EUA x Irã: O agressor enrascado
Sem mísseis, sob risco de crise energética e à beira de eleições, Trump está paralisado. Teerã vê-se em vantagem, e quer vitória histórica.
Donald Trump cancelou há dias um ataque militar em larga escala, que havia planejado contra o Irã. Essa reviravolta ocorre após relatos de que os EUA gastaram grandes quantidades de munições críticas desde o início da guerra, em 28/2. Este esgotamento inclui mísseis Tomahawk de longo alcance, lançados do mar contra alvos terrestres. Dos cerca de 3 mil Tomahawks nos EUA, 1 mil já foram aparentemente utilizados. Cerca de 1.100 mísseis JASSM de longo alcance, lançados do ar, de um total de aproximadamente 4.000, também foram usados na guerra.
Entre 40 e 70 mísseis PrSM (Precise Strike Missiles)de longo alcance, lançados do solo, dos quais os EUA possuíam apenas 90, foram disparados contra o Irã, praticamente esgotando o inventário. Do míssil balístico SM-3, lançado de navios e que custa US$ 28 milhões, havia cerca de 410 unidades antes da guerra; os EUA podem ter usado até 250 delas. O SM-6, também lançado de navios, é usado para interceptar aeronaves e mísseis de cruzeiro. Entre 190 e 370 foram usados, de um estoque de 1.160. Dos cerca de 360 sistemas antimísseis balísticos THAAD, até 290 foram disparados contra o Irã. E finalmente, dos estimados 2.300 mísseis Patriot, entre 1.060 e 1.430 foram utilizados.
O esgotamento de sistemas de armas vitais não é o único problema enfrentado pelo governo Trump. Também a Reserva Estratégica de Petróleo está sendo consumida. Pesquisas globais do Bank of America mostram que ela está no nível mais baixo desde 1983, deixando o país com suprimento de petróleo bruto para apenas 43 dias. A esse esvaziamento soma-se a incapacidade dos EUA de retomar o controle do Estreito de Ormuz do Irã. Temos uma guerra que, sob qualquer perspectiva, os EUA não podem mais se dar ao luxo de travar. A agência de notícias iraniana Fars informa que uma comissão parlamentar iraniana está analisando um projeto de lei preliminar que proibiria a passagem de navios norte-americanos, israelenses e de outros países considerados hostis pelo estreito.
O Irã e Omã, que agora controlam conjuntamente Ormuz, afirmaram ter formalizado rotas de navegação pelo canal. A avaliação otimista de Trump sobre a guerra não é novidade, assim como a retratação das ameaças apocalípticas de aniquilar o Irã. Por exemplo: em 7/4, ele ameaçou que, “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ressuscitar”, caso o Irã não abrisse imediatamente o estreito. Duas horas depois, antes do prazo imposto, recuou, anunciando um cessar-fogo de duas semanas. Esse padrão de ameaças e recuos corroeu a credibilidade de Trump. Afastou o Irã, já cético, de quaisquer negociações. O Irã presume, corretamente, que não pode confiar em nada do que o presidente diz. E também sabe que os EUA não podem se dar ao luxo de prolongar o conflito sem sofrer enormes custos militares e econômicos.
Para discutir o estado atual da guerra, está comigo Alistair Crook, ex-diplomata britânico que atuou por muitos anos no Oriente Médio. Ele trabalhou como conselheiro de segurança do Enviado Especial da UE para o Oriente Médio, além de co-liderar os esforços para estabelecer negociações e tréguas entre o Hamas, a Jihad Islâmica e outros grupos de resistência palestinos. Foi fundamental para o cessar-fogo de 2002 entre o Hamas e Israel. É também autor de Resistência: A Essência da Revolução Islâmica, que analisa a ascensão dos movimentos islâmicos no Oriente Médio.
Receba os destaques do dia por e-mail
Alistair, vamos começar com a situação atual. Como mencionei na introdução, Trump ameaçou uma campanha de bombardeio maciça. Mais uma vez, recuou. Há um acordo entre Omã e Irã. Pode nos explicar o contexto?
Alastair Crooke: Certamente. Há algo muito impressionante. Você leu a lista de mísseis e armas norte-americanas que se esgotram durante a guerra, e o que é notável é em quão pouco isso resultou. Não reduziu significativamente a capacidade em mísseis do Irã. Não alterou a postura do país. Falhou completamente em mudar o rumo da guerra.
