Brasil fragilizado na guerra após décadas de neoliberalismo
Ricardo Maranhão chama a atenção para as “consequências nefastas” das privatizações ou extinção de estatais estratégicas e suas subsidiárias.
Os conflitos na Ucrânia e no Irã, particularmente a disputa pelo controle do estreito de Ormuz, estão mostrando ao Brasil o quanto o planejamento econômico é arma essencial durante as guerras. Após décadas de neoliberalismo, com a flexibilização das regras no setor financeiro e extinção ou privatização de estatais como Vale do Rio Doce, Eletrobrás e subsidiárias da Petrobrás, como a Petrofértil ou a BR Distribuidora de combustíveis, o Brasil é hoje retrato de país fragilizado na capacidade de defesa e planejamento em setores estratégicos para a soberania alimentar e energética, entre outras.
O ex-deputado federal Ricardo Maranhão (PSB-RJ), que é diretor da Aepet, aponta o setor de fertilizantes como peça exemplar. “A guerra da Ucrânia já mostrava o risco da dependência de fertilizantes. Temos petróleo e gás para os fertilizantes nitrogenados, mas um país sem política para isso se torna dependente, como estamos vendo de novo com o conflito no Irã”, pondera.
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Maranhão chama a atenção para “consequências nefastas” da extinção da Petrofértil, subsidiária da Petrobrás sepultada no governo Collor sob o argumento de que não seria o “ramo” da estatal brasileira do petróleo. “Um dos mais importantes setores hoje é o agronegócio, pela geração de empregos, divisas e outros motivos. Depende de insumos e infraestrutura, especialmente fertilizantes, que corrigem e dão produtividade ao solo”.
O engenheiro esclarece que, dentro do complexo de fertilizantes NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) o nitrogênio é essencial para a produção de amônia e ureia, que por sua vez são matéria-prima para fertilizantes e ração para o gado.
“A Amônia é produzida sobretudo a partir do gás natural. Houve o bombardeio de uma produtora de gás natural liquefeito no Catar, que fez disparar o preço do gás em quase 80%. Embora tenhamos produção no Brasil, isto põe em risco os fertilizantes por falta de amônia e ureia”, denuncia Maranhão, criticando a falta de visão estratégica da elite brasileira.
Mapeamento comercial da Rystad Energy, divulgado no site Oil Price, mostra que, em 2025, as vendas de 15% da amônia global e 21% da ureia estavam atrelados à exportadores potencialmente impactados pelo fechamento de Ormuz. Isso inclui os principais produtores, Arábia Saudita e Catar, seguidos por Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Irã e Iraque.
Ainda segundo o Oil Price, outros corredores comerciais já vêm sofrendo pressão nos últimos anos. O volume proveniente da Rússia diminuiu significativamente após a invasão da Ucrânia, mas o país ainda representa uma parte importante do comércio de fertilizantes em 2025, com cerca de 5% do comércio global de amônia e 15% das exportações de ureia.
“Privatista e imediatista, nossa elite tomou decisões deslocadas do interesse nacional, sobretudo nos governos de Temer e Bolsonaro, mas até nas gestões do PT. A Petrofertil conduzia a política de fertilizantes (NPK), mas foi extinta por Collor de maneira injustificável. Foi criada porque a Petrobrás, ao furar poços, descobriu, por exemplo, jazidas de potássio no estado de Sergipe”, resume o ex-deputado federal, lembrando ainda a importância da retomada das três unidades produtoras de fertilizantes nitrogenados (NF3), que fazem amônia e ureia a partir do nitrogênio.
UFN III
A Petrobrás voltou a anunciar a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN III), em Três Lagoas (MS). Com investimentos anunciados de cerca de US$ 1 bilhão e capacidade nominal prevista de aproximadamente 3.600 toneladas por dia de ureia e 2.200 toneladas diárias de amônia, a Petrobrás prevê que a UFN-III a redução da importação de fertilizantes de 80% para 65% do consumo.
PPI e refino
Outro crítico das políticas neoliberais e seus efeitos nocivos à economia brasileira, o economista David Deccache, doutor em Economia pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutor pela Escola de Políticas Públicas e Governo da Fundação Getulio Vargas (EPGE/FGV), disse ao AEPET TV (link) que a submissão ao mercado e às regras neoliberais de austeridade e privatizações privou o país do apoio fundamental das estatais nas políticas de desenvolvimento autônomo.
Deccache, que é diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento, enfatiza que a Petrobrás “não foi criada para aumentar a rentabilidade de quem tem ações, mas para evitar que o povo brasileiro fique à mercê dos preços internacionais”. Ele criticou a política de preços por paridade internacional (PPI) e a venda da BR Distribuidora.
