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Paulo Gala
Graduado em Economia pela FEA-USP, Mestre e Doutor em Economia pela FGV/SP. Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY. Professor na FGV/SP há 20 anos.

O Brasil exporta, mas quem embolsa?

Como perdemos US$ 73 bilhões (mesmo vendendo ao mundo!)

Publicado em 06/02/2026
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Olá !

Você acha que quando o Brasil tem superávit comercial isso significa que estamos ganhando dinheiro?

A maioria dos economistas e analistas comemora quando vemos notícias de superávit na balança comercial.

“Exportamos mais do que importamos, logo estamos bem”, pensam.

Mas os dados do Banco Central de 2025 contam uma história completamente diferente e preocupante.

Mesmo com US$ 68 bilhões de superávit comercial, nossas contas externas apresentam um déficit de US$ 67,5 bilhões.

Como isso é possível?

A resposta está em duas linhas escondidas no balanço de pagamentos: remessa de lucros e dividendos, e pagamentos de propriedade intelectual.

Hoje vou te mostrar como a desnacionalização da economia brasileira transformou nosso superávit comercial em uma ilusão contábil — e por que isso é um dos maiores problemas estruturais que o Brasil enfrenta.

Prepare-se para descobrir para onde vai o dinheiro que você pensava que ficava aqui.

O superávit comercial que não compensa mais.

Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 68 bilhões a mais do que importou.

Parece excelente, certo?

Mas esse valor foi completamente anulado por outras saídas de dólares.

Pagamos US$ 49,2 bilhões em serviços (especialmente fretes e seguros) e incríveis US$ 73,4 bilhões em renda primária — basicamente lucros e dividendos que empresas estrangeiras instaladas aqui remetem para suas matrizes.

O resultado?

Déficit em transações correntes de 3,47% do PIB, um dos piores resultados desde 2015.

Este gráfico mostra como o superávit comercial (linha verde) caiu de US$ 98,9 bilhões em 2023 para US$ 68,3 bilhões em 2025, enquanto exportações e importações continuam altas.

Isso significa que mesmo vendendo muito para o mundo, o Brasil está perdendo dinheiro na conta final.

A drenagem silenciosa: US$ 11 bilhões em royalties.

Dentro da conta de serviços, há um item particularmente revelador: pagamentos de propriedade intelectual.

Em 2025, enviamos US$ 11,1 bilhões para fora apenas em royalties, licenças e uso de marcas e patentes estrangeiras.

Esse valor cresce praticamente todos os anos desde 1995.

Este gráfico mostra a trajetória descendente (déficit crescente) dos pagamentos de propriedade intelectual desde 1995. Note como o déficit praticamente estabilizou entre -US$ 1 a -US$ 2 bilhões até 2005, mas depois despencou continuamente, atingindo quase -US$ 11 bilhões em 2025.

Por quê?

Porque as empresas instaladas no Brasil não desenvolvem tecnologia aqui — apenas montam produtos usando tecnologia importada.

  • Cada carro “fabricado” no Brasil paga royalties para Detroit ou Tóquio.
  • Cada remédio vendido aqui enriquece laboratórios na Suíça.
  • Cada software corporativo transfere lucros para o Vale do Silício.

Viramos uma economia de montadores pagando aluguel perpétuo pela tecnologia dos outros.

Como chegamos aqui: a desnacionalização dos anos 90.

Esse padrão não surgiu do nada.

É resultado direto das privatizações e da abertura econômica dos anos 90. Setores estratégicos foram vendidos para grupos estrangeiros sem contrapartidas tecnológicas.

Empresas nacionais que desenvolviam tecnologia própria (Engesa, Villares, Cobra Computadores) quebraram ou foram absorvidas.

Este gráfico revela um padrão preocupante: a maior parte das patentes depositadas no Brasil são de não-residentes (barra marrom). Enquanto patentes de residentes (barra verde) cresceram modestamente, o volume de patentes estrangeiras domina o cenário tecnológico brasileiro. Note como após 2013-2014 há uma queda geral, mas a predominância estrangeira permanece.

 

O que ficou?

Filiais de multinacionais que operam aqui como simples unidades produtivas subordinadas às matrizes.

  • Elas fabricam, mas não inovam.
  • Exportam, mas os lucros vão embora.
  • Geram empregos, mas drenam divisas.

O resultado é que quanto mais “investimento estrangeiro direto” recebemos, mais dependentes ficamos — e mais dólares saem do país a cada ano.

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O círculo vicioso do investimento estrangeiro.

Aqui está o paradoxo: o Brasil é um dos maiores receptores de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) da América Latina. Políticos comemoram cada vez que uma multinacional anuncia investimentos aqui.

Mas esse IDE tem um custo oculto gigantesco.

Os números são chocantes: a linha azul (receita de lucros e dividendos) mostra quanto o Brasil recebe de investimentos no exterior — estagnada. A linha vermelha (despesa de lucros e dividendos) explodiu de cerca de US$ 2 bilhões em 2000 para mais de US$ 45 bilhões em 2024, com pico em torno de 2022-2023. Essa tesoura aberta é a prova visual da drenagem de recursos.

→ Primeiro, porque aumenta nosso passivo externo — devemos cada vez mais ao exterior.