Acredito que representa o fim de uma forma de lutar. Ao longo do período pós — II Guerra Mundial, o Ocidente priorizou completamente a ideia de controle do espaço aéreo, a capacidade de bombardear seus inimigos de modo indiscriminado, acreditando ter total liberdade para ir aonde quisesse, quando quisesse e como quisesse. Isso chegou ao fim, e a causa foram basicamente componentes eletrônicos baratos, que permitiram aos Estados produzir mísseis. O Irã encontrou a resposta para isso: enterrar seus mísseis, enterrar os sistemas de produção, enterrar a liderança. Isso foi chamado de Sistema Mosaico, e tem sido muito eficaz. Teerã não têm uma força aérea, mas exerce, neste momento, domínio aéreo de mísseis sobre o Golfo, em contraste com o domínio aéreo que os Estados Unidos não conseguiram alcançar plenamente.
Em que ponto estamos? Nestas negociações entre Irã e Omã. Para ser claro, são, no momento, apenas conversações técnicas. Os Estados Unidos não estão envolvidos, embora alguns mediadores estejam em contato telefônico constante com os omanitas. Mas, em essência, não há intenção por parte do Irã de abrir o Estreito de Ormuz para todo o tráfego a custo zero. Pode ser aberto com muita cautela, por exemplo, para navios e petroleiros chineses, mas não será aberto como era antes.
Em segundo lugar, os iranianos vão cobrar taxas; cogita-se 7%. Eles também vão aplicar multas de 20% a qualquer embarcação que não cumprir as regras estabelecidas pela nova administração do Estreito de Ormuz. As discussões giram em torno de se haverá dois corredores – um de saída, outro de entrada – ou apenas um. No momento, existe apenas um corredor, porque os iranianos fecharam o que segue a costa de Omã, minando-o.
Trump estará diante da proposta de que o Irã controle Ormuz, embora a passagem de entrada possa ser administrada pelos omanis, sob o controle final da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC). Todos os detalhes das embarcações terão que ser repassados a ela, antes de serem autorizadas a entrar nessa rota. Embora isso não faça parte das atribuições da equipe de negociação, o Parlamento em Teerã parece estar afirmando que irá criar uma lei para proibir, em qualquer momento futuro, a passagem de navios dos Estados Unidos ou de Israel por Ormuz.
Segundo meu entendimento, nada disso entrará em vigor até que um acordo seja firmado, após uma declaração de cessar-fogo, o fim do bloqueio americano e a suspensão das sanções à exportação de petróleo e derivados do Irã. Somente então essas novas regulamentações entrarão em vigor integralmente. Mas, pelo que sei, isso ainda não foi apresentado ao Líder Supremo e aprovado pelo comitê de segurança.
Trump enfrentará um dilema óbvio. Ou aceita a perda, ou talvez não consiga fazê-lo. Scott Bessentt, seu secretário da Guerra disse há poucas horas: “Ormuz é irrelevante. Daqui a alguns anos, não precisaremos mais de Ormuz”.
Ele não mencionou o Mar Vermelho nem o Estreito de Estreito de Bab el-Mandeb, mas disse que os houthis podem ser irrelevantes. Será o início de uma preparação para uma saída? É cedo demais para dizer. Mas será que Trump, depois de toda a sua carreira e da orientação de Roy Cohen, que o ensinou a nunca perder, conseguirá suportar isso? Ou tentará outra ação militar, mesmo que, como você apontou, não pareça haver muita vantagem, pois não mudaria nada em termos de postura ou determinação do Irã em controlar o Estreito de Ormuz?
O Irã simplesmente não acredita ser possível chegar a um acordo completo com Trump e seu governo. O país desdenha do Memorando de Entendimento. Percebe que os Estados Unidos estão apenas usando esse padrão de ameaças e depois falando em acordo.
Tudo gira em torno dos mercados. Tudo se resume à manipulação do preço do petróleo. Os iranianos estão rindo disso agora, e divulgando documentos que mostram quantos contratos futuros foram vendidos pouco antes do último recuo… toda a manipulação está sendo detalhada pelos iranianos. Para eles, o Memorando de Entendimento tornou-se muito menos importante. A principal preocupação de Trump agora são os mercados, o preço do petróleo, a inflação e, acima de tudo, o mercado de títulos.
