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Gustavo José Simões
Gustavo José Simões é Engenheiro mecânico e vice-diretor cultural da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

Irã surpreende: engenharia simples, grande impacto

Como drones baratos estão mudando a lógica da guerra e o que isso revela sobre soberania e desenvolvimento

Publicado em 25/03/2026
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O atual conflito teve início em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã, em uma ação que gerou fortes questionamentos quanto à sua legalidade e aos riscos de escalada em uma região já historicamente instável. Diante da enorme disparidade de poder militar entre as partes, o cenário parecia previsível, mas os desdobramentos mostraram algo diferente.

Considerando a diferença brutal entre o poderio militar dos Estados Unidos e do Irã, a “vitória” iraniana não se define nos termos tradicionais. Não se trata de derrotar o adversário no campo de batalha, mas de resistir, impor custos e causar danos financeiros relevantes, mesmo sob pressão de uma potência muito superior.

O Irã não surpreende por ter a tecnologia mais avançada do mundo, mas por algo mais desconcertante: sua capacidade de transformar simplicidade em poder estratégico. Em vez de competir com sistemas caros e sofisticados, o país aposta no desenvolvimento da engenharia nacional, voltada à funcionalidade, à produção em escala e ao baixo custo. O resultado é uma mudança silenciosa na lógica da guerra, onde não vence necessariamente quem tem o melhor equipamento, mas quem consegue produzir mais, gastar menos e sustentar o conflito por mais tempo.

Essa lógica se materializa de forma clara no drone Shahed-136, uma arma simples à primeira vista, mas altamente eficaz em sua concepção. Com cerca de 200 quilos, alcance de até 1.500 quilômetros e velocidade próxima de 185 km/h, o equipamento carrega uma ogiva de aproximadamente 40 quilos. O drone possui cerca de 3,5 metros de comprimento e 2,5 metros de envergadura, utilizando uma configuração em asa delta que favorece o voo em baixa altitude, dificultando a detecção por radares (Figura 1).

 

Figura 1 – Ilustração esquemática do Shahed-136 com dimensões gerais, baseada em fontes abertas (Wikipedia).

A engenharia por trás do sistema revela o ponto central dessa estratégia. As asas são feitas de fibra de vidro, e a propulsão vem de um motor a pistão refrigerado a ar, com cerca de 50 cavalos de potência. Para efeito de comparação, isso se aproxima da potência de motocicletas de média cilindrada. É uma escolha deliberada: menos sofisticação, mais reprodutibilidade. Em vez de depender de cadeias globais complexas, o Irã opta por componentes acessíveis e produção interna. O resultado é um sistema que pode ser fabricado em larga escala, com relativa autonomia.

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Além da produção em escala, o Irã mantém estoques significativos de drones e mísseis, estimados em vários milhares de unidades. Parte desse arsenal está armazenada em instalações subterrâneas e cavernas, protegidas contra ataques aéreos e dispersas em diferentes regiões. Essa capacidade garante que, mesmo sob pressão militar intensa, o país possa sustentar operações prolongadas e manter o ritmo de lançamentos sem depender de importações externas.

É justamente essa capacidade que altera o equilíbrio do conflito. Estimativas indicam que cada unidade pode custar cerca de 35 mil dólares — possivelmente bem menos, considerando a produção doméstica. Em contraste, mísseis interceptadores utilizados para neutralizá-los podem chegar a até 3 milhões de dólares por unidade. A conta é simples, mas poderosa: o atacante gasta pouco para obrigar o defensor a gastar muito. Até 24 de março, estimativas apontam o lançamento de milhares de drones — na ordem de 3.000 a 4.000 unidades — contra alvos na região. Mesmo com altas taxas de interceptação, isso implicou o uso de milhares de mísseis defensivos. O Irã pode ter gasto algo entre 100 e 150 milhões de dólares nessa campanha, enquanto Estados Unidos e Israel, ao responderem com interceptadores de alto custo, podem já ter comprometido valores na casa de vários bilhões. A assimetria não está apenas na tecnologia, mas na economia do conflito.

Mais do que uma arma, o drone passa a funcionar como instrumento de gestão de campanha. Seu uso não se limita à destruição direta de alvos militares, mas se estende à interrupção de infraestrutura, à pressão psicológica e ao desgaste econômico do adversário. Refinarias, usinas de energia, aeroportos e rotas logísticas tornam-se vulneráveis não necessariamente pela precisão cirúrgica dos ataques, mas pelo volume e pela persistência. Mesmo quando interceptados em grande número, o simples fato de obrigar a mobilização constante de sistemas de defesa já produz impacto significativo.

