fim da guerra. Como se está vendo, nenhum dos dois lados tinha interesse nisso.
O que querem os Estados Unidos?
Na minha visão, os Estados Unidos querem algo impossível: o domínio do Golfo Pérsico. Aliás, como o Golfo tem o nome da Pérsia, esse objetivo passa, necessariamente, pelo domínio do Irã. Se considerarmos todos os países do mundo e fizermos uma avaliação tendo como referência os principais itens da geopolítica, neste caso, superfície, população e Produto Nacional Bruto, o Irã, certamente, estará entre os 20 países mais importantes do mundo.
Os Estados Unidos estão pagando o preço dessa guerra, pois não levaram em consideração a capacidade de resistência do Irã pela sua história, geografia, religião e população. Se o governo americano fosse mais bem informado, é possível que essa guerra não tivesse acontecido.
Vale lembrar que essa não é a primeira guerra, pois em junho de 2025, Estados Unidos e Israel atacaram juntos o Irã durante 12 dias (Guerra dos Doze Dias), mas falharam. Agora, nós estamos com 6 meses de conflito sem que ele tenha sido resolvido. Na minha opinião, esse problema não será resolvido por meios militares.
O que quer o Irã?
Por desconhecimento e ignorância, o Irã é pouco conhecido pelo Ocidente. Aqui, eu me refiro a pessoas que tenham morado e vivido por muitos anos no Irã. Para a nossa mentalidade ocidental, o Irã é totalmente atípico, pois a religião é um fator preponderante no país. Outro ponto é que, no mundo mulçumano, o islamismo possui duas correntes: a sunita e a xiita.
Tradicionalmente, os sunitas são um pouco mais moderados, suaves no seu comportamento político-religioso. Os xiitas são mais radicais, duros e inflexíveis. Cabe destacar que, na língua portuguesa, a palavra xiita passou a ser utilizada como um adjetivo para uma pessoa que tem esse tipo de comportamento. Como disse, houve um desconhecimento por parte dos Estados Unidos sobre a importância do fator religioso no conflito.