É possível, suponho, que, como no final do Império Romano, os imperadores subissem à Gália, as tribos repelissem suas legiões, e então os imperadores simplesmente realizassem uma marcha triunfal por Roma, mesmo tendo sido derrotados. Isso está muito de acordo com a visão de Trump. A derrota não é um fato que Trump reconhecerá.
Gostaria de falar um pouco sobre o acordo, porque o acordo original deveria ser implementado em fases. Acho que está bem claro que o Irã não assinará algo parecido novamente. Esta foi uma guerra não provocada. Foi uma guerra criminosa de agressão, de acordo com o direito internacional, e foi verificada pelo chefe da ONU e outros. E o Irã quer reparações. Quer a liberação de seus ativos congelados, cerca de US$ 100 bilhões. E esse é um lado da questão. E, claro, também quer uma garantia de que não será atacado novamente.
Do outro lado, Trump está se preparando para as eleições de meio de mandato. Seus índices de aprovação estão muito baixos. E acho que está claro que a Casa Branca deseja desesperadamente, mesmo que seja um acordo provisório, algum tipo de acordo que possa ser implementado precariamente pelos próximos meses, até novembro. E gostaria de saber se você pode abordar essas duas preocupações conflitantes.
O que você descreveu é quase uma fase da guerra que ficou para trás, no sentido de que esse Memorando de Entendimento agora é amplamente visto como uma farsa. Foi uma farsa deliberada, pois seu propósito era simplesmente abrir Hormuz o mais rápido possível, e por isso foi assinado sem qualquer intenção real de levá-lo a cabo. Ou seja, não há nenhuma sensação real de que seja a base para um acordo a ser respeitado por Trump. Na visão dois iranianos, foi uma farsa e, portanto, estamos em uma fase diferente.
Essa fase consiste em aumentar a pressão sobre Trump, primeiramente nos mercados, já que o Mar Vermelho está fechado e os houthis voltaram a atacar petroleiros sauditas que tentam entrar no porto de Yambu, no Mar Vermelho, para carregar petróleo. O tráfego é muito baixo. Está aberto para outros tipos de tráfego, mas não para petroleiros sauditas. Acho que é a primeira vez que os sauditas não exportaram petróleo algum durante esse período.
E só para interromper, acredito que os sauditas exportavam cerca de seis milhões de barris por dia pelo Mar Vermelho, correto?
É isso mesmo, e agora caiu para zero. Os Emirados Árabes Unidos também não exportaram petróleo durante esse período. O principal ponto é que o Irã vê isso como uma vantagem. Você mencionou os efeitos nos mercados de petróleo, mas o que é realmente importante é o tipo de petróleo que está faltando. Isso é crucial para a estratégia deles, porque o que o Irã e o Estreito de Ormuz forneciam eram basicamente destilados médios de petróleo, não petróleo leve.
Os Estados Unidos têm petróleo leve proveniente dos campos de fraturamento hidráulico, como o de Parmia, e a Venezuela tem o petróleo mais pesado, quase como alcatrão, do outro lado. Mas os destilados médios são os que fornecem diesel e querosene para aeronaves, e esses estão em drástica escassez. O preço pedido nas refinarias para obter um barril de destilados médios hoje é muito maior do que será no futuro. E essa é uma das razões pelas quais não tenho certeza se veremos um grande ataque ao Irã. As aeronaves – os F-15 e F-35 –precisam de muito combustível de aviação para realizar esse tipo de operação e exigem reabastecimento a cada 400 quilômetros, aproximadamente.
Nesta nova fase, o Irã adotou uma postura mais proativa. Eles não vão apenas esperar que os Estados Unidos ataquem para então considerar os alvos que atacarão em retaliação. Eles mantêm um nível discreto de ataques proativos contra os Estados Unidos, contra os estados do Golfo e, no momento, contra Israel (que não está envolvido), mas mantêm um nível de força militar proativa. Em outras palavras, prolongam a guerra, dificultando ao máximo que Trump diga que venceu. Evitam que a situação se transforme em uma grande guerra, mas continuando a atacar embarcações.
A sensação crescente é de que Trump está sob pressão. O Irã sente que tem as cartas na mão, para usar uma expressão de Trump; que está em uma posição melhor e que tem o controle sobre Ormuz — o que é crucial porque pode financiar uma guerra prolongada se tiver as taxas e os custos de passagem pelo estreito. Estima-se que sejam cerca de cem bilhões de dólares por ano.
