
Diesel Abaixo do PPI: O Primeiro Reajuste que Põe à Prova o Fim da Paridade
Felipe Coutinho*
Desde o anúncio do “abrasileiramento dos preços dos combustíveis”, com o suposto fim da política dos Preços Paritários de Importação (PPI), a direção da Petrobrás reajustou o preço do diesel por dez vezes. Nas nove primeiras vezes ajustou os preços ao PPI supostamente extinto, mas no último reajuste - o décimo - a direção da Petrobrás não acertou o preço do diesel nas suas refinarias ao PPI. O preço foi definido com cerca de 18% de desconto em relação ao PPI estimado.
Trata-se de uma mudança real e definitiva da política de preços da direção da Petrobrás? Ou foi um movimento tático para dosar os aumentos até o encontro dos seus preços ao PPI, diante do choque nos preços internacionais do petróleo? O tempo irá nos trazer a resposta.
A direção da Petrobrás anunciou aumento de 11,6% no diesel para as distribuidoras a partir de 14 de março de 2026. [1]
No dia 16 de maio de 2023, a direção da Petrobrás divulgou Fato Relevante [2] sobre sua estratégia comercial para o Diesel e a Gasolina, nele registra a substituição da política de preços praticada por suas refinarias.
No mesmo dia anunciou a redução dos preços da gasolina e do diesel, valores pagos pelas distribuidoras. [3]
Desde o anúncio do fim do PPI, em 16 de maio de 2023, tenho monitorado e documentado cada reajuste do diesel, demonstrando em artigos sucessivos que a política de preços, na prática, continuava atrelada à paridade de importação. A Tabela 1 consolida esses nove reajustes e as respectivas análises publicadas.
Tabela 1: Reajustes do diesel e a persistência do PPI (maio/2023 a maio/2025)
| Data do Reajuste | Variação do preço médio | Relação com o PPI | Referência |
| 16/05/2023 | -12,7% | Apenas reduziu o sobrepreço; preço ainda alinhado ao PPI | [4] |
| 16/08/2023 | +25,83% | Aumento que manteve o preço acima do PPI | [5] |
| 23/10/2023 | +6,6% | Preço reajustado ficou acima do PPI | [6] |
| 08/12/2023 | -6,6% | Redução, mas preço ainda acima do PPI | [7] |
| 27/12/2023 | -7,9% | Redução, mas preço ainda acima do PPI | [8] |
| 01/02/2025 | +5,9% | Aumento acompanhando o PPI | [9] |
| 01/04/2025 | -4,6% | Redução acompanhando o PPI | [10] |
| 18/04/2025 | -3,4% | Redução acompanhando o PPI | [11] |
Como se observa, em todas as nove ocasiões os preços praticados pela Petrobrás mantiveram-se alinhados à referência do PPI, seja por aumentos que acompanharam o mercado internacional, seja por reduções insuficientes para romper com a paridade. O décimo reajuste, em 14 de março de 2026, é o primeiro que foge a esse padrão, conforme detalhado a seguir.
Cabe ressaltar que o acompanhamento foca nas condições de abastecimento do diesel que é o combustível mais importante para a circulação de pessoas e mercadorias no Brasil, com impactos diretos e indiretos na produtividade da economia e na inflação, sendo o derivado de petróleo mais importante com relação aos seus impactos econômicos e sociais.
Com relação ao aumento do preço recém anunciado, para 14 de março de 2026, o preço do Diesel S10 vendido pela Petrobrás em Paulínia (SP), passou para 3.685,30 R$/m³ (o equivalente a 3,69 R$/litro).
A estimativa do PPI, a partir dos preços do petróleo e da cotação do dólar no fechamento do mercado no dia anterior, é de 4.351,17 R$/m³ do Diesel. O preço da Petrobrás em Paulínia (SP) foi ajustado para um preço 18,1% menor que o PPI.
A Figura 1 apresenta a variação relativa dos preços praticados pela Petrobrás e a estimativa do PPI para o Diesel S10.

Observa-se que desde o anúncio do “fim do PPI”, em 16 de maio de 2023, os reajustes de maio, agosto, outubro e os dois de dezembro de 2023, fevereiro de 2025, assim como os dois de abril e o de maio de 2025, sustentaram o preço do Diesel S10 vendido pela Petrobrás igual ou superior na comparação com a estimativa do PPI.