Essa mudança revela um novo paradigma. Drones deixaram de ser sistemas auxiliares e passaram a ocupar o centro das operações. Integrados a mísseis balísticos e de cruzeiro, compõem uma arquitetura em camadas capaz de sustentar ataques ao longo do tempo. Não se trata apenas de capacidade de ataque, mas de capacidade de repetição. A guerra, nesse modelo, torna-se menos um evento e mais um processo contínuo.

O ponto mais relevante, no entanto, não está no drone em si, mas na estrutura que o sustenta. O Irã desenvolveu, ao longo de décadas de sanções, uma base produtiva capaz de garantir autonomia, reposição e continuidade. Trata-se de uma engenharia que não depende apenas de conhecimento técnico, mas de organização industrial, integração entre setores e visão estratégica de longo prazo.

É aqui que o debate se desloca para além do campo militar. O que está em jogo não é apenas a eficácia de um armamento, mas a capacidade de um país de produzir, adaptar e sustentar suas próprias soluções. E essa é uma questão que diz respeito diretamente ao Brasil.

O país possui vastos recursos naturais, como petróleo, minerais estratégicos, incluindo minerais críticos essenciais para tecnologias avançadas, como terras raras, lítio e nióbio, além de fontes de energia e de uma infraestrutura crítica que sustenta sua economia. Ao mesmo tempo, enfrenta um processo de desindustrialização e crescente dependência externa. Ao priorizar a exportação de matérias-primas em detrimento do desenvolvimento tecnológico e produtivo, o país abre mão de autonomia e reduz sua capacidade de resposta em cenários críticos, inclusive diante de pressões externas mais severas que, em situações extremas, podem evoluir para tentativas de controle direto ou mesmo intervenção sobre recursos e infraestruturas estratégicas.

Essa vulnerabilidade não é apenas teórica. Em entrevista publicada pelo O Estado de S. Paulo em 23 de março de 2026, o almirante Ilques Barbosa Junior fez um alerta contundente: “Se atacar Itaipu, acaba com o Brasil. Fechar o Porto de Santos e fazer alguma coisa em Itaipu: acabou.” A Usina Hidrelétrica de Itaipu responde por cerca de 10% da eletricidade consumida no país, sendo um dos pilares do sistema elétrico nacional. Sua eventual interrupção não significaria apenas a perda de uma usina, mas um choque imediato no fornecimento de energia, com potencial de gerar efeitos em cascata, pressionando o sistema, exigindo o acionamento de fontes mais caras e podendo levar a instabilidades ou até racionamento. Trata-se de um exemplo claro da fragilidade de sistemas críticos que, apesar de essenciais ao funcionamento do país, não contam com níveis adequados de proteção, integração e planejamento estratégico.

Esse diagnóstico nos leva a uma reflexão inevitável. Ao longo das últimas décadas, o Brasil reduziu sua capacidade de coordenação estratégica em setores essenciais: energia, logística, mineração e insumos básicos. Isso ocorreu, sobretudo, com a privatização de empresas em áreas estratégicas, como nos casos da Eletrobras, da Vale e da BR Distribuidora. Soma-se a isso o desmonte do setor nacional de fertilizantes, marcado pela saída da Petrobras dessa cadeia produtiva e pela paralisação ou venda de unidades como as FAFEN (Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados), o que ampliou significativamente a dependência externa em um insumo vital para o agronegócio brasileiro — e, portanto, para a segurança alimentar do país.

Os efeitos dessa escolha já são visíveis. Em um cenário internacional instável, o país se vê exposto a oscilações de preço, restrições de oferta e riscos geopolíticos, comprometendo não apenas a competitividade, mas a própria segurança econômica e alimentar. Trata-se, acima de tudo, de uma questão de soberania, resiliência e capacidade de resposta em cenários adversos.

Neste sentido, torna-se urgente recolocar no centro do debate nacional a necessidade de ampliar o conteúdo local, fortalecer a indústria e reconstruir mecanismos de coordenação entre Estado, setor produtivo e infraestrutura crítica. Sem essa base, o país permanece vulnerável, não apenas a ameaças externas, mas à própria incapacidade de agir de forma integrada diante de crises.

Mais do que uma escolha econômica, trata-se de uma decisão estratégica. Ampliar a engenharia nacional é urgente. Nesse contexto, empresas estatais cumprem um papel fundamental, ao permitir a articulação e a coordenação de políticas em setores críticos, algo que dificilmente se realiza apenas por meio de agentes privados, orientados por lógicas de mercado de curto prazo.

Um país que se limita a exportar matérias-primas abre mão de controlar o próprio destino. Já um país que investe em engenharia, indústria, planejamento e capacidade estatal constrói autonomia, poder e soberania.

Por que, no fim, a força de uma nação não reside apenas nos recursos que possui, mas naquilo que é capaz de produzir, proteger e sustentar. O desenvolvimento deve ser entendido exatamente como aquilo que sempre foi: o resultado de políticas conscientes e intencionais.

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