A linha de pensamento está mudando um pouco, com uma tendência a pressionar mais Trump e a não buscar um acordo. Eles sempre acreditaram que uma guerra com os Estados Unidos era inevitável, a única saída para o impasse em que se encontram presos há 47 anos. Agora sentem-se preparados e em uma posição muito melhor do que Trump em Washington, à medida que as pressões sobre o mercado de petróleo aumentam e as limitações militares de Washington se tornam evidentes: a incapacidade de disparar armas de longo alcance, a incapacidade de causar danos reais às cidades com mísseis.
O que ele atacaria em vez delas? A Montanha da Picareta? É uma montanha de granito com instalações enterradas a mil metros de profundidade. As bombas ricocheteariam. Um de seus abrigos de mísseis foi atingido 45 vezes por bombardeios norte-americanos durante esse processo, e mesmo assim, a cada meia hora, mísseis continuavam sendo disparados do mesmo local. Portanto, estamos em um cenário diferente, em uma fase diferente para aumentar a pressão sobre os Estados Unidos. O interesse por um acordo rápido não existe, e isso se reflete claramente no Irã.
Vimos isso durante o funeral do aiatolá Ali Khamenei, e em outras ocasiões. O clima no Irã mudou bastante. Isso despertou algo muito profundo, uma espécie de memória do país como grande potência civilizacional, que exerceu influência dominante na região por milhares de anos, e que agora está sendo tratado com desrespeito e descortesia, sendo chamado de escória.
Isso gerou uma mentalidade de muita revolta entre os jovens. O que vimos não foram pessoas nas ruas dizendo: “Vamos fazer um acordo”. O que se vê é: “queremos vingança”. Foi isso que houve nas enormes aglomerações que ocorreram nos funerais, tanto lá quanto no Iraque.
Lá, em duas ou três cidades, quatro a cinco milhões de pessoas foram às ruas para prestar suas homenagens ao falecido Líder Supremo.
Gostaria de perguntar sobre os efeitos desta guerra na região. Mas antes, gostaria que você abordasse as potenciais consequências de um fechamento prolongado tanto do Estreito de Bab el-Mandeb quanto do Estreito de Ormuz, não apenas para os mercados de petróleo, mas também para a economia global.
É difícil dar uma resposta quantitativa direta, porque há muitas incógnitas. Em meio a tudo, os Estados Unidos estão tentando lidar com uma grande crise no Japão, com a queda vertiginosa do iene japonês. Para tentar sustentá-lo, os Estados Unidos recorrem a uma vasta venda de euros.
O Japão é importante porque possui 1,2 trilhão de dólares em títulos do Tesouro americano, mas também por causa de sua situação peculiar. Durante décadas, as taxas de juros estiveram tão baixas que isso foi uma dádiva para Wall Street: era possível tomar empréstimos baratos no Japão e emprestar caro nos EUA, obtendo lucros muito fáceis. Mas, de repente, as taxas de juros estão subindo. Grande parte da economia japonesa, cerca de 14%, são verdadeiras empresas-zumbis, que não geram lucros suficientes para cobrir suas dívidas.
Em outras partes do mundo, poderíamos dizer que estão falidas. 14% da economia japonesa está tentando desesperadamente manter essa situação. Os EUA estão tentando fazendo manobras complexas, como tomar empréstimos do tesouro japonês com pagamento futuro, liberarando agora o dinheiro para que os japoneses possam comprar mais ienes e tentar sustentar a economia. O que estou dizendo é que o mercado de títulos está em crise e, portanto, os mercados em geral também estão. E, de certa forma, Netanyahu deixou escapar o segredo quando voltou de Washington há duas semanas.
Ele disse: “Foi a melhor reunião de todos os tempos, tudo foi maravilhoso”. Netanyahu está em campanha eleitoral, mas acrescentou: “Trump está tentando evitar um colapso econômico.” Ele acertou em cheio ao dizer que o foco agora é preservar a economia, a hegemonia do dólar, o petrodólar, toda essa estrutura de crédito e financiamento que sustenta a presença militar dos EUA ao redor do mundo, as guerras e armas usadas nesses combates. O Irã está ameaçando justamente esse processo. O petrodólar é um elemento do mundo financeirizado de Wall Street, instalado nos Estados do Golfo, bem ao lado do Irã. É exatamente o tipo de ameaça que Teerã gostaria de eliminar.
