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Felipe Coutinho
Engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

Erros sistemáticos nas previsões da Agência Internacional de Energia (IEA): Uma análise crítica das projeções de preço e demanda de petróleo (2000-2025)

Publicado em 06/05/2026
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Felipe Coutinho*

 

RESUMO EXECUTIVO

Este artigo testa a hipótese de que a Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês) apresenta erros sistemáticos com viés em suas previsões de preço e demanda de petróleo. Com base na análise dos World Energy Outlooks (WEO) de 1993 a 2025, em dados de fontes públicas (EIA, OPEP) e nos mais recentes estudos acadêmicos, a hipótese é confirmada.

Os dados são implacáveis e o padrão se mantém por mais de duas décadas:

  • Previsões de preço com Erro Percentual Absoluto Médio (MAPE, sigla em inglês para Mean Absolute Percentage Error) de 37%: estudo da Universidade de Uppsala (2018) documentou que, em horizontes de 5 anos, o erro médio das projeções de preço da IEA atinge 37% — uma margem que torna qualquer planejamento de longo prazo extremamente arriscado [6]
  • Distorções sistemáticas nas projeções por fonte: estudo da Universidade LUT (2025), que analisou todos os WEOs de 1993 a 2022, concluiu que a IEA consistentemente subestimou o crescimento de solar e eólica e superestimou o crescimento de bioenergia e nuclear [3][8]
  • O fenômeno dos "missing barrels": a IEA revisou sua demanda histórica para cima em acumulado de 1,35 milhão b/d entre 2020 e 2024 [4]
  • A reversão radical de 2025: após pressão americana, a IEA abandonou a previsão de "pico da demanda" e agora projeta crescimento até 2050 [5][9][10]

Os motivos políticos dos vieses institucionais da IEA: A agência foi criada pelos países consumidores da OCDE para garantir segurança energética a importadores de petróleo — não neutralidade analítica. A partir de 2021, sob nova liderança, a IEA abandonou seu cenário "Current Policies" e passou a produzir projeções alinhadas à agenda climática dos governos europeus e da administração Biden, gerando distorções sistemáticas [2][8][10]. O resultado, como documentado por críticos, é que a IEA se afastou ainda mais de uma possível posição observadora neutra para se tornar uma "ativista da transição energética", com previsões que frequentemente ignoram dados que contradizem sua mensagem [2][6][9].

A conclusão é inevitável: a IEA não é uma fonte confiável para projeções de longo prazo de petróleo. Suas análises devem ser usadas com cautela, cruzadas com outras fontes, e interpretadas à luz de seus vieses institucionais.

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  1. INTRODUÇÃO

A Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês) foi criada em 1974, na sequência do primeiro choque do petróleo, como uma resposta institucional dos países consumidores da OCDE ao poder da OPEP. Seus 16 membros fundadores foram: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Reino Unido, Suécia e Suíça [6][8]. Posteriormente, foram admitidos outros países como Espanha, França, Grécia, Portugal, Turquia, Finlândia, Nova Zelândia, Hungria, República Tcheca, Polônia, Coreia do Sul e Eslováquia [6].

Características comuns desses países: são nações desenvolvidas, historicamente importadoras líquidas de petróleo e com tradição de exportação de capitais (imperialismo financeiro). Em 2025, o orçamento da IEA era financiado substancialmente pelos Estados Unidos (18%) e por outros governos europeus e asiáticos [5][7][8]. Esses países têm interesse objetivo em projetar um cenário de menor dependência futura do petróleo e de preços mais baixos, atendendo aos seus consumidores internos e às suas multinacionais, que operam em escala global.

Como observou o senador americano John Barrasso, a IEA "afastou-se de sua missão central de segurança energética e tornou-se uma animadora de torcida da transição" [8]. O presidente francês Emmanuel Macron chegou a afirmar que a IEA se tornou o "braço armado" da implementação do Acordo de Paris [2][8].

