
A Engenharia brasileira em declínio estrutural
“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”, Darcy Ribeiro
A Engenharia constitui um dos pilares materiais da soberania nacional e do desenvolvimento econômico de longo prazo. Ela sustenta a capacidade produtiva, o domínio tecnológico e a coordenação industrial de um país. Na ausência dessa base, a economia torna-se estruturalmente dependente e incapaz de definir autonomamente seus rumos produtivos.
Essa relação entre Engenharia e soberania pode ser observada empiricamente na evolução da formação de engenheiros. A Figura 1 explicita esse processo ao comparar o número de engenheiros formados por milhão de habitantes no Brasil, na China e na Noruega entre 2000 e 2025. Observa-se que o Brasil não apenas forma menos engenheiros, como também apresenta uma trajetória de estagnação e posterior declínio relativo. Enquanto países com projetos nacionais claros ampliaram de maneira consistente sua base de formação em Engenharia.
É fundamental destacar, para a correta interpretação da Figura 1, que os impactos da desarticulação produtiva não se manifestam de forma imediata nos indicadores de formação. A decisão de ingressar em um curso de Engenharia, assim como sua conclusão, responde a expectativas construídas ao longo de anos, em contextos anteriores de elevado investimento, grandes projetos e forte absorção de engenheiros. Desse modo, embora a inflexão estrutural da demanda por engenheiros tenha ocorrido ainda na primeira metade da década de 2010, seus efeitos estatísticos só se tornam plenamente visíveis a partir de 2018, quando se esgota a inércia do ciclo anterior de expansão.
Nesse contexto, a Operação Lava Jato atuou como um choque desestruturante adicional sobre cadeias produtivas estratégicas, especialmente nos setores de energia, óleo e gás e construção pesada. Ao interromper grandes projetos, fragmentar empresas líderes e desarticular políticas de conteúdo nacional, a operação contribuiu para a destruição de empregos qualificados e para a perda de capacidades organizacionais e tecnológicas acumuladas, afetando de forma duradoura a demanda por engenheiros e a atratividade da formação na área.
Figura 1 – Engenheiros formados por milhão de habitantes, Brasil, China e Noruega (2000-2025). Fonte: elaboração própria com base em INEP; MOE China/UNESCO (UIS); Statistics Norway/OECD; IBGE; World Bank (ver Referências).
O gráfico mostra que entre 2002 e 2017 ocorreu um crescimento contínuo no número de engenheiros formados por milhão de habitantes, passando de aproximadamente 174 para 552 engenheiros por milhão.
Esse movimento, no entanto, não deve ser interpretado como resultado de um ambiente estrutural plenamente favorável à Engenharia ao longo de todo o período. Já nos anos 1990, as privatizações e a retração do papel do Estado na coordenação do desenvolvimento produtivo haviam desarticulado importantes instrumentos de política industrial, cujos efeitos não se manifestam de forma imediata, mas com defasagem temporal.
A partir de 2018, a retração dos investimentos públicos e privados em setores intensivos em engenharia passou a se traduzir na interrupção do crescimento e no declínio relativo do indicador. A persistência dessa tendência até o período mais recente evidencia a necessidade de recomposição do papel do Estado na coordenação do desenvolvimento produtivo, condição fundamental para a recuperação estrutural da Engenharia nacional.
Mesmo em um período de expansão da indústria nacional e de elevada demanda por engenheiros, como em 2010, a Figura 2 evidencia que o número de engenheiros formados per capita no Brasil permanecia significativamente inferior ao observado em outros países do BRICS e em economias com maior densidade tecnológica. Esse dado reforça que o crescimento observado ao longo da década não foi suficiente para superar a fragilidade estrutural da formação em engenharia no país.

Figura 2 – Graduados em engenharia por 10 000 habitantes em diversos países (2010).
Fonte: PMKB (2013), com base em dados da CNI, OCDE e PISA.
O contraste é revelador. A China, ao longo dessas duas décadas, expandiu agressivamente sua formação de engenheiros como parte de uma estratégia deliberada de ascensão tecnológica e industrial. A Noruega, mesmo com uma população pequena, manteve uma formação elevada e estável, coerente com um modelo de desenvolvimento que articula recursos naturais, engenharia avançada e soberania produtiva. O Brasil, por sua vez, falhou em transformar crescimento econômico episódico em fortalecimento estrutural de sua capacidade técnica.
