Editorial: O Brasil é nosso!
"Evidente que a Petrobrás deveria ser nossa! O Brasil deveria ser nosso! Somos apenas gotas no oceano. Mas se nos unirmos, seremos o planeta Água todo"
“Eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz, feliz, onde eu nasci”, cantaram Cidinho e Doca e muitos brasileiros há muitos anos. Mas como ser feliz, num local em que não há garantia de comida, saúde, escola e segurança? Só seremos felizes, quando o Brasil for realmente nosso. Mas como fazer isso? Para ilustrar, vamos apresentar uma breve história dos últimos dez anos da Petrobrás…
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Era uma vez o Preço Paritário de Importação (PPI), adotado pela Petrobrás em Outubro de 2016, durante o governo do Michel Temer. Sua lógica é simples e, à primeira vista, neutra: o preço dos combustíveis vendidos pela Petrobrás no Brasil deve ser equivalente ao custo de importá-los, incluindo cotação internacional, frete, custos portuários, seguro e uma margem de lucro.
Com isso, os importadores privados passaram a importar diesel e vendê-lo ao mesmo preço que a Petrobrás, sem precisar competir com a eficiência do refino estatal e nacional, que podiam produzir todos os combustíveis a um preço menor! Ou seja, o PPI criou um piso de competitividade invertido, em que os preços aumentaram para promover uma suposta “competitividade” dos importadores.
Assim, desde então, a exportação de petróleo cru brasileiro e a importação de combustíveis só cresceram. Enquanto isso, as refinarias passaram a operar bem abaixo de sua capacidade máxima, com redução de investimentos, redução de empregos, ao mesmo tempo em que os lucros pagos aos investidores (principalmente estrangeiros) cresceram. Como preconizado pelo velho modelo colonial de exportar matérias primas e importar produtos de maior valor agregado. [1]
Em 2022, o governo Lula 3 implementou o fim do PPI. Mas, na prática, a lógica permaneceu inalterada, apesar de pequenos avanços ([2] e [3]). E a explicação está na vulnerabilidade desse modelo de governo, que precisa fazer inúmeras concessões para conseguir a tal governabilidade, já que não tem o poder das ruas.
Então, em 2026, o mercado global de diesel atravessou um choque de oferta causado pelo conflito no Oriente Médio. A interrupção do transporte pelo Estreito de Ormuz elevou seus preços e reduziu estoques. ([4] e [5])
Logo, as importações de diesel da Petrobrás despencaram 85,2%, enquanto a utilização das refinarias atingiu o pico recorde de 101,2% ([6] e [7]). Essa mudança ocorreu como um passe de mágica, através de uma única decisão: usar as refinarias que já existiam. Com isso, fica claro que o estado anterior de exportação de óleo cru e importação de diesel era resultado de escolha política!
No campo da segurança energética, existe tensão entre racionalidade financeira e racionalidade dos interesses nacionais, dos nossos interesses. Quando as decisões estratégicas de uma empresa de controle estatal se orientam por indicadores trimestrais de retorno, conclui-se que não há investimento a ser feito no refino. Que é melhor exportar petróleo bruto e importar produtos. O caixa remanescente pode ser direcionado a lucro e não à construção de capacidade. Sendo justo, o governo Lula 3 de fato retomou os investimentos da Petrobras, mas a conta ainda não fecha ([8] e [9]).
Adicionalmente, em 2026, também como resposta à crise, o governo federal passou a fazer subsídio fiscal de larga escala para estabilizar preços. A partir de setembro, foi autorizado o aumento do subsídio federal total de 1 real para 2,12 reais por litro [10], com custo estimado de aproximadamente 7 bilhões de reais por mês para a União [11]!
E nós, brasileiros, estamos pagando essa conta, junto ao lucro dos investidores, sendo que a maior parte é composta de estrangeiros! Assim, fica evidente que a Petrobrás deveria ser nossa! O Brasil deveria ser nosso! Somos apenas gotas no oceano. Mas se nos unirmos, seremos o planeta Água todo.
Proletários, trabalhadores, micro e pequenos “empreendedores” de todo o mundo, uni-vos!
[1] AEPET. Brasil e o ciclo extrativo do petróleo - Nova colônia em pleno século 21. 2019. Disponível em: <https://aepet.org.br/artigo/brasil-e-o-ciclo-extrativo-do-petroleo-nova-colonia-em-pleno-seculo-21/>.
[2] AEPET. O fim do Preço Paritário de Importação (PPI) é mais uma farsa. 2023. Disponível em: https://aepet.org.br/artigo/brasil-e-o-ciclo-extrativo-do-petroleo-nova-colonia-em-pleno-seculo-21/.
[3] AEPET. Direção da Petrobrás ajusta preço do diesel ao Preço Paritário de Importação (PPI) por nove vezes desde o anúncio do seu fim. 2025. Disponível em: < https://aepet.org.br/artigo/direcao-da-petrobras-ajusta-preco-do-diesel-ao-preco-paritario-de-importacao-ppi-por-nove-vezes-desde-o-anuncio-do-seu-fim/>.
[4] ING via Investing.com. “Diesel Cracks Hit Record Highs as Global Fuel Squeeze Deepens.” 1º de setembro de 2026.
[5] Reuters via Institute of Energy for South-East Europe. “Global Diesel Shortage Likely to Last Into 2027.” 22 de setembro de 2026.
[6] AEPET. “Diesel Abaixo do PPI: O Primeiro Reajuste que Põe à Prova o Fim da Paridade.” 18 de março de 2026.
[7] Agência Petrobras. “Petrobras lucra R$ 52,4 bilhões no segundo trimestre de 2026.” 5 de agosto de 2026.
[8] AEPET. Petrobrás 2025: menos dividendos, mais investimentos — mas a conta ainda não fecha. 2026. Disponível em: https://aepet.org.br/artigo/petrobras-2025-menos-dividendos-mais-investimentos
[9] AEPET. A Crise do Diesel e as Questões Estruturais: Um Balanço do Momento Atual. 2026. Disponível em: <https://aepet.org.br/artigo/a-crise-do-diesel-e-as-questoes-estruturais-um-balanco-do-momento-atual/>.
[10] Agência Brasil. “Subsídio de R$ 2,12 ao diesel deve ser mantido por 30 dias.” 24 de setembro de 2026.
[11] Ministério da Fazenda. “Governo Federal adota novas medidas para combustíveis após novos aumentos do petróleo.” 9 de setembro de 2026.
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