Em 3 de maio de 2023, o preço do diesel estava 14,3% superior ao PPI, o preço foi ajustado ao PPI em 17 de maio e, com os aumentos praticados em 16 de agosto e 21 de outubro de 2023, ficou 10,7% e 9,1% mais caro que o PPI. Em 8 e 27 de dezembro de 2023, apresar das reduções de preços, o diesel vendido pela Petrobrás se manteve 21,1% e 9,5% acima do PPI, respectivamente. Enquanto em fevereiro, duas vezes em abril e em maio de 2025, os preços foram ajustados para 1,3%, 1,2%, 3,8% e 10,4% mais altos que a estimativa do PPI.
No recente e décimo reajuste, desde o declarado fim do PPI, pela primeira vez o reajuste do preço do diesel na refinaria da Petrobrás foi ajustado para preço mais baixo que a estimativa do PPI. Em 14 de março de 2026, o preço do Diesel S10 em Paulínia (SP) foi ajustado para preço mais baixo que a estimativa do PPI em -18,1%.
A Figura 2 apresenta a razão entre o preço do Diesel S10, vendido pela Petrobrás em Paulínia (SP), e o preço do petróleo do tipo Brent.

Figura 2: Razão entre o preço do Diesel S10 e o preço do petróleo Brent
Os dados apresentados na Figura 2 referem-se ao último dia de cada mês, com exceção de março de 2026, cujo valor reflete o reajuste do dia 14, data de fechamento deste artigo.
Desde outubro de 2016, a direção da Petrobrás anunciou a adoção da inédita política de Preços Paritários de Importação (PPI).
No período apresentado na Figura 2, entre agosto de 2019 e abril de 2023, a direção da Petrobrás praticou o PPI, e a partir de 16 de maio de 2023 anunciou o seu fim.
Durante a vigência declarada do PPI – de agosto de 2019 até abril de 2023 – a relação entre o preço do Diesel S10 na refinaria da Petrobrás e do petróleo Brent no mercado internacional foi, em média, de 1,39. Variou entre 1,14 e 1,94.
Depois da declaração do fim do PPI, desde maio de 2023, a relação entre o preço do Diesel e do petróleo Brent, foi, em média, de 1,37. Variou entre 1,07 e 1,64.
Sendo assim, é necessário receber com cautela, mesmo que com esperança, o recente reajuste de preços do diesel que pela primeira vez, desde o proclamado fim do PPI, ajustou seu preço para preço menor que a estimativa do paritário de importação.
Receba os destaques do dia por e-mail
Falácias em defesa dos Preços Paritários de Importação (PPI)
Para aqueles que defendem essa política de preços e para os que têm dúvidas sobre a necessidade de alterá-la recomendo meu artigo “Cinco Falácias sobre o Preço Paritário de Importação (PPI) praticado pela direção da Petrobrás”. [12]
Aqui trago dados atualizados para refutar a Falácia no 2: “O Brasil não tem capacidade de refino para atender nosso mercado de combustíveis, logo é necessário importar e se a Petrobrás praticar preços inferiores aos de importação ninguém vai importá-los e haverá desabastecimento”
Para analisar esse argumento devemos recorrer ao desempenho histórico do parque de refino nacional em 2014, quando as refinarias operadas pela Petrobrás respondiam por cerca de 98% da capacidade nacional.