Para além da quantidade total de engenheiros formados, a distribuição da formação por áreas revela a dimensão qualitativa do desequilíbrio estrutural. A Figura 3 apresenta a distribuição dos graduados, em valores per capita, nas engenharias Elétrica, Mecânica, Civil e Química no Brasil e na China, evidenciando contrastes significativos entre os dois países analisados.

Figura 3 - Graduados em Engenharia por milhão de habitantes, por país (Brasil e China), 2023.
Fonte: elaboração própria com base em INEP; MOE China/UNESCO (UIS); IBGE; World Bank (ver Referências).
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Essas áreas foram selecionadas por representarem núcleos centrais da capacidade industrial e tecnológica, estando diretamente associadas à produção de bens de capital, infraestrutura energética e cadeias industriais complexas.
A desagregação da formação em Engenharia por áreas evidencia com maior clareza o desequilíbrio estrutural brasileiro. No Brasil, há forte concentração na Engenharia Civil (30%), seguida à distância pelas engenharias Mecânica (13%), Elétrica (12%) e Química (5%). O resultado é uma base formativa pouco diversificada e excessivamente orientada à construção civil, com baixa densidade industrial.
Na China, o perfil é distinto. Embora a Engenharia Civil mantenha peso relevante (17%), observa-se uma distribuição mais equilibrada entre Mecânica (24%), Elétrica (21%), Química (7%), refletindo uma estratégia deliberada de industrialização complexa e intensiva em tecnologia.
O contraste revela que o problema brasileiro não é apenas quantitativo, mas sobretudo qualitativo: a concentração em poucas áreas e a baixa participação das engenharias mais intensivas em tecnologia limitam a capacidade nacional de sustentar cadeias industriais complexas e avançar em soberania produtiva.
Esses dados indicam que o declínio da engenharia nacional não é um fenômeno educacional isolado, nem resultado de escolhas individuais dos jovens. Trata-se de um reflexo direto da perda de centralidade da Engenharia no projeto de país. Quando o Estado abdica da coordenação do desenvolvimento produtivo, desmonta empresas estratégicas e enfraquece cadeias industriais, a demanda por engenheiros cai — e, com ela, o interesse social pela profissão.
Ao conversar com jovens, esse esvaziamento torna-se evidente. Participo há anos de um projeto como palestrante no ensino médio e constato, de forma recorrente, o declínio do interesse pela Engenharia. Muitos apontam a dificuldade excessiva, o peso da matemática ou, sobretudo, a falta de perspectiva profissional. Há cerca de quinze anos, ainda existia um público numeroso e curioso, especialmente interessado em carreiras como Engenharia Mecânica, Engenharia Civil, Engenharia Elétrica e Engenharia Química. Hoje, o cenário é outro: em um grande colégio particular do Rio de Janeiro, uma palestra sobre Engenharia reuniu menos alunos do que o número de palestrantes presentes. No mesmo dia, uma palestra sobre marketing digital atraiu dezenas de jovens.
Essa percepção empírica encontra respaldo nos dados. Uma pesquisa nacional encomendada pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e realizada pelo Instituto Locomotiva, com 1.150 estudantes do Ensino Médio, revela que apenas 12% manifestam interesse em cursar Engenharia — o equivalente a cerca de 2,3 milhões de jovens, segundo estimativas baseadas na PNAD 2024. Trata-se de um fenômeno amplo, nacional e estrutural. (CIEE/Instituto Locomotiva).
Em contraste com os apenas 12 % de jovens brasileiros que manifestam interesse em cursar Engenharia, observa-se que, na China, a formação em engenharia ocupa uma posição central no sistema universitário. Dados compilados a partir das estatísticas oficiais do Ministério da Educação da China, divulgados e sistematizados por veículos especializados, indicam que cerca de 36 % dos estudantes universitários chineses optam por cursos de engenharia, proporção muito superior à observada em economias ocidentais (Slashdot, 2025).