“Estatais sempre foram fundamentais para puxar investimentos estruturais. A Eletrobrás deixou de existir neste sentido, enquanto a Petrobrás vai seguindo cada vez mais o mercado, em detrimento da soberania energética e estabilidade econômica. Abrir mão desses instrumentos é grave e está atrelado ao movimento global, com ameaças cada vez mais graves aos países periféricos. E nós fomos abandonando mecanismos que poderiam nos proteger e garantir a possibilidade de planejar, como por exemplo, no caso dos preços dos combustíveis atrelados à paridade internacional e da degradação da capacidade de refino.
Neste sentido, o presidente da Aepet, Felipe Coutinho, dá conta do impacto da adoção da PPI e da redução dos investimentos em refino ou entrega de refinarias. “A virada ocorreu com a adoção do Preço de Paridade de Importação (PPI) em outubro de 2016 e o aprofundamento do desmonte do Sistema Petrobrás. O resultado foi imediato e devastador para o parque de refino nacional: o Fator de Utilização de Refino - FUT despencou de 89%, em 2015, para 81% em 2017, atingindo o fundo de 80% em 2020 — uma ociosidade de 20%”, contabiliza Coutinho, no artigo Petróleo: é o fim do mundo como o conhecemos – e eu não me sinto bem.
Prossegue Coutinho: “A guerra deflagrada em 28 de fevereiro de 2026 entre EUA/Israel e o Irã expôs de forma cruel a vulnerabilidade do Brasil — uma vulnerabilidade que não decorre da falta de capacidade instalada, mas sim da decisão política de subutilizar o parque de refino nacional e manter a dependência externa de derivados”. O presidente da Aepet enfatiza que “a exportação de petróleo cru por empresas estrangeiras é a consagração do modelo colonial no século XXI”.
“Astericídio” X Auditoria Cidadã da Dívida
Já Deccache, acrescenta ao desmonte da soberana econômica brasileira a restrição imposta pelos sucessivos ajustes fiscais aos investimentos em infraestrutura e em instrumentos como estoques reguladores. “Nossa infraestrutura também deveria ter a capacidade de dar suporte à produção, o que também é útil no controle da inflação”, pondera, acrescentando o que chama de “erro estratégico crasso”: o abandono dos armazéns para estoques reguladores.
De fato, o país obteve safra recorde ano passado, mas sua capacidade de armazenamento não chega a 62%. Sem estoques reguladores, logística e modais integrados de transporte não há produtividade que extrapole a fronteira da empresa.
Segundo a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) a capacidade de armazenamento de grãos deverá atingir o maior déficit já registrado na série histórica, ficando no final de 2026 em 135,4 milhões de toneladas abaixo da produção esperada, de 353,4 milhões de toneladas.
A pedagogia da guerra, segundo a coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida Pública, Maria Lucia Fattorelli, ensina que a explosão dos preços do petróleo no mundo devido à guerra EUA x Irã não deveria impactar os preços do setor de combustíveis no Brasil, em grande parte auto-suficiente, e que ainda exportou US$ 29,6 bilhões mais do que importou em 2025.
“Seria uma questão de matemática que, mantidos os lucros do setor de combustíveis, os preços não precisariam subir. Porém, as privatizações ocorridas nesse setor – que é estratégico – realizadas, sobretudo, nos governos Temer e Bolsonaro (BR Distribuidora e Refinarias) fragmentaram a cadeia do petróleo e abriram espaço para que interesses privados passassem a aumentar os preços, mesmo quando não há motivo para isso”, sublinha.
Energia: vulnerabilidade estratégica crítica
Por sua vez, Luiz Martins de Mello, doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), define soberania nacional como “autonomia tecnológica e capacidade de oferecer serviços públicos à cidadania que aumentem a coesão social e política”. Para ele, sem energia barata e disponível para todos, isso não acontece.
“A guerra entre os EUA e Israel contra o Irã é um alerta para o Brasil: a energia continua sendo uma vulnerabilidade estratégica crítica. Energia é a principal infraestrutura transversal de serviços públicos que viabiliza o fortalecimento do estado de bem-estar social e a formação da esperança na transformação da sociedade atual para uma mais civilizada, igualitária e democrática”.
Mello acentua que a geopolítica hoje é cada vez mais moldada por duas forças intrinsecamente ligadas: energia e Inteligência Artificial (IA). “Centros de dados convertem energia em computação, que forma a base do poder econômico e estratégico. A IA, em larga escala, equivale assim à infraestrutura crítica, com as economias que transformam energia em "inteligência" obtendo de forma mais eficiente uma vantagem decisiva.”
Para o economista, o Brasil parece estar perdido no caminho a percorrer. “Tendo uma matriz energética limpa com capacidade para ter papel relevante, poderia, no futuro, estar em posição entre os líderes mundiais, pelo menos no lado energético da equação”, define.
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