Desde 1993, os relatórios anuais World Energy Outlook (WEO) da IEA influenciam bilhões de dólares em investimentos e orientam políticas energéticas em todo o mundo [3][8]. É crucial reconhecer, contudo, que as projeções de demanda e preço sistematicamente abaixo da realidade publicadas pela IEA não são neutras: elas contribuem ativamente para desvalorizar o ativo estratégico que é o petróleo — e, por extensão, para desestimular investimentos e reduzir o poder de barganha de países produtores como o Brasil [12][13].

Em artigos publicados no site da AEPET, tenho documentado como essa narrativa depreciativa do petróleo — tratado como "sujo", "substituível" e "superado" — tem sido utilizada para justificar um projeto de desmonte da nossa indústria, com a entrega de ativos estratégicos para multinacionais estrangeiras [12][13].

Este artigo testa minha percepção empírica com base nos dados disponíveis, abrangendo o período de 2000 a 2025.

A hipótese é simples: a IEA subestima sistematicamente tanto a demanda futura por petróleo quanto os seus preços.

 

  1. O QUE É MAPE E POR QUE ISSO IMPORTA

Antes de apresentar os números, é necessário entender a métrica utilizada. O Erro Percentual Absoluto Médio (MAPE, sigla em inglês para Mean Absolute Percentage Error) é a métrica mais utilizada para avaliar a precisão de previsões [6].

A fórmula é:

MAPE = (|Valor Realizado - Valor Previsto| / Valor Realizado) × 100%

Quanto menor o MAPE, mais precisa é a previsão. Um MAPE de 37%, como veremos a seguir, significa que o erro médio da IEA é de mais de um terço do valor real — uma margem de erro inaceitável para projeções que orientam investimentos bilionários e políticas de Estado.

 

  1. EVIDÊNCIA 1: O VIÉS NAS PREVISÕES DE PREÇO (2000-2016)

3.1. O Estudo Acadêmico de Referência da Universidade de Uppsala (2018)

Um estudo publicado na revista Applied Energy (Elsevier) analisou sistematicamente as previsões da IEA entre 2000 e 2016 [6]. Os resultados para preços são reveladores:

Tabela 1: Precisão das Previsões da IEA — Uppsala University (2018)

 

*Fonte: Uppsala University / Applied Energy [6]*

Observações fundamentais do estudo [6]:

"As revisões da produção mundial de petróleo, preços e investimentos foram motivadas por uma combinação de fatores de demanda e oferta. As revisões para baixo são principalmente atribuídas à OPEP, enquanto as revisões para cima recentes se devem ao petróleo não-convencional, em particular o tight oil dos EUA."

"Preços e investimentos foram revisados principalmente para cima."

"A precisão das projeções segue o tamanho e a direção dessas revisões, com alta precisão para Não-OPEP e baixa para OPEP e não-convencional."

MAPE de 37% significa que, em média, o erro da IEA ao prever preços do petróleo com 5 anos de antecedência é de mais de um terço do valor real. Uma previsão de US$ 70 poderia significar um valor realizado entre US$ 44 e US$ 96 — uma margem de erro que torna qualquer planejamento baseado nessas projeções extremamente arriscado.

A conclusão mais importante do estudo [6]: "Preços e investimentos foram revisados principalmente para cima" — ou seja, quando a IEA erra, erra para baixo. As revisões são predominantemente para cima, confirmando o viés de subestimativa.

O estudo [6] mostra que, na produção mundial total, os erros em direções opostas se contrapõem: a IEA sistematicamente subestima a produção da OPEP e superestima a produção dos EUA (tight oil), resultando em um erro líquido de precisão média (MAPE de 4,0%). Para os preços, no entanto, esse fenômeno de compensação não ocorre: as revisões são consistentemente para cima, revelando um viés estrutural de subestimativa.

3.2. O Caso da IEA em 2021: Uma Reversão Histórica

A IEA já demonstrou sua incapacidade de prever a dinâmica de preços de forma dramática [1][5]:

 

Como reportado pela Investing.com: "Vários meses depois, estava convocando todos os produtores de petróleo do mundo a investir em nova produção porque os preços estavam subindo, e rápido" [1]. Este episódio demonstra que a agência não apenas erra, mas erra a direção fundamental do mercado.