→ Segundo, porque gera fluxos recorrentes de remessa de lucros que crescem exponencialmente.

→ Terceiro, porque não transfere tecnologia de verdade — apenas nos torna montadores dependentes.

O IDE virou um mecanismo de transferência futura de renda: recebemos dólares hoje para pagar juros e lucros para sempre.

A comparação que o Brasil evita fazer.

Compare nosso modelo com o da Coreia do Sul ou da China.

Quando esses países receberam investimento estrangeiro, impuseram condições duras: transferência tecnológica obrigatória, joint ventures com empresas locais, cotas de conteúdo nacional, desenvolvimento de fornecedores domésticos.

O resultado?

Hoje Samsung, Hyundai, Huawei e BYD competem de igual para igual com empresas americanas e europeias. Desenvolvem tecnologia própria. Registram patentes. Lucram com inovação.

Enquanto isso, o Brasil continua montando carros com tecnologia licenciada, vendendo commodities e pagando royalties eternos pelo “privilégio” de usar marcas estrangeiras.

Por que o superávit comercial já não protege o Brasil.

Historicamente, o superávit comercial funcionava como nosso escudo contra crises externas. Mesmo com déficits em serviços e renda, vendíamos tanto ao mundo que compensávamos tudo e ainda sobravam dólares.

Mas esse modelo está quebrando.

Este gráfico mostra a deterioração das contas externas brasileiras. Após melhorar entre 2015-2019, o déficit em transações correntes voltou a se ampliar, atingindo -3,47% do PIB em 2025 — um dos piores resultados em mais de uma década.

O superávit caiu de US$ 99 bilhões em 2023 para US$ 68 bilhões em 2025.

Enquanto isso, a remessa de lucros só cresce — porque quanto mais empresas estrangeiras operam aqui, mais dólares saem.

Estamos nos aproximando de um ponto crítico onde nem superávits comerciais gigantescos conseguirão compensar a drenagem estrutural de recursos.

O custo real da dependência tecnológica.

Aqui está o que realmente importa: cada US$ 1 bilhão que pagamos em royalties é US$ 1 bilhão que não investimos em pesquisa e desenvolvimento próprio.

É um círculo vicioso perfeito. Não desenvolvemos tecnologia porque compramos de fora.

E como não desenvolvemos, precisamos continuar comprando eternamente.

Enquanto isso, nossos melhores engenheiros trabalham otimizando processos de montagem em vez de criar produtos novos. Nossas universidades formam profissionais para empresas estrangeiras. Nosso BNDES financia expansão de capacidade produtiva subordinada.

O Brasil virou uma plataforma de extração de valor, não de criação de riqueza.

O sinal vermelho que ninguém quer ver.

As séries históricas do Banco Central mostram um padrão alarmante: estamos nos aproximando de um limiar de insustentabilidade.

O passivo externo líquido cresce mais rápido que nossa capacidade de gerar superávits comerciais.

Se essa tendência continuar, em poucos anos estaremos em uma situação onde todo o dinheiro que entra por exportações sai imediatamente em lucros, dividendos e royalties.

Não sobrará nada para investimento, não sobrará nada para acumular reservas, não sobrará nada para proteger o país de choques externos.

E diferente dos anos 90, não teremos margem para mais privatizações — já vendemos quase tudo.

O que o Brasil precisa fazer que não está fazendo.

A solução não é fechar a economia ou expulsar empresas estrangeiras.

É mudar radicalmente as regras do jogo.

  • Condicionar investimento estrangeiro à transferência tecnológica real.
  • Criar políticas industriais que favoreçam empresas que inovam aqui, não apenas montam. Investir pesado em pesquisa e desenvolvimento.
  • Proteger e fortalecer empresas nacionais em setores estratégicos.
  • Exigir contrapartidas tecnológicas em concessões e parcerias.

Basicamente, fazer o que Coreia, China e até Índia fizeram — e que todos os países desenvolvidos fizeram quando estavam em desenvolvimento.

Mas enquanto continuarmos comemorando superávits comerciais como se fossem vitórias, sem olhar para onde os lucros realmente vão, permaneceremos nessa armadilha.

Exportando cada vez mais, mas ficando cada vez mais pobres.

A próxima vez que você ver uma notícia celebrando o superávit da balança comercial, lembre-se: o que importa não é quanto vendemos, mas quanto fica aqui depois que todas as contas são pagas.

P.S. — Dentro do curso “Brasil, Economia que Não Aprende”, você terá acesso a capítulos completos sobre as privatizações dos anos 90, a abertura comercial abrupta, a comparação Brasil-China-Índia-Coreia, e os mecanismos que impedem o país de aprender com os erros.

Vamos dissecar casos concretos documentados: como vendemos a Vale quando o minério estava no fundo do poço, como a Telebras foi desmontada enquanto a Coreia criava Samsung e LG, como o Brasil tinha produção industrial maior que China+Coreia nos anos 80 e hoje importa celulares chineses.

P.P.S. — Se este é um dos primeiros textos que você lê aqui, visite minha [página de boas-vindas clicando aqui. Separei presentes que vão te ajudar a entender desenvolvimento econômico de verdade — incluindo meu livro completo “Brasil, uma economia que não aprende” (grátis).

~

Abraços,

Paulo Gala - Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.

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