Megatendências globais e a importância da indústria na superação dos desafios
Indústria ocupa papel central no progresso dos países... Estratégia industrial deve ser coordenada com os planos nacionais de desenvolvimento.
A Carta IEDI de hoje trata dos principais diagnósticos e recomendações do Industrial Development Report 2026, elaborado pela UNIDO. Intitulado “The Future of Industrialization: Building Future-ready Industries for Sustainable Development”, o relatório aborda os desafios e oportunidades que se apresentam aos países em desenvolvimento no contexto de cinco megatendências que estão remodelando o cenário industrial global.
Tais megatendências, que colocam novos desafios e aprofundam gargalos estruturais existentes nestes países, compreendem: i) a transição verde; ii) a ascensão da inteligência artificial e a digitalização da produção; iii) a reconfiguração das cadeias globais de valor; iv) dinâmica populacional e a transformação da natureza do trabalho; e v) a transformação dos sistemas de produção de alimentos.
A UNIDO alerta que a economia global atravessa um momento decisivo e que as perspectivas para atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU até 2030 nunca foram tão pessimistas. As projeções da entidade indicam que, caso o curso atual seja mantido, em 2050 o mundo terá atingido níveis críticos de aquecimento global (+2,3oC), agravamento da pobreza e da fome e aumento da concentração das desigualdades entre países e regiões.
Para reverter essa trajetória, a UNIDO defende que a industrialização sustentável se torne prioridade e seja colocada no centro das estratégias de desenvolvimento dos países.
Os benefícios da industrialização decorrem da capacidade do setor de explorar economias de escala, criar encadeamentos produtivos e promover a difusão de tecnologias. Em outras palavras, a indústria importa e ocupa um papel central no progresso dos países.
Ao impulsionar a expansão para atividades econômicas de maior valor agregado, mais sofisticadas e diversificadas — que geram oportunidades de melhores empregos —, a industrialização se consolida como uma alavanca fundamental do avanço socioeconômico. Sua contribuição também está associada ao papel como motor da inovação, ao desenvolvimento de tecnologias verdes e ao aumento da resiliência frente a choques econômicos.
Para que os ganhos advindos da industrialização sejam efetivos no contexto atual, contudo, a UNIDO defende que a estratégia industrial deve ser coordenada com os planos nacionais de desenvolvimento, seguindo duas diretrizes centrais:
• incorporar a sustentabilidade como requisito no desenho e implementação da política industrial; e
• estimular atividades com maior potencial de crescimento e capacidade de geração de empregos de maior qualidade, que assegurem salários justos e condições seguras de trabalho.
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Promover a industrialização em países em desenvolvimento, especialmente naqueles de menor desenvolvimento relativo, envolve uma série de restrições, bem nos lembra o relatório em tela.
Algumas são antigas e bem mapeadas, como infraestrutura e financiamento inadequados, capacidade limitada de absorver e criar novas tecnologias, pressões demográficas e persistentes desajustes de habilidades, que continuam a dificultar o desenvolvimento industrial.
Estes obstáculos são amplamente conhecidos e, a menos que sejam abordados de forma decisiva, a industrialização futura não conseguirá alcançar a velocidade e a escala necessárias para enfrentar os desafios globais apontados nas projeções da UNIDO.
Ao mesmo tempo, é preciso lidar com desafios novos e mais complexos que ameaçam ampliar as assimetrias entre países e regiões.
A UNIDO orienta que os países em desenvolvimento precisam se reposicionar em cadeias globais de suprimentos em rápida evolução, gerenciar as oportunidades e os riscos associados às novas tecnologias digitais – com destaque para a IA –, perseguir a sustentabilidade ambiental preservando a competitividade e preparar a força de trabalho para profundas transformações no emprego.