 

  1. EVIDÊNCIA 2: AS DISTORÇÕES SISTEMÁTICAS NAS PROJEÇÕES POR FONTE (1993-2022)

4.1. O Estudo da Universidade LUT (2025) — Análise de 30 Anos de WEO

O mais abrangente estudo já realizado sobre as projeções da IEA foi publicado em janeiro de 2025 na revista Renewable and Sustainable Energy Reviews (Elsevier), analisando todos os WEOs de 1993 a 2022 [3][8].

Principais descobertas do estudo [3][8]:

"Os resultados sugerem que, embora a IEA tenha antecipado com precisão o crescimento da demanda primária e final de energia, ela historicamente superestimou o crescimento da geração de eletricidade a partir de combustíveis fósseis e nuclear e subestimou severamente o crescimento de tecnologias renováveis-chave, incluindo solar fotovoltaico e eólica, este último ocorrendo em todos os cenários."

"Além disso, as projeções além de 2020 falham em grande parte em antecipar os desenvolvimentos em escala terawatt de PV que são esperados por especialistas de mercado e em solar fotovoltaico."

"Apesar da suficiente complexidade tecnológica, um limite artificial ao crescimento de renováveis e tecnologias power-to-X pode ser observado em favor da energia nuclear, bioenergia e combustíveis fósseis acoplados com captura e sequestro de carbono." [3][8]

Esclarecimento sobre bioenergia: A bioenergia é uma forma de energia renovável produzida a partir da biomassa — matéria orgânica de origem vegetal ou animal, como bagaço de cana, madeira, resíduos agrícolas e lixo orgânico. Ela é utilizada para gerar eletricidade, calor e biocombustíveis (como etanol, biodiesel e biogás) [3][8].

Tabela 2: Distorções Sistemáticas da IEA em Tecnologias Específicas (1993-2022)

*Fonte: Universidade LUT / Renewable and Sustainable Energy Reviews [3][8]*

 

4.2. As Consequências Práticas da Superestimativa da Bioenergia: O Caso da Petrobrás

A superestimativa sistemática da bioenergia pelas projeções da IEA não é um erro acadêmico inofensivo. Ela alimenta uma narrativa que tem influenciado decisões concretas de investimento em todo o mundo — inclusive no Brasil, onde a direção da Petrobrás tem destinado bilhões de reais para projetos de biocombustíveis cuja viabilidade econômica e sustentabilidade real são, no mínimo, questionáveis.

Como tenho alertado em artigos publicados no site da AEPET, o processamento de óleo de soja nas refinarias da Petrobrás é um exemplo emblemático desse risco [14][15]. Em "Processar óleo de soja nas refinarias da Petrobrás é uma péssima decisão disfarçada de verde" (setembro de 2024), demonstrei que:

  • A produção de óleo de soja não é 100% renovável: pesquisadores da UNICAMP estimaram uma renovabilidade de apenas 31% para a produção de biocombustíveis de soja convencional, ou seja, mais de dois terços da energia incorporada vêm de fontes não renováveis (combustível para tratores, fertilizantes, agrotóxicos, transporte) [14].
  • A escala é incompatível com a demanda: a demanda brasileira anual de Diesel e QAV é de cerca de 58 milhões de toneladas. A produção nacional de óleo de soja é de aproximadamente 10 milhões de toneladas por ano. Mesmo com rendimento de conversão de 82%, seria necessário processar 70,6 milhões de toneladas de óleo de soja — 7 vezes a produção nacional — para substituir integralmente o Diesel e o QAV de origem fóssil. Apenas para substituir 5% da demanda, seriam necessários 13,7 milhões de hectares adicionais plantados com soja, um aumento de 21% da área cultivada total do Brasil [14].
  • O custo é proibitivo: enquanto o custo estimado da produção do Diesel fóssil é de cerca de R$ 727/m3 (cerca de US$ 23,58/barril), o custo estimado da produção do Diesel Renovável a partir de óleo de soja é de aproximadamente R$ 5.620/m3 (US$ 182,33/barril) — aproximadamente 7,7 vezes maior [14].
  • O modelo de negócios é desintegrado e insustentável: Ao optar por comprar óleo de soja de terceiros (produtores que são seus concorrentes ou potenciais concorrentes), a Petrobrás repete o mesmo erro da Petrobrás Biocombustível (PBio), que foi malsucedida por não ter controle sobre suas matérias-primas [14][15].