Mas a responsabilidade não é do jovem. Esse desinteresse não é um fenômeno global nem resultado de uma suposta “aversão à dificuldade”. Ele é consequência direta de escolhas políticas e econômicas. A partir dos anos 1990, com a adoção de uma agenda neoliberal — iniciada no governo FHC e aprofundada posteriormente — o país desmontou deliberadamente instrumentos de política industrial. Mais recentemente, a Operação Lava Jato contribuiu para a desarticulação de cadeias produtivas estratégicas, especialmente nos setores de energia e construção pesada, pulverizando empresas, empregos qualificados e capacidades de engenharia associadas ao conteúdo nacional.
A esse processo somaram-se privatizações realizadas sem uma estratégia tecnológica e industrial de longo prazo — como a da Eletrobrás — que enfraqueceram o papel das estatais como âncoras de planejamento, investimento em engenharia, conteúdo nacional e articulação de cadeias produtivas estratégicas.
As privatizações dos anos 1990 foram apresentadas como caminho para a modernização e o desenvolvimento, mas resultaram na perda da capacidade nacional de coordenar estrategicamente o progresso produtivo. Ativos estratégicos foram vendidos em um contexto de crise fiscal, juros elevados e câmbio pressionado — não como parte de um projeto de desenvolvimento, mas como resposta emergencial. Empresas foram entregues a preços depreciados, como no caso emblemático da Vale. Com isso, centros de pesquisa, departamentos de engenharia e cadeias produtivas inteiras foram desmontados. As estatais deixaram de cumprir seu papel como âncoras tecnológicas e articuladoras da indústria nacional. A engenharia brasileira perdeu escala, continuidade e capacidade de inovação, tornando o país mais dependente de tecnologia externa e de decisões tomadas fora de seu território.
Esse quadro se agrava quando observado em perspectiva histórica. Durante séculos, o Brasil se organizou como exportador de matérias-primas de baixo valor agregado — o que hoje chamamos de commodities. Passamos pelo ciclo do açúcar, do ouro, do café e, mais recentemente, do minério de ferro e do petróleo cru. Em todos esses ciclos, repetiu-se a mesma lógica: exportar produtos primários e importar bens industrializados, tecnologia e conhecimento. O resultado é conhecido: crescimento episódico, concentração de renda e baixa capacidade de transformar riqueza natural em desenvolvimento social duradouro.
Romper esse padrão exige a construção deliberada de capacidade produtiva nacional — e isso passa, necessariamente, pela Engenharia. São engenheiros que projetam máquinas, refinarias, estaleiros, sistemas de transporte, infraestrutura energética, telecomunicações, fábricas e centros de pesquisa. Sem essa base técnica, o país fica condenado a comprar tecnologia pronta, pagando caro por patentes, equipamentos e serviços que poderia produzir internamente.
A experiência internacional confirma esse diagnóstico. Países que conseguiram se desenvolver — como China e Noruega — não abriram mão do Estado, mas o utilizaram como coordenador do processo: investimento público pesado, planejamento de longo prazo, fortalecimento de empresas nacionais e integração entre universidades, centros de pesquisa e indústria. No Brasil, os momentos de maior avanço industrial e tecnológico coincidiram com projetos nacionais de desenvolvimento, como na era Vargas e no ciclo desenvolvimentista do pós-guerra, quando surgiram a Petrobras, a Eletrobras, a Embraer e grandes obras de infraestrutura.
Hoje, a ausência de um projeto nacional claro nos empurra novamente para a dependência tecnológica. Exportamos commodities e importamos máquinas; vendemos petróleo cru e compramos derivados; exportamos minério e importamos aço especial. Falta coordenação nacional para transformar ciclos econômicos favoráveis em cadeias produtivas duradouras. Falta investimento público consistente em Engenharia, ciência e inovação — não como gasto, mas como estratégia de soberania.
Sem isso, o país permanece vulnerável às flutuações do mercado internacional, às decisões tecnológicas de outros países e à perda contínua de quadros técnicos qualificados. Defender a Engenharia, nesse contexto, não é corporativismo. É defender um projeto de país capaz de transformar riqueza natural em desenvolvimento industrial, autonomia tecnológica e inclusão social.