A nova economia, para os estados do Golfo, são os datacenters. O Irã sabe o porquê: energia barata e capacidade de monitorar tudo no Oriente Médio em nome de Israel e dos Estados Unidos. Por não deesajarem isso, eles destruíram recentemente o grande centro de dados da Amazon.
Vamos falar sobre a região. Os impasses recentes abalaram os alicerces da hegemonia militar dos EUA em todo o Golfo. Os aliados não foram consultados sobre o início da guerra, mas pagaram um preço altíssimo, em grande parte devido aos ataques de precisão que o Irã conseguiu realizar, presumivelmente com a ajuda de satélites e inteligência russos e chineses. Antes de entrarmos no ar, você descreveu a região como frágil. Fale um pouco sobre os efeitos nos países do Golfo.
Bem, em primeiro lugar eu diria que o principal elemento de incerteza é a recorrência da guerra entre os Houthis e a Arábia Saudita. Esta é agora uma guerra declarada. Nos últimos dias, os Houthis dispararam mísseis contra as forças e os mercenários reunidos pelo governo do sul do Iêmen nas províncias de Mindanao e Hadrastat, para atacá-los. Há imagens que mostram os mercenários fugindo em massa. Eles foram completamente destruídos pelos mísseis disparados pelos Houthis.
Alistair, permita-me interromper. Esses mercenários são armados e financiados pela Arábia Saudita, correto?
Sim. São forças que agem por procuração da Arábia Saudita. Acredita-se que os Houthis destruíram a grande refinaria da Aramco ao lado do porto saudita de Janbu, no Mar Vermelho. Não era uma refinaria qualquer. Estamos acostumados a ouvir falar de refinarias atingidas na Rússia e em outros lugares, reparadas rapidamente. Especificamente, esta era a refinaria mais moderna do mundo, a mais completa em termos de tecnologia. Foi destruída, assim como o terminal do oleoduto que liga o leste ao oeste, no Mar Vermelho. As instalações da Aramco, a unidade de bombeamento no lado leste, no lado de Ormuz, também foram destruídas.
O oleoduto que transporta o petróleo saudita de seus principais campos até o Mar Vermelho foi completamente destruído. Os sauditas disseram que os responsáveis não foram os Houthis, mas sim a resistência iraquiana, o Hashad al-Sha’ibi.
O Hashad al-Sha’ibi negou completamente. E é provável que não tenham sido, pois se trata de um período de celebração, um período solene de 40 dias que marca o aniversário da morte do Imam Hussein na Cabala. Mas os sauditas e os Estados Unidos atacaram a resistência iraquiana, matando muitos, incluindo alguns membros das forças iranianas da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). E então o Iraque começou uma tentativa de expurgar parte da resistência, mas há sinais de que a resistência está se deslocando para as fronteiras.
O Iraque é composto por cerca de 60% de xiitas; os outros 40% são divididos entre sunitas e curdos. Portanto, os sunitas representam uma proporção bastante pequena, e os xiitas, a maior parte. E o Hashad é sempre mencionado na mídia ocidental como se fossem apenas representantes do Irã. Como se pressionar o Hashad fosse pressionar o Irã na disputa de Ormuz. Eles não são isso. Eu os conheço, me encontrei com os membros do grupo. Sim, são xiitas e o Irã é uma espécie de berço do xiismo. Mas são nacionalistas iraquianos convictos, que aceitavam e seguiam o Líder Supremo, assassinado em 29 de fevereiro, como sua fonte de emulação, seu guia espiritual.
Estão profundamente revoltados com sua morte. Ele era o líder religioso deles também, não apenas do Irã. Por isso disseram que haverá retaliação. Deram ao governo iraquiano um pouco de margem de manobra, mas pelo que vejo, há movimentos em ambos os lados da fronteira, e talvez a situação seja contida, mas o país é um Estado muito frágil.