Em "O alerta da Raízen e o caminho perigoso da Petrobrás nas renováveis" (março de 2026), aprofundei a análise, alertando que o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen — gigante do setor sucroenergético que investiu pesado em etanol de segunda geração e outras renováveis — deveria servir como um sinal de alerta para a Petrobrás [15]:

"O caso da Raízen expõe uma verdade inconveniente para os entusiastas da transição energética a qualquer custo: negócios insustentáveis não perduram, mesmo quando camuflados de verde. A Petrobrás não é uma startup de energia verde. É uma gigante de petróleo e gás que sustenta o país. Seguir o caminho da Raízen, ignorando as leis da física e da economia, não é apenas um erro de gestão. É uma temeridade com o patrimônio da União e com a segurança energética do Brasil." [15]

O Plano de Negócios 2026-2030 da Petrobrás reserva aproximadamente US$ 6 bilhões (mais de R$ 30 bilhões) para projetos de etanol (US$ 2,2 bilhões), biorrefino (US$ 1,5 bilhão), biodiesel e biometano (US$ 1,1bilhão), hidrogênio verde (US$ 400 milhões) e CCUS (US$ 900 milhões) [15]. São projetos que carregam as mesmas características que levaram a Raízen à crise e que a IEA, com suas projeções sistematicamente superestimadas para bioenergia, ajudou a validar como "caminho do futuro".

A questão que fica é: quantos bilhões de reais em investimentos equivocados serão necessários até que os formuladores de política energética — no Brasil e no mundo — reconheçam que as projeções da IEA para bioenergia são sistematicamente superestimadas, e que apostar em biocombustíveis como substitutos do petróleo em escala não é apenas uma questão de "transição", mas sim uma negação das leis da termodinâmica e das restrições da economicidade?

 

 

  1. EVIDÊNCIA 3: O VIÉS NAS PREVISÕES DE DEMANDA DE PETRÓLEO (2020-2025)

5.1. O Fenômeno dos "Missing Barrels"

A IEA reconhece os erros quando a realidade se impõe (revisando seus dados históricos para cima anos depois), mas não reconhece nem corrige o viés sistemático que gerou esses erros, mantendo a metodologia e os mesmos critérios enviesados em suas projeções futuras — o que perpetua o ciclo de subestimativas [1][4].

Tabela 3: Revisões Históricas da Demanda pela IEA (2020-2024)

Total médio 2020-2024: +1.350 mil b/d

*Fonte: OPEC Secretary-General Haitham Al Ghais [4]*

O Secretário-Geral da OPEP foi enfático [4]:

"As revisões substanciais, com aumentos anuais sendo transportados para os anos seguintes, agora transformaram os balanços do mercado de petróleo da IEA para todos os três anos de excedente de oferta para déficit."

5.2. A Divergência Crescente entre IEA e OPEP

Em 2024-2025, a divergência entre as duas principais fontes de previsão atingiu níveis sem precedentes [2]:

Tabela 4: Evolução da Discrepância IEA vs. OPEP

Fonte: Energy Intelligence [2]; Financial Mirror [7]

A divergência se calcificou em 2024, e a diferença inicial para 2025 foi de 4 milhões de barris por dia [2][7].

 

 

  1. A GRANDE CONTRADIÇÃO DA IEA (2023 → 2025)

O caso mais emblemático do viés da IEA é sua reversão completa sobre o "pico da demanda" [5][9][10]:

Tabela 5: A Reversão Radical da IEA

O que representa a reversão? Um adiamento de duas décadas do pico anteriormente declarado [2][5][9].

