Vantagens e desvantagens
Como conta o capitão da reserva da Marinha do Brasil e analista militar
Robinson Farinazzo, as
vantagens de um tipo nuclear para um convencional são diversas, incluindo maior tempo de imersão e de velocidade constante e, também, capacidade maior de armamentos ligados em sistemas de armas mais sofisticados.
Apesar disso, esse tipo de embarcação é mais fácil de se localizar por conta do tamanho e barulho do reator em radares sonares, além de serem mais difíceis de manobrar por conta de seu tamanho. "Mas na ponta do lápis, lógico, quem tem submarinos nucleares acaba levando vantagem", conclui Farinazzo.
Alexandre Fuccille, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED), acrescenta que o custeio do convencional continua a ser um diferencial. Fuccille conta que a Marinha do Brasil já participou com submarinos convencionais em exercícios militares com resultados favoráveis.
"A Marinha do Brasil se saiu bem com um submarino convencional porque não conseguiu ser detectado pelos radares sonares e, em razão disso, atingiu alvos dentro do exercício, mostrando justamente essa capacidade de furtividade", explica Fuccille.
Sobretudo, a capacidade de defesa marítima brasileira aumentaria consideravelmente, afirmam ambos os entrevistados. No entanto, Fuccille duvida do tamanho dessa diferença estratégica, dizendo que poderia ter sido maior décadas atrás do que hoje. Farinazzo, por outro lado, indica que destacaria o Brasil no Atlântico Sul tanto na defesa de seus portos como em sua influência em rotas marítimas.
Ainda assim, a obtenção de submarinos nucleares no arsenal brasileiro seria importante para a manutenção da soberania do país e proteção da
produção de petróleo offshore. Em 2025,
o Brasil produziu cerca de 3,77 milhões de barris por dia, o que corresponde a 10% a 17% do produto interno bruto (PIB) industrial nacional.
'Reduzir a dependência estratégica'
Atualmente, o Brasil possui cooperação com a França para o desenvolvimento de seu submarino nuclear, acordado em 2008. Apesar de ter os itens necessários para o projeto — acesso a jazidas de urânio, tecnologia de enriquecimento e transformação do minério em combustível —, a embarcação tem previsão de uso para 2030.
No cenário atual de disputas geopolíticas, Farinazzo vê que o Brasil precisa ampliar suas parcerias, duvidando da parceria com a França por não ver ainda "nenhum resultado palpável". O analista militar diz que o país deveria adotar o modelo indiano de construção de submarinos nucleares.
"A Índia fez uma cooperação muito boa com a Rússia. Hoje eles estão bastante adiantados, ao passo que o nosso projeto dura quase 50 anos e a gente não sai do lugar", diz, referindo-se ao fato de o projeto ter efetivamente começado em 1979, com a Marinha já desenvolvendo seu reator nuclear para esse tipo de uso.
Para Fuccille, o desafio real está em reduzir, de forma progressiva, a dependência externa em projetos dessa complexidade. Ainda que a autonomia total seja inviável no mundo contemporâneo — onde cadeias produtivas de defesa são amplamente internacionalizadas —, é possível e desejável ampliar a capacidade nacional em ciência, tecnologia e inovação.
Ele também chama atenção para um problema estrutural: a dependência do Brasil em relação ao
padrão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), cujo principal fornecedor são os Estados Unidos. "Os Estados Unidos não são confiáveis ou não estão se mostrando confiáveis."
"É importante o Brasil sempre procurar reduzir essa dependência estratégica."
O professor argumenta que os conflitos recentes, como os da Ucrânia e do Irã, oferecem lições importantes. Eles demonstram que
superioridade militar tradicional nem sempre garante sucesso político e que
novas formas de dissuasão — inclusive não convencionais — ganham relevância. "O Irã teve sua Marinha devastada pelo ataque dos EUA e de Israel e, ainda assim, não se atrevem a entrar no estreito de Ormuz."
Complementando, Farinazzo vê que esses conflitos deveriam fazer o país pensar em outros meios de dissuasão além do submarinos nucleares, como desenvolvimento de mísseis de longo alcance, drones e, até mesmo, satélites para fins de vigilância do Atlântico e comunicações a longa distância.
Nesse contexto, o submarino à propulsão nuclear deve ser entendido como parte de uma estratégia mais ampla de defesa, articulada com políticas nacionais de desenvolvimento tecnológico.
"Se o Brasil quiser manter a sua soberania, se ele quiser efetivamente ter independência de seus rumos de crescimento, ele vai precisar ter uma força naval."