Membros da segurança iraquiana disseram que não foi o Hashad, a resistência iraquiana, que atacou as instalações petrolíferas sauditas, e sim grupos ucranianos. Não acho que devamos dar muita importância a isso, mas acontece num momento em que um navio iraniano foi atingido por mísseis ucranianos no Mar Cáspio. A tensão entre a Arábia Saudita e o Iraque, assim como entre os Estados Unidos e o Iraque, está aumentando consideravelmente.
O Hashad está se mobilizando, mas ainda não tomou uma decisão. Ao mesmo tempo, no Iraque, os iranianos invadiram Erbil, a região curda do país, o Curdistão, e atacaram as forças curdas, assassinando alguns de seus líderes e atacando suas linhas de suprimento, combustível e munição. Há relatos de que os Estados Unidos estavam tentando reviver um plano já fracassado de invasão curda ao Irã, para estabelecer uma espécie de mini-Estado. Vimos algo semelhante na Rússia, na região de Kursk.
Os iraquianos estão tomando medidas preventivas contra isso. Também vimos um navio-tanque de gás ser atacado por drones em um porto no Egito nos últimos dias. Não está claro quem foi o responsável. Mas a guerra entre a Arábia Saudita e o Iêmen está se tornando muito mais intensa, e penso que os sauditas culparam o Hashad pelos ataques às instalações da Aramco porque não queriam agravar a guerra com os Houthis.
Os houthis são uma força de combate formidável. No passado, infligiram uma enorme derrota ao exército egípcio, matando, creio eu, 20 mil soldados. Isso aconteceu há muito tempo, não é o presente. Mas a Arábia Saudita não está ansiosa para entrar nessa guerra, embora, ao mesmo tempo, esteja sem dinheiro. Não está arrecadando nenhuma receita. Já estava com dificuldades financeiras. Os estados do Golfo também estão com falta de dinheiro. Então, a situação está se tornando cada vez mais tensa.
Há um erro de julgamento aqui, como o erro de julgamento de ucranianos tentando atacar um navio iraniano no Mar Cáspio, o que poderia facilmente mudar toda a natureza e toda a dinâmica desta guerra e torná-la mais profunda. Mas meu ponto principal é: Trump está falando em tentar encontrar uma solução para o problema do Irã. Veja o que aconteceu: tudo se tornou uma teia de outros conflitos.
Eu nem mencionei o Líbano nesse processo. Com as ameaças, Washington tem tentado encorajar a Sharia da Síria a participar do desarmamento do Hezbollah ou a atacar as aldeias xiitas que ficam na fronteira entre o Líbano e a Síria. E a Turquia, que tem considerável influência, digamos assim, sobre as forças em Damasco, diz que não se opõe à participação da Síria no Líbano.
Mas assim que isso aconteceu, tivemos mais reações do Iraque, da resistência iraquiana, que disse à Sharia: “Vocês se aproximam do Líbano e nós entramos na Síria”. A situação está ficando cada vez mais complexa. Temos fantasmas à espreita e precisamos levar isso a sério. A extrema-direita em Israel – eu detesto o termo extrema-direita, mas a direita messiânica, mais precisamente os ministros Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich estão dizendo que gostariam de ver uma grande crise na Cisjordânia, talvez no Monte do Templo, talvez uma guerra.
Eles querem uma crise que provoque um êxodo de palestinos da Cisjordânia e que os ajude a vencer as eleições. Trata-se das eleições, mas também de um duplo objetivo: provocar outra situação semelhante à de 1948, com os palestinos obrigados a fugir da Cisjordânia para salvar suas vidas. Os ministros estão se preparando e não fazem segredo algum. A eleição parlamentar será existencial. Está prevista para outubro. Não está claro o que acontecerá, nem que não terminará em violência.
Os dois lados estão realmente em desacordo no momento e o futuro de Netanyahu não é de nenhuma forma certo. Mas incendiar a Cisjordânia é um objetivo antigo. Lembro-me de Smotrich falando sobre isso alguns anos atrás, em um discurso no Parlamento, quando disse: “Este é o nosso plano e os árabes vão embora”. E acrescentou: “Mas o que realmente precisamos para implementar este plano é uma grande crise ou uma grande guerra. Durante essa guerra, o plano finalmente entrará em operação”. Essas são algumas das possibilidades.
Tudo isso torna a situação muito instável. Mas esse não é o meu ponto. Não existe um acordo simples e direto disponível para Washington. Tudo se transformou em uma complexa teia de guerras menores ocorrendo por toda a região, todas interligadas, com objetivos bastante distintos. A guerra no Líbano, o Iêmen, a situação na Síria, todas elas têm agendas completamente diferentes. A possibilidade de Washington chegar a uma solução abrangente agora me parece próxima de zero.