 

6.1. Pressão Americana e Restauração do Cenário CPS

A reversão de 2025 foi atribuída à pressão direta do governo dos EUA [5][7][8]:

"O Secretário Wright deixou claro em uma entrevista em julho que consideraria retirar o financiamento dos EUA para a IEA — 18% de todo o orçamento da agência em 2024 — a menos que Birol e seu conselho governamental se movessem para restaurar a missão original da agência de fornecer dados precisos e baseados na realidade." [5]

Em 2020, a IEA havia abandonado seu cenário "Current Policies Scenario" (CPS), substituindo-o por cenários normativos baseados em promessas climáticas. Em 2025, sob pressão, o CPS foi restaurado — e com ele, a projeção de crescimento contínuo da demanda de petróleo.

 

  1. AS CONSEQUÊNCIAS DE SE SEGUIR A IEA

Em artigos publicados no site da AEPET, tenho documentado como essa narrativa depreciativa do petróleo — tratado como "sujo", "substituível" e "superado" — serve a um projeto concreto de desnacionalização da nossa indústria [12][13].

7.1. O Que Está em Jogo: A Tese Central dos Meus Artigos

Em "Petróleo: é o fim do mundo como o conhecemos – e eu não me sinto bem" (2026), demonstrei que o petróleo é o recurso que sustenta a civilização contemporânea [12]:

"Ninguém desenvolve sem energia. E a energia com maior densidade, versatilidade e disponibilidade 24h por dia é a dos combustíveis fósseis, liderados pelo petróleo. Hoje, 94% de todo o transporte global é movido a derivados de petróleo." [12]

7.2. A Exportação de Petróleo Cru por Estrangeiros

Em "2025: Exportação de petróleo cru bate novo recorde, Lula acelera na rota colonial pavimentada por Temer e Bolsonaro" (2026), documentei [13]:

"O dado mais relevante — e mais escandaloso — é a crescente participação de empresas estrangeiras nas exportações de petróleo realizadas a partir do Brasil. Em 2009, as estrangeiras respondiam por menos de 10%. Em 2024, a participação da Petrobrás nas exportações caiu para 34%, enquanto as empresas estrangeiras responderam por 66%." [13]

7.3. A Crise de Credibilidade da IEA

Especialistas têm questionado abertamente a confiabilidade da IEA [2]:

"Em apenas cinco anos, a IEA fez reversões dramáticas nas projeções de pico de demanda, nos roteiros net-zero e no papel dos hidrocarbonetos. Essas mudanças criaram confusão nos mercados e corroeram a confiança nos sinais de investimento de longo ciclo. O que deveria ter sido atualizações de modelo tornaram-se reviravoltas manchete com consequências reais para a segurança energética." [2]

O ex-executivo da IEA Neil Atkinson, em parceria com o National Center for Energy Analytics, publicou o relatório "Energy Delusions", afirmando que as projeções da IEA são "distorcidas na melhor das hipóteses e perigosamente erradas na pior" [9].

 

  1. SÍNTESE DOS RESULTADOS (2000-2025)

Tabela 6: Síntese das Evidências do Viés da IEA

 

  1. CONCLUSÃO

A hipótese se confirma: as previsões da IEA para petróleo apresentam viés sistemático de baixa tanto para preços quanto para demanda, em um padrão que se mantém por mais de duas décadas.

Evidências para preços:

  • MAPE de 37% em horizontes de 5 anos (Uppsala 2018) [6]
  • Revisões predominantemente para cima [6]
  • Reversão completa em 2021 sobre necessidade de investimentos [1]

Evidências para demanda:

  • Revisões históricas de +1,35 milhão b/d entre 2020-2024 [4]
  • Divergência IEA-OPEP de até 4 milhões b/d [2][7]
  • Solar e eólica severamente subestimados em 30 anos de WEOs [3][8]
  • Reversão do "pico antes de 2030" para crescimento até 2050 [5]

Sobre o padrão de erro da IEA: A agência reconhece os erros quando a realidade se impõe (revisando seus dados históricos para cima anos depois), mas não reconhece nem corrige o viés sistemático que gerou esses erros, mantendo a metodologia e os mesmos critérios enviesados em suas projeções futuras — o que perpetua o ciclo de subestimativas [1][4][6].