Para fazer frente a esses desafios, no contexto das cinco megatendências mapeadas, o estudo propõe uma ação coordenada em sete frentes interconectadas:
1. Infraestrutura: fator crítico para a geração de ganhos de produtividade e, consequentemente, para o crescimento;
2. Desenvolvimento das instituições: o reforço das capacidades governamentais de formulação, execução e monitoramento é um pré-requisito para que os países sejam bem-sucedidos;
3. Capacitação e habilidades do trabalho: as transformações trazidas pelas megatendências reforçam a demanda por algumas habilidades e tornam outras irrelevantes, exigindo políticas de educação e sistemas de treinamento de mão de obra;
4. Adoção e difusão de tecnologias avançadas: exigindo fortalecer instituições de pesquisa em áreas tecnológicas estratégicas; estimular a colaboração entre o setor privado e universidades; estabelecer hubs de inovação com foco em IA e centros de excelência em manufatura inteligente; estimular a conexão entre startups e grandes empresas para fomentar ecossistemas mais inovadores; e adotar mecanismos de transferência de tecnologia intra e intersetoriais;
5. Integração e coordenação internacional: em um contexto no qual as economias desenvolvidas adotam estratégias de autonomia e busca de resiliência, o relatório recomenda que os países em desenvolvimento explores oportunidades de integração comercial e produtiva regional;
6. Transição verde: implementação de novas tecnologias, processos e modelos organizacionais, tanto dentro das fábricas quanto em todo o ecossistema que as sustenta visando resultados que incluem a descarbonização da geração de energia, avanço no registro das emissões e ampliação da circularidade ao longo das cadeias produtivas, e a maior eficiência dos processos produtivos;
7. Financiamento: como o desenvolvimento industrial é tipicamente capital-intensivo, de longo prazo e envolve riscos, o acesso a financiamento se torna um fator crítico. Em um cenário marcado por espaço fiscal limitado e condições de financiamento restritivas, aponta-se um conjunto de ações que em sua dimensão doméstica inclui melhoria do ambiente de negócios e ao equilíbrio macroeconômico;
Por fim, a UNIDO explora os desafios e oportunidades para a região da América Latina e Caribe à luz das cinco megatendências, enfatizando o cenário de desindustrialização prematura da região observado no último quarto de século e sua trajetória de crescimento caracterizada por uma dinâmica de “stop-and-go”.
Assim como o IEDI vem apontando para o caso brasileiro, a baixa produtividades é apontada pela UNIDO como uma das principais fragilidades a serem superadas. Para reverter a perda de relevância industrial da América Latina e do Caribe, a UNIDO apresenta dois conjuntos de recomendações.
O primeiro, de caráter transversal, é semelhante ao proposto para o conjunto de economias em desenvolvimento e abrange os temas infraestrutura, educação, inovação, comércio e integração, financiamento, entre outros.
O segundo conjunto trata de oportunidades setoriais associadas às megatendências. O estudo argumenta que essas oportunidades oferecem possibilidades para revitalizar o tecido industrial da região e contribuir para a diversificação da base industrial, desenvolvimento de novas competências tecnológicas e maior integração às cadeias globais de valor.
As oportunidades setoriais incluem:
i) processamento de minerais críticos;
ii) equipamentos para energias renováveis;
iii) bioeconomia;
iv) indústria automotiva e mobilidade elétrica;
v) indústria farmacêutica;
vi) agroindústria e;
vii) semicondutores, sobretudo na América Central.
A conclusão é que o desenvolvimento industrial continua sendo um pilar fundamental para o crescimento econômico sustentável e para a redução das desigualdades globais. No caso da América Latina, a região pode alavancar seus recursos naturais e aproveitar as tendências globais emergentes – como a transição energética, a relocalização da produção para países próximos (nearshoring/ friendshoring) e a digitalização – para desenvolver novos setores industriais.
Para que essas oportunidades se materializem, contudo, serão necessárias intervenções políticas direcionadas para reconstruir a capacidade institucional, fortalecer a infraestrutura, reduzir as lacunas de habilidades e tecnologia e promover ecossistemas industriais mais competitivos e sustentáveis.
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