Os egípcios e os jordanianos deslocaram suas tropas para o norte – os egípcios para o Sinai, os jordanianos para a fronteira com a Cisjordânia – para evitar o tipo de limpeza étnica que Smotrich e outros defenderam abertamente. Chamam isso de transferência voluntária ou algo assim. Se eles tentarem expulsar os palestinos da Cisjordânia, ou se finalmente decidirem fazer isso em Gaza, onde cerca de dois milhões de palestinos estão amontoados em cidades fétidas, superlotadas e tensas, como isso se desenrolará? Quer dizer, isso não criará um confronto militar entre Israel e a Jordânia ou o Egito?
Poderia eclodir de muitas maneiras diferentes. A situação é muito inflamável. Toda a região pode ser afetada por um fato fortuito qualquer. Mais um assassinato no Líbano, um massacre em algum outro lugar. Tudo pode acontecer agora. É uma situação muito volátil, em que pode uma grande crise pode ser facilmente desencadeada. Particularmente, a questão palestina pode ter desdobramentos capazes de levar o Irã de volta ao conflito direto com Israel, atacando-o diretamente nos territórios do norte, ou seja, os territórios do sul do Líbano até a Galileia.
Tudo isso é possível. Um conflito pode ser facilmente desencadeado, e os iranianos estão preparados para a guerra — não apenas contra os Estados Unidos. Acredito que eles esperam que, em algum momento, Israel também entre em conflito. Estão preparados para isso, e eu o enfatizo porque muitas vezes as pessoas interpretam mal e dizem: “Você sabe, Israel é tão forte, não é?”. Tomemos a infraestrutura, que eles dizem querer atacar no Irã. Os israelenses têm duas refinarias, e são um país pequeno: as usinas de energia estão concentradas. Já o Irã é um país grande. Suas estruturas de poder e toda a infraestrutura estão dispersas há 20 anos, precisamente em antecipação a uma futura guerra contra os Estados Unidos. Israel quer uma guerra com o Irã? Não: quer que Trump declare guerra e destrua o Irã, destrua sua infraestrutura, para que o Estado não possa mais fornecer serviços aos cidadãos.
É algo monstruoso, esperar que o Estado seja destruído a ponto de ficar incapaz de fornecer qualquer serviço à sua população. Equivale a um ataque nuclear tático lento, em vez de um ataque de grande escala. Significa deixar a população sem água, sem eletricidade, sem combustível. Seria impossível sobreviver. Se isso acontecer, os iranianos retaliarão contra as estações de tratamento de água da Arábia Saudita e dos países do Golfo, que são muito vulneráveis nesse aspecto. O Irã é menos vulnerável no tratamento de água. Apenas 3% da sua água vem de estações de tratamento.
Vale mencionar que 70% da água fornecida na Arábia Saudita provém das usinas de dessalinização. Talvez o percentual seja superior a 80% nos Emirados Árabes Unidos. Se o Irã destruísse essas usinas de dessalinização, isso criaria por certo uma crise humanitária em toda a região. Acho que toda a área em torno de Riad, por exemplo, depende da dessalinização.
Certamente. Mas será que isso está nos cálculos em Washington? Quanto disso é compreendido no governo dos EUA, ou é levado em consideração por Trump quando ele está em condições de ouvir, entender a situação e não simplesmente dizer: “Ah, o Irã está derrotado, está em frangalhos, nós vencemos a guerra”?
Essa é a parte incerta. Uma decisão equivocada pode desencadear uma crise em toda a região, porque todas essas relações estão interligadas e de alguma forma se conectarão. O Hezbollah não ficará parado se os palestinos forem expulsos de Gaza ou da Cisjordânia. O que acontece na Síria? O que acontece com o Hashad? O Hashad pode entrar na Síria.
E tudo isso só serve para tornar a situação dez vezes mais complicada, dez vezes mais difícil de resolver. Não existe uma solução mágica e simples.
Tradução: Antonio Martins
Fonte(s) / Referência(s):
Gostou do conteúdo?
Clique aqui para receber matérias e artigos da AEPET em primeira mão pelo Telegram.