 

  1. RECOMENDAÇÕES FINAIS
  1. Não tomar as projeções da IEA como verdade absoluta — o MAPE de 37% para preços documentado pelo estudo de Uppsala torna qualquer planejamento de longo prazo baseado exclusivamente nessas projeções extremamente arriscado [6]
  2. Cruzar com outras fontes — EIA, OPEP e BP oferecem perspectivas complementares e, em muitos casos, mais realistas [1][2][5]
  3. Desconfiar da agenda — como documentado pelo estudo da Universidade LUT, a IEA impõe "limites artificiais" ao crescimento de solar e eólica, enquanto superestima bioenergia, nuclear e combustíveis fósseis com CCS [3][8]. A agência não é uma observadora neutra, tornou-se uma advogada da transição energética [5][9]
  4. Valorizar o petróleo brasileiro — o pré-sal é um dos petróleos menos intensivos em carbono do mundo. Tratá-lo como "sujo" ou "superado" é renunciar ao nosso maior ativo estratégico [12]
  5. Exigir soberania energética — como documentado em "2025: Exportação de petróleo cru bate novo recorde" [13], o Brasil não pode continuar exportando seu recurso mais estratégico por empresas estrangeiras

 

REFERÊNCIAS

[1] Investing.com (2025). Crude Oil: Why Model-Based Forecasts Keep Missing the Mark.

[2] Arab News / Al Majalla (2025). Do we still need the IEA outlook?

[3] Lopez, G., Pourjamal, Y., & Breyer, C. (2025). Paving the way towards a sustainable future or lagging behind? An ex-post analysis of the International Energy Agency's World Energy Outlook. Renewable and Sustainable Energy Reviews, Elsevier.

[4] Al Ghais, H. (2025). Finding Nemo, the IEA discovers its 'missing barrels'. OPEC Secretary-General.

[5] Forbes (2025). 'Peak Oil' Vanishes From IEA Base Forecast. David Blackmon.

[6] Uppsala University / Applied Energy (2018). Oil projections in retrospect: Revisions, accuracy and current uncertainty. Elsevier.

[7] Financial Mirror (2024). Crude demand growth to miss targets. Charles Ellinas.

[8] Lopez, G., Pourjamal, Y., & Breyer, C. (2025). Preparando o caminho para um futuro sustentável ou ficando para trás? Uma análise ex-post do World Energy Outlook da Agência Internacional de Energia. Renewable and Sustainable Energy Reviews, Elsevier. DOI: 10.1016/j.rser.2025.115371

[9] OilPrice.com (2025). Former IEA Official Slams Agency for "Energy Delusions".

[10] Senate Committee on Energy and Natural Resources (2024). Barrasso Issues Report on the International Energy Agency.

[11] E&E News / POLITICO (2025). Republicans want IEA to stop predicting 'peak oil'.

[12] Coutinho, F. (2026). Petróleo: é o fim do mundo como o conhecemos – e eu não me sinto bem. AEPET.

[13] Coutinho, F. (2026). 2025: Exportação de petróleo cru bate novo recorde, Lula acelera na rota colonial pavimentada por Temer e Bolsonaro. AEPET.

[14] Coutinho, F. (2024). Processar óleo de soja nas refinarias da Petrobrás é uma péssima decisão disfarçada de verde. AEPET.

[15] Coutinho, F. (2026). O alerta da Raízen e o caminho perigoso da Petrobrás nas renováveis. AEPET.

 

* Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET).

Maio de 2026

https://www.aepet.org.br/

https://felipecoutinho21.wordpress.com/

 

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