Em 2014 foram produzidos 312,4 milhões de barris de diesel (fóssil) no Brasil. [13]
Em 2024, o mercado brasileiro de diesel de origem fóssil – descontada a fração de Biodiesel – foi de 363,8 milhões de barris. [14]
O 1º trem da RNEST (Refinaria Abreu e Lima, de Pernambuco) entrou em operação em dezembro de 2014, o que aumenta significativamente a capacidade de refino e produção de óleo diesel. Em 2016, a RNEST produziu 22,2 milhões de barris de diesel. Sua capacidade instalada para a produção de diesel é de 27,4 milhões de barris por ano. Somada sua capacidade instalada ao que foi produzido pelo parque de refino da Petrobrás em 2014, antes de sua entrada em operação, pode se alcançar 339,8 milhões de barris por ano (93,4% da demanda do óleo diesel em 2024 no Brasil). [13]
O 2º trem da RNEST tem conclusão programada para 2029, quando a refinaria duplicará sua capacidade de processamento dos atuais 130 mil para 260 mil barris de petróleo por dia. Dobrando também sua capacidade de produção de diesel e demais combustíveis. De acordo com o cronograma divulgado pela Petrobrás, as entregas ocorrerão de forma escalonada, com a segunda unidade de destilação prevista para entrar em operação no final de 2026 ou início de 2027, e a conclusão integral do Trem 2 programada para julho de 2029. [15] [16] [17]
A capacidade de produção nacional de diesel fóssil é compatível com a demanda. Considerando o mercado de 363,8 milhões de barris registrado em 2024 (o dado anual mais recente consolidado pela ANP), a necessidade de importação, enquanto não se conclui o 2º trem da RNEST, seria residual, de cerca de 6,6%. A demanda de 2025 e 2026, ainda não consolidadas oficialmente, deve acompanhar o crescimento histórico do país, mas a conclusão do 2º trem da RNEST, prevista para 2029, posicionará o parque de refino da Petrobrás em patamar compatível com as necessidades nacionais.
O argumento pressupõe que não há capacidade de refino para atender nosso mercado, o que os resultados históricos demonstram que não é relevante porque a necessidade de importação é apenas residual em comparação com o que pode ser produzido aqui.
Depois se conclui que por, supostamente, existir a necessidade de importar, caso a Petrobrás não pratique o PPI, haverá desabastecimento. Ocorre que a Petrobrás não adotou o PPI desde sua criação, em 1953, até outubro de 2016 e não houve desabastecimento. O argumento não traz nenhum fato novo que justifique porque agora a consequência de não se adotar o PPI seria diferente.
A Petrobrás ao praticar preços inferiores ao PPI tende a recuperar o mercado e, caso haja necessidade, o volume residual pode ser importado por ela. Os custos médios e ponderados de produção e importação da Petrobrás sempre foram menores que seus preços. É possível adotar política de preços competitivos, baseados nos custos e na paridade de exportação do combustível brasileiro e garantir alta lucratividade da Petrobrás. [18]
O argumento inclui uma pressuposição que não foi previamente esclarecida como verdadeira, a premissa de que a Petrobrás não poderia importar os volumes residuais de combustíveis que não pudessem ser produzidos no Brasil. Trata-se de uma Falácia da Pressuposição.
Conclusão
Ao longo deste artigo, demonstrei que, durante nove reajustes consecutivos após o anúncio do "fim do PPI" em maio de 2023, a Petrobrás manteve seus preços de diesel alinhados – e em diversos momentos superiores – à paridade de importação. A análise histórica da relação entre o preço do diesel e do petróleo Brent (Figura 2) confirma que a média do período “pós-PPI” (1,37) é praticamente idêntica à da vigência declarada da política (1,39), evidenciando que a mudança foi, até agora, mais retórica do que real.
O décimo reajuste, em março de 2026, representa a primeira ruptura com esse padrão ao fixar o preço 18,1% abaixo do PPI estimado. É um sinal que merece ser recebido com esperança, mas também com a cautela que a trajetória recente impõe. Falará mais alto a continuidade ou a exceção? O tempo responderá.
A Falácia de que o Brasil não teria capacidade de refino para sustentar preços inferiores ao PPI também foi refutada com dados: em 2014, o parque nacional produziu 312,4 milhões de barris de diesel fóssil. Somando-se a esse volume a capacidade instalada do 1º trem da RNEST (27,4 milhões de barris/ano), chega-se a 339,8 milhões de barris, o equivalente a 93,4% da demanda de 2024 (363,8 milhões de barris). A necessidade de importação, portanto, seria apenas residual (cerca de 6,6%) enquanto não se conclui o 2º trem da RNEST. Com a conclusão deste, prevista para 2029, o parque de refino da Petrobrás estará novamente em patamar compatível com as necessidades nacionais.
A AEPET defende que a Petrobrás pode – e deve – praticar preços inferiores ao PPI, recuperando participação de mercado, utilizando sua capacidade instalada e obtendo resultados compatíveis com a indústria internacional. Mais do que isso: a Petrobrás é o único agente capaz de fazê-lo sem comprometer o abastecimento, pois pode importar os volumes residuais que eventualmente necessite, como sempre fez ao longo de sua história.
