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Emir Sader
um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

Democratizar o Brasil realmente existente

O abismo socioeconômico e a precarização do tempo de vida evidenciam os limites da democratização meramente institucional no país

Publicado em 08/09/2026
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Avançamos na democratização do Brasil. A ponto que um operário, de esquerda, foi eleito e reeleito presidente do Brasil. Significa que já existe um grau de democratização politica ou institucional no Brasil. A ponto que um líder operário, de esquerda, foi eleito e reeleito presidente do Brasil.

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Mas daí a dizer que vivemos numa democracia plena, vai uma distancia enorme. Poucos operários conseguem se eleger, nem sequer como deputados. Poucos operários podem expressar o que pensam e ver o seu pensamento chegar aos outros operários e ao conjunto da sociedade.

Mas não apenas por isso. Pelas imensas desigualdades sociais que segue caracterizando a sociedade brasileira cabe não subestimá-las. Basta ir a um bairro dos Jardins ou do Morumbi e depois ir a um bairro das periferias de São Paulo, para nos darmos conta das verdadeiras dimensões dessas desigualdades.

Um bairro com ruas asfaltadas, com policiais para garantir a segurança das pessoas. Com shopping centers luxuosos. Com casas com automóveis. Com as pessoas circulando em carros ou em Uber. Enquanto, no outro polo, as casas estão descuidadas, sem pintura, Se sabe que as casas não tem agua quente, que abrigam uma grande quantidade de pessoas.

Pessoas que dormem poucas horas, que saem muito cedo, para enfrentar os transportes e chegar algumas horas depois ao trabalho. O que faz com que a jornada de trabalho não seja de 8 horas, mas de 12, se contamos todo o tempo que os trabalhadores têm que dispor para poderem trabalhar.

Uns tem sofisticados planos de saúde. Outros tem a felicidade de poderem dispor do SUS. Esperar o transporte, às vezes algumas horas até que passe um que pare, que não esteja superlotado. E quando pegam um ônibus ou um trem, ir apertados, varias horas, com um ou dois transportes.

Enquanto uns dormem quanto querem, outros não tem esse privilegio. Enquanto alguns convivem com sua família e seus filhos, outros dispõem de pouco tempo para isso, de um dia apenas, enquanto não se aprova a nova lei.

Enquanto uns tomam banho quente cedo, outros não tem o tempo ou não tem água quente. Uns tomam lautos cafés da manha, enquanto outros saem correndo, sem tomar café, nem comer nada de manhã.

Enquanto uns dispõem de tempo durante o dia, outros passam o tempo todo em função do seu emprego. Se sabe que a maior parte dos acidentes de trabalho se dão na primeira hora da jornada, quanto os trabalhadores chegam cansados, com sono.

2.
São duas vidas muito distintas, quase como se fossem seres humanos de natureza distinta. Uns vivem mais tempo, vivem vidas muito melhores que as dos outros. Uns tem café da manha, almoço e jantar. Outros comem o que conseguem. Levam marmita para o trabalho, quando conseguem.

Uns tem férias, viajam nas férias. Outros usam a férias para descansar um pouco, conviver com a família e os filhos.

Uns dispõem de tempo, para descansar, passear, ler, ir ao cinema, ver televisão, praticar esportes, se encontrar com os amigos, se informar, responder mensagens, Dispõem de celulares ultra modernos e outros instrumentos modernos. Enquanto os outros, no máximo chegam a ter um celular, já velho, nem tem tempo para ler e responder as mensagens. Além de serem mais vitimas do roubo dos celulares e mais vitimas da violência.

Uns vivem uma vida temerosos da violência e dos roubos. Os outros vivem a violência e os roubos cotidianamente.

Uns colocam seus filhos nas escolas em que encontram vagas. Outros escolhem as escolas que acreditam que podem preparar melhor seus filhos para profissões mais valorizadas.

Uns viajam, conhecem o mundo. Outros mal e mal conhecem sua cidade, seu pais. Uns tem residências confortáveis. Outros vivem mal, com muitas pessoas numa casa só.

Uns expressam suas opiniões, escrever e publicam suas opiniões. Outros mal e mal conseguem dizer o que pensam a seus colegas de trabalho.

Uns se organizam, tem partidos, influenciam nos meios de comunicação. Outros no máximo são filiados aos sindicatos, podendo só às vezes participar das suas reuniões. Uns tem tempo para pensar, para refletir, para trocar opiniões, para ter acesso a meios de informação de vários países. Outros mal e mal tem tempo para garantir seus empregos, quando os tem.

Uns vãos aos cinemas, aos restaurantes, às livrarias, compram as coisas que lhes interessam. Outros mal e mal sobrevivem e descansam no tempo que lhes sobra.

Uns tem máquinas de lavar roupa e de lavar louça. Outros tem que fazer tudo à mão. Uns frequentam os shopping centers. Outros mal e mal podem ir a algum comercio ou farmácia, fazer alguma compra indispensável, quando tem dinheiro para isso.

Uns tem acesso a políticos, que podem lhes facilitar vantagens. Outros vivem isolados desse mundo.

Em suma, apesar dos avanços que os governos do PT têm conseguido, seguimos vivendo em sociedades capitalistas, com a exploração da força de trabalho, com a apropriação da riqueza por parte das classes dominantes.

Sociedades fundadas nas divisões e contradições de classe, que reproduzem as imensas desigualdades sociais e de toda ordem. Uns elegem seus representantes e se valem de tê-los em postos de governo. Outros se informam mal sobre os candidatos e não tem acesso aos que são eleitos.

Uns são seres humanos que vivem vidas longas e cheias de alternativas. Outros mal sobrevivem.

Em suma, as desigualdades sociais e de toda ordem ainda caracterizam as nossas sociedades. Basta ver quantas pessoas ainda vivem nas ruas, às vezes famílias inteiras. Alguns deles já vivem há muito tempo nas ruas, transformadas em suas casas, quando não são pessoas isoladas, das quais não sabemos nada, de onde vieram, se tem famílias, onde trabalharam a ultima vez?

Vivemos em sociedades profundamente desiguais ainda. Com diferenças sociais e de toda ordem profundas. Com classes sociais que vivem mundos totalmente diferentes.

Até que superarmos essas imensas diferenças, não podemos dizer que vivemos realmente em uma sociedade democrática, na sociedade realmente existente.

Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo).

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