Segundo os parlamentares, existe um esforço coordenado da administração Trump para exercer pressão diplomática, econômica e política sobre o Brasil às vésperas da eleição. O documento pede que Washington se comprometa explicitamente a respeitar o processo eleitoral brasileiro e reconhecer o resultado certificado pelas autoridades eleitorais, independentemente de quem seja escolhido pelos eleitores.
Tarifas e sanções
A carta recupera as medidas adotadas pelo governo Trump em 2025, quando os Estados Unidos impuseram tarifas e sanções em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF). Na interpretação dos congressistas, essas ações representaram uma tentativa de influenciar o processo judicial brasileiro.
Os parlamentares classificam as medidas daquele período como uma violação da soberania brasileira e afirmam que, embora tenha havido posteriormente uma redução das tensões e contatos diretos entre Lula e Trump, a pressão sobre o Brasil voltou a crescer.
O documento também situa os episódios atuais em um contexto histórico mais amplo das relações entre Washington e a América Latina. Os congressistas mencionam o apoio dos Estados Unidos ao golpe militar brasileiro de 1964 e apontam um padrão que, na avaliação deles, voltou a aparecer em processos eleitorais recentes na região. A carta cita Argentina, Honduras e Colômbia.
Nomeação de Darren Beattie
Outro ponto de preocupação apresentado pelos congressistas é a nomeação de Darren Beattie como conselheiro sênior do Departamento de Estado para assuntos relacionados ao Brasil.
Na carta, os parlamentares descrevem Beattie como um extremista de direita e supremacista branco e afirmam que suas declarações públicas anteriores demonstrariam hostilidade às instituições democráticas brasileiras. Beattie tentou entrar no Brasil em março para visitar Jair Bolsonaro, mas teve sua entrada negada.
Flávio Bolsonaro e as facções
A carta também menciona a aproximação da Casa Branca com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência. Os congressistas destacam o encontro entre Trump e Flávio na Casa Branca e afirmam que, durante a reunião, o brasileiro pediu que os Estados Unidos classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.
Posteriormente, o governo norte-americano classificou as duas facções como organizações terroristas. Autoridades brasileiras manifestaram preocupação de que essa designação possa ser utilizada como fundamento para medidas extraterritoriais, incluindo sanções financeiras e outras ações contra interesses brasileiros.
Segundo a carta, os recentes ataques militares promovidos pela administração Trump na região, justificados em parte por supostas ameaças de organizações terroristas estrangeiras à segurança dos Estados Unidos, também provocaram no Brasil receios sobre a possibilidade de ações militares.
Cobrança por respeito às urnas
O principal pedido dos congressistas é que o governo Trump assuma publicamente o compromisso de respeitar a soberania brasileira e o resultado das eleições presidenciais.
Os parlamentares também fazem uma comparação com a postura adotada pelo governo de Joe Biden na eleição brasileira de 2022, quando Washington apoiou publicamente o sistema eleitoral brasileiro e reconheceu o resultado das urnas.
A iniciativa ocorre na mesma semana em que Lula fez da defesa da soberania um dos eixos de seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Em Nova York, o presidente afirmou que o Brasil não aceitará interferências externas em seu processo democrático e declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.