O que está em jogo não é apenas uma fórmula de preços, mas o papel da Petrobrás como instrumento de desenvolvimento nacional. Preços competitivos, baseados em custos reais e na paridade de exportação, são compatíveis com a lucratividade da empresa e com o interesse público.
Acompanharemos os próximos passos da direção da Petrobrás para avaliar se o décimo reajuste representa um ponto de inflexão na política de preços ou se será sucedido por novos alinhamentos ao PPI, restabelecendo o padrão até então vigente.
* Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)
Março de 2026
https://felipecoutinho21.wordpress.com/
Referências
| [1] | G1, “Petrobras anuncia aumento no preço do diesel nas distribuidoras a partir de sábado (14)”. |
| [2] | Petrobras, “Petrobras sobre estratégia comercial de diesel e gasolina,” 2023. |
| [3] | Agência Brasil, “Petrobras reduz em R$ 0,44 valor do diesel e em R$ 0,40 o da gasolina,” 2023. |
| [4] | F. Coutinho, “Prates anuncia fim do Preço Paritário de Importação (PPI), mas ajusta preço do Diesel ao PPI,” 2023. |
| [5] | F. Coutinho, “Fim do Preço Paritário de Importação (PPI) é uma falácia nomotética,” 2023. |
| [6] | F. Coutinho, “Direção da Petrobrás aumenta preço do diesel e segue com o PPI,” 2023. |
| [7] | F. Coutinho, “Direção da Petrobrás mantém preço do diesel acima do Preço Paritário de Importação (PPI),” 2023. |
| [8] | F. Coutinho, “Direção da Petrobrás mantém preço do diesel acima do PPI, apesar da redução do preço,” 2023. |
| [9] | F. Coutinho, “Direção da Petrobrás aumenta preço do diesel e acompanha o PPI,” 2025. |
| [10] | F. Coutinho, “Direção da Petrobrás reduz preço do diesel e acompanha o PPI,” 2025. |
| [11] | F. Coutinho, “Direção da Petrobrás ajusta preço do diesel ao Preço Paritário de Importação (PPI) por nove vezes desde o anúncio do seu fim,” 2025. |
| [12] | F. Coutinho, “Cinco Falácias sobre o Preço Paritário de Importação (PPI) praticado pela direção da Petrobrás,” 2022. |
| [13] | ANP, “Produção Nacional de Derivados de Petróleo (barris),” 2022. |
| [14] | ANP, “Vendas de derivados de petróleo e etanol,” 2024. |
| [15] | Agência iNFRA, “Petrobras assina nesta terça (2) contrato para usina solar dentro da Rnest,” 2025. |
| [16] | Petronotícias, “Com Trem 2 da RNEST e outros projetos, Petrobras espera ampliar sua capacidade de refino em 400 mil barris por dia até 2030,” 2025. |
| [17] | BiodieselBR, “Petrobras avança na ampliação da capacidade da RNEST,” 2025. |
| [18] | AEPET, “Proposta de nova política de preços do diesel para a Petrobrás,” 2019. |
| [19] | AEPET, “Nota sobre a substituição do PPI pela Petrobrás,” 2023. |
| [20] | F. Coutinho, “O fim do Preço Paritário de Importação (PPI) é mais uma farsa,” 2023. |
| [21] | Infomoney, “Petrobras (PETR4) eleva preços de gasolina em 16% e do diesel em 26% a partir de quarta,” 2023. |
| [22] | EPBR, “Petrobras reduz preço do diesel em 6,6%,” 2023. |
| [23] | Reuters, “Petrobras (PETR4) reduz preço do diesel em 7,9% a partir de quarta-feira (27),” 2023. |
| [24] | Agência Petrobras, “Petrobras ajusta preços de diesel para distribuidoras,” 2025. |
| [25] | Petrobrás, “Tudo o que você precisa saber sobre os preços dos combustíveis”. |
| [26] | Agência Petrobras, “Petrobras ajusta preços de diesel para distribuidoras,” 2025. |
| [27] | Agência Petrobras, “Petrobras ajusta preços de diesel para distribuidoras,” 2024. |
| [28] | Agência Petrobras, “Petrobras ajusta preços de diesel para distribuidoras,” 2025. |
Gostou do conteúdo?
Clique aqui para receber matérias e artigos da AEPET em primeira mão pelo Telegram.