O desinteresse dos jovens pela Engenharia é um sintoma, não a causa do problema. Ao longo da história, a juventude respondeu às oportunidades concretas oferecidas pela sociedade. Quando essas perspectivas se retraem, o afastamento não decorre de escolhas individuais, mas da perda de centralidade da Engenharia no projeto nacional.
Nas últimas décadas, a desarticulação de cadeias produtivas, o enfraquecimento de centros de pesquisa e a ausência de um projeto de desenvolvimento de longo prazo reduziram a demanda social e econômica por engenheiros. Privatizações retiraram do Estado instrumentos de planejamento e coordenação do desenvolvimento, fragmentaram a base industrial e esvaziaram as perspectivas associadas à profissão.
Nesse contexto, o jovem não abandona a Engenharia por aversão à dificuldade, mas porque já não a percebe como um caminho socialmente relevante ou economicamente promissor. O problema, portanto, é estrutural: sem indústria forte, política tecnológica e planejamento de longo prazo, a formação em Engenharia perde sentido social.
O declínio da Engenharia brasileira assume, assim, um caráter civilizacional. Ele expressa a escolha entre permanecer como economia primário-exportadora ou reconstruir um projeto nacional baseado em soberania produtiva, inovação e desenvolvimento. Recolocar a Engenharia no centro do debate é uma exigência estratégica e deve ser tratada como tal nos fóruns progressistas e nacional-desenvolvimentistas. Trata-se, portanto, de uma escolha histórica entre dependência produtiva e soberania tecnológica, exatamente o dilema que atravessa todo o debate sobre o desenvolvimento nacional.
Como advertia Darcy Ribeiro, “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. No caso da Engenharia, o que está em jogo é a recusa histórica em construir um projeto nacional que reconheça o conhecimento nessa área como base da soberania produtiva, da autonomia tecnológica e da capacidade do país de decidir sobre sua infraestrutura, sua indústria e seu futuro.
Referências
CIEE; INSTITUTO LOCOMOTIVA. Pesquisa sobre interesse dos estudantes do Ensino Médio em cursos de Engenharia (1.150 estudantes). Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), 2025. Relatório em PDF. Disponível em: https://ciee-comunicacao.s3.dualstack.sa-east-1.amazonaws.com/portal-ciee/Pesquisas/Pesquisa_Engenharia-2025-2.pdf.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI). Engenharia no Brasil: formação e mercado de trabalho. Brasília: CNI, 2010.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censos Demográficos e estimativas intercensitárias de população. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 29 jan. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Censo da Educação Superior. Brasília: MEC, 2000–2023. Disponível em: https://www.gov.br/inep. Acesso em: 29 jan. 2026.
MINISTRY OF EDUCATION OF THE PEOPLE’S REPUBLIC OF CHINA. Educational Statistics Yearbook of China. Beijing: MOE. Disponível em: http://en.moe.gov.cn/documents/statistics/. Acesso em: 29 jan. 2026.
ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). Education at a Glance – Norway. Paris: OECD. Disponível em: https://www.oecd.org/education/. Acesso em: 29 jan. 2026.
PAIVA, Duílio. Entendendo o cenário da engenharia no Brasil. PMKB – Project Management Knowledge Base, 13 dez. 2013. Disponível em: https://pmkb.com.br/entendendo-o-cenario-da-engenharia-no-brasil/. Acesso em: 29 jan. 2026.
SLASHDOT. 36% of Chinese undergraduates choose engineering, compared to 5% in the US and UK. 27 jun. 2025. Disponível em: https://news.slashdot.org/story/25/06/27/1340213/36-of-chinese-undergraduates-choose-engineering-compared-to-5-in-us-and-uk. Acesso em: 30 jan. 2026.
STATISTICS NORWAY. Education statistics – higher education. Oslo: SSB. Disponível em: https://www.ssb.no/en/utdanning. Acesso em: 29 jan. 2026.
UNESCO INSTITUTE FOR STATISTICS (UIS). Tertiary graduates by field of education: Engineering, Manufacturing and Construction (ISCED 2013). Montreal: UNESCO. Disponível em: https://uis.unesco.org. Acesso em: 29 jan. 2026.
WORLD BANK. World Development Indicators: Population, total. Washington, DC: World Bank. Disponível em: https://data.worldbank.org. Acesso em: 29 jan. 2026.
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