aepet_autores_luis_nassif
Luis Nassif

Acordo Mercosul-União Europeia: os riscos de desindustrialização

Enquanto o acordo promete integração comercial, a estrutura de custos brasileira pode levar à substituição de produção por importação.

Publicado em 21/01/2026
Compartilhe:

O Brasil possui custos de produção industrial superiores aos europeus na maioria dos setores estratégicos. Sem políticas industriais compensatórias, o país corre o risco de se transformar em mercado consumidor de produtos europeus, em vez de manter-se como polo produtivo.

Receba os destaques do dia por e-mail

Cadastre-se no AEPET Direto para receber os principais conteúdos publicados em nosso site.
Ao clicar em “Cadastrar” você aceita receber nossos e-mails e concorda com a nossa política de privacidade.

Vamos a uma análise comparativa dos custos de produção nos principais setores industriais, com base mas estudos da Eurostat, da Comissão Europeia, OCDE e UNIDO.

A Equação de Custos: Onde o Brasil Ganha e Perde

Vantagens Competitivas Brasileiras

Energia: 2 a 3 vezes mais barata que na Europa
Mão de obra: Custos salariais significativamente menores

Desvantagens Estruturais Críticas

Juros altíssimos: Encarecem capital de giro e investimentos
Impostos indiretos: Elevados e complexos (embora a reforma tributária prometa melhorias)
Logística: Cara e ineficiente, elevando custos de distribuição
Produtividade: Inferior aos padrões europeus
Segurança jurídica: Apenas média, gerando incertezas

O problema central: as desvantagens superam as vantagens em setores de maior valor agregado.

Competitividade por Setor (Índice: Europa = 100)
Automotivo: 92 a 105

O Brasil praticamente perdeu a vantagem de custo.

A produção nacional compete em condições similares ou piores que a europeia. Com a eliminação gradual das tarifas (atualmente até 35%), a importação de veículos prontos torna-se economicamente mais atraente.

Impactos esperados:

Aumento de 25% nas importações de veículos europeus
Pressão sobre fábricas locais e empregos industriais
Risco para a cadeia nacional de autopeças

Quem ganha: Montadoras europeias
Quem perde: Cadeia de fornecedores nacionais
Farmacêutico: 115 a 140

Produzir no Brasil custa até 40% mais que na Europa

O setor enfrenta múltiplas fragilidades:

Dependência quase total de insumos químicos importados
Regulação lenta e burocrática
Escala de produção reduzida
Alto custo financeiro

Na prática, a indústria brasileira realiza principalmente montagem final, enquanto produtos de maior valor agregado já vêm prontos da Europa.

Impactos esperados:

Aumento de 6% a 12% nas importações
Risco de desindustrialização farmacêutica
Maior dependência externa em saúde pública

Quem ganha: Big pharma europeia
Quem perde: Indústria nacional de genéricos

Máquinas e Equipamentos: 110 a 130

Diferença brutal: Brasil até 30% mais caro

A cadeia produtiva europeia é madura e integrada. No Brasil:

Fornecedores locais são escassos
Peças e componentes precisam ser importados
Estoques caros devido aos juros elevados

Com redução de tarifas (até 18%), importar equipamentos prontos torna-se mais vantajoso que produzir localmente.

Impactos esperados:

Aumento de 10% nas importações
Perda de capacidade de engenharia local
Redução de investimentos em P&D
Eliminação de empregos qualificados

Quem ganha: Alemanha e Itália
Quem perde: Fabricantes nacionais
Elétricos e Automação: 105 a 125

Brasil 15% a 25% mais caro

O país já importa produtos premium. As fábricas locais concentram-se em modelos antigos e de menor complexidade tecnológica.

Quem ganha: Siemens, ABB, Bosch
Quem perde: Fabricantes nacionais

O Comportamento Real das Multinacionais Europeias

Volkswagen, Stellantis, BMW

Estratégia: Brasil como plataforma de montagem regional

Componentes importados da Europa
Produção local condicionada a incentivos fiscais e tamanho de mercado
Com o acordo: mais importação de veículos prontos, menos investimentos industriais novos

Sanofi, Bayer, Roche

Estratégia: Produção limitada no Brasil

Maior valor agregado vem importado da matriz europeia
Com o acordo: Brasil consolida-se como mercado consumidor, não polo industrial

Siemens, Bosch, ABB

Estratégia: Diferenciação por geração tecnológica

Fábricas brasileiras produzem modelos antigos
Produtos premium importados da Europa
Com tarifa zero: importação substitui produção local

Impacto Macroeconômico Projetado

Aumento estimado: +US$ 3,3 bilhões/ano em importações industriais (cenário central)

Efeitos Colaterais Estruturais

Redução de investimentos produtivos
Pressão sobre empregos industriais qualificados
Diminuição de atividades de P&D local
Risco central: Brasil transforma-se em “showroom tecnológico europeu”

Conclusão: O Desafio da Política Industrial

A análise revela uma contradição fundamental: enquanto o acordo promete integração comercial, a estrutura de custos brasileira pode levar à substituição de produção por importação.

Sem uma política industrial robusta que endereça:

Custo do capital (juros)
Infraestrutura logística
Produtividade industrial
Desenvolvimento de cadeias de fornecedores
Investimento em P&D e inovação

O acordo pode acelerar a desindustrialização em setores estratégicos, aumentando a dependência externa justamente nas áreas de maior conteúdo tecnológico e empregos qualificados.

Fonte(s) / Referência(s):

guest
0 Comentários
Mais votado
Mais recente Mais antigo
Feedbacks Inline
Ver todos os comentários

Gostou do conteúdo?

Clique aqui para receber matérias e artigos da AEPET em primeira mão pelo Telegram.

Mais artigos de Luis Nassif

Receba os destaques do dia por e-mail

Cadastre-se no AEPET Direto para receber os principais conteúdos publicados em nosso site.

Ao clicar em “Cadastrar” você aceita receber nossos e-mails e concorda com a nossa política de privacidade.

0
Gostaríamos de saber a sua opinião... Comente!x